sábado, 13 de outubro de 2018

Corrupção do PT quando "tudo isso aqui era mato"

Por André,

Acho que todos concordam que o pecador hipócrita é pior que o pecador (aliás, pessoas à esquerda devem ser as que mais concordam com isso, pois adoram dizer que o "cidadão de bem" é hipócrita, que o crente que vai na igreja e faz fofoca é hipócrita etc.).

Vejo muita molecada usando o argumento do "não é só o PT que é corrupto", "X fulanos ou partidos são mais corruptos etc.". É coisa de quem é vítima da doença do cronocentrismo, acha que a realidade pipocou à existência quando o floquinho de neve veio ao mundo.

Só que não.

Eu tô nessa desde que o PT era oposição. Eu tô nessa desde um dos primeiros escândalos de corrupção do PT quando se tornou governo, ainda bem antes do mensalão.

Na política brasileira das últimas três décadas, o PT é o crente que não sai da igreja e quando sai faz fofoca dos outros.

Mesmo que a corrupção do PT fosse igual à dos outros (o que não é o caso, o PT é responsável pela instalação da corrupção sistemática e dos maiores montantes de dinheiro corrompido da História), eu ainda continuaria preferindo a corrupção "dos outros" do que a corrupção do PT.

Quando tudo isso aqui era mato os petistas eram os fariseus da política. Era o partido da ética. O partido que seria e faria diferente; eram os Torquemadas da moralidade pública.

Por isso que se tivesse que escolher entre um corrupto "raiz" (Maluf, p. ex.) e a corrupção metódica e revolucionária do PT, escolho a primeira sem sofrimento de consciência. Exatamente como diferenciamos o sujeito que esconde uns quilinhos do peso daquele que mente compulsoriamente.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Eleições: tem que ter SKIN IN THE GAME!

Por André (no Facebook),


Sobre o desafio público que mencionei hoje de manhã (e após 16 auto-abates da minha lista), segue:

Caso eu tenha tempo, detalharei melhor minha escolha num texto mais longo a ser publicado no Medium. Do contrário, basta isso aqui.

Como diz o antifragilista Nassim Nicholas Taleb, é preciso que nossas atitudes e escolhas tenham "skin in the game" - pele em jogo. Do contrário é moleza, é brincadeira de criança, é hipocrisia.

Você pode votar em quem quiser, desfazer a "amizade" com quem quiser, deixar de falar com a pessoa que paga suas contas o quanto quiser (justamente porque sua posição é antifrágil, você sabe que se bater ou afagar, seus pais vão continuar pagando suas contas, sua pele não está em risco), se esconder atrás da tela do seu celular ou computador, eu quero ver se acredita no que diz acreditar a ponto de por a cara a tapa.

Pois bem, eu ponho a minha, de forma que lanço meu desafio público:

Eu defendo minhas ideias e você defende as suas (não é defesa de ideologia, de candidato ou de candidatura, é defesa de posicionamento, de quem você é). Espírito democrático total.

Só tem uma condição, tem que ser publicamente, por meio de um vídeo a ser eternizado pela internet e acessado por qualquer um.

Se os dois mostrarem seus pontos razoavelmente, todos ganham. Se um dos dois passar vergonha, você (ou eu) prova seu ponto e, como nossas peles estarão em risco, arrastamos nossas reputações ladeira a baixo.

É isso.

domingo, 30 de setembro de 2018

Tribunais raciais avançam no Brasil e confirmam previsão minha

Por André,

Depois da famigerada tabela do Instituto Federal do Pará para definir quem é negro e quem não é:


Vem aí, promovido pela Universidade Federal do ABC, um curso preparatório para inquisidor de tribunal racial:




Em 2013 eu escrevi um texto prevendo o colapso da política de cotas (link no final) porque ela se baseava em autodeclaração, cada um se autodeclararia o que quiser e, por conseguinte, gente que não faz parte do grupo em questão se beneficiaria da ação ao se autodeclarar pertencente ao grupo beneficiado, inchando o número de beneficiários e anulando qualquer efeito razoável da medida.

Na minha impressão estava implícito que os responsáveis não teriam coragem de estabelecer tribunais raciais para avaliar quem é negro e quem não é, à moda lombrosiana, medindo tamanho de nariz, crânio, lábios e avaliando cor da pele, do cabelo, tipo de cabelo etc. E aí estava meu equívoco.

Depois da federal do Maranhão oferecer uma tabela pra preencher baseado em características fenotípicas, vem a UFABC oferecer uma oficina para treinar os futuros inquisidores na avaliação da raça de pleiteantes a vagas na universidade pela via das cotas.

A universidade também está em processo de estabelecer os critérios para conceder cotas a pessoas trans, que seguirão o mesmo caminho e enfrentarão o mesmo problema (se não há dado objetivo que determine o gênero de alguém, como saber objetivamente o gênero de um indivíduo com base no "olhometro"?).

Bem-vindos ao hospício.

Texto de 2013 onde eu previa o problema para a política de cotas: http://www.andreassibarreto.org/2013/11/o-problema-da-definicao-como-politica.html.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Os amantes cruéis da humanidade, por Paul Johnson

Por André,

Traduzido por Filipe Amaral.

Por Paul Johnson
Do Wall Street Journal, 5 de janeiro de 1987.
[Nota: Datas entre colchetes não estão no original.]


Sepulturas em massa de Choeung Ek, Camboja

Nos últimos 200 anos, a influência dos intelectuais cresceu de forma constante. Ele sempre esteve lá, é claro, pois em suas encarnações anteriores, como sacerdotes, escribas e adivinhos, os intelectuais reivindicaram guiar a sociedade desde o começo. Desde o tempo de Voltaire [1694-1778] e Rousseau [1712-78], o intelectual secular preencheu a posição deixada pelo declínio do clérigo, e está se mostrando mais arrogante, permanente e acima de tudo mais perigoso que sua versão clerical.

Foi Percy Bysshe Shelley quem, em seu tratado de 1821 "Em Defesa da Poesia", articulou pela primeira vez o que eu poderia chamar de Direito Divino dos Intelectuais. "Poetas", escreveu ele, "são os legisladores não reconhecidos do mundo". Essa alegação é agora tomada como garantida pelo grande corpo amorfo que se vê como "os intelectuais" ou "a intelligentsia". A influência prática dos intelectuais se expandiu enormemente desde então. Como Lionel Trilling [1905-75] coloca, "o intelecto se associou ao poder como talvez nunca antes na história, e agora é reconhecido como um tipo de poder".

Eu acredito que a porção reflexiva da humanidade é dividida em dois grupos: aqueles que estão interessados nas pessoas e se preocupam com elas; e aqueles que estão interessados em ideias. O primeiro grupo forma os pragmatistas e tende a fazer os melhores estadistas. O segundo são os intelectuais; e se o seu apego às ideias é apaixonado, e não apenas apaixonado, mas programático, é quase certo que abusem de qualquer poder que adquiram. Pois, em vez de permitir que suas ideias de governo emerjam das pessoas, moldadas pela observação de como as pessoas realmente se comportam e o que realmente desejam, os intelectuais invertem o processo, deduzindo suas ideias primeiro do princípio e tentando impô-las a homens e mulheres vivos.

Quase todos os intelectuais professam amar a humanidade e trabalhar por sua melhoria e felicidade. Mas é a ideia de humanidade que eles amam, em vez dos indivíduos que a compõem. Eles amam a humanidade-em-geral, ao invés de homens e mulheres em particular. Amando a humanidade como uma ideia, eles podem então produzir soluções como ideias. Aí reside o perigo, pois quando as pessoas entram em conflito com a solução-como-ideia, elas são primeiro ignoradas ou descartadas como não representativas; e então, quando as pessoas continuam a obstruir a ideia, elas são tratadas com crescente hostilidade e categorizadas como inimigas da humanidade-em-geral. Assim, o caminho é aberto para o que W.H. Auden [1907-1973], um típico intelectual cabeça-dura de seus dias, chamou com aprovação de "o assassinato necessário". "A liquidação de inimigos de classe", para usar a expressão leninista, e "a solução final", como dizem os nazistas, são o ponto terminal do processo intelectual.

A insensibilidade às necessidades e opiniões de outras pessoas é, de fato, uma característica daqueles apaixonadamente preocupados com ideias. Pois seu principal foco de atenção é, naturalmente, a evolução dessas ideias em suas próprias cabeças; eles se tornam, no sentido pleno, egocêntricos. A indiferença ou hostilidade do intelectual não se dirige apenas àqueles que não se encaixam em seus esquemas para a humanidade-em-geral, mas também àqueles em seu próprio círculo que, por uma razão ou outra, se recusam a desempenhar seus papéis atribuídos na sua vida.



O Explorador Hábil


Quanto mais estudo as vidas dos principais intelectuais, mais percebo a devastação de um flagelo comum e debilitante, que chamo de crueldade das ideias. A ascensão do novo intelectual secular produziu alguns espécimes notáveis.

Shelley (1792-1822) foi o protótipo, no que diz respeito aos países anglo-saxões, do moderno intelectual progressista ocidental. Ele cunhou a noção do direito dos intelectuais de influenciar eventos públicos. O poeta, e por extensão a classe intelectual como um todo, era o verdadeiro legislador, porque tinha uma pureza em sua devoção a idéias, não aberta aos homens do mundo, o barro comum: Ele era desinteressado. Mas Shelley exibiu, em sua própria vida, o que pode ser visto como uma falha característica dos intelectuais progressistas: a incapacidade de igualar sua benevolência geral a seu comportamento particular. Seu tratamento em relação a praticamente todo ser humano sobre o qual ele era capaz de exercer algum poder emocional ou físico era, pelos padrões do barro comum que ele desprezava, atroz. Qualquer mariposa que chegasse perto de sua feroz chama era chamuscada. Sua primeira esposa, Harriet, e sua amante, Fay Godwin, cometeram suicídio quando ele as abandonou. Em suas cartas, ele denunciou suas ações por lhe causar aflição e inconveniência. Parece que ele estava prestes a abandonar sua segunda esposa, Mary (a autora de "Frankenstein"), quando sua morte por afogamento acabou com seu poder de machucar. Seus filhos com Harriet foram feitos guardas da corte. Ele os apagou completamente de sua mente, e eles nunca receberam uma única palavra de seu pai. Outra filha, uma bastarda, morreu em um hospital em Nápoles, onde ele a abandonou.

Shelley foi particularmente hábil em explorar mulheres e criados. Ele arruinou a vida de uma professora, Elizabeth Hitchener, seduzindo-a tanto para a sua cama quanto para seus esquemas políticos, meteu-a em problemas com a polícia, pegou emprestado 100 libras de suas economias (que nunca foram pagas) e depois a abandonou, denunciando a sua visão estreita e egoísmo. Ele deixou um rastro de outras vítimas, a maioria proprietárias humildes e comerciantes. Ele sempre teve criados, mas poucos foram pagos.

As depredações de Shelley nunca abalaram sua soberba confiança no que ele chamou de "minha integridade testada e inalterável". Críticas, não obstante bem documentadas, tornavam-no frio: "Eu rapidamente recuperei a indiferença", escreveu ele, "que a opinião de qualquer coisa ou de qualquer pessoa que não seja a nossa consciência merece." Explicando a um amigo por que ele estava abandonando sua esposa e fugindo com outra mulher, ele escreveu: "Estou profundamente convencido de que, assim habilitado, [eu] me tornarei um amigo mais constante, um amante mais útil da humanidade, um defensor mais ardente da verdade e da virtude."

Karl Marx (1818-1883) foi outro exemplo de um homem que se convenceu de que era seu dever colocar ideias na frente das pessoas. Daí a sua implacável e muitas vezes irrefletida crueldade para com aqueles que o rodeavam tornou-se uma espécie de longínquo presságio da crueldade em massa que as suas ideias promoveriam quando finalmente se tornassem o modelo da política estatal soviética. Seu pai, que tinha medo dele, detectou a falha fatal: "Em seu coração", ele escreveu a seu filho, "o egoísmo é predominante. Marx era particularmente odioso com sua mãe, que o repreendeu por sua imprevidência financeira e tentativas incessantes de cobrar dinheiro. Que pena, ela observou, que ele não tentou adquirir capital em vez de escrever sobre ele.

Havia uma enorme lacuna entre as ideias igualitárias de Marx e o modo como ele realmente se comportava. De uma forma ou de outra ele herdou somas consideráveis de dinheiro. Ele nunca teve menos de dois criados. Ele tinha horror ao que chamou de "uma configuração puramente proletária". Ele fez sua esposa mandar cartões de visitas em que ela foi descrita como "nee Baronesse Westphalen". Ele não deixou suas três filhas se formarem em nenhuma profissão ou aprenderem qualquer coisa, exceto tocar piano. Ele manteve as aparências, empenhando a prata e até mesmo os vestidos de sua esposa. Ele seduziu a criada de sua esposa, com quem teve um filho, e então obrigou Friedrich Engels a assumir a paternidade. A filha de Marx, Eleanor, uma vez soltou um cri de coeur [*grito do coração] em uma carta: "Não é maravilhoso, quando você chega a olhar as coisas diretamente no rosto, quão raramente parecemos praticar todas as coisas boas que pregamos - para os outros?" Mais tarde ela cometeu suicídio.

Toda a vida de Marx foi um exercício de exploração emocional ou financeira - de sua esposa, de suas filhas, de seus amigos. Estudar a vida de Marx nos leva a pensar que as raízes da infelicidade humana, e especialmente a miséria causada pela exploração, não estão na exploração por categorias ou classes - mas na exploração de um-para-um por indivíduos egoístas. Tampouco essa indiferença para com os outros é uma mera falha humana em um grande homem público. É central para o trabalho de Marx. Ele não estava realmente interessado em seres humanos reais, como eles se sentiam ou o que eles queriam. Ele nunca conheceu um membro do proletariado, exceto do outro lado da tribuna do orador em uma reunião pública. Ele nunca fez uma visita a uma fábrica de verdade, rejeitando as ofertas de Engels para organizar uma. Ele nunca procurou encontrar ou interrogar um capitalista, com a exceção solitária de um tio na Holanda. Da primeira à última, sua fonte de informações eram livros, especialmente os livros de relatórios governamentais.



Um bom homem, mas...


Não é por acaso, penso eu, que Lenin [1870-1924] nunca pôs os pés em uma fábrica até se tornar o ditador soviético, e nunca, até onde sabemos, teve qualquer contato real com os trabalhadores cujas vidas ele reivindicou o direito de transformar. Ele, também, era um socialista de biblioteca. Stalin tampouco procurou o operário ou o camponês para descobrir o que ele realmente queria; ele também era um grande devorador de colunas estatísticas. Que massa de fatos esses monstros ingeriram antes de irem devorar carne humana! Pode-se dizer que o caminho para o gulag é pavimentado com teses de doutorado não-escritas.

Muitos, é claro, lamentaram a maneira como o marxismo reflete a indiferença de seu fundador em relação às pessoas como seres humanos vivos e emocionais. Se apenas, diz-se, Marx fosse capaz de ler Sigmund Freud! Mas se examinarmos a vida de Freud, encontramos a mesma dicotomia: uma lacuna intransponível entre teoria e prática, entre ideias e pessoas. Agora Freud (1856-1939), ao contrário de Shelley e Marx, era em muitos aspectos um homem bom - até mesmo um homem heróico.

Mas este, também, foi outro caso de um homem que nunca permitiu que suas ideias penetrassem em seus relacionamentos pessoais ou melhorassem suas relações com as pessoas. Ao contrário de Marx, ele não olhou para os livros de relatórios; ele olhou em sua própria mente, e lá encontrou infinitas razões para a justiça. Freud foi o macho patriarcal dominante durante toda a sua vida. Sua esposa era pouco mais que sua criada, até mesmo espalhava a pasta de dente em sua escova de dentes, como um valete à moda antiga. Ele nunca discutiu seu trabalho ou teorias com ela, e nunca a encorajou a aplicar seu trabalho na criação de seus filhos. Nem ele mesmo o fez. Ele enviou seus filhos ao médico da família para aprender os fatos da vida. Sua grande família girava inteiramente em torno de suas próprias necessidades e hábitos. Quando um visitante levantou uma questão freudiana, a esposa de Freud respondeu enfaticamente: "Não discutimos nada disso aqui". 

Houve uma distensão de exploração, tanto em sua vida familiar e ainda mais em seu tratamento dado aos seus seguidores . Homens como Adler [1870-1937] e Jung [1875-1961] foram acusados de "traição" e repudiados como "hereges". Pior, ele escreveu sobre sua "insanidade moral". Ele não podia acreditar que alguém que uma vez esteve sob sua influência e depois se afastou poderia ser totalmente são. Ele achava que heresiarcas como Jung precisavam, na realidade, de tratamento psiquiátrico.

Modernos intelectuais progressistas são igualmente frustrados por aqueles que não compartilham suas ideias. Eu tenho lido um livro de Robert L. Heilbroner chamado "A Natureza e a Lógica do Capitalismo". Não há evidência de que o autor, mais do que Marx, realmente saiba alguma coisa sobre os capitalistas ou o que os motiva. Heilbroner simplesmente assume que o capitalismo é principalmente sobre o exercício do poder sobre as pessoas. Isso parece-me completo absurdo. Inclino-me para a crença contrária do Dr. Samuel Johnson [1709-84] quando ele observou: "Senhor, um homem raramente é tão inocentemente empregado como quando está recebendo dinheiro". A opinião de Johnson foi compartilhada por John Maynard Keynes [1883-1946]. "É melhor", escreveu ele, "que um homem deva tiranizar sobre sua conta bancária do que sobre outros seres humanos".

Johnson e Keynes estavam entre os muitos intelectuais que não sucumbiram ao desejo de intimidar os outros, um desejo que também pode afetar os intelectuais sobre o que a maioria chamaria de direita. Por exemplo, Ayn Rand [1905-82], a romancista-filósofa que defendeu a dignidade do homem e o direito do indivíduo de ser livre do controle por outros, humilhou e dominou muitos que vieram a conhecê-la em particular. 

Mas há boas razões pelas quais a maioria dos intelectuais compartilha um terreno comum com os socialistas. Keynes chega ao cerne da questão, pois a avareza é muito menos perigosa do que a vontade do poder, especialmente o poder sobre as pessoas. Não é a formulação de ideias, por mais mal orientada que seja, mas o desejo de impô-las aos outros que é o pecado mortal do intelectual. É por isso que eles se inclinam pelo temperamento de tal forma para a esquerda. Pois o capitalismo simplesmente ocorre, se ninguém fizer nada para detê-lo. É o socialismo que deve ser construído e, como regra, imposto à força, proporcionando assim um papel muito maior para os intelectuais em sua gênese.

O intelectual progressista hospeda habitualmente as visões de Walter Mitty de exercer poder. Freud, por exemplo, costumava descrever-se como um pretenso conquistador (era a palavra que usava), empunhando a caneta em vez da espada e mudando a história através de exércitos de seguidores em vez de soldados. Precisamente, talvez, porque levam vidas sedentárias, os intelectuais têm uma curiosa paixão pela violência, pelo menos no abstrato.



Aplausos das poltronas


No século XX, baseando-se nas fundações do século XIX, o apetite pela violência na busca e realização de ideias tornou-se o pecado original do intelectual. Considere, por exemplo, a repetida expressão de admiração dos intelectuais por homens de ação implacáveis e sua longa sucessão de heróis violentos: Stalin, Mao Tsé-tung, Castro, Ho Chi Minh. Intelectuais ocasionalmente questionam a quantidade de abates, o grande número de "assassinatos necessários"; eles quase sempre aceitaram o princípio de que as utopias socialistas devem, se necessário, ser erguidas em bases violentas. Lembro-me bem de meu antigo editor, Kingsley Martin, escrever no New Statesman, por meio de uma gentil reprimenda a Mao Tsé-tung, que acabara de massacrar três milhões de pessoas: "Era realmente necessário que o presidente matasse tantos?" Isso provocou uma carta de seu velho amigo liberal Leonard Woolf. O Sr. Martin poderia gentilmente informar os leitores, ele questionou, "o número máximo de mortes que ele consideraria apropriado?"

Enquanto os homens de violência da poltrona no Ocidente aplaudiam e toleravam, intelectuais de outros lugares participavam e muitas vezes dirigiam os grandes massacres dos tempos modernos. Muitos ajudaram a criar a Cheka, a progenitora da atual KGB. Os intelectuais eram proeminentes em todos os estágios dos eventos que levaram ao holocausto nazista. Os acontecimentos no Camboja na década de 1970, em que entre um quinto e um terço da nação morreram de fome ou foram assassinados, foram inteiramente obra de um grupo de intelectuais, que na maior parte eram alunos e admiradores de Jean- Paul Sartre [1905-1980] - "Filhos de Sartre", como eu os chamo.

Onde quer que os homens e os regimes busquem impor ideias às pessoas, onde quer que o processo desumano da engenharia social seja colocado em ação - cavando carne e sangue ao redor como se fosse solo ou concreto - lá você encontrará intelectuais em abundância. Intimidar as pessoas é a atividade característica de todas as formas de socialismo, seja o socialismo soviético, ou o nacional-socialismo alemão, ou, por exemplo, a forma peculiar do socialismo étnico, conhecido como apartheid, que encontramos na África do Sul; esse conjunto sinistro de ideias, vale notar, era totalmente invenção de intelectuais reunidos no departamento de psicologia social da Universidade de Stellenbosch. Outras ideologias totalitárias africanas são igualmente trabalho de intelectuais locais, geralmente sociólogos.

Então, uma das lições do nosso século é: cuidado com os intelectuais. Não apenas devem ser mantidos longe das alavancas do poder, mas também devem ser objetos de suspeita peculiar quando procuram oferecer conselhos coletivos. Cuidado com comissões, conferências, ligas de intelectuais! Pois os intelectuais, longe de serem pessoas altamente individualistas e não-conformistas, são de fato ultra-conformistas dentro dos círculos formados por aqueles cuja aprovação eles buscam e valorizam. É isso que os torna, em massa, tão perigosos, porque lhes permite criar climas culturais, que muitas vezes geram cursos de ação irracionais, violentos e trágicos.

Lembre-se sempre que as pessoas devem sempre vir antes das ideias e não o contrário.


O Sr. Johnson é autor do livro "Uma História dos Judeus" (Harper & Row). Este texto é baseado em uma palestra realizada no Instituto de Estudos Contemporâneos.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Finalmente Pondé retorna com uma boa coluna: "Floquinhos de neve no metrô"


Floquinhos de neve no metrô - LUIZ FELIPE PONDÉ

FOLHA DE SP - 13/08

Não esperem nada da linha verde, a salvação virá da azul e da vermelha


Outro dia eu conversava com um amigo meu, médico homeopata, e ele, num arroubo sociológico, afirmou: “Não esperemos nada do pessoal da linha verde, a salvação virá das linhas azul e vermelha!”

Para quem não conhece o metrô de São Paulo, as linhas estão divididas por cores, como é comum se fazer pelo mundo afora. Quando meu amigo fez esse comentário, me chamou a atenção o caráter absolutamente científico da sua empreitada: havia algo de um espírito sociológico selvagem na sua fala. 

Eu sei que a linha amarela ficou de fora dessa sociologia. Vou ser fiel à minha fonte e nada direi acerca da linha amarela, mas suspeito que pelo menos parte dela cairia na classificação da linha verde.

Devo esclarecer o contexto da conversa em que surgiu essa observação fundamental acerca de nosso futuro. Falávamos de um certo sentimento de falta de esperança, não só para com o Brasil, mas para com nosso mundo ocidental –tema já banal. O resumo era o termo “snowflake”. Você conhece?

O termo é muito comum na Inglaterra. A tradução é floquinho de neve. A expressão é usada para designar pessoas que se ofendem facilmente. Como caráter epidêmico, é usado para descrever gente que, a partir de 2010, virou adulto jovem. Qual a relação entre a linha verde do metrô e a personalidade “snowflake”?

A linha verde corre, em grande parte, pela zona oeste e avenida Paulista –que, por sua vez, corre da zona oeste em direção à zona sul (e vice-versa, claro, não quero ofender ninguém!). Atende, portanto, em grande parte, a uma população floquinho de neve. 

Sei que há nessa afirmação muito de uma generalização selvagem. Mas o que seria da sociologia sem uma razoável dose de generalizações selvagens? Nem o velho Marx ficaria de pé.

A linha verde do metrô (pelas regiões que percorre) serve como metáfora de gente que perdeu um pouco a noção de como a vida é, devido às garantias materiais com as quais vive. Tipo: você nasceu com suíte para você desde bebê, logo, você acha que suítes deveriam ser um direito de todo cidadão.

A linha verde aqui, e sua “zona oeste paulistana”, representaria, em grande parte, o pessoal que acha possível salvar o mundo com alimento orgânico produzido na sua varanda. Ou gente que sofre de “síndrome traumática Trump” (nova síndrome descrita entre pessoas que nunca lavaram um tanque de roupa suja ou um banheiro na vida). Essa síndrome, de fato descrita nos EUA, é apenas um exemplo da condição floquinho de neve.

Gente assim se ofende se você a convida para jantar e oferece frango. “Seu frango me ofende”, diria um floquinho de neve.

Já as linhas azul e vermelha representam, nessa generalização sociológica selvagem, a moçada que cresceu com um banheiro para dez pessoas em casa. 

Suspeito que uma situação como essa educa mais do que dez anos de aulas de felicidade, autoestima e empatia nas escolas. Uma fila no banheiro, de manhã, em casa, é mais poderosa, no sentido civilizador, do que escolas que ensinam respeito às diferenças. À medida que o mundo vai ficando confortável, vamos perdendo a forma.

Pelas regiões geográficas que essas linhas percorrem (zonas norte, leste e sul profunda), elas seriam a metáfora de gente que não perdeu (ainda) a noção da realidade. Sabe o quanto as coisas custam, e que, normalmente, você sangra até morrer sem conseguir a maior parte delas. Acho que o “horror ao sangue” que marca a moçada na linha verde representa a perda dessa noção.

Uma das razões que me leva a suspeitar da chamada “esquerda” é que, em vez de enxergar os danos inexoráveis que a riqueza instalada está causando às pessoas, ela (à semelhança de seu profeta maior) acha que a solução é universalizar essa riqueza instalada, declarando que suítes devem ser um direito de todo cidadão. E mais: que as suítes devem cair do céu.

Portanto, voltando ao meu sábio amigo, não esperemos nada da linha verde. Quem salvará o mundo é o pessoal das linhas azul e vermelha porque, sangrando todo dia, eles ainda mantêm uma mínima lucidez em meio a esse parque temático que o mundo virou.

Eis um dos maiores paradoxos da condição humana: devemos fugir do sofrimento, mas, quando conseguimos, viramos floquinhos de neve. 

Eis um dos maiores erros dos utilitaristas ao determinarem que gerar felicidade em larga escala seria nossa “salvação”. Pelo contrário, a lucidez parece continuar habitando o território da dor. Esse fato essencial nenhum autor de autoajuda ousa enfrentar.

Luiz Felipe Pondé

Escritor e ensaísta, autor de “Dez Mandamentos” e “Marketing Existencial”. É doutor em filosofia pela USP.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Guia politicamente incorreto sobre Michel Foucault

Por André,



«Durante suas visitas aos Estados Unidos no final dos anos setenta, Foucault ficou fascinado pelo panorama homossexual de San Francisco com suas termas, bares gay, correntes, chicotes e rituais sadomasoquistas. O sadomasoquismo em especial representava o que Foucault chamou uma "experiência-limite", uma situação-limite existencialista na qual as forças vitalistas do ego poderiam livrar-se da "falsificação do prazer através do sexo eminentemente genital". Foucault veio a acreditar no que Artaud discutira nos anos quarenta, que "o corpo humano é uma bateria elétrica cujas descargas foram castradas e reprimidas" por tabus civilizados. Isso incluía o toma-lá-dá-cá da dor como um ritual sexual no qual, a experiência de extremo sofrimento nos indica as fronteiras do comportamento humano". Sob o chicote ou as pulseiras de ferro o corpo inteiro se torna um campo energizado para um "jogo da verdade" nietzschiano. [...] Ao constatar que havia contraído AIDS como consequência de sua busca de perversão sexual, Foucault também deduziu que essa era apenas outra experiência-limite: o sexo como uma forma de morte, assim como também o poder de conceder a morte a outro através do sexo. «Durante pelo menos dois anos após ter contraído AIDS (de 1982 a 1984), Michel Foucault continuou frequentando os vários locais de orgia gay, transmitindo intencionalmente a doença para seus parceiros anônimos. "Estamos inventando prazeres novos além do sexo", falou Foucault a um entrevistador - nesse caso em particular, o sexo como assassinato."» (Arthur Herman, A ideia de decadência na história ocidental. Record, 1999, p. 370-371).

«Michel Foucault se autoproclamou pedófilo» (Thomas E. Schmidt, La homosexualidad: compasión y claridad en el debate. Editorial Clie, 2008, p. 64).

«Foucault se opôs à criminalização do estupro.» (Terry Eagleton, A ideologia da estética. Jorge Zahar editor, 1993, p.284).

«Foucault defendia a descriminalização de todo tipo de sexo, incluindo o incesto, a pedofilia e o estupro.» (James Miller & Jim Miller, The Passion of Michel Foucault. Harvard University Press, 2000).

«Foucault via a experiência da AIDS como desdobramento da experiência orgiástica. Morrer de tanto prazer. [...] O sexo como valor supremo da existência, cujo heroísmo pode ser mensurado pela busca do prazer ilimitado. O ilimitado é inatingível, conferindo valor ao signo que se arrisca nas escarpas da transgressão, buscando desfazer-se de seu ser letra, tornando-se corpo significante, corpo suporte, corpo em pedaços, à caça de sensações cada vez mais intensas, em busca do êxtase infinito, final, fatal.» (André Queiroz & Nina Velasco e Cruz, Foucault hoje? - Rio de Janeiro: 7Letras, 2007, p. 182-183).

«Michel Foucault acreditava que era mais factível encontrar a emancipação moral e política apedrejando policiais, frequentando banhos gays de São Francisco ou os clubes sadomasoquistas de Paris, do que nos bancos escolares ou nas urnas eleitorais. E em sua paranoica denúncia dos estratagemas de que segundo ele se valia o poder para submeter a opinião pública aos seus ditames, negou até o final a realidade da AIDS, a doença que o matou, considerando-o como uma fraude a mais do establishment e dos seus agentes para aterrorizar os cidadãos, impondo-lhes a repressão sexual. » (Mario Vargas Llosa, "Breve discurso sobre a cultura". Revista Dicta&Contradicta, n. 6).

«Foucault propunha a total renúncia às noções de razão e desrazão, de verdade e falsidade, e até mesmo do ser humano enquanto ser espiritual e mental. » (Arthur Herman, A ideia de decadência na história ocidental.Record, 1999, p.364).

«A transvaloração dos valores de Nietzsche se tornou para Foucault um programa infinito de "transgressão", a declaração de uma guerra contra a sociedade por meio da celebração do crime e da perversão sexual. » (Arthur Herman, A ideia de decadência na história ocidental. Record, 1999, p. 366-367).

«Foucault dizia: "Não existe o corpo natural, inclusive seus atributos biológicos se criam através de discursos científicos e outros discursos sociais."» (Mónica Cevedio, Arquitectura y género: espacio público-espacio privado. Icaria Editorial, 2003, p. 18).

Para Foucault, «o poder moderno a respeito da vida, o “bio-poder”, consiste da opressão de corpos individuais e do comando de populações, ambos se ligando em prol da normatização da reprodução». «A gestão da via se reveste de todo um aparato político. A defesa da vida enquanto tal, como fazem os movimentos contra o aborto, encobre outros desígnios; afinal o controle do corpo das mulheres e da procriação, que produzem a hierarquia e a assimetria política entre os sexos, técnica de controle das populações.» (Cf. Alfredo Veiga Neto & Margareth Rago, Para uma vida não-fascista. Autêntica, 2013, p. 390; Michel Foucault, Microfísica do poder).

sábado, 21 de julho de 2018

Legalizar diminui?

Por André,



Defensores da legalização do aborto (ou da legalização das drogas) usam, em sentido puramente estratégico, o "argumento" de que a legalização diminui a ocorrência dos fatos legalizados. Digo puramente estratégico primeiro porque não creio que a grande maioria esteja genuina e honestamente preocupada com a alta incidência de abortos ou de consumidores de maconha, por exemplo. E depois, se não há objeções morais ao aborto (e, por consequência, não deve haver ônus legal sobre ele), por que é um fato a se lamentar que esteja ocorrendo em escala industrial? Se praticar o aborto tem o mesmo estatuto moral de remover um tumor é no mínimo neutro - para não dizer digno de comemoração - que as pessoas estejam fazendo isso em escala industrial. O mesmo para maconha, se a droga não faz mal algum, não há motivo para que seja criminalizada, por que não é digno de celebração que as pessoas estejam comendo-a no café da manhã?

Esse argumento nada mais é que um dos componentes da linha de frente da agenda abortista. É, como eu digo, um dos elementos do cavalo de Tróia que são os conteúdos das narrativas progressistas que observamos no debate público atual. Serve para enganar os desavisados, incautos, para mover a janela de Overton sobre o assunto de intolerável para "aceitável" ("é tão bom que a quantidade até diminui").

Porém, a realidade sempre é mais complexa que as narrativas, a realidade é uma barra de titânio contra um canivete vagabundo no altar da ideologia.

No Uruguai, a legalização da maconha não reduziu o tráfico (se se trafica mais, é porque se consome tanto quanto ou mais): https://g1.globo.com/…/legalizacao-da-maconha-nao-diminuiu-…

Na Suécia, laboratório social de agendas progressistas desde a metade do século passado, observa-se o mesmo com relação ao aborto.

O aborto foi legalizado em 1939, com a ocorrência de 439 casos. Em 2015 ocorreram 38.071 casos.

Só houve quedas entre alguns anos da década de 50. E uma rota de ascensão a partir de 1974, quando chegou à casa dos 30 mil e nunca mais baixou a marca.

E não, isso não se explica pelo crescimento populacional.

De 1950 a 2017 a população sueca se multiplicou em 1,43. A taxa de abortos em 86,72.