quinta-feira, 21 de setembro de 2017

"Ela caminha em Beleza", por Lord Byron

Por André,



She walks in beauty, like the night 
Of cloudless climes and starry skies; 
And all that’s best of dark and bright 
Meet in her aspect and her eyes; 
Thus mellowed to that tender light 
Which heaven to gaudy day denies. 

One shade the more, one ray the less, 
Had half impaired the nameless grace 
Which waves in every raven tress, 
Or softly lightens o’er her face; 
Where thoughts serenely sweet express, 
How pure, how dear their dwelling-place. 

And on that cheek, and o’er that brow, 
So soft, so calm, yet eloquent, 
The smiles that win, the tints that glow, 
But tell of days in goodness spent, 
A mind at peace with all below, 
A heart whose love is innocent!


Ela caminha em beleza, tal como a noite
de clima desanuviado e céus cintilantes;
e tudo que de melhor há no brilho e na escuridão
encontre em seu semblante e em seus olhos;
aquela luz tenra e amadurecida
cujos céus negam aos dias ofuscantes.

Uma sombra acrescida, um raio de luz excetuado,
teriam cortado ao meio sua graça inominável
que ondula em cada uma de suas madeixas negras,
ou que suavemente ilumina sua face;
Onde os pensamentos se expressam dócilmente
e se mostra quão pura e querida é sua morada.

E em suas bochechas, bem como em sua fronte,
seus traços, tão suaves, tão calmos e, ainda assim, eloquentes,
os sorrisos que triunfam, o tom de pele que enrubesce,
falam apenas de dias em que a bondade prevaleceu,
Uma alma cuja paz a todos transparece,
um coração cujo amor é inocente!
(Tradução André Assi Barreto)

sábado, 16 de setembro de 2017

domingo, 10 de setembro de 2017

William Faulkner sobre a leitura

Por André,



"Leia, leia e leia. Leia de tudo - porcarias, clássicos, coisas boas e ruins e observe como são. Da mesma maneira que um carpinteiro que trabalha como aprendiz e estuda o mestre. Leia! Você absorverá. Então escreva. Se for bom, irá descobrir. Se não for, jogue pela janela". 
Em: 'Absalom, Absalom'

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

O caráter pedagógico da provocação e da polêmica

Por André (originalmente no Facebook),


Na minha apresentação no Facebook eu escrevo que sou "extremista de extrema-direita". Na do Twitter, "agente da CIA". Outro dia comprei e postei minha recente aquisição de uma bandeira dos estados confederados.

Conheço almas nobilíssimas, gente que considero com todas as minhas forças, que fogem de provocações e polêmicas como muçulmano foge de bacon. Quando peço explicações do porquê serem assim, são as mais satisfatórias possíveis. Contudo, alguém precisa fazer o trabalho sujo e eu acredito que provocações e polêmicas, além da balbúrdia que causam, sempre levam algumas almas a irem adiante no assunto em questão.

Não acho que eu seja um extremista, ou seja, não é o caso que a pecha me descreva com precisão, mas é provocador, irrita as pessoas certas e faz alguns principiantes buscarem saber que tal ideia é essa que esse cara tá dizendo que acredita nela ao extremo.

Não é o caso que eu me identifique por completo com os ideais dos confederados americanos. Mas muita merda é dita sobre eles, certamente alguém, ao ver minha mera bandeirinha, ficou tentado a ir pesquisar mais sobre esses caras "malvadões", duvidando que estritamente tudo que dizem sobre eles é verdade.

Os exemplos se multiplicam aritmeticamente.

Acredito com muita convicção que uma argumentação formal não surtiria o mesmo efeito. Ou não surtiria efeito nas mesmas pessoas que foram tentadas pela provocação. Como há mais argumentadores formais que provocadores polêmicos, que pelo menos uma partezinha do que fazemos seja revestida de um pouco da boa e velha provocação. 

Os doídos? Os doídos podem procurar seu metro quadrado totalmente seguro e chorar por lá mesmo. O caso citado não é mero exemplo, mais de uma pessoa já pegou meu "extremista de extrema-direita" e ficou "ohh, como assim? ohh, como é possível?". O número de bumbuns dodóis por aí é bem maior do que vocês imaginam.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Caos estético IX: Sé

Por André,

Antigo shopping Mappin na Sé, centro de São Paulo

Leia a primeira postagem para a entender a série.

Torno a dizer que o Centro de São Paulo deve o exemplo mais emblemático à disposição de nós, paulistanos, do caos estético a que me refiro. Bem mais do que quem, como eu também, mora às margens da cidade. Isso porque nas margens a feiura sempre foi a regra governante, ao passo que quem corre os olhos atentamente pelo centro vê ainda alguns prédios conservados, vê outros destruídos ou simplesmente mal cuidados, por entre trechos claramente históricos que indicam um passado em que as coisas eram, pelo menos, mais bonitas. 

Acredito que esse seja, por definição, o quadro de caos estético em si mesmo: beleza entre a feiura extrema é mais caótico que a mera feiura geral, o choque no espírito pelo contraste é maior que pela constância.

Vale ainda adicionar um outro elemento sociológico à análise: muita gente se desloca de seus locais de residência para trabalhar ou negociar na Sé. Uns saem dos já feios bairros marginais e se chocam com uma cidade que maltrata o seu passado e que teve alguma grandeza nele; outros, saem de bairros mais "arrumados", que mesmo que não sejam bonitos são preservados, limpos e com algum verde e recebem o choque de pobreza que não estão tão habituados a ver (vale lembrar que compõe a apoteose dos sentidos do marco zero da cidade mendigos, pedintes, ambulantes, cães de rua, cheiro de urina, entre outros). O nervosismo e o caos estético são um corolário necessário dessa realidade.


Se definirmos o caos pelo contraste e não pela feiura absoluta, eis que temos essa paisagem na mesma Sé: uma estátua homenageando um de nossos pais fundadores, José Bonifácio - feiura, beleza e resgate histórico no mesmo bairro, eis a Praça do Patriarca.

sábado, 2 de setembro de 2017

Primeiro como farsa, depois como tragédia, como dizia Marx

Por André,

De novo. A maldição se repete de novo. Dizem que a esperança é a última das pragas, presa ao fundo da caixa de Pandora. Cada vez que a história se repete, a esperança fica toda ouriçada - ou dito na foma do populacho: "será que agora vai?!".

A situação é a mesma do rato que é pego pela mesma ratoeira repetidas vezes, mesmo sabendo que será pego, numa espécie de mórbido e libidinoso desejo de se dar mal (na esperança que dessa vez vai se dar bem).

A conversa é tão agradável, as maneiras são tão harmoniosas, a vontade de manter a conversa ad eternum é incontrolável.

É, amigos, está acontecendo novamente. Vejamos no que vai dar.

domingo, 13 de agosto de 2017

O Milagre da Solidão, um belo e esquecido texto de Olavo de Carvalho

Por fiatjaf,

Lima Barreto foi, com Cruz e Sousa e Machado de Assis, um dos meus heróis carlylianos de juventude — “the hero as man of letters” —, o tipo do sujeito que pela força da auto-educação se eleva acima do meio opressivamente burro e se torna um educador de seus opressores.

Que os três fossem pretos era coisa que não me comovia especialmente. A discriminação que você sofre como parte de um grupo tem sempre o contrapeso da solidariedade entre a multidão de coitados: quanto mais o expelem de um grupo, tanto mais você se sente integrado no outro, e sempre resta a esperança coletiva de que os oprimidos de soje sejam os opressores de amanhã. Ruim, mesmo, é a discriminação que você sofre sozinho, sem o consolo da palavra nós e das ideologias salvadoras, rejeitado, graças ao estima da diferença, mesmo pelos seus companheiros de raça, de religião, de bairro, de geração. Aí você não tem para onde correr. Você é o próprio Cristo na cruz, abandonado por todos, desprovido de semelhantes. Nenhuma ONG vai fazer lobby em seu favor, nenhuma assembléia da Unesco vai denunciar que você é vítima de uma grossa sacanagem, a rainha da Inglaterra não vai estipendiar nenhuma fundação para socorrê-lo, nenhum editorial do The New York Times vai dizer que você é lindo e maravilhoso como o João Pedro Stédile. Para todos os efeitos, você está excluído até mesmo da classe dos dscriminados. Você é aquela mancha de meio milímetro no canto de uma foto do Sebastião Salgado.

Só o sujeito que passou por essa situação sabe que existe, no mundo, um tipo de mal que supera tudo o que a mídia denuncia, e que pensando bem, é a raiz da porcaria universal.

Explico-me. O herói do primeiro romance de Lima Barreto, Recordações do Escrivão Isaías Caminha, não sofre somente porque é preto e pobre. Ele sofre porque é um sujeito honesto num meio de vigaristas, um autêntico homem de letras num meio de farsantes, um gentleman no meio de carreiristas vorazes e grosseiros. Enquanto preto e pobre, consolava-se olhando a multidão de seus companheiros de infortúnio. Mas quantos semelhantes teria ele nas qualidades excelsas que o destacavam e o isolavam? Quantos irmãos tinha Cristo na cruz? A parte de Isaías que mais dói não é sua inferioridade social: é sua superioridade moral.

Mas Isaías traz ainda a marca do ressentimento racial. Ao escrevê-lo, Lima Barreto sente-se ainda o membro de uma determinada comunidade excluída e fala em nome dela. O livro resvala às vezes para o desabafo direto e, quanto mais se aproxima de uma cópia literal da realidade empírica, mais perde em altitude. O próprio Isaías também é de pouca estatura: ele é melhor que os outros, não mais forte: débil e tímido, reduz-se a uma vítima passiva das circunstâncias, tudo se resolve numa horizontalidade deprimente e, como dizia Antonio Machado, “cuán dificil es/ cuando todo baja/ no bajar también”!

No romance seguinte, Lima Barreto abdica de toda referência a uma injustiça social presente. O major Quaresma não pertence a nenhum grupo discriminado.

Não tem nenhum handicap que o identifique a esta ou àquela multidão de vítimas. Ele é auto-suficiente na luta pela vida. É mais forte, mais inteligente e mais valente que seu antagonista, o presidente Floriano. Quaresma não é discriminado porque algo lhe falte, mas porque tem força de sobra e a generosidade de querer ajudar a seu povo. Este segundo herói de Lima Barreto adquire assim uma altitude que faltava a Isaías. Ele já não é o personagem de um mero drama social, mas o herói de uma tragédia. Segundo Aristóteles, é essencial que o herói trágico seja um homem poderoso e especial: fora disso suas desventuras assinalariam apenas uma conjunção acidental de circunstâncias, suprimível e sem o alcance de uma fatalidade cósmica inexplicável.

Mas a derrota do major ainda é parcialmente explicável. Ele é um gênio criativo, mas, convenhamos, suas idéias são bem esquisitas. Ele tem esse resíduo de fraqueza, a meia loucura que o coloca a meio caminho entre o herói e o anti-herói. É por esse flanco que o inimigo consegue feri-lo. A morte de Quaresma nos deprime, mas não nos escandaliza como um absurdo completo. Há nela algo de razoável: o ideal do reformador era incompatível não só com o ambiente mesquinho da República florianista, mas com a reaidade tout court.

Esse último pretexto da injustiça é enfim abolido num romance seguinte de Lima Barreto, Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá. Gonzaga é um Policarpo Quaresma sem demência, um Isaías sem o handicap da juventude e da timidez. É um grande homem em toda a extensão da palavra — e sua vida termina no isolamento e na resignação, mas não na derrota. Solitário entre seus livros, o sábio desenganado observa o mundo com um olhar sem ressentimento nem sentimentalismo, cheio de uma compreensão serena que lembra, por mais de um aspecto, a do conselheiro Aires, mas livre daquele resíduo de negativismo schopenhaueriano que foi até o fim a marca registrada de Machado de Assis.

A trilogia barretiana mostra-nos a evolução do ideal do humano do grande escritor, retratada na gradação espiritual dos heróis: o jovem talentoso esmagado pelo mundo, o combatente exaltado e semilouco, o sábio estóico soberano e calmo que permanece de pé enquanto o mundo em torno cai. De personagem a personagem, há uma progressiva depuração e interiorização do ideal, que vai se afastando da situação empírica imediata para se tornar cada vez mais universalmente humano e, na mesma medida, se desliga de todo ressentimento coletivo para encontrar o sentido de uma vida não na vingança, mas no perdão.

O perdão, aqui, não deve ser entendido na acepção beata e sentimental, mas no sentido etimoçógico de per-donare, completar o dom: o mundo não nos persegue porque é mais forte que nós, mas porque é mais fraco. Ele nos persegue porque algo lhe falta: a sabedoria. Como no verso de Santayana: “O world, thou choosest not the better part!” . Ao superar o ressentimento coletivo, o sábio “escolhe a melhor parte” e é o único que, no fim das contas, é rico o bastante para ter o que dar. Gonzaga não é verdadeiramente derrotado. Expelido do mundo, prossegue a busca da verdade, sempre disposto a compartilhá-la com o discípulo que o procure. “The hero as man of letters”: o oprimido tornou-se educador do mundo opressor.

Juntas, as três obras maiores de Lima Barreto formam um poderoso Bildungsroman — o romance da vitória de uma alma sobre si mesma e, por meio disto, sobre o mundo (*).

A transfiguração do oprimido em benfeitor é um milagre que se repete incessantemente na história. Raramente houve um sábio, um santo, um mestre cujos prodígios de generosidade não brotassem dos extremos de discriminação e solidão padecidos na infância, vencidos e superados pela alquimia da maturidade. É a mensagem final do Rei Lear: “Ripeness is all”.

Mas isso só acontece àqueles que sofreram a discriminação sozinhos, sem ter uma raça, um partido, uma ideologia, uma ONG e fundações internacionais a que se agarrar. Quem tem essas coisas não precisa atravessar o caminho da ascese interior. Pode encontrar alívio e reconforto na ilusão de que o ódio dos vencidos é um sentimento moralmente superior ao orgulho dos vencedores. Pode escapar da solidão fundindo-se na massa vociferante dos comparnheiros de partido, sonhando morticínios justiceiros que serão, na sua cabecinha imunda, a apoteose do bem. Foi dessa ilusão sangrenta que a leitura da trilogia de Lima Barreto me libertou, mais de trinta anos atrás.

A diferença entre povo opressor e povo oprimido é apenas quesão de ocasião, e a “solidariedade com os primidos” é apenas o véu ideológico que bsuca embelezar e legitimar, de antemão, os massacres de amanhã. Esse reconforto “ético” é, no fundo, uma fuga da consciência: todo povo orpimido esconde os lances vergonhosos de sua própria história, para poder acreditar-se melhor que os opressores. Não há um só movimento de libertação e de direitos que não se funde nessa mentira essencial, em que se afiam os espetos de futuros holocaustos. Durante um milênio faraós negros arrancaram sangue do lombo semita, para terminar sendo vendidos como escravos e hoje tentar comover o mundo com seu discurso contra os judeus comerciantes de escravos. Os alemães encontraram na humilhação coletiva a inspiração para perseguir os judeus, e a fumaça do holocausto ainda santifica o fuzil isralense a cada tiro que dispara sobre um palestino armado de pedras.

Reihold Niebuhr assinalava a diferença de nível ético, estrutural e intransponível, entre o indivíduo e a comunidade. Para o indivíduo, o sofrimento pode ser o princípio da sabedoria. Para a comunidade, é o motor da violência, que puxa o carro da história na direção da fornalha ardente em cuja beirada um cartaz anuncia: “Justiça e Paz”. Em face disso, a serenidade de M. J. Gonzaga de Sá é a resposta final aos padecimentos do jovem Isaías Caminha, e o heroísmo semilouco de Policarpo é uma etapa, a ser vencida, no caminho do entendimento.

(*) É a única obra desse gênero na nossa literatura, se descontarmos a novela de Guimarães Rosa A Hora e Vez de Augusto Matraga, a que o filme de Roberto Santos deu interpretação inversa, injetando-lhe aquela mistura de negativismo brasileiro e marxismo de botequim que torna a redenção de Matraga um gesto inútil por não se enquadrar, como ato isolado, na estratégia geral do Partido.

Fonte: Bravo! nº 13, outubro/98, edição de primeiro aniversário.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Uma imagem contra a política de refugiados da Europa

Por André,



A Alemanha, graças a seu complexo de culpa pós-nazista, abriu suas fronteiras para cerca de 2 milhões de supostos refugiados. E mesmo após declarações do Estado Islâmico dizendo que infiltrou terroristas entre essa massa de pessoas, muita gente segue defendendo uma política de "open borders" sobre refugiados.

Vamos aqui, para fins argumentativos, admitir que há algum controle em quem entra (não há) e que a maioria é composta de gente decente, que não são imigrantes econômicos e que são bem-intencionados (se não sabemos quem entra não há como saber nada disso).

A escolha que se coloca diante dos burocratas da União Europeia e dos defensores de uma aceitação irrestrita de refugiados poderia ser chamada de "dilema dos M&Ms envenenados".

Suponha que você está na seguinte situação: alguém lhe oferece uma tigela com 1.000 M&Ms. Você sabe que desse universo de 1.000, 5 doces estão envenenados com uma substância fatal. Mesmo sabendo que a grande maioria dos doces não fará mal algum, você comeria tranquilamente os M&Ms? Daria a tigela para seu filho? Os cidadãos europeus estão exatamente diante desse dilema, mas talvez nem todos encarem a situação com esse grau de crueza e seriedade.

Embora o exemplo seja hipotético, a situação foi alvo de uma pergunta para o jornalista britânico Douglas Murray em palestra. Um membro da plateia foi perguntado se aceitaria normalmente 1 milhão de refugiados mesmo sabendo que entre esse milhão há um homem-bomba. O sujeito da plateia disse que seguiria aceitando o milhão (ao que me parece, pelo contexto da palestra, movido a algum tipo de culpa colonialista), ao Murray sempre de forma sagaz replicou: "isso é válido até seu filho querer ir a um show da Ariana Grande" [referência aos atentados de Manchester): https://goo.gl/asCLhw.