domingo, 26 de junho de 2016

Palestra: "Eric Voegelin e as religiões políticas", 2º Ciclo de Palestras Santa Generosa

Por André,


Terei o prazer e honra de fazer uma breve apresentação sobre o tema "Eric Voegelin e as religiões políticas" no 2º Ciclo de palestras Santa Generosa, organizado pelo prof. Rodrigo Gurgel e que já contou com a participação de nomes como Benê Barbosa, Flavio Morgenstern, Josias Teófilo, Paulo Cruz e outros.

A coisa ocorrerá no dia 30 do mês corrente, às 20 horas. Haverá registro em vídeo, com transmissão ao vivo. Após a palestra disponibilizarei o power point.


sexta-feira, 24 de junho de 2016

Brexit: vitória dos mais pobres, remain: voto das elites, da burocracia e dos ricos

Por André,



PRA SABER COMO A ESQUERDA AMA OS POBRES

Resultados interessantes de uma pesquisa de opinião da The Economist sobre o Brexit:

Entre os conservadores (direita): 38 ficar, 53 sair, 8 não sabem.

Entre os trabalhistas (esquerda): 65 ficar, 28 sair, 8 não sabem.

Entre os homens: 41 ficar, 41 sair, 6 não sabem.

Entre as mulheres: 37 ficar, 39 sair, 10 não sabem.

Entre os ricos: 54 ficar, 37 sair, 7 não sabem.

Entre os pobres: 34 ficar, 53 sair, 11 não sabem.

Grupos que querem ficar: esquerda e ricos.
Grupos que querem sair: conservadores, mulheres e pobres. Oligarcas, eurocratas, Obama, George Soros.

MAIS uma vez, como tem sido há bons tempos, o esquerdismo está associado às vontades das elites autoproclamadas sábias e poderosas, representadas pelo establishment político e, no caso europeu, pela eurocracia de Bruxelas.

SÓ TENHO 01 COISA A DIZER: CHORA MAIS. E se reclamar muito vem Donald Trump por aí.

Dados extraídos de: http://www.economist.com/…/…/2016/06/britain-s-eu-referendum

sábado, 18 de junho de 2016

Documentário sobre as charges dinamarquesas de Maomé

Por André,

Por indicação do amigo Marcio Scansani, assisti esse belo documentário da TV portuguesa RTP. Um ótimo antídoto para aqueles dispostos a "dourar a pílula" do islã e serem mais realistas que o rei afirmando a natureza pacífica da religião de Maomé. 

Também fica mais uma vez nítido o embuste que é a distinção entre a "minoria radical" e a "maioria violenta": a maioria violenta age, incitada pelos líderes, com a cumplicidade dos pacíficos que simplesmente afirmam "aguardem a reação" (não será deles, os "pacíficos", mas virá de algum lugar e eles não farão nada sobre isso):

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Mérito literário por Olavo de Carvalho

Por André,



"Eu já vi algumas teses universitárias, que o pessoal me manda, às vezes [com] coisas altamente requintadas de filosofia e um erro de ortografia em cada linha. E onde tem erro de ortografia fatalmente você vai ter erros de sintaxe também. Você tem um material que às vezes está altamente elaborado do ponto de vista lógico, mas não tem uma elaboração equivalente do ponto de vista gramatical, o que significa que não vão se tornar produto de cultura superior. Se o sujeito escreve uma tese que está cheia de boas idéias, está bem pensada, bem articuladinha, mas não está corretamente escrita e adequadamente escrita, então aquilo vai ser sempre uma demonstração de força pessoal. Quer dizer, ele mostrou que ele é capaz de fazer, mas ele não fez ainda. Os produtos de cultura superior se caracterizam sobretudo pela forma acabada. Eles tem uma forma que é estabilizada e se incorpora então na cultura superior. Se não tem a forma então é como se fosse uma estátua que você fez em barro, mas o barro não seca, então aquilo toda hora perde a forma.

Se não tem forma, se tem apenas 'conteúdo', conteúdo significa uma intenção que está indo em direção a uma forma, mas ainda não chegou lá. Mais ainda: a única coisa que sobra de fato das grandes obras da cultura é a forma, por que o “conteúdo” é comum a toda a humanidade. Tudo aquilo que Shakespeare escreveu está mais ou menos na alma de cada um. A única diferença é que Shakespeare conseguiu apreender aquilo como uma forma — não só apreender, mas conseguiu registrar de algum modo. É como se esses conteúdos estivessem constantemente fluindo por todas as mentes, mas de uma maneira muito rápida e inapreensível, de maneira que o sujeito percebe a coisa e no instante seguinte já esqueceu.

Certamente a diferença de nível de consciência nas pessoas não está na diferença de sensitividade. A nossa sensitividade é mais ou menos igual. A diferença está exatamente na capacidade de retenção, e portanto na capacidade de criar uma forma com aquilo. Esta é a única diferença. Isso é uma coisa que eu tenho observado: muitas pessoas me escrevem dizendo: 'Puxa, você disse exatamente aquilo que eu queria dizer e não conseguia'. Só que no Brasil isso significa o seguinte: que você não tem mérito nenhum, o mérito é de quem percebeu sem conseguir dizer. O cara que disse, ele está ali apenas como uma espécie de boneco de ventríloquo... quando, justamente, você conseguir dizer o que os outros também estão percebendo[, mas sem conseguir dizer,] é o único mérito literário que existe. Exatamente o único.

A única diferença entre Shakespeare e eu é que ele conseguiu dizer umas coisas que eu também pensei, mas eu não consegui dizer. Eu pensei por uma fração de segundos, não me tornei proprietário daquilo. Até a expressão “criação literária” é um termo um pouco exagerado. Não existe propriamente uma criação, mas um registro; existe uma retenção e um registro. E na diferente capacidade de retenção e registro reside a diferença entre o Seu Zé Mané e Shakespeare ou Camões.

Também não se trata do conteúdo: os conteúdos que nós percebemos são mais ou menos os mesmos. Nós temos as mesmas sensações, as mesmas emoções. Todo mundo percebe a mesma coisa, mas um percebe por uma fração de segundo, e o outro retém. É uma questão também de fixação da atenção. Porém, se a base fônica não está perfeita, se o indivíduo não tem as distinções e a retenção das distinções entre milhares de fonemas diferentes, então ele também não vai ter, no grau seguinte, as distinções entre as várias percepções."

COF, aula 88, gritos meus.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Indicação bibliográfica sobre educação

Por Daniel Fernandes,


1. Olavo de Carvalho, Educação Liberal. Palestra no Hotel Glória, 2001.
2. Henri-Irenne Marrou, História da Educação na Antiguidade.
3. Javier Vergara Ciordia, Historia de la Educación.
4. Michael Oakeshott, La voz del aprendizaje liberal.
5. Isabele Stal / Françoise Thom, A Escola dos Bárbaros.
6. C.S.Lewis, A abolição do homem.
7. Christopher Dawson, La crisis de la educación occidental.
8. Inger Enkvist, Educación: guía para perplejos.
9. Inger Enkvist, La buena y mala educación.
10. Inger Enkvist, Repensar a educação.
11. E.D. Hirsch, La escuela que necesitamos.
12. Jacques Maritain, Os rumos da educação.
13. Werner Jaeger, Paideia: a formação do homem grego.
14. José Antônio Marina, El mistério de la voluntad perdida.
15. Georges Gusdorf, Professores para quê?
16. Charles L. Gleen, El mito de la escuela pública.
17. Pascal Bernardin, Maquiavel pedagogo.
18. George Steiner, Lições dos Mestres.
19. Leo Strauss, O que é educação liberal.
20. Fausto Zamboni, Contra a Escola.
21. Lucien Morin, Os charlatães da nova pedagogia.
22. Ananda Coomaraswamy, O bicho-papão da alfabetização.

domingo, 5 de junho de 2016

Pequena ode a Gilberto Freyre

Por Daniel Fernandes,


Antes de completar 18 anos, Gilberto Freyre já havia lido Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Tomás de Aquino, Descartes, Hobbes, Spinoza, Hume, Kant, Hegel, Comte, Schopenhauer, Nietzsche, William James, Spencer, Henry Bergson, Marx, J.S. Mill, Taine, Dante, Cervantes, John Bunyan, Pascal, La Fontaine, Shakespeare, John Milton, Defoe, Goethe, Vítor Hugo, Baudelaire, Antero de Quental, Dickens,Renan, Anatole France, Tolstói, Machado de Assis, Camões e Eça de Queirós (quase todo). Movia-se com desembaraço, através da leitura, na língua portuguesa, inglesa, francesa, espanhola, italiana e na própria língua latina. Sabia alguma coisa de grego. Devorador de livros desde os 13 anos de idade, o menino pagava o preço de uma vida de estudos no Brasil: 

"Com quem posso conversar em torno de minhas leituras de filósofos e de poetas e escritores mais profundos? Com ninguém. Esta é que é a verdade. [...] Dos estudantes mais velhos do que eu, com nenhum posso ir muito longe em conversas sobre tais assuntos." (Giberto Freyre, Tempo morto e outros tempos). 

Já em 1919, quando estudava na Universidade de Baylor, conheceu um estudante brasileiro que chegava naquelas bandas. Lê o episódio:

"Um estudante recém-chegado é o baiano Landulfo Alves. Excelente pessoa. Mas impregnado como ele só de preconceitos brasileiros. Inclusive o da doutorice." Landulfo logo lhe perguntou: "Vai se doutorar em quê, Gilberto?" - "Disse-lhe que não me preocupo com isso. O que me interessa é estudar, adquirir saber, aperfeiçoar conhecimentos de acordo com minhas tendências." O estudante brasileiro ficou escandalizado, assombrado: "Arregalou os olhos como se estivesse diante de um maluco." Então, o jovem Gilberto rematou com chave de ouro: "Olha, estou disposto a instruir-me o máximo, mas sem profissionalizar-se de acordo com as convenções em vigor. Quero criar meu próprio caminho. Fingindo, até, quando voltar ao Brasil, não ser homem formado." 

Terminada as matérias na Universidade de Baylor, seguiu para a Universidade de Columbia, mas sempre sem dar importância aos graus acadêmicos: "Preciso dar o exemplo de desprezar a mania pelos graus acadêmicos que torna o Brasil tão ridículo." Na época, Gilberto tinha dois apelidos: "Genius" e "Wisdom". Sua vida, como açucenas, já era um feixe de prenúncios. A marca distintiva do gênio já estava nele.

Indicações bibliográficas sobre a vida intelectual

Por Daniel Fernandes,


1. São Tomás de Aquino, O ofício do sábio.
2. A.D.Sertillanges, A vida intelectual.
3. Louis Riboulet, Rumo à Cultura [Conselhos sobre o Trabalho Intelectual, aos estudantes e aos jovens mestres].
4. Hugo de São Vítor. Didascalicon. Da arte de ler.
5. Manuel Belda & Johannes Stöhr, Estudio y espiritualidad.
6. Jean Guitton, El trabajo intelectual.
7. Jean Guitton, Nuevo arte de pensar.
8. Olavo de Carvalho, Introdução à vida intelectual.
9. Olavo de Carvalho, Sobre a Arte de Estudar.
10. Jaime Nubiola, El taller de la filosofia.
11. Mira y López, Como estudar e como aprender.
12. Jacques Maritain, De la vida de oración [Vida intelectual y la oración].
13. Rafael Caldera, El ofício del sabio.
14. Julián Marías, El intelectual y su mundo.
15. Julián Marías, El ofício del pensamento (ensayo).
16. Etienne Gilson, Amor a la sabiduría.
17. Julio Payot, A educação da vontade.
18. Dietrich von Hildebrand, Atitudes éticas fundamentais.
19. Papa João Paulo II, Carta encíclica Fides et Ratio.
20. Pável Florensky, Cartas de la prisión y de los campos.

Textos:

21. Simone Weil, Reflexiones sobre el buen uso de los estudios escolares como medio de cultivar el amor a Dios.

22. Etienne Gilson, La inteligência al servicio de Cristo Rey (Conferência)

Para completar:

23. Mortimer Adler, A Arte de Ler.
24. Susan Bauer, Como educar sua mente.
25. Julián Marías, O lugar da literatura na educação.
26. Pedro de Moura e Sá, Vida e Literatura.
27. Luiz Gonzaga de Carvalho Neto, A importância da literatura.[Vídeo]
28. Luiz Gonzaga de Carvalho Neto, A leitura dos clássicos [Vídeo / Aula de apresentação]
29. Leo Strauss, O que é educação liberal? [Discurso]
30. Olavo de Carvalho, Educação Liberal [Palestra]
31. Olavo de Carvalho, Princípios e métodos da autoeducação [Curso]
32. Olavo de Carvalho, Curso Online de Filosofia [COF]

sábado, 4 de junho de 2016

Milo Yianoppoulos é apresentado ao público brasileiro por Bruno Garschagen

Por André,

Orgulhosamente, fui um dos primeiros a divulgar e falar de Milo Yianoppoulos (dica do amigo Marcelo de Mattos Salgado) no mercado de ideias nacional. Pois bem, em sua coluna no jornal Extra de ontem, o também amigo Bruno Garschagen apresentou-o ao público brasileiro:


Há personagens que bagunçam todo um esquema de pensamento e de preconceito que se possa ter. E anulam a narrativa das pessoas que anulam-se voluntariamente na "cultura do espírito crítico" ou na "cultura dos coletivos" ideológicos acéfalos.

No início dos anos 2000, o comentarista político conservador Andrew Sullivan incendiou a blogosfera com suas opiniões. Formado na Universidade de Oxford, Sullivan tornou-se doutor pela Universidade Harvard com uma tese sobre o filósofo político Michael Oakeshott. Foi uma grande influência para mim e para alguns amigos com sua atividade de blogueiro e escritor (aposentou-se do blog em 2015). Mas lembro da surpresa de muitos quando descobriam que ele era não apenas conservador, mas também homossexual e católico.

(Explicarei futuramente aqui neste blog o que é ser conservador, definição completamente distinta da caricatura que se faz no Brasil)

Neste 2016, muita gente tem conhecido e se surpreendido com Milo Yiannopoulos, jornalista e editor-associado do site Breitbart que botou fogo na internet e agora está incendiando as universidades dos Estados Unidos com uma série de palestras contra o feminismo batizada de " Turnê da Bicha Perigosa" ( no Youtube é possível ver o tamanho do estrago que ele tem causado). Milo, que largou a Universidade de Cambridge depois de dois anos estudando literatura inglesa, fez carreira brilhante como jornalista especializado em tecnologia até se transformar em disputado comentarista político e social.

Assim como Sullivan, Milo é gay e católico. E está sendo celebrado com uma estrela em ascensão da direita – assim como Sullivan no passado. Para apimentar ainda mais os pontos em comum, Sullivan e Milo são ingleses, país com matriz católica que depois foi transformado em Anglicano à força pelo rei Henrique VIII no século XVI.

Para mim, o fato de os dois serem gays é irrelevante. Aquilo que pensam e defendem é relevante. Mas acredito que muita gente torça o nariz para a combinação gay + católico + conservador. A começar pelo esquerdista, que perderia o tipo de "minoria" que adora tomar para si como se dona fosse porque isto é politicamente conveniente. Eu, por outro lado, jamais tomaria para mim a combinação homem ou mulher + membro da Teologia da Libertação + marxista porque é o tipo de soma que subtrai.

Os exemplos de Sullivan e Milo mostram que a vida real é muito mais complexa do que se pretende a vã ideologia quando tenta enquadrar a realidade num corpo de ideias abstratas.

domingo, 29 de maio de 2016

O caso do estupro coletivo: vivemos num completo quadro de histeria coletiva e guerra de narrativas

Por André,

Estupro é o crime mais repudiado pela sociedade. A ponto de nem mesmo a ética do banditismo tolerá-lo. Contudo, os militantes precisam reforçar suas narrativas ideológicas (há uma "cultura do estupro", o Brasil é um país racista e sexista etc) e sem qualquer ponto a ser investigado se aproveitaram de uma tragédia para politizar o debate militando contra a "cultura do estupro". Como praticamente todas essas campanhas, se trata de mais um produto importado da América, criado pela esquerda universitária. Por aquelas bandas a narrativa é tão mitológica que, se levada a sério, provaria que nas universidades americanas acontecem tantos estupros quanto no Congo!

O brilhante Milo Yiannopoulos comenta o gatilho:




Contudo, mais uma vez, a suspeita começou a pairar sobre o caso, como usualmente acontece em casos politizados pela militância. Se nos EUA há uma oposição forte a essas ideologias militantes, no Brasil não observamos o mesmo.

Áudios e o depoimento de um ex-namorado da garota fazem crer que não houve crime de estupro (a divulgação do vídeo é criminosa e quanto a isso não resta dúvidas). E a coisa não termina aí. A advogada da garota foi presa por ativismo político virulento (e ainda). Um claro movimento no sentido de ideologizar o caso.


Conforme disse o amigo Flavio Morgenstern, um país que politiza um estupro politiza qualquer coisa. É a doença espiritual que Eric Voegelin chamou de "fé metástatica", a politização total, completa e imediata da vida, indiscernível de toda militância deturpada, como mostrou Olavo de Carvalho em artigo de 2003 (!):

Ser um militante é estar inserido numa organização política, submetido a uma linha de comando e envolvido por uma atmosfera de camaradagem e cumplicidade com os membros da mesma organização. Ser um simpatizante ou um “companheiro de viagem” é estar mergulhado nessa atmosfera, obedecendo à mesma linha de comando não por um comprometimento formal como os militantes mas por hábito, por expectativa de vantagens ou conivência emocional. 
Sem uma rede de militantes, simpatizantes e companheiros de viagem, não existe ação política. Com ela, a ação política, se não limitada por fatores externos consolidados historicamente – a religião e a cultura em primeiro lugar -- pode estender-se a todos os domínios da vida social, mesmo os mais distantes da “política” em sentido estrito, como por exemplo a pré-escola, os consultórios de aconselhamento psicológico e sexual, as artes e espetáculos, os cultos religiosos, as campanhas de caridade, até a convivência familiar. A diferença entre os partidos constitucionais normais e os partidos revolucionários é que aqueles limitam sua esfera de ação à área permitida pela cultura e pela religião, ao passo que os partidos revolucionários destroem a cultura e a religião para remoldá-las à imagem e semelhança de seus ideais políticos. 
Abolindo os freios tradicionais – o que é facílimo num país de cultura superficial como o Brasil --, a organização da militância revolucionária transforma todos os ramos da atividade social, todas as conversações, todos os contatos humanos, mesmo os mais aparentemente apolíticos e ingênuos, em instrumentos não-declarados de expansão do poder do partido. Sei que essa concepção é monstruosa, mas ela não é minha. É de Antonio Gramsci. Uma vez que ela seja posta em execução numa dada sociedade e aí alcance razoável sucesso, toda a existência humana nessa sociedade será afetada de hipocrisia e duplicidade, pois aí praticamente não haverá ato ou palavra, por mais inocente ou espontâneo, que não sirva, consciente ou inconscientemente, a uma dupla finalidade: aquela que seu agente individual tem em vista no seu horizonte de consciência pessoal, e aquela a que serve, volens nolens, no conjunto da estratégia de transformação política que canaliza invisivelmente os efeitos de suas ações para a confluência num resultado geral que ele seria incapaz de calcular e até de conceber. 
Uma vez desencadeado esse processo, a completa degradação moral e intelectual da sociedade segue-se como um efeito inevitável, mas isso é vantajoso para o partido, pois acelera o processo de mudança revolucionária e pode ser utilizado ainda como material de propaganda contra a “sociedade degradada” por aqueles mesmos que a deterioraram, os quais assim obtêm de suas más ações o lucro indiscutível de ocupar sempre a tribuna dos acusadores enquanto as vítimas ficam no banco dos réus. 
Mas os agentes condutores não saem ilesos do processo que desencadearam. No curso das transformações revolucionárias, terão de se esmerar na arte do discurso duplo, justificando seus atos perante o público geral segundo os valores correntemente admitidos, e segundo as metas partidárias para o círculo dos militantes que as conhecem e as compartilham. À medida que estas metas vão sendo alcançadas, é preciso reajustar as duas faixas do discurso ao novo padrão de equilíbrio instável resultante do arranjo momentâneo entre o “antigo” e o “novo”, isto é, entre o que o público em geral imagina que está acontecendo e o mapa de um trajeto só conhecido pela elite dirigente partidária. Esses reajustes não são só artifícios retóricos para ludibriar o povo. São revisões do caminho para reorientar os próprios dirigentes e implementar as adaptações táticas necessárias a cada momento. 
Quem nunca militou num partido revolucionário mal pode imaginar a freqüência e a intensidade dessas revisões, nem as prodigiosas dificuldades que elas comportam. E só quem tem alguma idéia disso pode compreender as contradições de um governo de transição revolucionária, distinguindo as aparentes das reais. Praticamente a totalidade dos comentários políticos que circulam sobre o governo Lula refletem apenas a inabilidade de fazer essa distinção.

ADENDO de 01/06/16:

Observem a matéria do Jornal Extra sobre estupro e verifiquem a trincheira de uma guerra de narrativas. 


PERCEBAM, meu caros, para alguns houve estupro PORQUE HOUVE estupro e fim. Não há disposição para investigar as evidências.

O caso não é relativizar o crime: divulgar vídeo íntimo é crime; a orgia desandou e os caras violaram a garota inconsciente? Foi estupro, ok. Mas se a ocasião era uma orgia consensual e comum na "cultura da favela, do funk e das drogas" há um grande problema aí:

Caso essa seja a versão factual das coisas, isso relativiza a ideia de "cultura do estupro", relativiza a narrativa que afirma que o Brasil é um país machista e tolerante com o estupro, por isso foi estupro e acabou, não importa que as evidências no mínimo turvem o caso, não importa o laudo médico que diz que não houve, HOUVE e acabou.