segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Finalmente Pondé retorna com uma boa coluna: "Floquinhos de neve no metrô"


Floquinhos de neve no metrô - LUIZ FELIPE PONDÉ

FOLHA DE SP - 13/08

Não esperem nada da linha verde, a salvação virá da azul e da vermelha


Outro dia eu conversava com um amigo meu, médico homeopata, e ele, num arroubo sociológico, afirmou: “Não esperemos nada do pessoal da linha verde, a salvação virá das linhas azul e vermelha!”

Para quem não conhece o metrô de São Paulo, as linhas estão divididas por cores, como é comum se fazer pelo mundo afora. Quando meu amigo fez esse comentário, me chamou a atenção o caráter absolutamente científico da sua empreitada: havia algo de um espírito sociológico selvagem na sua fala. 

Eu sei que a linha amarela ficou de fora dessa sociologia. Vou ser fiel à minha fonte e nada direi acerca da linha amarela, mas suspeito que pelo menos parte dela cairia na classificação da linha verde.

Devo esclarecer o contexto da conversa em que surgiu essa observação fundamental acerca de nosso futuro. Falávamos de um certo sentimento de falta de esperança, não só para com o Brasil, mas para com nosso mundo ocidental –tema já banal. O resumo era o termo “snowflake”. Você conhece?

O termo é muito comum na Inglaterra. A tradução é floquinho de neve. A expressão é usada para designar pessoas que se ofendem facilmente. Como caráter epidêmico, é usado para descrever gente que, a partir de 2010, virou adulto jovem. Qual a relação entre a linha verde do metrô e a personalidade “snowflake”?

A linha verde corre, em grande parte, pela zona oeste e avenida Paulista –que, por sua vez, corre da zona oeste em direção à zona sul (e vice-versa, claro, não quero ofender ninguém!). Atende, portanto, em grande parte, a uma população floquinho de neve. 

Sei que há nessa afirmação muito de uma generalização selvagem. Mas o que seria da sociologia sem uma razoável dose de generalizações selvagens? Nem o velho Marx ficaria de pé.

A linha verde do metrô (pelas regiões que percorre) serve como metáfora de gente que perdeu um pouco a noção de como a vida é, devido às garantias materiais com as quais vive. Tipo: você nasceu com suíte para você desde bebê, logo, você acha que suítes deveriam ser um direito de todo cidadão.

A linha verde aqui, e sua “zona oeste paulistana”, representaria, em grande parte, o pessoal que acha possível salvar o mundo com alimento orgânico produzido na sua varanda. Ou gente que sofre de “síndrome traumática Trump” (nova síndrome descrita entre pessoas que nunca lavaram um tanque de roupa suja ou um banheiro na vida). Essa síndrome, de fato descrita nos EUA, é apenas um exemplo da condição floquinho de neve.

Gente assim se ofende se você a convida para jantar e oferece frango. “Seu frango me ofende”, diria um floquinho de neve.

Já as linhas azul e vermelha representam, nessa generalização sociológica selvagem, a moçada que cresceu com um banheiro para dez pessoas em casa. 

Suspeito que uma situação como essa educa mais do que dez anos de aulas de felicidade, autoestima e empatia nas escolas. Uma fila no banheiro, de manhã, em casa, é mais poderosa, no sentido civilizador, do que escolas que ensinam respeito às diferenças. À medida que o mundo vai ficando confortável, vamos perdendo a forma.

Pelas regiões geográficas que essas linhas percorrem (zonas norte, leste e sul profunda), elas seriam a metáfora de gente que não perdeu (ainda) a noção da realidade. Sabe o quanto as coisas custam, e que, normalmente, você sangra até morrer sem conseguir a maior parte delas. Acho que o “horror ao sangue” que marca a moçada na linha verde representa a perda dessa noção.

Uma das razões que me leva a suspeitar da chamada “esquerda” é que, em vez de enxergar os danos inexoráveis que a riqueza instalada está causando às pessoas, ela (à semelhança de seu profeta maior) acha que a solução é universalizar essa riqueza instalada, declarando que suítes devem ser um direito de todo cidadão. E mais: que as suítes devem cair do céu.

Portanto, voltando ao meu sábio amigo, não esperemos nada da linha verde. Quem salvará o mundo é o pessoal das linhas azul e vermelha porque, sangrando todo dia, eles ainda mantêm uma mínima lucidez em meio a esse parque temático que o mundo virou.

Eis um dos maiores paradoxos da condição humana: devemos fugir do sofrimento, mas, quando conseguimos, viramos floquinhos de neve. 

Eis um dos maiores erros dos utilitaristas ao determinarem que gerar felicidade em larga escala seria nossa “salvação”. Pelo contrário, a lucidez parece continuar habitando o território da dor. Esse fato essencial nenhum autor de autoajuda ousa enfrentar.

Luiz Felipe Pondé

Escritor e ensaísta, autor de “Dez Mandamentos” e “Marketing Existencial”. É doutor em filosofia pela USP.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Guia politicamente incorreto sobre Michel Foucault

Por André,



«Durante suas visitas aos Estados Unidos no final dos anos setenta, Foucault ficou fascinado pelo panorama homossexual de San Francisco com suas termas, bares gay, correntes, chicotes e rituais sadomasoquistas. O sadomasoquismo em especial representava o que Foucault chamou uma "experiência-limite", uma situação-limite existencialista na qual as forças vitalistas do ego poderiam livrar-se da "falsificação do prazer através do sexo eminentemente genital". Foucault veio a acreditar no que Artaud discutira nos anos quarenta, que "o corpo humano é uma bateria elétrica cujas descargas foram castradas e reprimidas" por tabus civilizados. Isso incluía o toma-lá-dá-cá da dor como um ritual sexual no qual, a experiência de extremo sofrimento nos indica as fronteiras do comportamento humano". Sob o chicote ou as pulseiras de ferro o corpo inteiro se torna um campo energizado para um "jogo da verdade" nietzschiano. [...] Ao constatar que havia contraído AIDS como consequência de sua busca de perversão sexual, Foucault também deduziu que essa era apenas outra experiência-limite: o sexo como uma forma de morte, assim como também o poder de conceder a morte a outro através do sexo. «Durante pelo menos dois anos após ter contraído AIDS (de 1982 a 1984), Michel Foucault continuou frequentando os vários locais de orgia gay, transmitindo intencionalmente a doença para seus parceiros anônimos. "Estamos inventando prazeres novos além do sexo", falou Foucault a um entrevistador - nesse caso em particular, o sexo como assassinato."» (Arthur Herman, A ideia de decadência na história ocidental. Record, 1999, p. 370-371).

«Michel Foucault se autoproclamou pedófilo» (Thomas E. Schmidt, La homosexualidad: compasión y claridad en el debate. Editorial Clie, 2008, p. 64).

«Foucault se opôs à criminalização do estupro.» (Terry Eagleton, A ideologia da estética. Jorge Zahar editor, 1993, p.284).

«Foucault defendia a descriminalização de todo tipo de sexo, incluindo o incesto, a pedofilia e o estupro.» (James Miller & Jim Miller, The Passion of Michel Foucault. Harvard University Press, 2000).

«Foucault via a experiência da AIDS como desdobramento da experiência orgiástica. Morrer de tanto prazer. [...] O sexo como valor supremo da existência, cujo heroísmo pode ser mensurado pela busca do prazer ilimitado. O ilimitado é inatingível, conferindo valor ao signo que se arrisca nas escarpas da transgressão, buscando desfazer-se de seu ser letra, tornando-se corpo significante, corpo suporte, corpo em pedaços, à caça de sensações cada vez mais intensas, em busca do êxtase infinito, final, fatal.» (André Queiroz & Nina Velasco e Cruz, Foucault hoje? - Rio de Janeiro: 7Letras, 2007, p. 182-183).

«Michel Foucault acreditava que era mais factível encontrar a emancipação moral e política apedrejando policiais, frequentando banhos gays de São Francisco ou os clubes sadomasoquistas de Paris, do que nos bancos escolares ou nas urnas eleitorais. E em sua paranoica denúncia dos estratagemas de que segundo ele se valia o poder para submeter a opinião pública aos seus ditames, negou até o final a realidade da AIDS, a doença que o matou, considerando-o como uma fraude a mais do establishment e dos seus agentes para aterrorizar os cidadãos, impondo-lhes a repressão sexual. » (Mario Vargas Llosa, "Breve discurso sobre a cultura". Revista Dicta&Contradicta, n. 6).

«Foucault propunha a total renúncia às noções de razão e desrazão, de verdade e falsidade, e até mesmo do ser humano enquanto ser espiritual e mental. » (Arthur Herman, A ideia de decadência na história ocidental.Record, 1999, p.364).

«A transvaloração dos valores de Nietzsche se tornou para Foucault um programa infinito de "transgressão", a declaração de uma guerra contra a sociedade por meio da celebração do crime e da perversão sexual. » (Arthur Herman, A ideia de decadência na história ocidental. Record, 1999, p. 366-367).

«Foucault dizia: "Não existe o corpo natural, inclusive seus atributos biológicos se criam através de discursos científicos e outros discursos sociais."» (Mónica Cevedio, Arquitectura y género: espacio público-espacio privado. Icaria Editorial, 2003, p. 18).

Para Foucault, «o poder moderno a respeito da vida, o “bio-poder”, consiste da opressão de corpos individuais e do comando de populações, ambos se ligando em prol da normatização da reprodução». «A gestão da via se reveste de todo um aparato político. A defesa da vida enquanto tal, como fazem os movimentos contra o aborto, encobre outros desígnios; afinal o controle do corpo das mulheres e da procriação, que produzem a hierarquia e a assimetria política entre os sexos, técnica de controle das populações.» (Cf. Alfredo Veiga Neto & Margareth Rago, Para uma vida não-fascista. Autêntica, 2013, p. 390; Michel Foucault, Microfísica do poder).

sábado, 21 de julho de 2018

Legalizar diminui?

Por André,



Defensores da legalização do aborto (ou da legalização das drogas) usam, em sentido puramente estratégico, o "argumento" de que a legalização diminui a ocorrência dos fatos legalizados. Digo puramente estratégico primeiro porque não creio que a grande maioria esteja genuina e honestamente preocupada com a alta incidência de abortos ou de consumidores de maconha, por exemplo. E depois, se não há objeções morais ao aborto (e, por consequência, não deve haver ônus legal sobre ele), por que é um fato a se lamentar que esteja ocorrendo em escala industrial? Se praticar o aborto tem o mesmo estatuto moral de remover um tumor é no mínimo neutro - para não dizer digno de comemoração - que as pessoas estejam fazendo isso em escala industrial. O mesmo para maconha, se a droga não faz mal algum, não há motivo para que seja criminalizada, por que não é digno de celebração que as pessoas estejam comendo-a no café da manhã?

Esse argumento nada mais é que um dos componentes da linha de frente da agenda abortista. É, como eu digo, um dos elementos do cavalo de Tróia que são os conteúdos das narrativas progressistas que observamos no debate público atual. Serve para enganar os desavisados, incautos, para mover a janela de Overton sobre o assunto de intolerável para "aceitável" ("é tão bom que a quantidade até diminui").

Porém, a realidade sempre é mais complexa que as narrativas, a realidade é uma barra de titânio contra um canivete vagabundo no altar da ideologia.

No Uruguai, a legalização da maconha não reduziu o tráfico (se se trafica mais, é porque se consome tanto quanto ou mais): https://g1.globo.com/…/legalizacao-da-maconha-nao-diminuiu-…

Na Suécia, laboratório social de agendas progressistas desde a metade do século passado, observa-se o mesmo com relação ao aborto.

O aborto foi legalizado em 1939, com a ocorrência de 439 casos. Em 2015 ocorreram 38.071 casos.

Só houve quedas entre alguns anos da década de 50. E uma rota de ascensão a partir de 1974, quando chegou à casa dos 30 mil e nunca mais baixou a marca.

E não, isso não se explica pelo crescimento populacional.

De 1950 a 2017 a população sueca se multiplicou em 1,43. A taxa de abortos em 86,72.

20 de julho, aniversário da Operação Valquíria. Nazismo de extrema direita?

Por André,



Ontem foi 20 de julho, aniversário da Operação Valquíria, o mais próximo que se chegou de aplicar um golpe de estado em Adolf Hitler.

A cabeça da operação foi Claus Schenk Graf von Stauffenberg (1907-1944). A ocasião é mais uma boa oportunidade de relativizar o "extremo direitismo" do regime imposto por Hitler.

[https://pt.wikipedia.org/wiki/Claus_Schenk_Graf_von_Stauffenberg]

Antes, nunca é tarde lembrar que, independente das opiniões dos historiadores, a ideia que o comunismo soviético é um bastião do "combate ao fascismo" é fruto da propaganda e da desinformação soviética. Não que ocasionalmente a URSS não tenha de fato combatido o fascismo, mas o fez apenas quando era de seus melhores interesses, abandonando posições de aberto apoio no passado. Diversos livros registram esses sentimentos difusos de comunistas com relação aos fascistas. A postura, de início, era de oposição, quando Moscou anuncia o Pacto Ribbentrop-Molotov, seus satélites comunistas em outros países ficam confusos: "apoiamos ou lutamos contra os fascistas?". Cada partido comunista adotou posturas diferentes, o inglês ficou mais reticente com a nova amizade, o francês seguiu a matriz moscovita. Tudo isso se encontra bem descrito em Stalin's War, de Ernst Topitsch.

Mesmo depois, quando o atrasado exército vermelho ruma a Berlim, o faz vitaminado por dinheiro e armas americanas e livre dos ataques da Luftwaffe, destroçada pelas forças aéreas britânicas.

Claro que comunistas omitem todos esses fatos de suas narrativas históricas, visto que não contribuem para sua versão propagandística de puros combatentes do fascismo.

Outros fatos que merecem atenção:

- conteve a possibilidade do Anschluß o quanto pode o monarquista católico de extrema direita, Engelbert Dollfuss, que chegou a dissolver o partido nacional socialista na Áustria.

- o próprio Stauffenberg, motivo dessa postagem, também era um tradicionalista, monarquista, católico e portanto muito mais apto à classificação como "extrema direita". Seus valores não toleraram o genocídio nazista [https://www.mittelbayerische.de/politik-nachrichten/schwieriges-gedenken-an-stauffenberg-21771-art1094726.htm]. Todos que insistem no simplismo de chamar o nazismo de "extrema direita" precisam ser confrontados com esses e outros fatos.

Não se trata AQUI de afirmar que o nazismo seja de esquerda, mas apenas de relativizar cada vez mais a obviedade de seu "direitismo". Fato é que a coisa é tratada nos termos que é não graças ao trabalho de historiadores sérios, que consideram os fatos acima citados e outros (por que tantos partidos de extrema direita incluíam o "socialismo" em seu nome? Se Hitler era de extrema direita, o que eram católicos monarquistas como Stauffenberg, Dollfuss, o que era o Império Britânico e Winston Churchill e o que era o establishment norte-americano, todos NESSA MESMA ÉPOCA tão distintos do nacional socialismo?), mas no puro elemento propagandístico das estratégias soviéticas do pós-guerra.

A ideia de implantar na cabeça das pessoas que o racismo era de direita e que, portanto, o nazismo, que levou o racismo aos níveis de eugenia que conhecemos, era de extrema direita e a aceitação disso sem questionamento é fruto dessa peça de propaganda que, aliás, ainda funciona muito bem hoje.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Tese de Robert Paxton: fascismo foge da dicotomia direita/esquerda e teve liberais e conservadores como companheiros de viagem

Por André,


Estou a ler um clássico sobre o fascismo, o The Anatomy of Fascism, do professor da Columbia University Robert Paxton e a confirmar algumas impressões que tinha intuitivamente ou como fruto de outras leituras, um pouco desconexas.

O fascismo era anti-liberal, anti-burguês, anti-marxista e anti-conservador e em alguns sentidos, revolucionário, ainda que tenham existido liberais (em sentido clássico) e conservadores que tenham se tornado companheiros de viagem do fascismo pois preferiam este em detrimento do bolchevismo.

Ainda, sim, o fascismo era antissocialista, mas o que muitos esquerdistas desconsiderarão é que fascistas eram antissocialistas porque passaram a considerar o socialismo de seus respectivos países internacionalista, "pacifista" (oposição à entrada na Primeira Guerra Mundial, naquele momento tida como "guerra imperialista") e "democrático" demais. Ou seja, todos saíram do seio do socialismo de seus países e tinham problemas com esses aspectos do socialismo. Mussolini é o caso a ser citado e os comentaristas debatem até hoje quando foi exatamente o momento de abandono do socialismo da parte de Mussolini.

Seguem alguns trechos que corroboram as informações acima:

"O programa fascista, divulgado meses mais tarde, era uma curiosa mistura de patriotismo de veteranos e de experimento social radical, uma espécie de "nacional-socialismo". Do lado nacionalista, ele conclamava pela consecução dos objetivos expansionistas italianos nos Balcãs e ao redor do Mediterrâneo, objetivos esses que haviam sido frustrados meses antes, na Conferência de Paz de Paris. Do lado radical propunha o sufrágio feminino e o voto aos dezoito anos de idade, a abolição da câmara alta, a convocação de uma assembleia constituinte para redigir a proposta de uma nova constituição (presumivelmente sem a monarquia), a jornada de trabalho de oito horas, a participação dos trabalhadores na "administração técnica das fábricas e a "expropriação parcial de todos os tipos de riqueza", por meio de uma tributação pesada e progressiva do capital, o confisco de certos bens da Igreja e de 85% dos lucros de guerra" (p. 16 e 17).

Sempre gostei de destacar quando o debate sobre o enquadramento do nazismo no espectro político surge que, sejam nazismo e fascismo socialistas e revolucionários ou não, é inegável que sempre quiseram ao menos PARECER socialistas. Seus programas não podem indicar isso de maneira menos clara.

"Os sindicalistas pró-guerra haviam sido os companheiros mais próximos de Mussolini durante a luta para levar a Itália à guerra, em maio de 1915. Na Europa anterior à Primeira Guerra Mundial, o sindicalismo era o principal rival da classe trabalhadora do socialismo parlamentar. Embora, por volta de 1914, a maioria dos sindicalistas estivesse organizada em partidos eleitorais que competiam por cadeiras no parlamento, estes ainda mantinham suas raízes sindicais. Os socialistas parlamentares trabalhavam por reformas pontuais, enquanto esperavam pelos desdobramentos históricos que tornariam o capitalismo obsoleto, tal como profetizado pelos marxistas, ao passo que os sindicalistas, desdenhando as concessões exigidas pela ação parlamentar, e também o fato de a maioria dos socialistas estar comprometida com a evolução gradual, acreditavam que poderiam derrubar o capitalismo com a força de sua vontade" (p. 17).

"É difícil situar o fascismo no tão familiar mapa político de direita-esquerda. Será que mesmo os líderes dos primeiros tempos saberiam fazê-lo? Quando Mussolini reuniu seus amigos na Piazza San Sepolcro, em março de 1919, ainda não estava bem claro se pretendia competir com seus antigos companheiros do Partido Socialista Italiano, à esquerda, ou atacá-los frontalmente a partir da direita. Em que ponto do espectro político italiano se encaixaria aquilo que ele, às vezes, ainda chamava de "nacional-sindicalismo"? Na verdade, o fascismo sempre manteve essa ambiguidade" (p. 28).

"Para eles, a esquerda socialista e internacionalista era o inimigo, e os liberais eram os cúmplices do inimigo" (p. 43-44).

"De modo geral, os conservadores europeus, em 1930, ainda rejeitavam os princípios da Revolução Francesa, preferindo a autoridade à liberdade, a hierarquia à igualdade e a deferência à fraternidade. Embora muitos deles tenham visto os fascistas como úteis, ou mesmo essenciais, em sua luta pela sobrevivência contra os liberais dominantes e uma esquerda em ascensão, alguns tinham aguda consciência de que seus aliados fascistas seguiam uma agenda diferente e sentiam uma aversão desdenhosa por esses forasteiros rudes. Quando o simples autoritarismo era o bastante, os conservadores o preferiam. Alguns deles mantiveram sua postura antifascista até o fim. A maioria dos conservadores, entretanto, estava convicta de que o comunismo era pior. Se dispunham a trabalhar com os fascistas caso a esquerda mostrasse a possibilidade de triunfar" (p. 48).

Historiador israelense discute globalismo e nacionalismo

Por André,

O historiador best-seller Yuval Noah Harari é entrevistado pela TED Talks e fala sobre o futuro do mundo e a atual tensão entre globalismo e nacionalismo:


O entrevistado é pró-globalismo. O que é um avanço para o debate brasileiro, visto que por aqui o assunto ainda é teoria da conspiração perpetrada por Olavo de Carvalho e negado até por nossos pretensos diplomatas.

A pergunta do filósofo John Haidt, feita ao longo da entrevista e a resposta do historiador são simbólicas: os globalistas querem a instalação de um governo global e são incapazes de oferecer qualquer garantia que vai se parecer mais com a governança nórdica que com a governança saudita.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Problemas Filosóficos: Clareza filosófica

Problemas Filosóficos: Clareza filosófica: Em um quarto escuro, com pouca iluminação, é difícil enxergar o que ele contém, se é que é possível. Se você acende uma luz nele, o torna...

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Pachecos, pachequismo ou: torcer é irracional

Por André,


“Pacheco”, mascote torcedor da copa de 1982 que virou símbolo e sinônimo de torcedor irracional

Perdoem o textão, mas esse “manual do analista” está engasgado na garganta desde antes do início da Copa, até para prevenir o que está ocorrendo agora. Antes que eu pareça profeta do passado, vamos às observações:
1) ESTÁ “PERMITIDO” TORCER. Minha posição não é contra “torcida” nem contra o torcedor. Acho um sentimento normal e, em nível de sociedade, até positivo. Bom para o “Volksgeist” (não é pedantismo, é que ainda há espaço para análises com um quê sociológico no futebol, reforçando a falta que faz entre nós um Nelson Rodrigues). Porém, JAMAIS se deve esquecer que torcer é um sentimento IRRACIONAL. Caso não fosse, só haveriam torcedores dos times super-vencedores e grandes. O cara que torce pro time pequeno sabe que o time dele não vai ganhar nada grandioso, mas mesmo assim torce. Uns torcem só pra esse time de menor expressão, outros adotam um maior e por aí vai, porque a escolha por quem você torce não é técnica e racional, mas determinada por fatores incontroláveis, irracionais e normalmente imunes à análise racional. O futebol tem essa aura de irracionalidade que o ronda e isso faz parte da sua mística. É pura análise factual, sem tom de crítica ou intenção de mudança.
2) EU NÃO TORÇO. A última vez que torci pela seleção brasileira foi em 2002. Torcer mesmo — e vale lembrar o que é torcer: gritar, xingar, aumentar o volume da TV, querer que ganhe a todo custo (com a ajuda da arbitragem, sem, jogando bem ou mal, de maneira soberana ou sôfrega, no último minuto etc.). Acho que esse texto não se trata das minhas motivações para não torcer mais para o Brasil. Mas o fato é que eu não torço. Ponto. Eu (tento) fazer análise (não quero posar de analista isento e onisciente, enfatizo o TENTAR, não quer dizer que acerte e faça com 100% de precisão sempre, mas é uma meta). Como normalmente o público do futebol sempre faz. Eu faço tudo que um torcedor (cuja existência está “permitida” e até é saudada, conforme 1) não faz. Em Copas do Mundo, de 2002 até então, o que eu quero ver em Copas é o bom futebol e que boas ideias de jogo sejam brindadas com a vitória. Com exceção de 2006 (sem demérito algum para a Itália e muito menos para seus torcedores), acho que isso ocorreu em 2010 e 2014. Desse meu ponto de vista fiquei satisfeito com as vitórias de Espanha e Alemanha, achei que duas boas ideias de jogo (a primeira influenciando a segunda, inclusive) e duas excelentes gerações foram brindadas com uma Copa do Mundo. Eu não quero um universo futebolístico onde as ideias predominantes são as de Dunga, Felipão ou Parreira. Então eu não “torci” para Alemanha ou Espanha, não me pintei, não gritei, não ergui o volume da TV. Eu não torço, eu quero a máxima realização possível do melhor futebol possível.
3) Considerando 1 e 2, vem inevitavelmente a questão do PATRIOTISMO. Essa questão me persegue desde que abandonei a torcida, mas é preciso admitir, se está permitido torcer, também está permitido não torcer, sem débitos “civis” para não torcedores. Primeiro, eu acho que muita gente seca a seleção brasileira, mas ninguém se pinta, compra camisa, grita a cada lateral em favor dos adversários do Brasil. Outro detalhe: não superestimem torcida, torcida não muda NADA. Exceção feita a algumas torcidas de clubes argentinos, torcedor não apenas não altera a ordem dos fatores como, às vezes, contribui negativamente. Por ser irracional, é volúvel, tudo está bem ou mal conforme a direção do vento. Torcer é superestimado e a postura reativa de torcedores com relação a não torcedores só mostra isso. Está permitido torcer, quem quiser torcer, que torça, quem não quiser, idem. Nada muda.
Os próprios torcedores deveriam se prevenir contra a associação entre não torcer e antipatriotismo. O símbolo nacional desse suposto patriotismo é Galvão Bueno e bastante emblemático desse patriotismo sazonal. Em Copa do Mundo é hora de ficar rouco pelo Brasil, nos demais 47 meses de vida normal é hora de se encastelar luxuosamente em Mônaco. Esse cara é mais patriota que eu, cidadão em absoluto acordo com seus deveres civis e que não acresce nada em nenhuma estatística negativa (de tantas, como também se perdem ao citar o pessoal do “o IDH da Suíça é melhor que o nosso)? Em Copa do Mundo você torce, grita, se pinta, coloca a “pátria na chuteira”, mas depois volta à rotina normal de degradação social, mas o patriota é você e não eu? É nesse tipo de análise que o irracionalismo torcedor se traveste de analista isento.
Em suma: torcedores, torçam! E não encham o saco. Não torcedores, não torçam, fundamentem melhor sua posição (nós é que somos o elefante branco no meio da sala) e também não encham o saco. A postura reativa que pode eventualmente aparecer dos dois lados, mas normalmente aparece mais do lado torcedor deixa transparecer quem é o líder cuja liderança não está clara e precisa ser provada a cada instante (fato que, aliás, precisa ser compreendido urgentemente por brasileiros, a seleção brasileira é penta sim, isso é um fato histórico honorável, mas não é mais bicho papão, leva de 7 em casa, toma sufoco de Suíça, ganha nos acréscimos de Costa Rica etc.). Ninguém é menos patriota, menos cidadão, menos cumpridor de deveres, menos brasileiro por não torcer para o Brasil. Mais torcida e menos pachequismo.

sábado, 2 de junho de 2018

O esquerdismo é a politização total da vida

Por André,

Sempre que posso reforço uma mensagem em textos e palestras (e o livro que estou terminando de escrever toca centralmente nessa questão): uma excelente maneira de definir a esquerda é pelo grau de politização que esquerdistas querem e trazem para a vida comum. Gentes à esquerda do espectro político comem política no café da manhã, no almoço, no jantar e enquanto dormem. E quando tratam de assuntos não-políticos, é para furar as barreiras até onde a imaginação alcança e então politizar esses assuntos (videogames, futebol, humor, a piadinha que você conta pro seu vizinho etc. etc.). Essa tem sido a tônica da esquerda política nos últimos tempos, a tentativa (e em grande parte com sucesso) de criar um império do radicalismo político onde todas as questões da vida precisam passar pelo crivo da correção política.

A Universidade de Dartmouth realizou uma pesquisa interessante que veio a comprovar tanto a minha descrição, como refutar uma outra peça de propaganda dessa mesma esquerda que já se confunde com o próprio senso comum, a saber, que eles, a "esquerda", são os tolerantes e conservadores são as figurinhas fascistas, hostis e que desejam eliminar quem discorda deles.

Segundo o gráfico abaixo, os estudantes universitários identificados como "democratas" (considere a propensão da juventude democrata para votar em Bernie Sanders se acha exagerado chamar democratas de esquerdistas radicais) consideram que a divergência política é um critério definidor para uma série de coisas da vida comum que teoricamente tem pouco a ver com política.

82% não considerariam namorar alguém que diverge politicamente deles;

55% não seria amigos;

39% não confiariam;

23% não estudariam e

22% não fariam um trabalho em grupo com pessoas que divergem politicamente deles.

Notem também que republicanos têm números MUITO mais baixos que esses. Enquanto quase que 1/4 de democratas se negaria a estudar com um colega republicano, apenas 7% dos republicanos pensam da mesma maneira!

Não é por acaso que o youtuber libertário Dave Rubin afirma que adoraria ser convidado por grupos de estudos de democratas para fazer debates e dar palestras em suas universidades, mas os convites só vêm de outros libertários e de conservadores.

Quem será que são os verdadeiros intolerantes? Conservadores ou o universitário "progressista", de esquerda e democrata?

Link para a pesquisa completa: https://goo.gl/GMwpp6.



sexta-feira, 1 de junho de 2018

Brilhante entrevista de Dave Rubin com o historiador escocês Niall Ferguson

Por André,

Ferguson falou sobre a "Dark Web Intellectual", uma espécie de rede de conexões entre intelectuais não-esquerdistas, guerra cultural, Trump, sua mudança de opinião sobre o Brexit e o destino do Reino Unido de Theresa May.

Detalhe para o jeito caridoso e amoroso com que Niall se refere a sua mulher, Ayaan Hirsi Ali: