terça-feira, 29 de novembro de 2016

Caos estético: "Sinto pena de quem trabalha na Faria Lima, diz urbanista dinamarquês"

Por Folha,

"Sinto pena de quem trabalha aqui", diz o famoso urbanista dinamarquês Jan Gehl, 80, ao ser apresentado à Nova Faria Lima, região que abriga um dos corações financeiros da cidade, na zona oeste de São Paulo. Olha consternado para os edifícios envidraçados "inteligentes".

"A cidade se faz na altura da calçada, onde as pessoas estão. Cadê um café, mesinhas na calçada, bancos para se sentar, para namorar? Cadê as lojas, as vitrines? Não há um único estímulo visual", prossegue, inconformado.

Desde os anos 1960, critica o modernismo que originou Brasília e os bairros exclusivamente comerciais ou residenciais. Virou pop quando, na última década, ciclovias e calçadões passaram a se espalhar pelo mundo.

Gehl repara que todas as enormes torres da avenida Brigadeiro Faria Lima são de escritórios. "Não há um único apartamento nessas torres todas? Imagino o que acontece quando esta multidão sai do trabalho e todos pegam o carro porque moram longe. Que desespero."

Autor do projeto que tirou várias pistas para automóveis na Times Square e na Broadway, em Nova York, é criticado por colegas por se basear em cidades europeias de pequena escala.

Mas, depois de 40 anos lecionando, criou uma consultoria que ajuda de prefeitos a grandes incorporadores. Tem trabalhos em Moscou, Toronto, Melbourne e até uma reforma, não executada, para o vale do Anhangabaú.

A Folha convidou o urbanista para conhecer bairros que concentram boa parte do PIB paulistano, inclusive aquele onde mora o prefeito João Doria (PSDB), o Jardim Europa, na zona oeste.

*

NA FARIA LIMA

Os funcionários são mais produtivos se estão felizes. Dá para ser feliz aqui? Onde esses empresários estão com a cabeça? O que há para se ver aqui? Para ficar, usufruir?
Olha ali, os fumantes são os privilegiados. O fumódromo fica no térreo, é uma chance de ficar ao ar livre, de ver gente diferente passar, de espontaneidade. Coitado de quem não fuma.

'ANTIGO' ITAIM

Estou vendo as pessoas saírem das torres de escritórios e irem caminhando para almoçar no lado de lá [na parte não "modernizada" do Itaim, próximo à av. Horácio Lafer e a av. Faria Lima ]. Tem predinhos, casas, restaurantes no térreo. É o velho urbanismo dando uma lição na modernidade.
Quando pedestre tem que dar uma volta enorme para sair do próprio prédio em que trabalha porque a saída dos carros é mais central, há algo muito errado.

NA VILA OLÍMPIA

Quanta mesmice. Você passa bairros e mais bairros e tudo parece igual. Não há um marco, algo que diferencie ou que dê identidade. Um bom espaço público. Esses jardinzinhos na entrada dos prédios não servem para nada, nem para sentar.

As ciclovias são estreitas! Vocês reduziram canteiros para não reduzir faixas para carros? Parece pecado mortal aqui reduzir espaço para automóveis, mais importantes que o verde.

NA BERRINI

Aqui você vê o capitalismo forte, não faltou dinheiro para construir essas torres, mas há sinais de uma liderança muito fraca e um planejamento muito pobre. A prefeitura parece se limitar a dar alvarás e cada um constrói o que quiser no lote. Não há a menor coerência.

NO PARQUE CIDADE JARDIM

Como é a vida de crianças e idosos nesses prédios? Imagina um cachorro que more aí? Pobrezinho. O morador pega o elevador e ao chegar no apartamento diz "ufa!, cheguei". É uma fuga, um esconderijo. Só há dois tipos de pessoas que se beneficiam dos arranha-céus: quem mora nos últimos três andares e quem vive a 5 km de distância e desfruta o "skyline".

Paris e Barcelona são mais densas que Nova York e quase não têm arranha-céus. Têm edifícios médios, de oito andares, colados um ao ao outro, sem recuo na entrada. E se permitem ter pátios ou jardins no coração da quadra.

É um mito que densidade se faz com prédio alto. Aqui vocês têm recuos na frente, atrás e dos lados, criando espaços inúteis.

NO JARDIM EUROPA

Essas casas parecem prisões. Os muros são tão altos e ainda colocam cercas elétricas em cima. Não sou especialista em segurança, mas duvido da eficácia dessas fortalezas.

Me sinto seguro quando meus vizinhos podem olhar
o que acontece na minha casa e chamar a polícia se suspeitarem de algo. Isolados dessa forma, quem vai conseguir ver uma invasão?

Claramente vocês precisam focar e resolver esse problema de segurança. É muito difícil valorizar o espaço público em uma sociedade com medo. As cidades americanas eram muito violentas nos anos 1980 e deram um jeito. Estudem com eles.

NO JARDIM AMÉRICA

Já atravessamos um quilômetro e só vi guardas e empregados das casas na rua. Tem criança morando aqui? Não é um bairro saudável. Sério que lutaram para impedir comércios e outros usos nesse bairro? Não acredito. Quem não quer tomar um cappuccino na esquina de casa e ver gente passar? Somos animais sociáveis, queremos ver gente. Mas as calçadas têm obstáculos demais. Muitos postes, muitos buracos, interrupções.

VELOCIDADE E SEGURANÇA

Quase todas as ruas têm mão única, o que é mau sinal. Em Copenhague, conseguimos fazer com que quase todas tenham mão dupla. Isso faz com que os motoristas andem mais devagar, aconteçam menos acidentes, e seja mais fácil de se atravessar.

Esse sinal vermelho piscando enquanto é ainda o momento do pedestre atravessar eu chamo de "corra, mamãe, corra". Assusta o pedestre e mostra quem é que tem prioridade: o carro.
Acontece em cidades com muito engenheiro de trânsito, mas nenhum para pedestres.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Marx e o positivismo: uma análise preliminar

Por André,

Para compreenderem o motivo do esclarecimento, por favor, dirijam-se à parte dos comentários da resenha que fiz do livro "O que é Ideologia" (Marilena Chaui, ed. Brasiliense): http://www.andreassibarreto.org/2011/11/resenha-o-que-e-ideologia-marilena.html

Nos comentários, alegam que Marx (ou o movimento marxista - estensão minha) não foi um positivista. Desnecessário dizer que, voluntariamente tanto Marx quanto os marxistas rejeitaram Comte e seu positivismo, inclusive com a acusação universal do mesmo ser um suposto "reacionário". A questão é que, ipso facto, tanto Marx quanto os marxistas são positivistas em suas crenças.

O prof. Olavo trata dessa transfiguração no vídeo abaixo:

domingo, 13 de novembro de 2016

Michel Houellebecq em entrevista para a Época sobre Trump, Le Pen e islamismo

Por Época,

Nascido na Ilha da Reunião, em 1956, Michel Houellebecq tornou-se conhecido em 1994 com um pequeno romance chamado Extensão do domínio da luta. Nele, a sexualidade é tratada como um “sistema de hierarquia social”. Em 1998, alcançou o sucesso mundial comPartículas elementares. Poeta, ator, cineasta, compositor, romancista e fotógrafo, Houellebecq é um falso tímido. Fala pouco, baixo e lentamente, mas cada frase tende a ser uma bomba. Em 2001, lançou Plataforma, história que termina com um atentado terrorista. Em 2010, venceu o Prêmio Goncourt, considerado o Nobel da literatura francesa, com O mapa e o território. Foi processado por ter classificado o islamismo como “a religião mais idiota de todas”. Em 2015, estava na capa do Charlie Hebdo quando o jornal satírico francês sofreu um atentado praticado por terroristas islâmicos. Era o dia da sessão de autógrafos – que precisou ser cancelada – de Submissão, romance no qual Houellebecq imagina um muçulmano na Presidência da França. Traduzido em mais de 50 países, ele ocupa o lugar de mais famoso e polêmico escritor francês atual. Em 2016, dominou o Palais Tokyo, em Paris, com uma exposição fotográfica louvada pela crítica. Na semana passada, fez uma conferência no ciclo Fronteiras do Pensamento, em Porto Alegre, onde criticou intelectuais franceses famosos como Jean-Paul Sartre, Albert Camus, Jacques Derrida, Gilles Deleuze, Jacques Lacan e Michel Foucault – para ele, obscuros, vazios e incompreensíveis. Nesta entrevista a ÉPOCA, Houellebecq fala sobre literatura, política, religião, sexo, intelectualidade e, claro, de Donald Trump. Ateu, Houellebecq persevera num paradoxo: sem Deus, a humanidade não tem salvação.


ÉPOCA – Como viu o duelo entre Donald Trump e Hillary Clinton e a vitória do republicano? 

Michel Houellebecq Vi como algo enfadonho. Resolvi assistir a um dos debates. Cansei logo. No começo, os golpes baixos, as provocações, os blefes e as alfinetadas de todos os tipos até parecem interessantes. Depois, isso cansa e dá para ver o vazio do espetáculo. Não consegui localizar as ideias, os grandes planos, as propostas diferentes. Achei muita aparência para pouco conteúdo. É claro que cada lado exagera os perigos do outro. A estratégia de atemorizar os eleitores nunca é descartada. Não existe na França um equivalente a Donald Trump. No passado não muito distante, tivemos Bernard Tapie [empresário que foi presidente de clube de futebol e político],que era fanfarrão, exagerava sua fortuna e vivia envolvido em escândalos. Passou. Tapie era desprezado pelos verdadeiros empresários e as ideias dele não eram muito precisas. Tudo nele remete a Trump. É um erro associar Trump a Marine Le Pen [política francesa de extrema-direita]. São diferentes. Não sei o que vai resultar dessa eleição. Por um lado, se Trump, como ele disse, deixar de lado a Otan e investir menos em guerras, será ótimo. Perigoso era George Bush, que provocou uma tragédia no Iraque. Barack Obama já foi mais parcimonioso. Trump será perigoso se retomar o comportamento tradicionalmente belicista dos republicanos. Se não fizer isso, poderá não se sair mal.


ÉPOCA – A política o fascina tanto quanto a literatura?

Houellebecq – A política pode ser matéria da literatura. Eu a usei em Submissão. Meu interesse por ela, no entanto, é bastante variável. Há épocas em que acompanho muito o noticiário político pela televisão. Não sou muito de me dedicar aos jornais. Na França, os jornais estão sendo abandonados pelos leitores. Em outros momentos, porém, deixo de lado a política. Sou como todo mundo. A política tem um lado folhetinesco de jogos de poder, ambições, ascensões e quedas. Isso acaba nos chamando a atenção ou nos cansando. Li sobre a destituição da presidente do Brasil. Não consegui entender o que aconteceu. Parei de ler. O que me interessa mesmo na política é seu aspecto tático, o jogo, as estratégias, a disputa, não o conteúdo.


ÉPOCA – Suas posições sobre religião criam polêmica. O islamismo radical continua a ser a grande ameaça para o Ocidente?

Houellebecq – Certamente. Os atentados aconteceram e vão continuar a acontecer. Quando uma religião, com setores extremistas, é minoritária num lugar, surge a possibilidade da ruptura. Normalmente, as religiões ajudam a organizar as sociedades. No caso do islamismo radical, ocorre o contrário, uma desestruturação. E é só o começo.


ÉPOCA – Uma onda conservadora parece avançar no Ocidente. Marine Le Pen, líder da Frente Nacional, será presidente da França?

Houellebecq – Pode ser que ela chegue à Presidência da França algum dia, mas não será na próxima eleição. Apesar de estar sempre crescendo, ela ainda está muito distante de ter os votos necessários para ganhar uma eleição presidencial. O jogo já me parece jogado. François Hollande quer ser candidato, embora seja uma nulidade como presidente. Os socialistas talvez não saibam ainda como fazer para se livrar dele. Todos tentam convencê-lo a cair fora. Nicolas Sarkozy também quer voltar. Mas o próximo presidente da França deverá ser mesmo Alain Juppé [ex-primeiro-ministro, liberal, candidato nas primárias da direita francesa]. Ele largou na frente e tem tudo para ganhar. A rejeição a ele parece ser menor que a destinada a seus adversários.


ÉPOCA – O populismo ameaça as democracias ocidentais?

Houellebecq – O populismo é uma realidade. Também é verdade que se tem chamado de populismo qualquer tentativa de tirar o poder das elites. Há populistas demagogos e perigosos e há quem seja considerado populista por especialistas em estratégias de desqualificação. Os “novos progressistas”, gente da velha esquerda com roupagem nova, chamam de novos reacionários todos os que não seguem suas ladainhas. Quem não usa smartphone é reacionário. Quem quer mais democracia direta e menos politicagem convencional, também.


ÉPOCA – Há épocas de aceleração histórica inesperada. O Brexit representa um fracasso irreversível para a União Europeia?

Houellebecq – É uma pena que o Brexit não consiga derrubar a ideia de uma união europeia de vez. Não entendo a razão de tantos lamentos. Jamais encontrei um só ponto positivo no projeto europeu. Tudo está baseado em pilares falsos. Não há um só verdadeiro ponto cultural em comum entre os diferentes países para que eles queiram ou possam viver juntos abdicando de suas particularidades e da autonomia que cada um dispõe como nação independente. O fato de que a Justiça tenha decidido que o Parlamento britânico deve dar sua palavra sobre o que foi decidido em plebiscito é estranho, algo como uma invalidação da posição dos eleitores. Tomara que se confirme a saída. A União Europeia não passa de uma ideia de tecnocratas que nunca compreenderam bem as especificidades de cada país. Em todo caso, a saída da Inglaterra da União Europeia nada tem a ver com a chamada crise dos refugiados, como se costuma dizer por facilidade ou superficialidade. Os ingleses nunca se sentiram realmente parte desse projeto absurdo. A pergunta que todos deveriam se fazer todos os dias é esta: como foi possível embarcar tanta gente, tantos países, tantas línguas numa ideia tão inadequada e tão fadada ao fracasso?

Chuck Norris versus Comunismo

Por André,


Acabo de assistir o documentário "Chuck Norris versus Comunismo", peça que relata a vida sobre a ditadura comunista de Ceaucescu na Romênia e como parte do suspiro de sobrevivência das pessoas vinha da possibilidade de assistirem filmes "ocidentais" clandestinamente em suas casas.

O filme nos traz muitos insights: amantes ocidentais do comunismo são imbecis imorais; atividades que nós consideramos triviais se tornam absolutamente revolucionárias sob a cortina de um totalitarismo; não tivemos ditadura no Brasil; o imaginário das consciências individuais é a arma mais poderosa do mundo por, entre outras coisas ser, no limite, impenetrável. 

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Caos estético VI - UFPR invadida

Por André,

A moda da vez entre os pensadores "críticos" que repetem os mesmos jargões socialistas da Guerra Fria é a invasão de escolas.

Entre tantos resultados maléficos da ação, certamente um dos piores é o caos estético que instalam nos ambientes que invadem:






terça-feira, 1 de novembro de 2016

Minha página no Facebook

Por André,


Caros, eis que este post vem em primeira pessoa.

Estou começando um novo empreendimento, dispendioso porém necessário, uma página no Facebook. Não apenas pelo recente bloqueio que sofri por parte da rede social, mas por necessidade e para um alcance maior de público.

Os temas seguem os mesmos de interesse deste blog.

Peço a gentileza que os usuários da rede curtam:

https://www.facebook.com/aassibarreto/

Νεκρομαντεῖον: Eric Voegelin e o fundamento da ciência política

Νεκρομαντεῖον: Eric Voegelin e o fundamento da ciência política: "O evento decisivo no estabelecimento da politike episteme foi a percepção especificamente filosófica de que os níveis do Ser di...