domingo, 20 de maio de 2018

Rousseau entusiasta de Maomé

Artigo originalmente publicado no Mídia sem Máscara,




          No terceiro capítulo de A Nova Ciência da Política, o filósofo e cientista político germano-americano Eric Voeligen, na esteira do propósito da obra, faz uma análise do problema da representação no império romano. O que e a quem o imperador representa? A teologia “pagã” funcionava como teologia supernaturalis, mas necessária e imprescindivelmente também como teologia civilis. O destino da política estava diretamente atrelado ao culto devido aos deuses: se as coisas iam bem, era graças aos sacrifícios prestados e à sua proteção; se iam mal, era sinal que a adoração havia falhado de alguma maneira. Isto é, a funcionalidade da sociedade dependia diretamente da intervenção dos deuses no mundo e a expectativa das pessoas era que os deuses intervissem; fazer parte da sociedade em questão envolvia necessariamente a adoração dos mesmos deuses, já nas palavras de Rousseau “(...) seu governo não distinguia seus deuses de suas leis” (ROUSSEAU, 1989, p. 150).

            No bojo da ascensão do cristianismo (também com a proposta de servir de teologia civil, de proteger melhor o império que os velhos deuses), contudo, uma “desdivinização” do mundo ocorreu. A realidade passou a estar irremediavelmente cindida. Santo Agostinho nomeou a cisão em “Cidade de Deus” ou Cidade Celeste e “Cidade dos Homens” ou Cidade Terrestre. O cristianismo pode até ser a religião de Estado, mas príncipe e pontífice são pessoas distintas e o tipo de religiosidade que opera essa divisão é, para Rousseau, “tão evidentemente mau que constitui perda de tempo o divertimento de demonstrá-lo” (ROUSSEAU, 1989, p. 154), visto que “tudo quanto rompe a unidade social não serve para nada” (ibidem). O critério que depreendemos é bastante simples: se incrementa a coesão social é bom (o próprio sumo bem), se não o faz, então é mau.

            O chamado problema do “contratualismo” traz, à sua maneira, o mesmo problema à superfície do debate: um “contrato” humano calcado na política pode criar uma convivência harmoniosa perene? Rousseau acreditava que sim e, nessa sociedade, uma “teologia civil” se mostra indispensável, podendo haver um problema: o cristianismo pode ser uma pedra no sapato rumo à concretização da tal sociedade harmônica, visto que desdiviniza o mundo, minando a expectativa de uma ordem social terrena perfeita. Para o filósofo genebrino, o “cristianismo do Evangelho” cria maus soldados, despreza este mundo e esta vida e atrapalha a coesão social; ainda afirma que “uma sociedade de verdadeiros cristãos já não seria uma sociedade de homens” (ROUSSEAU, 1989, p. 155).



Grosso modo, um dos pontos axiais da obra de Eric Voegelin vai justamente na contramão dessa percepção rousseauniana: uma ciência política exclusivamente “positiva” é impossível pois o homem está irremediavelmente vinculado ao transcendental; há uma ordem suprema à qual a ordem social não pode ser dissociada e qualquer um que pretenda abordar o problema da representação sem tomar isso em conta enfrentará problemas.

Isso posto, salientamos que, enquanto o cristianismo está atinado a esta verdade diagnosticada por Eric Voegelin, visto que exorta que “a César o que é de César” (Mateus, 22:21) e que “no mundo tereis aflições” (João, 16:33), como já tivemos a oportunidade de apontar e como concorda Rousseau, o islamismo é um modelo funcional de como conjugar uma teologia política e uma teologia sobrenatural. A religião de Maomé nem de longe coloca para um teórico da coesão social perfeita os mesmos problemas colocados pelo cristianismo, conforme afirma Rousseau:

O culto sagrado permaneceu sempre ou veio a tornar-se independente do soberano e sem ligação necessária com o corpo do Estado, Maomé teve objetivos muito salutares; soube ligar muito bem seu sistema político e, enquanto a forma de seu governo subsistiu sob a direção dos califas que lhe sucederam, tal governo foi exatamente coeso e, por isso, bom (ROUSSEAU, 1989, p. 152, grifos nossos).

A despeito da convenção de se chamar islamismo, cristianismo e judaísmo de “religiões monoteístas” – dando a entender que as três mais se assemelham que se distanciam –, numa época em que o islam político cresce e sua natureza de cosmovisão é salientada, faz-se mister frisar que o aspecto político da religião de Maomé não é um aspecto marginal ou historicamente ocasional (como pode ser apontado para os casos de cristianismo ou judaísmo), mas sim algo constitutivo de sua natureza mesma e por isso digno da saudação de Jean-Jacques Rousseau (demarcando também um bom ponto de inflexão entre o islam e judaísmo e cristianismo).

Para corroborar nossa tese, vale aqui a exegese (de Salmir El Hayek e nossa) do talvez mais famoso trecho do Alcorão em tempos de terrorismo islâmico: 5ª surata, versículo 32: “Por isso, prescrevemos aos israelitas que quem matar uma pessoa, sem que esta tenha cometido homicídio ou semeado a corrupção na terra, será considerado como se tivesse assassinado toda a humanidade”. Não seria isto evidência que o islam prega a paz e rechaça o assassinato incondicionalmente? Na verdade não. Em retaliação a outro homicídio é lícito matar, mas igualmente o é matar aquele que semeia corrupção na terra. Considerando a literatura disponível, como podemos entender do que se trata?

A única separação reconhecida pelo islam é entre ele e o resto. Não à toa todo não-muçulmano é chamado de “kafir” (infiel que não professa o islam), o que não sem explicação faz com que em muitos países muçulmanos fieis de outras religiões sejam tratados como cidadãos de segunda classe. Se Jeová é amor (I João, 4:8), isto é, ama a todos incondicionalmente: hindus, muçulmanos, pecadores, ateus etc, Allah só ama aqueles que o amam de volta (diversos versículos atestam isso, entre eles destacamos 30:45 e 03:32). Logo, todos que não adoram Allah, “adeptos do Livro ou politeístas” (98:6, 3:110) semeiam a corrupção no mundo. Não pode surpreender, portanto, a prescrição de regras específicas sobre como dirigir o mundo de maneira que a corrupção não seja semeada: podendo incluir desde a eliminação sumária dos corruptores até orientações sobre como escovar os dentes.

Samir El Hayek, em comentário a sua tradução para o português brasileiro do Alcorão para o trecho que analisamos trata, inclusive, de “traição contra o Estado” quando se está a “espalhar a corrupção na terra”; relata também as quatro penalidades adequadas para os que pecam contra o Estado e contra Allah: “execução (cortar a cabeça), ‘crucificação’, aleijamento ou exílio” (Alcorão, Marsam Editora, p. 132n). El Hayek está apenas explicitando o que está implícito em toda a doutrina islâmica e foi objeto de elogio de Rousseau: há uma fórmula bastante específica e totalizante de dirigir a vida em sociedade neste mundo – e a jihad é apenas uma face dessa fórmula – que deve fazer das pessoas não apenas bons devotos, preocupados com o reino espiritual, mas também cidadãos subservientes a regras estatais bastante específicas.

*Rousseau elogia Maomé em dois momentos de O Contrato Social: implicitamente no capítulo 7, livro 2 e explicitamente no citado capítulo 8, livro 4.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Alcorão Sagrado. Tradução e notas de Samir El Hayek. São Paulo: Marsam Editora Jornalística, 1994.

GUNNY, Ahmad. Prophet Muhammad in French and English Literature: 1650 to the present. Leicestershire: ed. The Islamic Foundation, 2011.

ROUSSEAU, Jean-Jacques. O Contrato Social. São Paulo: ed. Martins Fontes, 1989.

VOEGELIN, Eric. A Nova Ciência da Política. Brasília: ed. UnB, 1982.

O mínimo do mínimo sobre fake news

Por André,


Primeiro: é um conceito redundante. Espalhar informação falsa com propósito político é nada mais nada menos que a boa e velha DESINFORMAÇÃO. Arte na qual sabemos bem quem foi (é) especialista.

Segundo: como a nomenclatura está contaminada pelo sentido que aludi acima, a elite falante não poderia recuperar o termo. Inventaram "fake news" e "pós-verdade" como arcabouço teórico para explicar a força das redes sociais (em detrimento da mídia "tradicional") na eleição de Donald Trump (pelas bandas da América ele conseguiu reverter essa polaridade chamando a CNN de "fake news" na cara dos caras) e engrossar seu verniz conspiratório junto com a maluquice do conluio com a Rússia.

Fatos esses confirmados pelo contrato entre Facebook e "fact checkers" irem de agora (candidatos à eleição praticamente todos definidos) até dezembro (pós-eleição e suas reverberações).

PS.: para quem encara com boa vontade a ideia de se checar a veracidade de notícias duvidosas que com o advento da internet se espalham rápido como nunca, sim, eu concordo, no melhor dos mundos isso seria uma atividade perfeitamente legítima. Mas dado o contexto e altura do campeonato, crer que essas agências são realmente isentas não é diferente de acreditar que o socialismo traz igualdade porque na teoria isso é uma promessa possível.

sábado, 19 de maio de 2018

Debate sobre o politicamente correto com Jordan Peterson e Stephen Fry

Por André,



Ontem (18/05), ocorreu um debate sobre politicamente correto entre dois defensores da ideia e provavelmente o intelectual vivo mais atuante, Jordan Peterson, e o humorista e ator britânico Stephen Fry.

Minhas impressões e observações, acabo de assistir o debate:

- Pra quem gosta da linguagem dos famosos "frames", o destaque mais importante é que Jordan Peterson conseguiu INVERTER O FRAME do debate. Os debatedores em defesa do politicamente correto ABRIRAM seus discursos atacando Peterson. Ou seja, como apenas em raras vezes, a direita não fez o papel reativo-negativo (criticar, apontar o que está errado), mas sim o papel propositivo/afirmativo, obrigando a esquerda a se pôr a responder (Ronald Reagan dizia que, se em um debate você precisa começar se explicando e justificando, você já perdeu). Peterson colocou a esquerda tresloucada e hegemônica na defensiva. O ensinamento estratégico fica explícito.

- Stephen Fry não é conservador, de direita ou coisa que o valha. Está, talvez, mais alinhado a uma posição liberal clássica. AINDA SIM, foi um interessante combatente para fazer lado com o Peterson, tanto pelas suas sacadas, mais comuns a quem tem uma veia humorística, quanto pela posição geralmente diversa que possui para outros assuntos. Isso quebra a narrativa hegemônica da esquerda sobre "minorias" e ensina a direita purista que a guerra cultural não se ganha com purismo. Aliados de última hora são essenciais para ganhar batalhas.

- A moção original já era vastamente favorável ao lado Peterson/Fry (alguma coisa nesse sentido: "o que você chama de politicamente correto eu chamo de progresso", 64% da plateia já discordava da afirmação ANTES do debate, mas 87% dessa plateia se dizia aberta a mudar de ideia, Peterson e Fry conseguiram engrossar o grupo em 6%, vencendo a contenda).

LINK:

quarta-feira, 16 de maio de 2018

A vantagem do conservador

Por André,

Estava a acompanhar uma discussão sobre a situação de calamidade da Venezuela num grupo universitário no Facebook. Um país que já gerou 1 milhão de refugiados, tem uma inflação de 12.000% e os comentários dos simpatizantes, adeptos e praticantes de ditaduras socialistas diziam:

"ainda bem que no capitalismo/livre mercado não tem gente passando fome".

São tantos erros que fica difícil começar. Primeiro: nesse caso, capitalismo de livre mercado (onde existe) real concorre com socialismo real (Venezuela), a briga não é entre capitalismo de livre mercado que concorre com mundo perfeito, arco-íris, céu de brigadeiro, mar de limonada (onde ninguém passa fome). Na comparação concreta, o capitalismo leva sim vantagem, embora não crie uma ordem social imaculada.

Porém, o conservador tem uma vantagem nesse debate em relação ao liberal e ao libertário (a quintessência do "capitalismo ideológico"), que tem um compromisso não com a vantagem concreta do capitalismo sobre o socialismo, mas estão na verdade ideologicamente comprometidos, tal como o torcedor de um clube nega qualquer milímetro de realidade contraditória que evidencie que seu time não é o maior do universo.

O compromisso do conservador com alguma forma de capitalismo se dá com base na realidade testada que mostra que, a despeito de quaisquer problemas (alguns simplesmente naturais, outro solucionáveis), a experiência "capitalista" é superior à socialista, mesmo que alguns ainda passem fome. Quem promete paraíso na terra, mundo perfeito etc são RELIGIÕES POLÍTICAS, ideologias modernas e o conservador, se bem atinado com a literatura que é herdeiro, é cético e sabe que problemas de ordem social sempre vão existir. Não existe ideologia que cure todos os males e crie a ordem social perfeita.

sábado, 12 de maio de 2018

Um canalha pode ter razão?

Por André,




A tentação de incorrer numa falácia ad hominem contra um canalha é enorme: "Fulano não presta, logo, está errado".

A tentação é grande, mas em terreno puramente lógico, um canalha pode estar completamente correto (Hitler bebia água, Fulano bebe água, logo...).

CONTUDO, enquanto FATO BIOGRÁFICO e não como argumento, enquanto curiosidade digna de nota, digna de ser conhecida por todos os adeptos das ideias de determinado autor, isso se torna importante. Particularmente na modernidade, onde a importância dos sacerdotes se dirimiu e a dos intelectuais aumentou, tomando o lugar daqueles. Não é menção no mínimo justa para aqueles que alegam ter descoberto alguma fórmula nova para consertar a vida social por completo?

"(...) já é hora de examinarmos suas vidas, tanto em âmbito público como privado. Pretendo avaliar particularmente as credenciais morais e de julgamento que os intelectuais possuíam ou não para ditar regras de conduta à humanidade. Como administravam suas próprias vidas? Que grau de retidão demonstravam para com a família, os amigos e os companheiros? Eles eram honestos em seus relacionamento sexuais e financeiros? Será que falavam e escreviam a verdade? E até que ponto seus sistemas teóricos resistiram ao teste do tempo e da práxis?" (Paul Johnson, Os Intelectuais, p. 12).

Em suma: aqueles que se propuseram a gurus da humanidade, bastiões do mundo melhor, viviam pelo seu próprio livro de regras?

sábado, 14 de abril de 2018

Rússia, Síria e EUA

Por André,

Do ataque dos EUA à Síria, só consigo pensar que:

- ontem, por não retaliar, a narrativa era de Trump "bundão", "afinou para a Rússia".
- hoje, ao atacar, a narrativa será de cão raivoso belicista.

Do mesmo jeito que ontem havia um acordão entre Putin e Trump para elegê-lo, hoje já vejo jornal falando de retorno à Guerra Fria devido à expulsão de diplomatas russos de solo americano.

A narrativa midiática como um todo é tão precisa em vender narrativas antiamericanas CONTRADITÓRIAS que isso parece até um elaborado e exitoso plano de desinformação.

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A IMPRENSA NÃO VAI PEDIR DESCULPAS?

Ficou-se meses a falar do conluio russo para eleger Trump, mas até agora, além das especulações da extrema-imprensa, o que temos de fatos concretos é:

- a América desafiando as vontades russas na Síria;

- expulsão de diplomatas russos;

- novas sanções à Rússia;

- expansão das capacidades dos mísseis de defesa na Crimeia;

- apoio e fortalecimento da OTAN contra a Rússia.

"Hoje estamos em guerra contra a Oceania e somos parceiros da Eurásia, amanhã estaremos em guerra com a Eurásia e seremos parceiros da Oceania", para rememorar a nunca desatualizada referência a Orwell.