quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Why Won't The Nightmare Dream Of Communism Die?

Why Won't The Nightmare Dream Of Communism Die?: A century of Communism achieved four main results: poverty, oppression, war, and mass death. So why does anybody still think this is 'idealistic'?

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Uma conversa sobre meu livro "Saul Alinsky e a anatomia do mal"

Por André,

Tive a oportunidade de ter uma conversa de cerca de uma hora com o pessoal do canal Terça Livre sobre o meu livro, que se encontra em campanha de crowdfunding. Para quem não viu ao vivo pode ver agora:

terça-feira, 31 de outubro de 2017

500 anos de Reforma Protestante: mal negócio para o cristianismo

Por André,



Sem nem de longe querer entrar numa polêmica de tipo católicos versus protestantes, pois realmente considero que a guerra cultural é cruel com ambos, acredito que valha a pena algumas observações, de um ponto de vista bastante neutro, sobre o que a reforma protestante significou para a cristandade como um todo, especialmente se vermos a coisa "de fora".

Se a Cisma representou a divisão da cristandade em duas partes, a reforma protestante representou um verdadeiro e puro ESTILHAÇAMENTO da cristandade em literalmente quase que infinitos pedaços. Olhando de fora, isso é péssimo sinal.

Pensem em qualquer não-cristão que deseje se converter, que direção ele deve tomar? E usando uma argumentação protestante inclusive, não adianta dizer coisas como "aceitar Jesus como seu salvador", pois as diversas dissidências protestantes divergem sobre assuntos basilares e salvíficos (o batismo, por exemplo), de maneira que escolher corretamente realmente é importante.

Nesse ponto, me parece, o que a reforma protestante promoveu para a cristandade foi uma espécie de argumento muito utilizado por ateus. Muitos ateus gostam de perguntar a crentes "em qual deus acreditam" ou "não me meto nisso porque nem vocês se decidiram ainda". Ou ainda, se eu fosse um ateu propenso à conversão, meu ceticismo aumentaria exponencialmente se a mentira tivesse sido vitoriosa por 1.500 anos para que a verdade surgisse apenas com Lutero. Isso, é claro, caso não consideremos a possibilidade de nos tornar Testemunhas de Jeová (que rechaçam veementemente não apenas a Igreja Católica, mas também as demais dissidências protestantes) ou Mormóns, nesse caso a verdade esteve encoberta por mais de 1.800 anos, para ser finalmente revelada nos EUA há poucos anos. Tudo isso deve inspirar pouquíssima confiança num cético. Seria algo como ir ao médico com um problema mortal e encontrar 50 médicos, cada um prescrevendo uma solução diferente. Muitos escolheriam um, outros simplesmente não confiariam na medicina e procurariam outra coisa, afinal, onde impera tanta divergência só pode ser indício de incerteza e insegurança.

Ainda, me parece que boa parte da base protestante simplesmente não se sustenta: o princípio da sola scriptura não tem a sustentação bíblica que deveria ter, caso fosse a pedra de toque do cristianismo. E ainda, sem a autoridade da Igreja para determinar qual escritura é inspirada e qual não é não há Escritura e se não há Escritura, não há Só Escritura. E, eventualmente, aceitar a autoridade da Igreja apenas na determinação dos livros bíblicos representa a refutação em si mesma da doutrina, visto que a Igreja não pode ter extraído sua autoridade de escolha da própria Escritura antes de determinar qual é qual. E, por sua vez, o sola fides (que já é uma controvérsia "interna" do protestantismo) parece falhar no teste do sola scriptura, visto que a Bíblia é muito clara em afirmar que a salvação vem de uma conjugação entre fé e obras (e mais uma vez é possível acabar por se render a uma clássica objeção ateísta: "se Hitler se converteu em seu leito de morte então se salvou?").

Por fim, alguém certamente deve estar se perguntando após essas breves observações: se a coisa é tão óbvia assim, como explicar que tal crença ainda se sustente na cabeça de intelectuais verdadeiramente de peso (C.S. Lewis, William Lane Craig, Eric Voegelin e outros)? Ora, com a quantidade de religiões existentes, a menos que você seja um relativista muito - mas muito - louco ou negue que boa parte das religiões têm pelo menos um punhado de intelectuais em seu interior, a explicação só pode ser que a matéria religiosa é suscetível a tal coisa (o que só reforça a necessidade de um critério anterior à "interpretação dos intelectuais").

domingo, 29 de outubro de 2017

Algumas observações sobre feng shui

Por André,



O terreno aqui é perigosíssimo: quero tratar de um tema que não domino e até há relativamente pouco não considerava muito mais que "superstição oriental" que cativa a mente incauta de ocidentais bocós.

Vamos então ao processo que me fez considerar as coisas de forma diferente e como isso se junta a algumas outras ideias que venho tendo e defendendo há mais tempo:

- Sam Harris é um autor que fez (e faz) parte do meu repertório de leitura. Desconsiderem a polêmica sobre religião em que ele está envolto. Sam Harris tem um livro sobre "meditação", onde ele trata da sua experiência com a atividade, como ela pode ser feita de maneira "secular" (em tempos de ateísmo estridente fica difícil falar dessas coisas "supersticiosas" e "espirituais" sem pedir desculpa primeiro) e um pouco da relação de nós, ocidentais, com essas atividades melhor desenvolvidas pelas tradições orientais. Suas conclusões me pareceram curiosas e interessantes e tenho digerido-as desde então. O livro se chama "Despertar"

- Algum tempo depois, passei a fazer uma leitura cuidadosa (e por vezes cuidadosamente distanciada) de autores como René Guenon, Julius Evola, Frithjof Schuon e, principalmente, Mircea Eliade. Todos e cada um, à sua maneira e em contextos diferentes, tratam da sabedoria contida nas diversas religiões espalhadas por aí, especialmente as tradicionais, é claro. Boa parte de tudo que disseram no mínimo fez sentido pra mim. Há coisas valorosas nas "religiões tradicionais", dignas ao menos de consideração (e isso pode ser dito tanto de um ponto de vista religioso quanto absolutamente distante de um pesquisador interessado - meu caso).

- Por fim, conforme eu disse em texto que trato de estar cercado pelas pessoas certas, às vezes precisamos de alguém dando um empurrão em nós na direção certa, tirando-nos da nossa falsa zona de conforto ("já sei e domino tudo que merece ser conhecido e dominado") e que nos faz ver que há mais janelas abertas a serem visitadas do que imaginamos e que não é porque já temos uma que não podemos ter outras.

Dito isso, vamos a uma definição bastante precária e breve de feng shui: seria algo como uma ciência requerida para conservar as influências positivas do espaço e redirecionar as negativas. 

Contrariamente ao que parece, a coisa é bem diferente do que a versão marqueteira e ocidentalizada faz dar a impressão, "onde coloco meu sofá com estampa do Romero Brito para as energias positivas prosperarem? Compre aqui que eu te ensino". 

Segundo a tradição, na verdade, a organização do espaço vai depender inclusive de fatores externos a ele, como o hemisfério em que se está localizado, o território geográfico, se há proximidade com rios ou não e outros fatores.

Desnecessário dizer que não existe qualquer sustentação dada pela ciência experimental para o feng shui, apenas as percepções subjetivas dos envolvidos parecem sustentar as afirmações alegadas.

Contudo, guardadas as devidas proporções e admitindo que raciocino aqui analogicamente e não fazendo uma comparação literal, tenho a sensação que estamos a falar do mesmo problema que falo na série de postagens caos estético: quando entramos em certos ambientes, sua organização nos parece imediatamente desagradável; quando visitamos o Centro de São Paulo e percebemos o quadro apresentado, o caos estético gera uma consequência caótica em nós. Ambientes assim, portanto, devem ser, sempre que possível, evitados.

Em suma: a má organização do ambiente em que estamos inseridos tem alguma influência sobre nós e isso parece intuitivamente verdadeiro numa escala avassaladora demais para ser falso. Se a coisa não está absolutamente certa, ela está atinada com algumas impressões acertadas que temos sobre a ordem das coisas, o que parece uma sugestão razoável para virtualmente todo tipo de conhecimento tradicional/milenar (sendo a própria filosofia um excelente exemplo disso).

domingo, 15 de outubro de 2017

A filosofia como apologia da clareza

Por André,

O relojoeiro suíço, de Norman Rockwell

Sócrates notabilizou-se por sair às ruas inquirindo os sábios com perguntas do tipo "o que é?". Alegadamente sábios, muitos homens deveriam saber o que é o Bem, a Verdade, a Beleza, a Justiça, o Amor, o Mal etc. etc. Versados em história da Filosofia como vocês são, bem sabem que os supostos sábios não conseguiram responder apropriadamente as perguntas de Sócrates, sendo então expostos publicamente como ignorantes, o que rendeu notoriedade ao mestre de Platão e, em grande parte, fez com que toda a História da Filosofia passasse a ser dividida em antes e depois de Sócrates.

Os sábios não sabiam realmente nada e suas respostas confusas só faziam obscurecer os conceitos discutidos, sendo então a famigerada pergunta "o que é?" uma tentativa de definir com clareza do que se trata exatamente os conceitos mais caros à humanidade.

Não quero aqui, pode parecer a alguns, aderir a quaisquer escolas de Filosofia Analítica*, que sabidamente ganharam corpo à base da ideia de que toda a Filosofia se define por apuração da linguagem o que, (supostamente) por consequência, leva a apuração de conceitos. Quero provar apenas que a Filosofia tenta, por sua natureza e por excelência, tornar as coisas mais claras (o que pode parecer estranho aos ouvidos do "senso comum", que tende a associar filosofia com discussões sem fim, sobre temas obscuros em linguagem restrita - não apenas do senso comum, diga-se; Rousseau garantia que o homem em estado de natureza não tem inquietações filosóficas, pois sua condição mesma já torna claro tudo que é necessário o ser; ou Marx, que afirmava que os filósofos já haviam interpretado o mundo com seus sistemas complexos de pensamento demais).

Desnecessário dizer, pois já o disse, que aqui se toma claramente uma posição (em grande parte mas não totalmente) anti-moderna, certamente anti-pós-moderna e, em larga escala, por consequência, anti-francesa e anti-alemã, visto que todas essas escolas contribuíram fartamente para a ideia que a Filosofia se faz por meio de textos quase criptografados, tratando do mundo inteiro em teses e termos puramente abstratos e obscuros. Vale citar, para reforçar o argumento, o que já fora dito sobre pós-modernidade e Michel Foucault (e seu desejo aberto de ser obscuro para causar impressão de profundidade), escola e autor (entre tantos outros) que sacrificaram a clareza no altar da obscuridade (por vezes, ideológica).

David Hume, em suas Investigações sobre o entendimento humano e sobre os princípios da moral, trata de assunto semelhante (e não idêntico) ao diferenciar entre os filósofos morais, atrelados a certa "filosofia prática", uma "filosofia fácil", como Sêneca e Cícero e os metafísicos, como Aristóteles, Malebranche etc, praticantes de uma "filosofia abstrusa" (HUME, 2004, p. 19-33). Disso, podemos dizer que: não nos preocupa aqui o trato de assuntos elevados, por vezes, em si mesmo obscuros, visto que cremos que estes podem (e devem) ser expostos de forma clara. Exemplo disso é o próprio Aristóteles: o Organon e a Metafísica tratam de assuntos elevadíssimos e de difícil compreensão, porém, de maneira absolutamente inteligível e clara. E, ainda, o próprio David Hume na obra citada, faz - de forma anglosaxonicamente clara - tanto papel de filósofo da moral (a dita "filosofia fácil") quanto de metafísico ("geógrafo do entendimento humano"). É possível afirmar com satisfatória segurança: quem lê e não compreende David Hume está, provavelmente, com mais problemas em si próprio que no estilo do filósofo.

Por fim, foi Descartes quem afirmou, ipsis litteris, o que aqui se diz: o raciocínio filosófico deve ser claro e distinto. As proposições devem ser claras e distintas (por oposição às confusas e obscuras). Desnecessário dizer que, por aqui, adere-se ao disgnóstico cartesiano, mas não necessariamente ao seu método como um todo, como única via para se atingir clareza e distinção - tópico este para ser discutido alhures.

Pois bem, o que é uma percepção clara e distinta para Descartes? A resposta está no parágrafo 45 dos Princípios da Filosofia:

"Há mesmo pessoas que durante toda a sua vida não percebem nada em condições de bem julgar, porque o conhecimento daquilo sobre o qual se pretende estabelecer um juízo indubitável deve ser claro e distinto. Chamo conhecimento claro àquilo que é manifesto a um espírito atento: tal como dizemos ver claramente os objetos perante nós, os quais agem fortemente sobre os nossos olhos dispostos a fitá-los. E o conhecimento distinto é aquela apreensão de tal modo precisa e diferente de todas as outras que só compreende em si aquilo que aparece manifestamente àquele que a considera de modo adequado" (DESCARTES, s/d , p. 43).

Nas famosas Meditações Metafísicas, Descartes só procederá no estabelecimento de provar a existência do eu se puder fazê-lo de maneira clara e distinta. E da mesma forma para tudo que se queira conhecer de forma segura.

Essa tradição de apologia da clareza, que remonta a Sócrates, é mantida pelos escolásticos e, mesmo titubeante, mantém-se em boa parte dos autores anglo-saxões é, penso eu, marca definidora da própria Filosofia, que busca ser clara e expor com clareza aquilo que se propõe a explicar**, na contramão de grande parte do que se produz em Filosofia hoje: modernismo, pós-modernismo, estruturalismo e, tristemente, parte da tradição continental (hermenêutica, historicismo etc). De sorte que, afirmo peremptoriamente, se a Filosofia deseja sair de sua agonia deve recuperar sua longa tradição de clareza.


* Diagnóstico semelhante fez Mario Bunge (por quem não nutro grande simpatia), em texto que afirma que a Filosofia não está morta, mas está doente. Em forma de prova ao seu argumento diz que a atual debilidade da Filosofia se deve, basicamente, a essa confusão entre obscuridade e profundidade, além de preocupação obsessiva com linguagem (Wittgenstein). Aqui se trata menos de uma apologia (necessariamente e apenas) de linguagem clara e mais da própria clareza de afirmações, que usará, evidentemente, linguagem mais clara possível como meio para tanto.

** Não posso me furtar aqui de mencionar a tragédia da filósofa PO(O)P Márcia Tiburi em sua mais recente obra cometida Como conversar com um fascista; nela, afirma-se logo de entrada, que fascista é todo mundo que não gosta do Jean Wyllys. Toda a tradição de clareza, precisão e distinção conceitual da Filosofia fora reduzida a isso. 


Referências

DESCARTES, René. Princípios da Filosofia. Trad. João Gama. Lisboa: ed. Edições 70, s/d.

HUME, David. Investigações sobre o entendimento humano e sobre os princípios da moral. Trad. José Oscar de Almeida Marques. São Paulo: ed. UNESP, 2004.

P.S.: Olavo de Carvalho, em aula onde comenta o que é uma obra de arte e as recentes polêmicas envolvendo QueerMuseum (Santander) e MAM afirma, com preocupação mais sociológica que epistemológica, que no Brasil todo mundo trata das coisas em sínteses confusas, devendo, portanto, passar dessas a sínteses claras:

Indícios de que se está cercado pela(s) pessoa(s) certa(s)

Por André,



Escrevi brevemente, apoiado em Viktor Frankl, sobre a necessidade de se estar cercado das pessoas certas. Escrevo agora breves notas sobre como perceber se se está ou não ao redor delas.

O ser humano, tudo parece indicar, é incompleto. Mesmo quando atingimos breves momentos de plenitude, como dito, eles são breves e não são amplos. Ninguém é pleno o tempo todo em todos os aspectos importantes da vida. De forma que se torna absolutamente importante e necessário, justamente, se cercar das pessoas certas, pessoas que te completarão.

Em reflexão um tanto quanto solta, penso que são indicativos de estar cercado das pessoas certas:

- compartilhamento de sentido. Não quero dizer aqui compartilhar o mesmo sentido ("ser engenheiro", "ser intelectual" etc). É importante que haja sentido e esforço na busca por esse sentido, mesmo que se trate de coisas distintas. Um ajuda o outro a realizar aquilo que foi estabelecido como sentido para as vidas.

- faz de você uma pessoa melhor. Na medida que ninguém é completo, ninguém é perfeito (ahhh, os clichês) e, portanto, todos tentam melhorar. Se as pessoas que nos cercam - consciente ou inconscientemente - te fazem alguém melhor, bom indicativo de que são as pessoas certas. Disso segue que:

- não se perder com as lisonjas. Quem te faz melhor não fica a tecer lisonjas em tempo algum. A lisonja é a expressão máxima da indiferença, do "tanto faz": não ligo pra você mesmo, então vou elogiar em vez de apontar o que pode te fazer melhor, apontar seus erros para que os corrija. Vale mencionar o adágio islâmico que afirma que a lisonja é coisa do diabo. Ou ainda, como diz Nissim Taleb: teus amigos te criticam em público e elogiam na esfera do particular, é o que se deve esperar deles.

- te inspiram. Sabe quando vemos algo muito bem feito ou uma ação tão bela que deveria ser copiada? Você se sente um inútil derrotado por não ter sido você ou por não se sentir capaz de feito semelhante, mas também inspirado a fazer coisas mais elevadas e a melhorar o que já faz, pois ainda há quem faça valer a pena.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Edgar Allan Poe sobre a Beleza

Por André,



"(...) durante toda a composição do poema, não perdi de vista em nenhum momento a intenção de torná-lo universalmente apreciado" (grifo do autor)".

"a beleza é a única esfera legítima do poema".

"A contemplação da beleza, creio eu proporciona o mais intenso, elevado e puro de todos os prazeres. Na verdade, quando se fala em beleza, não se está referindo exatamente a uma qualidade, como se supõe, e sim a um efeito - está se referindo, em suma, à intensa e pura elevação da alma, não do intelecto ou do coração - a qual mencionei e que pode ser extraída da contemplação do 'belo'".


POE, Edgar Allan. Medo clássico. São Paulo: ed. Darkside Books, p. 344 e 345.

Roger Scruton sobre Harry Potter

Por André,




Um historiador do futuro, olhando para o tempo em que vivemos, certamente identificará J.K. Rowling como uma figura de elevada importância. De uma forma que tinha poucos precedentes desde “Peter Pan” e “O vento dos salgueiros”, ela capturou a imaginação coletiva do povo britânico e preencheu nossas mentes com personagens e atitudes que serviram como um quadro de referência compartilhado. Não apenas em nossos devaneios, mas também em nossas esperanças e intenções. 


[...] Há alguns entre meus colegas literários que rejeitam os livros de Harry Potter como literatura inculta, baseada em personagens descartáveis lançados em enredos extravagantes que não vão a lugar nenhum. 

Eu não concordo com eles. J.K. Rowling desfruta do tipo de sucesso que apenas um escritor que tocou em sentimentos reais e universais pode alcançar. Ela tem talento para inventar personagens que engajam os sentimentos de leitores comuns e situações em que as emoções do dia-a-dia são, repentinamente e alarmantemente, colocadas em teste. Os enredos dela podem ser extravagantes, mas existem poucas – se houverem – pontas soltas; e tudo corre suavemente, da descrição ao diálogo, e vice-versa.

Ela também tem algo do talento de Dickens quando se fala em nomes. Dumbledore, Voldemort, Malfoy, Hagrid, Hogwarts. Esses e muitos outros são propriedades domésticas como Magwitch, Peggotty e Oliver Twist. De um modo geral, eu daria crédito à J.K. Rowling por dar uma real contribuição à literatura, ainda que literatura infantil. 

Há literatura infantil de dois tipos: de um lado existem as histórias que abordam especificamente o estado de espírito da criança, e brincam com aquelas emoções primordiais que são resíduos dos tempos das cavernas – deste tipo são os contos populares coletados e embelezados pelos Irmãos Grimm. Por outro lado, existe a literatura que não é voltada para a criança, mas para a idéia da criança; literatura que retrata a mente infantil, valoriza-a, e também usa-a para transmitir verdades sobre o mundo adulto. Entre as obras deste segundo tipo estão algumas das obras primas da nossa literatura, incluindo os livros de Alice, por Lewis Carroll, e a história de Mark Twain sobre Huckleberry Finn. 

Literatura infantil deste segundo tipo é sobre o mundo como realmente é, mas escrito de uma forma que coloca a inocência e a ingenuidade da criança no centro da narrativa. A literatura infantil do tipo menos artístico não é sobre o mundo como realmente é, mas é sobre o mundo na percepção da criança, quando privado da sabedoria e da experiência adulta. É um mundo mágico, organizado por poderes ocultos e feitiços. É também um mundo simplificado onde bem e mal são revelados em termos concretos e dividem a realidade entre eles. É um mundo sem responsabilidades, uma vez que elas estão em outras mãos. 

E a criança que cai num mundo como esse só precisa de um tipo de conhecimento, que é o conhecimento de feitiços que irão invocar as forças do bem para protegê-la e afastar as forças o mal.

Tal mundo é o descrito e ricamente mobiliado por J. K. Rowling e sua narrativa astuta, que irão trazer total aprovação de todos aqueles que algum dia tentaram contar uma história de ninar. Mas isso levanta questões importantes sobre nossa cultura. Apesar dos livros de Harry Potter serem para crianças, eles deixaram de ser histórias de ninar e invadiram o dia-a-dia de trabalho adulto. Os nomes dos personagens estão na boca de todo mundo; a internet oferece os nomes de Harry Potter para cachorros, gatos e pôneis; a própria J.K. Rowling te convida para batizar seu político mais odiado com os recursos do léxico dela: A Sra. May* é claramente uma Dursley, mesmo que Corbyn** não tenha alcançado o status de Dumbledore.

O aspecto mais interessante das histórias de Harry Potter, antropologicamente falando, é que elas acreditam numa forma de fascínio antiquada e bem inglesa, ao mesmo tempo que evita qualquer tipo de referência a nossas crenças religiosas tradicionais. Hogwarts é uma escola tradicional inglesa, com abadias e uniformes, com jogos que instigam as velhas virtudes esportivas e a disciplina hierárquica, associada com jantares formais e discursos cerimoniais. É uma grande catedral gótica, mas sem altar, hinos ou orações. 

Então como o encanto é mantido? A resposta é: por magia. E essa magia é a criação soberba de Rowling, que preenche todo lugar que a religião teria ocupado, enquanto tira o conflito entre bem e mal do plano de fundo cósmico e o coloca num plano de ações humanas. O conflito é revelado nas formas e faces, nas fissuras e fantasias, nas silhuetas e sombras desta instituição assustadora. Como disse o poeta invocado por Shakespeare, Rowling deu “a dois nadas etéreos” (two airy nothings) um local habitado e um nome. 

Mas a forma de encanto dela também nos lembra por que religião e magia estiveram em oposição. A religião nos diz que nós não temos poder sobre o mundo e que devemos aceitar nossas limitações, reconhecendo que nossa salvação depende de Deus, que vai nos resgatar. Quando nós rezamos, não ordenamos que o mundo nos obedeça, ao contrário, nos humildemente admitimos nossa falta de poder e pedimos a Deus que intervenha em nosso bem. Oração é o reconhecimento da nossa fraqueza e ao mesmo tempo é a solução para merecer a ajuda de Deus. 

Nesse aspecto, orações são o exato oposto de feitiços. Aquele que conjura um feitiço está assumindo poder sobre a realidade. Ele não tem a necessidade de nenhum Deus, já que ele é Deus; ele está assumindo poder sobre o criador e subjulgando a vida e a matéria a sua vontade. 

[...] Eu distingui dois tipos de literatura infantil: o tipo que explora os medos e esperanças primordiais de uma criança, onde a magia desempenha um papel de controle; e a parte que olha, com os olhos da criança, o mundo adulto real, e traz uma medida de inocência que ensina à criança a ver a sua própria. 
Lewis Carrol, que elevou o segundo tipo de literatura ao nível artístico mais elevado, era um matemático – com um cérebro científico frio e claro – cuja heroína luta contra a ilusão com todo seu poder de raciocínio encantador. Ela é uma criança que quer ser adulta, explorando as sombras da própria imaginação e acendendo a luz da razão que irá afastar estas sombras.

As histórias de Harry Potter são o exato oposto disso. Elas mostram um mundo adulto completamente invadido por medos e delírios infantis: magia e mistério são a moeda em que todas as transações são mensuradas; a varinha, o feitiço e o estoque de conhecimento oculto dispensaram qualquer tipo de disciplina espiritual; todo personagem é bem ou mal por natureza e não há processo de desenvolvimento, nenhuma passagem de renúncia ou oração, onde o herói ou a heroína pode se preparar para enfrentar as provações da real existência adulta. Todos os obstáculos são sonhos que podem ser dissipados num passe de mágica, e ninguém precisa que nenhum poder que não possa ser obtido por coisas deste mundo, basta apenas conhecer os segredos. 

Nós esperamos que a criança pensa e sinta desse jeito por que elas ainda têm que se libertar do tempo das cavernas. Mas nós também esperamos que elas cresçam, saiam disso, e dirijam-se ao mundo com total consciência de sua complexidade, aceitando o paciente trabalho da ciência e a necessidade de humildade e entendimento. A religião é um dos caminhos para sair da magia primitiva e para encarar o mundo com clara compreensão dos fatos que não controlamos. Crescer significa que o mundo não vai entregar bens apenas por que nós queremos. A visão de mundo adulta é o oposto da postura mental do Potterismo. 

Mas o Potterismo está começando a prevalecer. O herói de Rowling e suas circunstâncias invadiram tanto a cultura que pessoas estão começando a viver numa “Hogwarts cibernética”, acreditando que tudo está sob do seu poder, uma vez que querer alguma coisa é metade do caminho para obtê-la. [...] Se você sofre de uma overdose de Harry Potter – e vê o mundo real também em termos de poderes ocultos e feitiços que os libertam – você é mais suscetível a pensar que o que você quer será conseguido apenas clicando numa tela. 


ORIGINALMENTE EM:

domingo, 8 de outubro de 2017

Da importância de se cercar das pessoas certas

Por André,



Viktor Frankl tantou falou sobre o sentido da vida, inclusive que foi a crença que a vida tem um sentido que sustentou a sanidade de tantos (a dele próprio inclusive) nos campos de concentração nazistas.

Além disso, fenômeno esfarelado em época de niilismo implícito ou explícito, é ferozmente importante estarmos cercados de pessoas que sabem o que querem. Não basta que a nossa vida tenha sentido, a vida daqueles que queremos perto de nós precisa ter sentido também, pelo menos quando a intenção é cultivo de relações duradouras e saudáveis (algo particularmente ainda mais urgente dada a decadência galopante do mundo moderno).

Lembram do lema de Meursault, personagem central d'O Estrangeiro, de Albert Camus, pra quem tudo "tanto faz"? É o que ele diz pra tudo, inclusive quando mata um homem na praia.

Fujamos de gente assim.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Efeito borboleta, acaso e destino

Por André,



Estava eu, imerso em estudos de filosofia da religião, a ler objeções sobre o problema do mal. Eis que, então, me deparo com uma objeção ao "argumento do mal" em sua formulação clássica que até então desconhecia: eventos maus podem desencadear um "efeito borboleta" gerador de uma consequência infinitamente superior em bondade em relação ao evento mau que o causou. Exemplificam (e que exemplo!): o Holocausto, evento maligno cuja magnitude será difícil de igualar, desencadeou a formação do Estado de Israel, que tanto bem já legou à humanidade e, biblicamente falando, ainda tem façanhas gloriosas a concretizar. Ou seja: não há contradição entre bondade divina e eventos maus, pois, todo evento maligno pode estar concatenado a alguma consequência boa que o supera em larga escala. A explicação parece, a primeira vista, portanto, articular acaso (e se o soldado francês que teve Hitler na sua mira o tivesse matado?), destino (e se o mal ocorrido for parte de um plano para um bem futuro de proporções maiores?) e o efeito borboleta decorrente do fato.

Isso para dizer que, exista destino ou "exista" acaso (no meu entender o acaso sempre se converte numa espécie de destino - não no sentido de pré-determinação, mas no sentido de ser inescapável), macacos me mordam, como PARECE que há um destino agindo por aí. Certas coisas, mesmo quando corriqueiras e até simplórias, parecem felizes e harmoniosas demais para serem fruto do mero acaso (com a devida ressalva que é característica demasiado humana ver padrões onde não há). Ainda em exemplos mais banais: se seu pai não tivesse tropeçado na sua mãe aquele dia, você não estaria aqui hoje; consegue conceber, mesmo que em ideia, que tudo que você realizou até hoje na vida é consequência dessa obra do "acaso"?

P.S.: só usei as referências que usei para ilustrar a ideia (se há ou não "destino", parece que há), não se trata de defesa de nada que fora abordado (destino, direção pelo acaso, mérito do argumento etc).