domingo, 11 de novembro de 2018

Ditadura brasileira foi branda e universitários brasileiros são analfabetos

Por André,

Achou que foi o Olavo de Carvalho que disse esses "impropérios", né? Não, não. Foram duas vacas sagradas do esquerdismo acadêmico:


Safatle:

"A ditadura militar brasileira não foi uma ditadura do assassinato: foi uma ditadura dos processos jurídicos. Você vê o número de assassinatos e desaparecimentos, e fala 'Ah, foi uma ditadura branda'. Foram 500 desaparecidos, enquanto na Argentina foram 30 mil. Só que isso foi compensado pelo desenvolvimento de um aparato jurídico que só nos primeiros anos já tinha 30 mil processos. A lógica era: você paralisa as pessoas jogando processo atrás de processo."


VLADIMIR SAFATLE, professor universitário (USP) e filósofo de esquerda (https://bit.ly/2QyU2VP).


José Paulo Netto:


"Temos, no Brasil, alunos que chegam semianalfabetos ao mestrado e saem do doutorado analfabetos especializados".


JOSÉ PAULO NETTO, professor universitário e intelectual da tradição marxista (https://youtu.be/2WndNoqRiq8).

sábado, 10 de novembro de 2018

Entrevista sobre eleições

Por André,



Tive a oportunidade de conceder entrevista a alguns amigos, estudantes de jornalismo da FMU, sobre as eleições que se passaram. A entrevista foi em vídeo, mas fiz um esboço das respostas, que são levemente diferentes das que aparecerão no vídeo (a ser divulgado no momento oportuno).

Seguem as respostas:

Onde está localizada e o que significa essa renovação no espectro político?

            Essa renovação está atrelada ao cansaço da dualidade entre esquerda trabalhista (PT) e esquerda democrática (PSDB). As pessoas tiveram boas doses de ambas e decidiram rejeitá-las. As demais tonalidades também eram todas vermelhas. O espectro ganhou representantes efetivamente à direita e as pessoas preferiram esse.

            O eleitor-padrão brasileiro é personalista, grande parte dos deputados do PSL foram eleitos a partir da associação com a figura de Bolsonaro – embora essa eleição tenha sido bastante ideológica para os padrões brasileiros.

            Após 3 décadas de democracia, as pessoas também já se saturaram da política tradicional, dos representantes distantes das pautas populares.


Quais influências/motivos (políticos e culturais) possibilitaram que ela acontecesse?

            Olavo de Carvalho e a abertura dos caminhos para a presença do pensamento conservador.

            O abismo entre classes falantes e povo (populismo/soberania popular).

            O cansaço com a realidade imposta pelo estamento político, bem como sua falta de representatividade real.

            As redes sociais e descentralização da informação.


Se havia uma revolta contra a velha política, por que todo analista da grande mídia tratou o resultado das eleições como algo imprevisto? E tal falta de governabilidade?

            Porque a grande mídia faz parte do consórcio da velha política. A manutenção dos mesmos no poder é a manutenção de alguma posição de privilégio, respeito, além, é claro, das verbas de publicidade.

            Os grandes analistas fazem parte das elites falantes que perderam o contato com o povo.

            Há também o wishful thinking, muitos simplesmente torciam contra Jair Bolsonaro e esperavam que sua torcida virasse realidade como mágica.


No que corroborou nisso tudo a figura de Jair Bolsonaro? Qual o papel que ele tomou pra si?

            Bolsonaro conseguiu condensar em sua figura boa parte das demandas mais básicas do “little guy” (homem comum) que fala Steve Bannon: segurança, impostos, emprego etc. Por oposição às pautas “progressistas” da elite falante (banheiro trans, ascensão do “fascismo”.

            O representante da “dona Regina” ganharia a eleição.         


O que essas mudanças no cenário político sinalizam para o futuro?

            Sobre o presente elas sinalizam com clareza o que as pessoas realmente querem, a guinada de Haddad no segundo turno prova isso.

            Para o futuro dizem que provavelmente a esquerda fará alguma revisão estratégica e se separará do PT.

            Bolsonaro tem a faca e o queijo na mão para colocar o Brasil numa rota em que nunca esteve. Caso consiga, pode pavimentar o caminho para sua reeleição e solidificar a existência da direita no espectro polític

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Hangout sobre Saul Alinsky e guerra cultural

Por André,

Minha participação no canal do amigo Alexandre Costa sobre meu livro acerca de Saul Alinsky, militância, guerra política e cultural etc.:

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Debate sobre a crise de refugiados

Por André,



Encontrei por acaso esse debate da rede Munk Debate e os panelistas Nigel Farage e Mark Steyn deram um show nos oponentes.

O tema segue atual.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Histeria e 1964

Por André,



Todo evento histórico marcante e determinante para o curso da História precisa ser lido, estudado, discutido e registrado. O movimento de 64 não fica de fora.

Mas é hora de superar sua supervalorização.

A coisa serviu por anos de justificativa para abafar a ascensão de qualquer direitismo no Brasil. Liberais — alguns de bumbum sedendo por sinalização de virtude — foram constantemente acusados de “entusiastas da ditadura” apenas porque representaram algum movimento de não-esquerda na política brasileira após a redemocratização.

Para a esquerda (e por muito tempo isso foi sinônimo de todo mundo com alguma voz no debate público), toda direita, é claro, é entusiasta do militarismo, saudosa da autoridade, lambe-bota de milico.

1964 acabou.

O experimento autoritário perigoso, vivo, que cresceu sob a tutela ideológica e o financiamento do dinheiro brasileiro e que merece nossa atenção é o venezuelado. O socialismo do século XXI, aquele que finalmente ia “dar certo”, se converteu em tudo aquilo que o socialismo sempre se converte: miséria, escassez, aniquilamento das liberdades civis — em suma, ditadura.

Aqui do lado, vivinha, ao vivo e a cores.

“Ah, mas o Brasil não iria virar Venezuela”. Mesmo que fosse verdade, não importaria, a Venezuela virou Venezuela por “nossa” culpa, o Brasil não cumpriu seu papel soberano na região e deixou que um regime autoritário se instalasse no nosso país vizinho. Além de já ser História, é também presente.

O temor da “ditadura” é histeria, é medo oriundo da crença louca no que se fala e não no real.

Chegou a hora do Itamaraty assumir seu papel e agir para o fim da única ditadura que se deve ter medo em 2018.

sábado, 13 de outubro de 2018

Corrupção do PT quando "tudo isso aqui era mato"

Por André,

Acho que todos concordam que o pecador hipócrita é pior que o pecador (aliás, pessoas à esquerda devem ser as que mais concordam com isso, pois adoram dizer que o "cidadão de bem" é hipócrita, que o crente que vai na igreja e faz fofoca é hipócrita etc.).

Vejo muita molecada usando o argumento do "não é só o PT que é corrupto", "X fulanos ou partidos são mais corruptos etc.". É coisa de quem é vítima da doença do cronocentrismo, acha que a realidade pipocou à existência quando o floquinho de neve veio ao mundo.

Só que não.

Eu tô nessa desde que o PT era oposição. Eu tô nessa desde um dos primeiros escândalos de corrupção do PT quando se tornou governo, ainda bem antes do mensalão.

Na política brasileira das últimas três décadas, o PT é o crente que não sai da igreja e quando sai faz fofoca dos outros.

Mesmo que a corrupção do PT fosse igual à dos outros (o que não é o caso, o PT é responsável pela instalação da corrupção sistemática e dos maiores montantes de dinheiro corrompido da História), eu ainda continuaria preferindo a corrupção "dos outros" do que a corrupção do PT.

Quando tudo isso aqui era mato os petistas eram os fariseus da política. Era o partido da ética. O partido que seria e faria diferente; eram os Torquemadas da moralidade pública.

Por isso que se tivesse que escolher entre um corrupto "raiz" (Maluf, p. ex.) e a corrupção metódica e revolucionária do PT, escolho a primeira sem sofrimento de consciência. Exatamente como diferenciamos o sujeito que esconde uns quilinhos do peso daquele que mente compulsoriamente.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Eleições: tem que ter SKIN IN THE GAME!

Por André (no Facebook),


Sobre o desafio público que mencionei hoje de manhã (e após 16 auto-abates da minha lista), segue:

Caso eu tenha tempo, detalharei melhor minha escolha num texto mais longo a ser publicado no Medium. Do contrário, basta isso aqui.

Como diz o antifragilista Nassim Nicholas Taleb, é preciso que nossas atitudes e escolhas tenham "skin in the game" - pele em jogo. Do contrário é moleza, é brincadeira de criança, é hipocrisia.

Você pode votar em quem quiser, desfazer a "amizade" com quem quiser, deixar de falar com a pessoa que paga suas contas o quanto quiser (justamente porque sua posição é antifrágil, você sabe que se bater ou afagar, seus pais vão continuar pagando suas contas, sua pele não está em risco), se esconder atrás da tela do seu celular ou computador, eu quero ver se acredita no que diz acreditar a ponto de por a cara a tapa.

Pois bem, eu ponho a minha, de forma que lanço meu desafio público:

Eu defendo minhas ideias e você defende as suas (não é defesa de ideologia, de candidato ou de candidatura, é defesa de posicionamento, de quem você é). Espírito democrático total.

Só tem uma condição, tem que ser publicamente, por meio de um vídeo a ser eternizado pela internet e acessado por qualquer um.

Se os dois mostrarem seus pontos razoavelmente, todos ganham. Se um dos dois passar vergonha, você (ou eu) prova seu ponto e, como nossas peles estarão em risco, arrastamos nossas reputações ladeira a baixo.

É isso.

domingo, 30 de setembro de 2018

Tribunais raciais avançam no Brasil e confirmam previsão minha

Por André,

Depois da famigerada tabela do Instituto Federal do Pará para definir quem é negro e quem não é:


Vem aí, promovido pela Universidade Federal do ABC, um curso preparatório para inquisidor de tribunal racial:




Em 2013 eu escrevi um texto prevendo o colapso da política de cotas (link no final) porque ela se baseava em autodeclaração, cada um se autodeclararia o que quiser e, por conseguinte, gente que não faz parte do grupo em questão se beneficiaria da ação ao se autodeclarar pertencente ao grupo beneficiado, inchando o número de beneficiários e anulando qualquer efeito razoável da medida.

Na minha impressão estava implícito que os responsáveis não teriam coragem de estabelecer tribunais raciais para avaliar quem é negro e quem não é, à moda lombrosiana, medindo tamanho de nariz, crânio, lábios e avaliando cor da pele, do cabelo, tipo de cabelo etc. E aí estava meu equívoco.

Depois da federal do Maranhão oferecer uma tabela pra preencher baseado em características fenotípicas, vem a UFABC oferecer uma oficina para treinar os futuros inquisidores na avaliação da raça de pleiteantes a vagas na universidade pela via das cotas.

A universidade também está em processo de estabelecer os critérios para conceder cotas a pessoas trans, que seguirão o mesmo caminho e enfrentarão o mesmo problema (se não há dado objetivo que determine o gênero de alguém, como saber objetivamente o gênero de um indivíduo com base no "olhometro"?).

Bem-vindos ao hospício.

Texto de 2013 onde eu previa o problema para a política de cotas: http://www.andreassibarreto.org/2013/11/o-problema-da-definicao-como-politica.html.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Os amantes cruéis da humanidade, por Paul Johnson

Por André,

Traduzido por Filipe Amaral.

Por Paul Johnson
Do Wall Street Journal, 5 de janeiro de 1987.
[Nota: Datas entre colchetes não estão no original.]


Sepulturas em massa de Choeung Ek, Camboja

Nos últimos 200 anos, a influência dos intelectuais cresceu de forma constante. Ele sempre esteve lá, é claro, pois em suas encarnações anteriores, como sacerdotes, escribas e adivinhos, os intelectuais reivindicaram guiar a sociedade desde o começo. Desde o tempo de Voltaire [1694-1778] e Rousseau [1712-78], o intelectual secular preencheu a posição deixada pelo declínio do clérigo, e está se mostrando mais arrogante, permanente e acima de tudo mais perigoso que sua versão clerical.

Foi Percy Bysshe Shelley quem, em seu tratado de 1821 "Em Defesa da Poesia", articulou pela primeira vez o que eu poderia chamar de Direito Divino dos Intelectuais. "Poetas", escreveu ele, "são os legisladores não reconhecidos do mundo". Essa alegação é agora tomada como garantida pelo grande corpo amorfo que se vê como "os intelectuais" ou "a intelligentsia". A influência prática dos intelectuais se expandiu enormemente desde então. Como Lionel Trilling [1905-75] coloca, "o intelecto se associou ao poder como talvez nunca antes na história, e agora é reconhecido como um tipo de poder".

Eu acredito que a porção reflexiva da humanidade é dividida em dois grupos: aqueles que estão interessados nas pessoas e se preocupam com elas; e aqueles que estão interessados em ideias. O primeiro grupo forma os pragmatistas e tende a fazer os melhores estadistas. O segundo são os intelectuais; e se o seu apego às ideias é apaixonado, e não apenas apaixonado, mas programático, é quase certo que abusem de qualquer poder que adquiram. Pois, em vez de permitir que suas ideias de governo emerjam das pessoas, moldadas pela observação de como as pessoas realmente se comportam e o que realmente desejam, os intelectuais invertem o processo, deduzindo suas ideias primeiro do princípio e tentando impô-las a homens e mulheres vivos.

Quase todos os intelectuais professam amar a humanidade e trabalhar por sua melhoria e felicidade. Mas é a ideia de humanidade que eles amam, em vez dos indivíduos que a compõem. Eles amam a humanidade-em-geral, ao invés de homens e mulheres em particular. Amando a humanidade como uma ideia, eles podem então produzir soluções como ideias. Aí reside o perigo, pois quando as pessoas entram em conflito com a solução-como-ideia, elas são primeiro ignoradas ou descartadas como não representativas; e então, quando as pessoas continuam a obstruir a ideia, elas são tratadas com crescente hostilidade e categorizadas como inimigas da humanidade-em-geral. Assim, o caminho é aberto para o que W.H. Auden [1907-1973], um típico intelectual cabeça-dura de seus dias, chamou com aprovação de "o assassinato necessário". "A liquidação de inimigos de classe", para usar a expressão leninista, e "a solução final", como dizem os nazistas, são o ponto terminal do processo intelectual.

A insensibilidade às necessidades e opiniões de outras pessoas é, de fato, uma característica daqueles apaixonadamente preocupados com ideias. Pois seu principal foco de atenção é, naturalmente, a evolução dessas ideias em suas próprias cabeças; eles se tornam, no sentido pleno, egocêntricos. A indiferença ou hostilidade do intelectual não se dirige apenas àqueles que não se encaixam em seus esquemas para a humanidade-em-geral, mas também àqueles em seu próprio círculo que, por uma razão ou outra, se recusam a desempenhar seus papéis atribuídos na sua vida.



O Explorador Hábil


Quanto mais estudo as vidas dos principais intelectuais, mais percebo a devastação de um flagelo comum e debilitante, que chamo de crueldade das ideias. A ascensão do novo intelectual secular produziu alguns espécimes notáveis.

Shelley (1792-1822) foi o protótipo, no que diz respeito aos países anglo-saxões, do moderno intelectual progressista ocidental. Ele cunhou a noção do direito dos intelectuais de influenciar eventos públicos. O poeta, e por extensão a classe intelectual como um todo, era o verdadeiro legislador, porque tinha uma pureza em sua devoção a idéias, não aberta aos homens do mundo, o barro comum: Ele era desinteressado. Mas Shelley exibiu, em sua própria vida, o que pode ser visto como uma falha característica dos intelectuais progressistas: a incapacidade de igualar sua benevolência geral a seu comportamento particular. Seu tratamento em relação a praticamente todo ser humano sobre o qual ele era capaz de exercer algum poder emocional ou físico era, pelos padrões do barro comum que ele desprezava, atroz. Qualquer mariposa que chegasse perto de sua feroz chama era chamuscada. Sua primeira esposa, Harriet, e sua amante, Fay Godwin, cometeram suicídio quando ele as abandonou. Em suas cartas, ele denunciou suas ações por lhe causar aflição e inconveniência. Parece que ele estava prestes a abandonar sua segunda esposa, Mary (a autora de "Frankenstein"), quando sua morte por afogamento acabou com seu poder de machucar. Seus filhos com Harriet foram feitos guardas da corte. Ele os apagou completamente de sua mente, e eles nunca receberam uma única palavra de seu pai. Outra filha, uma bastarda, morreu em um hospital em Nápoles, onde ele a abandonou.

Shelley foi particularmente hábil em explorar mulheres e criados. Ele arruinou a vida de uma professora, Elizabeth Hitchener, seduzindo-a tanto para a sua cama quanto para seus esquemas políticos, meteu-a em problemas com a polícia, pegou emprestado 100 libras de suas economias (que nunca foram pagas) e depois a abandonou, denunciando a sua visão estreita e egoísmo. Ele deixou um rastro de outras vítimas, a maioria proprietárias humildes e comerciantes. Ele sempre teve criados, mas poucos foram pagos.

As depredações de Shelley nunca abalaram sua soberba confiança no que ele chamou de "minha integridade testada e inalterável". Críticas, não obstante bem documentadas, tornavam-no frio: "Eu rapidamente recuperei a indiferença", escreveu ele, "que a opinião de qualquer coisa ou de qualquer pessoa que não seja a nossa consciência merece." Explicando a um amigo por que ele estava abandonando sua esposa e fugindo com outra mulher, ele escreveu: "Estou profundamente convencido de que, assim habilitado, [eu] me tornarei um amigo mais constante, um amante mais útil da humanidade, um defensor mais ardente da verdade e da virtude."

Karl Marx (1818-1883) foi outro exemplo de um homem que se convenceu de que era seu dever colocar ideias na frente das pessoas. Daí a sua implacável e muitas vezes irrefletida crueldade para com aqueles que o rodeavam tornou-se uma espécie de longínquo presságio da crueldade em massa que as suas ideias promoveriam quando finalmente se tornassem o modelo da política estatal soviética. Seu pai, que tinha medo dele, detectou a falha fatal: "Em seu coração", ele escreveu a seu filho, "o egoísmo é predominante. Marx era particularmente odioso com sua mãe, que o repreendeu por sua imprevidência financeira e tentativas incessantes de cobrar dinheiro. Que pena, ela observou, que ele não tentou adquirir capital em vez de escrever sobre ele.

Havia uma enorme lacuna entre as ideias igualitárias de Marx e o modo como ele realmente se comportava. De uma forma ou de outra ele herdou somas consideráveis de dinheiro. Ele nunca teve menos de dois criados. Ele tinha horror ao que chamou de "uma configuração puramente proletária". Ele fez sua esposa mandar cartões de visitas em que ela foi descrita como "nee Baronesse Westphalen". Ele não deixou suas três filhas se formarem em nenhuma profissão ou aprenderem qualquer coisa, exceto tocar piano. Ele manteve as aparências, empenhando a prata e até mesmo os vestidos de sua esposa. Ele seduziu a criada de sua esposa, com quem teve um filho, e então obrigou Friedrich Engels a assumir a paternidade. A filha de Marx, Eleanor, uma vez soltou um cri de coeur [*grito do coração] em uma carta: "Não é maravilhoso, quando você chega a olhar as coisas diretamente no rosto, quão raramente parecemos praticar todas as coisas boas que pregamos - para os outros?" Mais tarde ela cometeu suicídio.

Toda a vida de Marx foi um exercício de exploração emocional ou financeira - de sua esposa, de suas filhas, de seus amigos. Estudar a vida de Marx nos leva a pensar que as raízes da infelicidade humana, e especialmente a miséria causada pela exploração, não estão na exploração por categorias ou classes - mas na exploração de um-para-um por indivíduos egoístas. Tampouco essa indiferença para com os outros é uma mera falha humana em um grande homem público. É central para o trabalho de Marx. Ele não estava realmente interessado em seres humanos reais, como eles se sentiam ou o que eles queriam. Ele nunca conheceu um membro do proletariado, exceto do outro lado da tribuna do orador em uma reunião pública. Ele nunca fez uma visita a uma fábrica de verdade, rejeitando as ofertas de Engels para organizar uma. Ele nunca procurou encontrar ou interrogar um capitalista, com a exceção solitária de um tio na Holanda. Da primeira à última, sua fonte de informações eram livros, especialmente os livros de relatórios governamentais.



Um bom homem, mas...


Não é por acaso, penso eu, que Lenin [1870-1924] nunca pôs os pés em uma fábrica até se tornar o ditador soviético, e nunca, até onde sabemos, teve qualquer contato real com os trabalhadores cujas vidas ele reivindicou o direito de transformar. Ele, também, era um socialista de biblioteca. Stalin tampouco procurou o operário ou o camponês para descobrir o que ele realmente queria; ele também era um grande devorador de colunas estatísticas. Que massa de fatos esses monstros ingeriram antes de irem devorar carne humana! Pode-se dizer que o caminho para o gulag é pavimentado com teses de doutorado não-escritas.

Muitos, é claro, lamentaram a maneira como o marxismo reflete a indiferença de seu fundador em relação às pessoas como seres humanos vivos e emocionais. Se apenas, diz-se, Marx fosse capaz de ler Sigmund Freud! Mas se examinarmos a vida de Freud, encontramos a mesma dicotomia: uma lacuna intransponível entre teoria e prática, entre ideias e pessoas. Agora Freud (1856-1939), ao contrário de Shelley e Marx, era em muitos aspectos um homem bom - até mesmo um homem heróico.

Mas este, também, foi outro caso de um homem que nunca permitiu que suas ideias penetrassem em seus relacionamentos pessoais ou melhorassem suas relações com as pessoas. Ao contrário de Marx, ele não olhou para os livros de relatórios; ele olhou em sua própria mente, e lá encontrou infinitas razões para a justiça. Freud foi o macho patriarcal dominante durante toda a sua vida. Sua esposa era pouco mais que sua criada, até mesmo espalhava a pasta de dente em sua escova de dentes, como um valete à moda antiga. Ele nunca discutiu seu trabalho ou teorias com ela, e nunca a encorajou a aplicar seu trabalho na criação de seus filhos. Nem ele mesmo o fez. Ele enviou seus filhos ao médico da família para aprender os fatos da vida. Sua grande família girava inteiramente em torno de suas próprias necessidades e hábitos. Quando um visitante levantou uma questão freudiana, a esposa de Freud respondeu enfaticamente: "Não discutimos nada disso aqui". 

Houve uma distensão de exploração, tanto em sua vida familiar e ainda mais em seu tratamento dado aos seus seguidores . Homens como Adler [1870-1937] e Jung [1875-1961] foram acusados de "traição" e repudiados como "hereges". Pior, ele escreveu sobre sua "insanidade moral". Ele não podia acreditar que alguém que uma vez esteve sob sua influência e depois se afastou poderia ser totalmente são. Ele achava que heresiarcas como Jung precisavam, na realidade, de tratamento psiquiátrico.

Modernos intelectuais progressistas são igualmente frustrados por aqueles que não compartilham suas ideias. Eu tenho lido um livro de Robert L. Heilbroner chamado "A Natureza e a Lógica do Capitalismo". Não há evidência de que o autor, mais do que Marx, realmente saiba alguma coisa sobre os capitalistas ou o que os motiva. Heilbroner simplesmente assume que o capitalismo é principalmente sobre o exercício do poder sobre as pessoas. Isso parece-me completo absurdo. Inclino-me para a crença contrária do Dr. Samuel Johnson [1709-84] quando ele observou: "Senhor, um homem raramente é tão inocentemente empregado como quando está recebendo dinheiro". A opinião de Johnson foi compartilhada por John Maynard Keynes [1883-1946]. "É melhor", escreveu ele, "que um homem deva tiranizar sobre sua conta bancária do que sobre outros seres humanos".

Johnson e Keynes estavam entre os muitos intelectuais que não sucumbiram ao desejo de intimidar os outros, um desejo que também pode afetar os intelectuais sobre o que a maioria chamaria de direita. Por exemplo, Ayn Rand [1905-82], a romancista-filósofa que defendeu a dignidade do homem e o direito do indivíduo de ser livre do controle por outros, humilhou e dominou muitos que vieram a conhecê-la em particular. 

Mas há boas razões pelas quais a maioria dos intelectuais compartilha um terreno comum com os socialistas. Keynes chega ao cerne da questão, pois a avareza é muito menos perigosa do que a vontade do poder, especialmente o poder sobre as pessoas. Não é a formulação de ideias, por mais mal orientada que seja, mas o desejo de impô-las aos outros que é o pecado mortal do intelectual. É por isso que eles se inclinam pelo temperamento de tal forma para a esquerda. Pois o capitalismo simplesmente ocorre, se ninguém fizer nada para detê-lo. É o socialismo que deve ser construído e, como regra, imposto à força, proporcionando assim um papel muito maior para os intelectuais em sua gênese.

O intelectual progressista hospeda habitualmente as visões de Walter Mitty de exercer poder. Freud, por exemplo, costumava descrever-se como um pretenso conquistador (era a palavra que usava), empunhando a caneta em vez da espada e mudando a história através de exércitos de seguidores em vez de soldados. Precisamente, talvez, porque levam vidas sedentárias, os intelectuais têm uma curiosa paixão pela violência, pelo menos no abstrato.



Aplausos das poltronas


No século XX, baseando-se nas fundações do século XIX, o apetite pela violência na busca e realização de ideias tornou-se o pecado original do intelectual. Considere, por exemplo, a repetida expressão de admiração dos intelectuais por homens de ação implacáveis e sua longa sucessão de heróis violentos: Stalin, Mao Tsé-tung, Castro, Ho Chi Minh. Intelectuais ocasionalmente questionam a quantidade de abates, o grande número de "assassinatos necessários"; eles quase sempre aceitaram o princípio de que as utopias socialistas devem, se necessário, ser erguidas em bases violentas. Lembro-me bem de meu antigo editor, Kingsley Martin, escrever no New Statesman, por meio de uma gentil reprimenda a Mao Tsé-tung, que acabara de massacrar três milhões de pessoas: "Era realmente necessário que o presidente matasse tantos?" Isso provocou uma carta de seu velho amigo liberal Leonard Woolf. O Sr. Martin poderia gentilmente informar os leitores, ele questionou, "o número máximo de mortes que ele consideraria apropriado?"

Enquanto os homens de violência da poltrona no Ocidente aplaudiam e toleravam, intelectuais de outros lugares participavam e muitas vezes dirigiam os grandes massacres dos tempos modernos. Muitos ajudaram a criar a Cheka, a progenitora da atual KGB. Os intelectuais eram proeminentes em todos os estágios dos eventos que levaram ao holocausto nazista. Os acontecimentos no Camboja na década de 1970, em que entre um quinto e um terço da nação morreram de fome ou foram assassinados, foram inteiramente obra de um grupo de intelectuais, que na maior parte eram alunos e admiradores de Jean- Paul Sartre [1905-1980] - "Filhos de Sartre", como eu os chamo.

Onde quer que os homens e os regimes busquem impor ideias às pessoas, onde quer que o processo desumano da engenharia social seja colocado em ação - cavando carne e sangue ao redor como se fosse solo ou concreto - lá você encontrará intelectuais em abundância. Intimidar as pessoas é a atividade característica de todas as formas de socialismo, seja o socialismo soviético, ou o nacional-socialismo alemão, ou, por exemplo, a forma peculiar do socialismo étnico, conhecido como apartheid, que encontramos na África do Sul; esse conjunto sinistro de ideias, vale notar, era totalmente invenção de intelectuais reunidos no departamento de psicologia social da Universidade de Stellenbosch. Outras ideologias totalitárias africanas são igualmente trabalho de intelectuais locais, geralmente sociólogos.

Então, uma das lições do nosso século é: cuidado com os intelectuais. Não apenas devem ser mantidos longe das alavancas do poder, mas também devem ser objetos de suspeita peculiar quando procuram oferecer conselhos coletivos. Cuidado com comissões, conferências, ligas de intelectuais! Pois os intelectuais, longe de serem pessoas altamente individualistas e não-conformistas, são de fato ultra-conformistas dentro dos círculos formados por aqueles cuja aprovação eles buscam e valorizam. É isso que os torna, em massa, tão perigosos, porque lhes permite criar climas culturais, que muitas vezes geram cursos de ação irracionais, violentos e trágicos.

Lembre-se sempre que as pessoas devem sempre vir antes das ideias e não o contrário.


O Sr. Johnson é autor do livro "Uma História dos Judeus" (Harper & Row). Este texto é baseado em uma palestra realizada no Instituto de Estudos Contemporâneos.