quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Jordan Peterson dá BAILE em feminista militante disfarçada de jornalista no canal britânico "4 News"

Por André,


Leiam a análise de Douglas Murray sobre a entrevista:


E sobre o próprio Peterson:

https://www.spectator.co.uk/2018/01/the-curious-star-appeal-of-jordan-peterson/

Versão legendada no VIMEO, enquanto sobreviver:


Jordan B Peterson - Entrevista completa Pt from Markian on Vimeo.


PS.: mantenho link original e do VIMEO porque suponho que o vídeo possa ser derrubado em sua versão legendada.

Scott Adams, criador do desenho Dilbert e um dos primeiros a prever a eleição de Trump analisa a jornalista que entrevistou Peterson:




ATENÇÃO, NOVO LINK PARA ENTREVISTA LEGENDADA AQUI.

domingo, 14 de janeiro de 2018

Estamos na Gazeta do Povo: "Por que a América segue, sim, uma força mundial pelo bem e pela paz"

Por Gazeta do Povo,



Quero aqui fazer duas coisas: defender uma tese radical sobre a América e replicar o artigo “Os EUA já não são uma força global pelo bem”, em tradução do The New York Times divulgada pela Gazeta do Povo.

Primeiro, a tese radical: a América o império mais pacífico que a História humana já viu e a famigerada “pax americana” é uma dádiva geopolítica provavelmente incomparável também em proporção histórica.

Defendo-me: um império se faz à base de dominação política, militar, cultural-científica e econômica. A América domina todos esses campos com folga. No aspecto militar, poderia subjugar qualquer país do planeta sem maiores dificuldades, continentes inteiros poderiam ser colônias americanas nesse momento. Mesmo assim, esse não é o caso até mesmo nos países cuja presença militar americana é constante; o Iraque pós-2003 não virou uma colônia americana e por frustrada que tenha sido, o que se tentou ali foi estabelecer uma democracia[1].

Não afirmo que a América faça isso por bondade, mas porque seus interesses imperialistas convergem, peri passu, com a manutenção (ainda que, às vezes, relativa) das soberanias nacionais dos demais países do globo. Isso, por si só, já alça o imperialismo americano a uma condição única (e desejável) na História. As vontades imperialistas vorazes de China e Rússia são exemplos vivos do que digo, uma eventual substituição da pax americana por uma pax russa ou chinesa (ou, pudera, islâmica!) nos faria rememorar o terror dos antigos impérios (julgo que parte dos que criticam a posição de supremacia americana façam isso com ciência do que digo aqui, outros, o fazem por puro desconhecimento de História humana, crendo que eventual derrocada do império americano implicaria em algum tipo de “paz perpétua” kantiana), onde, simplesmente, não haveria a paz que temos hoje e tampouco o conceito de soberania nacional.

Dessa forma, a América é o império mais pacífico já visto até hoje. Desnecessário ressaltar que ser o mais pacífico não significa absolutamente pacífico, portanto, réplicas como “e o Iraque?”, “e a Síria” (intervenção perpetrada por um dos presidentes mais antiamericanos de todos os tempos) não refutam minha tese. Algum belicismo sempre haverá, a questão é quanto e como. E minha tese não se compromete com uma aceitação tanto a priori como a posteriori das ações externas dos EUA – a priori estou ao lado da América em suas medidas de política externa, a posteriori uma análise caso a caso sempre se faz necessária: retroativamente falando, a operação no Iraque foi um erro, o mesmo para a Líbia e a Síria e não diria isso sobre o Afeganistão, por exemplo.

Segundo, o artigo. Não sem antes chamar a atenção para o fato de que os que agora lamentam a suave “saída de cena” americana de certos cenários internacionais (“clima”, “direitos humanos” – eufemismos para controle global) com o início da era Trump são os mesmos que há pouco entoavam os mais fervorosos hinos antiamericanos. Logicamente, só poderíamos deduzir que louvariam o fato da tendência mais isolacionista do governo Trump (que ainda não atingiu os níveis desejados por Ann Coulter, por exemplo), mas parecem que na cabeça dessa gente a América joga apenas um jogo de perde-perde: caso intervenha, erra, caso se isole, também erra.

Fato é que o governo Trump está desconstruindo a política de Obama de enfraquecimento de aliados (Israel) e potencialização de inimigos (Irã) e isso nem é contradição com a política do “America First” e tampouco com o propalado isolacionismo, visto que tornar a fortalecer aliados da América é claramente um movimento de interesse nacional americano e tampouco é prova de que os EUA não são mais uma “força para o bem”. As elites se acostumaram demais aos ares rarefeitos de seu pedestal moral distante da realidade, sendo que nesse reino hiperbóreo a América só pode ser uma força para o bem no mundo se seguir as diretrizes globalistas da ONU, abaixar a cabeça para a União Europeia, render suas armas e financiar o “fim” (na verdade uma diminuição estimada de 0,2ºC em 100 anos se os 200 países do mundo colaborarem) do aquecimento global em poluidores contumazes como China e Rússia, conforme rezava o Acordo de Paris.

O que o artigo de Susan Rice faz, em resumo, é sintetizar toda a balbuciante argumentação anti-Trump, que pouco mudou após um ano de presidência, a despeito do índice de desemprego mais baixo nos últimos vinte anos (inclusive entre latinos e negros), recordes da Dow Jones, altas previsões de crescimento e retorno de capital estrangeiro para o país. Após 365 dias governo, os maus perdedores ainda querem emplacar a cantilena (já provada falsa) de “colusão” com a Rússia, colar a pecha de nazista no homem que tem netos judeus e se mostrou o mais firme aliado de Israel dos últimos anos e usar o fato de suas promessas de campanha estarem a ser cumpridas contra ele próprio!

Fato é que quando a América é forte, os inimigos dos valores ocidentais pensam duas vezes antes de agir, pois sabem que sentado na cadeira mais importante do mundo está alguém disposto a defender os valores que, em maior ou menor grau, todos defendemos e que qualquer ato impensado não será respondido com um muxoxo ou com uma coletiva de imprensa, mas com ação de mesma (ou maior) força, criando uma espécie de nova “paz armada”. Não apenas Kim Jong-un, rei do blefe, mas os demais líderes mundiais sabem que, se agirem temerariamente contra os interesses da América terão de arcar com a retaliação da maior potência que o homem já viu. Não consigo ver garantia de paz mais sólida.




[1] Vale ressaltar que simpatizo mais com paleoconservadores que com neoconservadores nesse tópico específico. Embora creia que os EUA seja um bom exemplo – genericamente falando – para o Ocidente, não compactuo da ideia que seu modelo deva sem replicado, a fortiori ou não, mundo afora. A ideia de “exportar democracia” para o Oriente Médio me parece tolice.

sábado, 13 de janeiro de 2018

História, conservadorismo e empirismo: a tradição histórica inglesa

Do Facebook de Nicolas Carvalho de Oliveira,

Vocês já perceberam que entre os intelectuais da direita os historiadores profissionais (não os amadores, como Narloch) costumam ser os mais intransigentes e rígidos? Três exemplos rápidos, dos mais conhecidos: Robert Conquest (maior historiador da URSS, junto de R. Pipes e O. Figes; primeiro historiador do Grande Expurgo stalinista), o ''anti-bolchevique número um'', segundo Chris Hitchens, o que disse que ''todo mundo que não se diz de direita é de esquerda'', Paul Johnson (maior historiador-geral), defensor da Guerra do Vietnã, que em 1999 se expressou publicamente pela extradição de Pinochet para a Espanha (ele estava preso na Inglaterra) e admirava, com ressalvas, o general Franco, e Niall Ferguson, o historiador-celebridade do momento, apoiador da Le Pen e Guerra do Iraque, que também disse que a imigração dos refugiados sírios na Europa é como a antiga brutal invasão dos hunos na Alemanha, popularmente conhecida como Völkerwanderung (invasões bárbaras).

O que eu quero dizer com isso? Que o estudo intensivo de história cedo ou tarde acaba com seu idealismo e te torna um puro realista prático. Te faz compreender padrões pela história e perceber o que dá certo e o que dá errado, sempre encontrando analogias históricas com acontecimentos atuais. Esse realismo e intransigência não existe, no mesmo nível, entre os filósofos e economistas de direita tanto quanto nos historiadores. Estes são estudiosos da pura empiria, do que ocorreu, e entendem como a realidade é dura, decepcionante e cheia de dilemas, com poucas ocasiões em que as decisões são fáceis e completamente limpas, sendo mais questão de colocar na balança o que é mais importante e optar pelo ''mal menor'', que os idealistas tanto rejeitam por não combinar com sua Weltanschauung pouco embasada e muito hipertrofiada.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Jessé Souza é a intelectualidade orgânica petista melhorada. Meu artigo para o Gazeta do Povo: "Lições de realidade invertida, ou: como não devemos entender o Brasil"

Por Gazeta do Povo,



A tese do sociólogo Jessé Souza (UFABC) em seu mais recente livro, “A Elite do Atraso”, é ousada (e poderiam dizer alguns, sem receio, até revisionista): tendo por principal alvo Sérgio Buarque de Holanda e sua interpretação do Brasil em “Raízes do Brasil”, a marca da sociedade brasileira não seria o patrimonialismo – e tampouco a cordialidade, o “jeitinho brasileiro” de DaMatta etc., tratados por Souza como “generalidades” acerca do brasileiro (p.10) – mas sim a escravidão (e não a colonização portuguesa ou a miscigenação, conforme também afirmaram os intérpretes clássicos do Brasil). Contudo, a ousadia maior da hipótese está, por incrível que pareça, menos nesse aspecto e mais na motivação que Souza atribui para que a versão de Holanda tenha prevalecido: a manutenção da crença no imaginário das pessoas em geral que a corrupção é o maior mal brasileiro e, por consequência, seu combate o maior objetivo da política.

                Certamente não por engano a operação Lava Jato compõe o subtítulo da obra: se somos marcados pelo patrimonialismo, concentrar poder nas mãos do Estado é equívoco apocalíptico: o Estado é mau gestor, então a administração deve ser transferida o máximo possível para as mãos do mercado e para efetivar a tarefa é necessário vilipendiar as empresas estatais, a começar pela sua maior figura, a Petrobrás (a privatização da Vale é tida como um erro notório por Souza, p. 13), de modo que se inculque nas massas a necessidade de vendê-la para o capital estrangeiro, capaz de administrá-la com eficiência e de maneira impoluta. A narrativa é relativamente simples e não é original, é a ideia de que estaria em curso uma operação para entregar nossa petrolífera aos malvados americanos. Embora não seja citado diretamente, o juiz Sérgio Moro (junto da “mídia”) é reduzido a agente a serviço dos interesses estrangeiros em nossas riquezas nacionais: “o que a Lava Jato e seus cúmplices na mídia e no aparelho de Estado fazem é o jogo de um capitalismo financeiro internacional e nacional ávido por ‘privatizar’ a riqueza social em seu bolso. Destruir a Petrobrás, como o consórcio Lava Jato e grande mídia, a mando da elite do atraso, destruiu, significa empobrecer o país inteiro de um recurso fundamental, apresentando, em troca, não só resultados de recuperação de recursos ridículos de tão pequenos, mas principalmente levando à destruição de qualquer estratégia de reerguimento internacional do país” (p. 12). Note-se bem que a corrupção é jogada para escanteio em nome do nacionalismo, propositalmente ignoram-se as ações da elite do atraso petista, capazes da proeza de fazer uma petrolífera dar prejuízo (tal como se observa na Venezuela ou viu-se com a ANCAP uruguaia, levada à bancarrota pelo pitoresco Mujica).

Não se deixe de notar que se trata da oficialização da versão da nomenklatura petista para a quebradeira da Petrobrás, apenas agora travestida de nova interpretação brasileira. Essa é a diferença substancial de “A Elite do Atraso” para “A Radiografia do Golpe”, do mesmo autor e publicado pela mesma editora; enquanto este último, que veio a público em tempo recorde, quase imediatamente após o impedimento de Dilma Rousseff, é mera caixa de ressonância da narrativa dos sites governistas, o primeiro se propõe a mesma tarefa, mas não sem também tentar oferecer uma explicação “profética” (termo usado por Souza para se referir a Holanda) do Brasil.

                Desse modo, é preciso salientar onde exatamente Jessé Souza está inserido. Trata-se, creio, de uma nova roupagem para a intelectualidade orgânica do PT, que ou deixa de lado ou cria alternativa para o caráter histriônico dos arroubos de uma Marilena Chaui para então alçar voos efetivamente mais altos, é menos fazer a plateia rir – em parte por vergonha e em parte por acordo – e mais fincar bandeira na ciência política nacional. O próprio Jessé, quem vim a conhecer exatamente por essa razão (do minuto 39:50 ao 57:50), é crítico da intelectualidade uspiana, bem como do modo uspiano-paulista de entender o Brasil, trata-se, portanto, de uma crítica à esquerda “da esquerda”, sob o fundamento do que poderíamos chamar de “tradicional” (ou ainda, extremada, pois propõe soluções ainda mais à esquerda para os problemas inflados pelas versões moderadas de suas políticas). Isso também atesta a impressão de que o autor e seus pares querem bem mais que apenas reforçar a narrativa de extrema-esquerda sobre casos de corrupção no Brasil nos últimos anos. A metáfora do lobo em pele de cordeiro nunca fez tanto sentido, como em toda ditadura eficiente, uma infantaria de intelectuais é posta em marcha para que a versão do partido se converta em Ciência – e, portanto, em “verdade” com o peso de revelação divina; o esforço em reaver a sociologia nacional (sobrando até para um dos fundadores do PT, Raymundo Faoro!) não deixa mentir.

Valem aqui três adendos finais: o livro foi escolhido como melhor do ano de 2017 pelos leitores da Amazon e meu próprio artigo se coloca à guisa de resposta à obra de Jessé Souza. Quando a direita conseguirá deixar de ser apenas reativa e adentrará a seara propositiva? Enquanto não o fizermos, só restará a repetição das versões da intelectualidade orgânica do PT (quer a oficial, quer a “do B”) para explicar o Brasil – e se é para recorrer a algo ainda não consagrado como clássico da sociologia nacional, fiquemos com Mario Vieira de Mello, João Camilo de Oliveira Torres e José Osvaldo de Meira Penna, para citar três pesos-pesados – porque são as únicas que existem até agora.

Se compreendida apropriadamente, dentro do quadro conceitual da mentalidade revolucionária, esse esforço atlântico em reduzir a relevância do combate à corrupção também é mais que mero exercício de intelectualismo oficial. A mentalidade revolucionária de fato vê a corrupção (e a criminalidade urbana, acrescento) não apenas como possível mal menor, mas até como aliada pontual, visto que o projeto de chegar ou se manter como estamento, isto é, por o Estado em situação de sítio, é um fim em si mesmo justificado por qualquer meio (e alardeado com os chavões “defesa das riquezas nacionais”, “distribuição de renda”, “justiça social”, como é sabido).

Em época de desgaste e total falta de credibilidade da classe intelectual, que errou quilometricamente o alvo em virtualmente tudo que importa na última década e meia, como é possível não apenas que a versão esdrúxula de Jessé Souza ganhe corpo, mas que passe batida aos olhos mais atentos, senão sem uma resposta pontual, ao menos com a devida exposição como produção subserviente à elite que atrasou o Brasil nos últimos 13 anos, a saber, o corrupto estamento lulo-petista?

"Verdade em tempo de caos", documentário sobre Jordan Peterson

Por André,

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Xavier Zubiri explicado por Julián Marias

Por André,

Xavier Zubiri nasceu em San Sebastián em 1898. Fez estudos de Filosofia e Teologia em Madri, Louvain e Roma; doutorouse na primeira destas Faculdades em Madri, com uma tese sobre 'Ensayo de una teoria fenomenológica deljuicio', e na segunda em Roma; fez também estudos científicos e filosóficos na Alemanha; em 1926 foi catedrático de História da Filosofia na Universidade de Madri; ausente da Espanha desde princípios de 1936 até o começo da Segunda Guerra Mundial, foi professor na Universidade de Barcelona de 1940 a 1942. Desde então reside em Madri, afastado do ensino oficial, e deu uma série de cursos privados, de grande repercussão, ou ciclos de conferências, desde 1945.

A formação especificamente filosófica de Zubiri revela a influência de seus três mestres principais: Zaragüeta, Ortega e Heidegger. Seus estudos teológicos e a orientação do primeiro deles proporcionaram-lhe uma profunda familiaridade com a escolástica, cuja marca é bem visível em seu pensamento; Ortega foi decisivo para sua maturação e orientação: “Mais que discípulos - escreveu Zubiri -, "fomos criaturas suas, no sentido de que ele nos fez pensar, ou pelo menos nos fez pensar em coisas e de uma forma que até então não tínhamos pensado..." E fomos criaturas suas, nós que nos preparávamos para ser enquanto ele se estava fazendo. Recebemos então dele o que ninguém mais poderá receber: a irradiação intelectual de um pensador em formação.” Por último, Zubiri estudou com Heidegger em Friburgo de 1929 a 1931, pouco depois da publicação de Sein und Zeit, e a marca desse magistério enriqueceu igualmente seu pensamento. A isso se devem agregar os amplíssimos e profundos conhecimentos científicos de Zubiri, aos quais dedicou extraordinária atenção durante toda a vida, desde a matemática até a neurologia, e seus estudos de línguas clássicas e orientais, sobretudo como instrumentos para a história das religiões.

A obra escrita de Zubiri foi tardia e descontínua, e ainda é escassa. Seus ensaios filosóficos - exceto “Sobre el problema de la filosofia” e “Ortega, maestro de filosofia” - foram reunidos em 1944 no volume 'Naturaleza, Historia, Dios'; até .1962 não voltou a publicar, e nesse ano veio a lume seu extenso estudo Sobre la esencia\ em 1963, a redação de um ciclo de conferências, 'Cinco lecciones de filosofia'. Os estudos históricos de Zubiri compõem grande parte de sua obra e são de penetração e profundidade extraordinárias. Estão construídos de maneira sumamente pessoal, como uma tentativa de buscar as raízes da própria filosofia, e portanto com uma referência à situação atual do pensamento, que lhes confere caráter estritamente filosófico. Isso é notório nos primeiros ensaios de Naturaleza, Historia, Dios, “Nuestra situación intelectual”, “iQué es saber?” e “Ciência y realidad”, que introduzem à consideração do passado; assim como nos estudos “El acontecer humano: Grecia y la pervivencia del pasado filosófico”, “La idea de filosofia en Aristóteles”, “Sócrates y la sabiduría griega” ou “Hegel y el problema metafísico”. De uma perspectiva mais propriamente teológica, embora com inconfundível presença da filosofia atual, “El ser sobrenatural: Dios y la deificación en la teologia paulina”, talvez o mais iluminador e profundo de seus escritos. Seu último livro estuda a idéia da filosofia numa série descontínua de pensadores: Aristóteles, Kant, Comte, Bergson, Husserl, Dilthey e Heidegger. A significação filosófica da física contemporânea foi estudada no ensaio “La idea de la naturaleza: la nueva física”.

O mais comentado e influente dos ensaios de Zubiri é “En torno al problema de Dios” (1935), que busca a dimensão humana desde a qual esse problema deve ser formulado; o homem está implantado na existência ou implantado no ser; apóia-se a tergo em algo que nos faz ser; isso leva à idéia de religação: estamos obrigados a existir porque estamos previamente religados ao que nos faz existir. A existência está não só lançada, como religada por sua raiz. Estar aberto para as coisas mostra que existem coisas; estar religado descobre que existe o que religa e é raiz fundamental da existência. É isso que Zubiri chama de deidade: e a religação coloca o problema intelectual de Deus como ser fundamental ou fundamentante. Daí surgem os problemas da religião ou irreligião e inclusive o ateísmo, que aparecem formulados nessa dimensão da religação.

O livro 'Sobre la esencia' foi longamente preparado por meio de cursos em que Zubiri tratou de diversos problemas de metafísica. É um livro sumamente denso e técnico, que investiga com minúcia e profundidade uma questão central da filosofia. Zubiri se propõe retornar “à realidade por si mesma e inquirir nela qual é esse seu momento estrutural que chamamos de essência”. O conceito de estrutura é utilizado de maneira temática, apoiando-se na filosofia de Aristóteles, de cuja idéia de substância, aliás, faz uma crítica que desemboca no conceito de substantividade, com recurso freqüente a esquemas escolásticos de pensamento e uma presença constante da mentalidade científica, física e, sobretudo, biológica. Uma parte considerável do interesse desse estudo refere-se a suas possibilidades de compreensão da realidade biológica, e concretamente da espécie. A essência, segundo Zubiri, é um momento de uma coisa real, e esse momento é unidade primária de suas características; por outro lado, essa unidade não é exterior, mas intrínseca à própria coisa, e um princípio em que se fundam as outras características da coisa, sejam ou não necessárias; a essência assim entendida - conclui - é, dentro da coisa, sua verdade, a verdade da realidade. Longas análises determinam o âmbito do “essenciável”, a realidade “esenciada” e a essência mesma do real. Esse livro complexo e difícil culmina em sua exposição da idéia da ordem transcendental, em que Zubiri critica outras concepções da transcendentalidade e expõe a sua própria. Em tudo ele utiliza conceitos avançados em seus cursos, como o de “inteligência sentiente”, que faz do homem um “animal de realidades”, definido por essa “habitude” peculiar.

Apesar do tecnicismo de sua expressão, do uso constante de neologismos e das referências freqüentes às ciências, os cursos e escritos de Zubiri revelam inconfundível paixão intelectual e um dramatismo que decorre dos esforços de um pensamento excepcionalmente profundo para abrir caminho entre suas intuições e desenvolvê-las dialeticamente até chegar a fórmulas próprias. O volume 'Sobre la esencia' é o primeiro de uma anunciada série de “Estúdios filosóficos”, em que deverá se expressar o enorme saber e o profundo pensamento de seu autor.

História da Filosofia, Julián Marias. Martins Fontes. 2004. p. 517-519. São Paulo.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

A História será resguardada pela "direita"

Por André,



Por indicação do Nicolas Carvalho de Oliveira, chegou até mim um artigo - surpreendentemente - do esquerdíssimo The Guardian perguntando por que todos os bons historiadores atuais são de direita, encabeçando a lista o titã Niall Ferguson (que acaba de publicar um livro, ainda sem tradução, sobre como as redes sociais movem o mundo) - [https://goo.gl/nJmKum].

Os fatos são: com a prevalência do "pós-modernismo" como paradigma vigente das Humanidades (algo diretamente ligado à derrota da esquerda no campo lógico, daí que precisem abolir a lógica), o que temos visto nas últimas décadas, por parte da esquerda, é uma constante falsificação da História: Jesus era um black bloc anarco-socialista, a escravidão foi uma invenção branca e europeia, fascistas são os outros, Hitler era de extrema-direita, muçulmanos preservaram a cultura clássica, socialismo é direitos humanos, a História humana pode ser explicada à luz da dominação do "patriarcado", Shakespeare e Jane Austen eram supremacistas brancos, obras canônicas da cultura ocidental devem ser substituídas por literatura queer porque são "opressoras", Base Nacional Comum Curricular removendo o eixo Atenas-Roma do currículo do ensino médio nacional, etc. etc.

A História vem sendo reescrita e, conforme o joio seja separado do trigo, caberá a historiadores "out of mainstream" preservar a História tal como a conhecemos. Preservar, contar e fazer História deve ser, nos próximos tempos, a primeira incumbência de historiadores fora desse círculo que são, inevitavelmente, "de direita".

Duas observações sobre "cultura"

Por André,

A primeira, por Carlos Kramer, em seu perfil no Facebook:


"Funk é cultura". Sim, funk é cultura no mesmo sentido em que jihadistas decapitando infiéis é cultura. No sentido amplo, cultura é qualquer merda resultante das relações humanas. Esquartejar criancinhas vivas e assar no forno pode perfeitamente ser uma cultura. Supremacismos raciais são culturas também. Um antropólogo pode - e em certo sentido até deve - se interessar por qualquer manifestação cultural, tanto quanto um historiador pode se voltar para qualquer época com olhar de historiador. Ambos, historiador e antropólogo, evitam o juízo de valor sobre seus temas de estudo por razões metodológicas (vide o excelente texto do Flavio Gordon publicado nos comentários). Mas isso não quer dizer que um juízo de valor não possa ou não deva ser feito.

É aí que mora a pegadinha. Normalmente, quem diz que funk é cultura está partindo do sentido lato que a antropologia cultural dá ao termo "cultura" para levar o interlocutor a acreditar que funk é cultura stricto sensu, no sentido daquilo que as sociedades cultivam com propósitos construtivos ou elevados. Mas, nesse sentido, o funk é justamente o oposto de uma cultura. O resultado do funk é pura e simples desestruturação social. Apologia do tráfico, apologia do estupro, objetificação das mulheres (e das meninas), incentivo ao ódio, isso é o que você vai ouvir se tiver 30 minutos de contato com o funk que se faz hoje. Infelizmente, eu sou obrigado a ouvir quando as casas de festa aqui do bairro colocam essas porcarias para tocar.

É um jogo de palavras para desarmar a resposta de algum desavisado. O sujeito diz "isso é cultura" na esperança de que você entenda cultura no sentido de civilização e traduza internamente para "isso é algo bom". Mas, se você responde que "isso é uma merda", a tréplica vem na forma de uma definição antropológica de cultura.


A segunda por Flavio Gordon, antropólogo, também em seu perfil no Facebook:

Qualquer antropólogo que reivindique a autoridade científica de sua disciplina para negar categoricamente a existência de diferenças de valor entre culturas (ou elementos de uma mesma cultura) está sendo desonesto. Desconsiderar diferenças de valor entre culturas é um imperativo METODOLÓGICO da antropologia. Logo, não se pode deduzir dele a conclusão ONTOLÓGICA sobre a existência ou inexistência daquelas diferenças.

O antropólogo, qua antropólogo, não pode estar interessado, no decorrer de suas investigações, em saber se um certo fenômeno cultural é melhor ou pior, mais bonito ou mais feio, mais justo ou injusto que outro. Ele adota de partida uma restrição metodológica, uma suspensão momentânea do juízo de valor. Logo, se ele não investiga diferenças de valor entre culturas - pois que essa investigação arriscaria a própria condição de possibilidade de sua ciência -, ele não pode afirmá-las ou negá-las. Fazê-lo seria tão ridículo quanto, em uma análise da situação do Brasil, abster-se de investigar os fatores econômicos para, em seguida, concluir que estes não exercem qualquer influência sobre aquela: “Olha, eu não vou tratar dos fatores econômicos. LOGO, eles não existem”.

E, no entanto, o que mais há por aí são antropólogos dizendo que a antropologia “provou” a inexistência de diferenças de valor entre culturas ou a impossibilidade de se estabelecer uma hierarquia valorativa entre o último funk da Anita e o Réquiem de Mozart. E pior: não satisfeitos em confundir uma questão de método com a realidade das coisas, há antropólogos que deduzem da precaução metodológica particular à sua disciplina a impossibilidade universal de se investigar diferenças de valor entre culturas, destarte interditando por decreto áreas inteiras de conhecimento, tais como a filosofia moral e a estética.

Deslumbrado com a sua própria província, o sujeito deixa de ser Homo sapiens e reduz-se à condição de Homo anthropologus, variedade particular daquilo que Ortega y Gasset chamou de “novo bárbaro” - o idiota moral e estético que só olha o mundo a partir de sua especialidade acadêmica e que, também a partir dela, emite os mais altissonantes decretos e mandamentos universais.

Quem é que nunca topou com um desses caipiras em algum programa televisivo?