segunda-feira, 16 de julho de 2018

Tese de Robert Paxton: fascismo foge da dicotomia direita/esquerda e teve liberais e conservadores como companheiros de viagem

Por André,


Estou a ler um clássico sobre o fascismo, o The Anatomy of Fascism, do professor da Columbia University Robert Paxton e a confirmar algumas impressões que tinha intuitivamente ou como fruto de outras leituras, um pouco desconexas.

O fascismo era anti-liberal, anti-burguês, anti-marxista e anti-conservador e em alguns sentidos, revolucionário, ainda que tenham existido liberais (em sentido clássico) e conservadores que tenham se tornado companheiros de viagem do fascismo pois preferiam este em detrimento do bolchevismo.

Ainda, sim, o fascismo era antissocialista, mas o que muitos esquerdistas desconsiderarão é que fascistas eram antissocialistas porque passaram a considerar o socialismo de seus respectivos países internacionalista, "pacifista" (oposição à entrada na Primeira Guerra Mundial, naquele momento tida como "guerra imperialista") e "democrático" demais. Ou seja, todos saíram do seio do socialismo de seus países e tinham problemas com esses aspectos do socialismo. Mussolini é o caso a ser citado e os comentaristas debatem até hoje quando foi exatamente o momento de abandono do socialismo da parte de Mussolini.

Seguem alguns trechos que corroboram as informações acima:

"O programa fascista, divulgado meses mais tarde, era uma curiosa mistura de patriotismo de veteranos e de experimento social radical, uma espécie de "nacional-socialismo". Do lado nacionalista, ele conclamava pela consecução dos objetivos expansionistas italianos nos Balcãs e ao redor do Mediterrâneo, objetivos esses que haviam sido frustrados meses antes, na Conferência de Paz de Paris. Do lado radical propunha o sufrágio feminino e o voto aos dezoito anos de idade, a abolição da câmara alta, a convocação de uma assembleia constituinte para redigir a proposta de uma nova constituição (presumivelmente sem a monarquia), a jornada de trabalho de oito horas, a participação dos trabalhadores na "administração técnica das fábricas e a "expropriação parcial de todos os tipos de riqueza", por meio de uma tributação pesada e progressiva do capital, o confisco de certos bens da Igreja e de 85% dos lucros de guerra" (p. 16 e 17).

Sempre gostei de destacar quando o debate sobre o enquadramento do nazismo no espectro político surge que, sejam nazismo e fascismo socialistas e revolucionários ou não, é inegável que sempre quiseram ao menos PARECER socialistas. Seus programas não podem indicar isso de maneira menos clara.

"Os sindicalistas pró-guerra haviam sido os companheiros mais próximos de Mussolini durante a luta para levar a Itália à guerra, em maio de 1915. Na Europa anterior à Primeira Guerra Mundial, o sindicalismo era o principal rival da classe trabalhadora do socialismo parlamentar. Embora, por volta de 1914, a maioria dos sindicalistas estivesse organizada em partidos eleitorais que competiam por cadeiras no parlamento, estes ainda mantinham suas raízes sindicais. Os socialistas parlamentares trabalhavam por reformas pontuais, enquanto esperavam pelos desdobramentos históricos que tornariam o capitalismo obsoleto, tal como profetizado pelos marxistas, ao passo que os sindicalistas, desdenhando as concessões exigidas pela ação parlamentar, e também o fato de a maioria dos socialistas estar comprometida com a evolução gradual, acreditavam que poderiam derrubar o capitalismo com a força de sua vontade" (p. 17).

"É difícil situar o fascismo no tão familiar mapa político de direita-esquerda. Será que mesmo os líderes dos primeiros tempos saberiam fazê-lo? Quando Mussolini reuniu seus amigos na Piazza San Sepolcro, em março de 1919, ainda não estava bem claro se pretendia competir com seus antigos companheiros do Partido Socialista Italiano, à esquerda, ou atacá-los frontalmente a partir da direita. Em que ponto do espectro político italiano se encaixaria aquilo que ele, às vezes, ainda chamava de "nacional-sindicalismo"? Na verdade, o fascismo sempre manteve essa ambiguidade" (p. 28).

"Para eles, a esquerda socialista e internacionalista era o inimigo, e os liberais eram os cúmplices do inimigo" (p. 43-44).

"De modo geral, os conservadores europeus, em 1930, ainda rejeitavam os princípios da Revolução Francesa, preferindo a autoridade à liberdade, a hierarquia à igualdade e a deferência à fraternidade. Embora muitos deles tenham visto os fascistas como úteis, ou mesmo essenciais, em sua luta pela sobrevivência contra os liberais dominantes e uma esquerda em ascensão, alguns tinham aguda consciência de que seus aliados fascistas seguiam uma agenda diferente e sentiam uma aversão desdenhosa por esses forasteiros rudes. Quando o simples autoritarismo era o bastante, os conservadores o preferiam. Alguns deles mantiveram sua postura antifascista até o fim. A maioria dos conservadores, entretanto, estava convicta de que o comunismo era pior. Se dispunham a trabalhar com os fascistas caso a esquerda mostrasse a possibilidade de triunfar" (p. 48).

Historiador israelense discute globalismo e nacionalismo

Por André,

O historiador best-seller Yuval Noah Harari é entrevistado pela TED Talks e fala sobre o futuro do mundo e a atual tensão entre globalismo e nacionalismo:


O entrevistado é pró-globalismo. O que é um avanço para o debate brasileiro, visto que por aqui o assunto ainda é teoria da conspiração perpetrada por Olavo de Carvalho e negado até por nossos pretensos diplomatas.

A pergunta do filósofo John Haidt, feita ao longo da entrevista e a resposta do historiador são simbólicas: os globalistas querem a instalação de um governo global e são incapazes de oferecer qualquer garantia que vai se parecer mais com a governança nórdica que com a governança saudita.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Problemas Filosóficos: Clareza filosófica

Problemas Filosóficos: Clareza filosófica: Em um quarto escuro, com pouca iluminação, é difícil enxergar o que ele contém, se é que é possível. Se você acende uma luz nele, o torna...

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Pachecos, pachequismo ou: torcer é irracional

Por André,


“Pacheco”, mascote torcedor da copa de 1982 que virou símbolo e sinônimo de torcedor irracional

Perdoem o textão, mas esse “manual do analista” está engasgado na garganta desde antes do início da Copa, até para prevenir o que está ocorrendo agora. Antes que eu pareça profeta do passado, vamos às observações:
1) ESTÁ “PERMITIDO” TORCER. Minha posição não é contra “torcida” nem contra o torcedor. Acho um sentimento normal e, em nível de sociedade, até positivo. Bom para o “Volksgeist” (não é pedantismo, é que ainda há espaço para análises com um quê sociológico no futebol, reforçando a falta que faz entre nós um Nelson Rodrigues). Porém, JAMAIS se deve esquecer que torcer é um sentimento IRRACIONAL. Caso não fosse, só haveriam torcedores dos times super-vencedores e grandes. O cara que torce pro time pequeno sabe que o time dele não vai ganhar nada grandioso, mas mesmo assim torce. Uns torcem só pra esse time de menor expressão, outros adotam um maior e por aí vai, porque a escolha por quem você torce não é técnica e racional, mas determinada por fatores incontroláveis, irracionais e normalmente imunes à análise racional. O futebol tem essa aura de irracionalidade que o ronda e isso faz parte da sua mística. É pura análise factual, sem tom de crítica ou intenção de mudança.
2) EU NÃO TORÇO. A última vez que torci pela seleção brasileira foi em 2002. Torcer mesmo — e vale lembrar o que é torcer: gritar, xingar, aumentar o volume da TV, querer que ganhe a todo custo (com a ajuda da arbitragem, sem, jogando bem ou mal, de maneira soberana ou sôfrega, no último minuto etc.). Acho que esse texto não se trata das minhas motivações para não torcer mais para o Brasil. Mas o fato é que eu não torço. Ponto. Eu (tento) fazer análise (não quero posar de analista isento e onisciente, enfatizo o TENTAR, não quer dizer que acerte e faça com 100% de precisão sempre, mas é uma meta). Como normalmente o público do futebol sempre faz. Eu faço tudo que um torcedor (cuja existência está “permitida” e até é saudada, conforme 1) não faz. Em Copas do Mundo, de 2002 até então, o que eu quero ver em Copas é o bom futebol e que boas ideias de jogo sejam brindadas com a vitória. Com exceção de 2006 (sem demérito algum para a Itália e muito menos para seus torcedores), acho que isso ocorreu em 2010 e 2014. Desse meu ponto de vista fiquei satisfeito com as vitórias de Espanha e Alemanha, achei que duas boas ideias de jogo (a primeira influenciando a segunda, inclusive) e duas excelentes gerações foram brindadas com uma Copa do Mundo. Eu não quero um universo futebolístico onde as ideias predominantes são as de Dunga, Felipão ou Parreira. Então eu não “torci” para Alemanha ou Espanha, não me pintei, não gritei, não ergui o volume da TV. Eu não torço, eu quero a máxima realização possível do melhor futebol possível.
3) Considerando 1 e 2, vem inevitavelmente a questão do PATRIOTISMO. Essa questão me persegue desde que abandonei a torcida, mas é preciso admitir, se está permitido torcer, também está permitido não torcer, sem débitos “civis” para não torcedores. Primeiro, eu acho que muita gente seca a seleção brasileira, mas ninguém se pinta, compra camisa, grita a cada lateral em favor dos adversários do Brasil. Outro detalhe: não superestimem torcida, torcida não muda NADA. Exceção feita a algumas torcidas de clubes argentinos, torcedor não apenas não altera a ordem dos fatores como, às vezes, contribui negativamente. Por ser irracional, é volúvel, tudo está bem ou mal conforme a direção do vento. Torcer é superestimado e a postura reativa de torcedores com relação a não torcedores só mostra isso. Está permitido torcer, quem quiser torcer, que torça, quem não quiser, idem. Nada muda.
Os próprios torcedores deveriam se prevenir contra a associação entre não torcer e antipatriotismo. O símbolo nacional desse suposto patriotismo é Galvão Bueno e bastante emblemático desse patriotismo sazonal. Em Copa do Mundo é hora de ficar rouco pelo Brasil, nos demais 47 meses de vida normal é hora de se encastelar luxuosamente em Mônaco. Esse cara é mais patriota que eu, cidadão em absoluto acordo com seus deveres civis e que não acresce nada em nenhuma estatística negativa (de tantas, como também se perdem ao citar o pessoal do “o IDH da Suíça é melhor que o nosso)? Em Copa do Mundo você torce, grita, se pinta, coloca a “pátria na chuteira”, mas depois volta à rotina normal de degradação social, mas o patriota é você e não eu? É nesse tipo de análise que o irracionalismo torcedor se traveste de analista isento.
Em suma: torcedores, torçam! E não encham o saco. Não torcedores, não torçam, fundamentem melhor sua posição (nós é que somos o elefante branco no meio da sala) e também não encham o saco. A postura reativa que pode eventualmente aparecer dos dois lados, mas normalmente aparece mais do lado torcedor deixa transparecer quem é o líder cuja liderança não está clara e precisa ser provada a cada instante (fato que, aliás, precisa ser compreendido urgentemente por brasileiros, a seleção brasileira é penta sim, isso é um fato histórico honorável, mas não é mais bicho papão, leva de 7 em casa, toma sufoco de Suíça, ganha nos acréscimos de Costa Rica etc.). Ninguém é menos patriota, menos cidadão, menos cumpridor de deveres, menos brasileiro por não torcer para o Brasil. Mais torcida e menos pachequismo.

sábado, 2 de junho de 2018

O esquerdismo é a politização total da vida

Por André,

Sempre que posso reforço uma mensagem em textos e palestras (e o livro que estou terminando de escrever toca centralmente nessa questão): uma excelente maneira de definir a esquerda é pelo grau de politização que esquerdistas querem e trazem para a vida comum. Gentes à esquerda do espectro político comem política no café da manhã, no almoço, no jantar e enquanto dormem. E quando tratam de assuntos não-políticos, é para furar as barreiras até onde a imaginação alcança e então politizar esses assuntos (videogames, futebol, humor, a piadinha que você conta pro seu vizinho etc. etc.). Essa tem sido a tônica da esquerda política nos últimos tempos, a tentativa (e em grande parte com sucesso) de criar um império do radicalismo político onde todas as questões da vida precisam passar pelo crivo da correção política.

A Universidade de Dartmouth realizou uma pesquisa interessante que veio a comprovar tanto a minha descrição, como refutar uma outra peça de propaganda dessa mesma esquerda que já se confunde com o próprio senso comum, a saber, que eles, a "esquerda", são os tolerantes e conservadores são as figurinhas fascistas, hostis e que desejam eliminar quem discorda deles.

Segundo o gráfico abaixo, os estudantes universitários identificados como "democratas" (considere a propensão da juventude democrata para votar em Bernie Sanders se acha exagerado chamar democratas de esquerdistas radicais) consideram que a divergência política é um critério definidor para uma série de coisas da vida comum que teoricamente tem pouco a ver com política.

82% não considerariam namorar alguém que diverge politicamente deles;

55% não seria amigos;

39% não confiariam;

23% não estudariam e

22% não fariam um trabalho em grupo com pessoas que divergem politicamente deles.

Notem também que republicanos têm números MUITO mais baixos que esses. Enquanto quase que 1/4 de democratas se negaria a estudar com um colega republicano, apenas 7% dos republicanos pensam da mesma maneira!

Não é por acaso que o youtuber libertário Dave Rubin afirma que adoraria ser convidado por grupos de estudos de democratas para fazer debates e dar palestras em suas universidades, mas os convites só vêm de outros libertários e de conservadores.

Quem será que são os verdadeiros intolerantes? Conservadores ou o universitário "progressista", de esquerda e democrata?

Link para a pesquisa completa: https://goo.gl/GMwpp6.



sexta-feira, 1 de junho de 2018

Brilhante entrevista de Dave Rubin com o historiador escocês Niall Ferguson

Por André,

Ferguson falou sobre a "Dark Web Intellectual", uma espécie de rede de conexões entre intelectuais não-esquerdistas, guerra cultural, Trump, sua mudança de opinião sobre o Brexit e o destino do Reino Unido de Theresa May.

Detalhe para o jeito caridoso e amoroso com que Niall se refere a sua mulher, Ayaan Hirsi Ali:

domingo, 27 de maio de 2018

Os antissistema

Por André,


Você já deve ter ouvido alguém se dizer “contra o sistema” ou que tem por objetivo “derrubar o sistema”. Por mais que eu não faça a menor ideia o que exatamente é esse “sistema” e como ele pode ser derrubado ou substituído, é nítido que, no imaginário dessas pessoas, ser contra o sistema é apenas uma maneira de se dizer “anticapitalista”. As pessoas identificam vasta parte das mazelas que aí se encontram com o capitalismo e não, por exemplo, com a burocracia estatal, com o estamento. A saúde vai mal por causa do “sistema” e não graças à lógica mesma da prestação de serviços públicos (é da natureza da ideia de cobrar impostos que você receba como retorno menor do que foi obrigado a “investir”, afinal, se fosse para receber exatamente a mesma coisa, o intermediário poderia ser eliminado e se fosse pra receber mais seria uma equação em que o lado mais forte, da administração central, sai perdendo – a lógica dos impostos é a mesma de aguardar ansiosamente seu salário mensal, mas legar ao vizinho a tarefa de fazer as compras do mês). Não consigo conceber a que essas pessoas atribuem o bom funcionamento da internet, terreno (ainda) bastante desregulado e privado, embora as sanhas estatais sobre a internet tenham crescido vertiginosamente nos últimos anos. 

É raro, senão impossível, que eu passe por uma reunião com outros professores e não ouça algum muxoxo contra essa abstração chamada “sistema”. Crítica que traveste, consciente ou inconscientemente, uma forte mentalidade anticapitalista. Em livro homônimo, Ludwig von Mises fala da mentalidade anticapitalista existente em classes como artistas e intelectuais. Mas estes são anticapitalistas mais por desonestidade intelectual e menos por ignorância ou por nutrir a crença ingênua, e talvez honesta, que o “sistema” é capitalista e é causa das mazelas cotidianas no setor de serviços, por exemplo. Esse mito, alimentado particularmente por professores das áreas de ciências humanas, meus colegas de área do conhecimento, creio que revela algo mais profundo: a fortíssima tendência ao pensamento mágico na política. Uma espécie de crença que se o tal “sistema” mudasse, então tudo seria diferente para melhor. Muito da crença honesta na capacidade de medidas socialistas originam-se nessa forma mágica de pensar, que crê que problemas podem ser resolvidos a base de canetadas de burocratas ou após quebra-quebra de multidões ensandecidas.

Ser “contra o sistema” é apenas um chavão de pensamento de origem “anarcocomunista”, vazio como qualquer outro. Todo mundo é contra coisas erradas, todo mundo é, teoricamente, “contra o sistema”. O ponto nunca pode estar centrado nos aspectos mais genéricos e arbitrários, como esse. As questões são e sempre serão: você realmente sabe contra o que está se posicionando? Compreende, ainda que basicamente, as consequências da sua “queda do sistema”? Sabe qual “sistema” substituirá o atual? Pode oferecer um vislumbre do que vem depois da “queda do sistema”. As respostas para essas perguntas são, certamente, para a maioria dos “antissistema” que repetem aleatoriamente sua contrariedade, “não”. Contra o que há de errado, pontuando exatamente o que está errado e sugerindo soluções sim, “contra tudo que está aí”, não.

domingo, 20 de maio de 2018

Rousseau entusiasta de Maomé

Artigo originalmente publicado no Mídia sem Máscara,




          No terceiro capítulo de A Nova Ciência da Política, o filósofo e cientista político germano-americano Eric Voeligen, na esteira do propósito da obra, faz uma análise do problema da representação no império romano. O que e a quem o imperador representa? A teologia “pagã” funcionava como teologia supernaturalis, mas necessária e imprescindivelmente também como teologia civilis. O destino da política estava diretamente atrelado ao culto devido aos deuses: se as coisas iam bem, era graças aos sacrifícios prestados e à sua proteção; se iam mal, era sinal que a adoração havia falhado de alguma maneira. Isto é, a funcionalidade da sociedade dependia diretamente da intervenção dos deuses no mundo e a expectativa das pessoas era que os deuses intervissem; fazer parte da sociedade em questão envolvia necessariamente a adoração dos mesmos deuses, já nas palavras de Rousseau “(...) seu governo não distinguia seus deuses de suas leis” (ROUSSEAU, 1989, p. 150).

            No bojo da ascensão do cristianismo (também com a proposta de servir de teologia civil, de proteger melhor o império que os velhos deuses), contudo, uma “desdivinização” do mundo ocorreu. A realidade passou a estar irremediavelmente cindida. Santo Agostinho nomeou a cisão em “Cidade de Deus” ou Cidade Celeste e “Cidade dos Homens” ou Cidade Terrestre. O cristianismo pode até ser a religião de Estado, mas príncipe e pontífice são pessoas distintas e o tipo de religiosidade que opera essa divisão é, para Rousseau, “tão evidentemente mau que constitui perda de tempo o divertimento de demonstrá-lo” (ROUSSEAU, 1989, p. 154), visto que “tudo quanto rompe a unidade social não serve para nada” (ibidem). O critério que depreendemos é bastante simples: se incrementa a coesão social é bom (o próprio sumo bem), se não o faz, então é mau.

            O chamado problema do “contratualismo” traz, à sua maneira, o mesmo problema à superfície do debate: um “contrato” humano calcado na política pode criar uma convivência harmoniosa perene? Rousseau acreditava que sim e, nessa sociedade, uma “teologia civil” se mostra indispensável, podendo haver um problema: o cristianismo pode ser uma pedra no sapato rumo à concretização da tal sociedade harmônica, visto que desdiviniza o mundo, minando a expectativa de uma ordem social terrena perfeita. Para o filósofo genebrino, o “cristianismo do Evangelho” cria maus soldados, despreza este mundo e esta vida e atrapalha a coesão social; ainda afirma que “uma sociedade de verdadeiros cristãos já não seria uma sociedade de homens” (ROUSSEAU, 1989, p. 155).



Grosso modo, um dos pontos axiais da obra de Eric Voegelin vai justamente na contramão dessa percepção rousseauniana: uma ciência política exclusivamente “positiva” é impossível pois o homem está irremediavelmente vinculado ao transcendental; há uma ordem suprema à qual a ordem social não pode ser dissociada e qualquer um que pretenda abordar o problema da representação sem tomar isso em conta enfrentará problemas.

Isso posto, salientamos que, enquanto o cristianismo está atinado a esta verdade diagnosticada por Eric Voegelin, visto que exorta que “a César o que é de César” (Mateus, 22:21) e que “no mundo tereis aflições” (João, 16:33), como já tivemos a oportunidade de apontar e como concorda Rousseau, o islamismo é um modelo funcional de como conjugar uma teologia política e uma teologia sobrenatural. A religião de Maomé nem de longe coloca para um teórico da coesão social perfeita os mesmos problemas colocados pelo cristianismo, conforme afirma Rousseau:

O culto sagrado permaneceu sempre ou veio a tornar-se independente do soberano e sem ligação necessária com o corpo do Estado, Maomé teve objetivos muito salutares; soube ligar muito bem seu sistema político e, enquanto a forma de seu governo subsistiu sob a direção dos califas que lhe sucederam, tal governo foi exatamente coeso e, por isso, bom (ROUSSEAU, 1989, p. 152, grifos nossos).

A despeito da convenção de se chamar islamismo, cristianismo e judaísmo de “religiões monoteístas” – dando a entender que as três mais se assemelham que se distanciam –, numa época em que o islam político cresce e sua natureza de cosmovisão é salientada, faz-se mister frisar que o aspecto político da religião de Maomé não é um aspecto marginal ou historicamente ocasional (como pode ser apontado para os casos de cristianismo ou judaísmo), mas sim algo constitutivo de sua natureza mesma e por isso digno da saudação de Jean-Jacques Rousseau (demarcando também um bom ponto de inflexão entre o islam e judaísmo e cristianismo).

Para corroborar nossa tese, vale aqui a exegese (de Salmir El Hayek e nossa) do talvez mais famoso trecho do Alcorão em tempos de terrorismo islâmico: 5ª surata, versículo 32: “Por isso, prescrevemos aos israelitas que quem matar uma pessoa, sem que esta tenha cometido homicídio ou semeado a corrupção na terra, será considerado como se tivesse assassinado toda a humanidade”. Não seria isto evidência que o islam prega a paz e rechaça o assassinato incondicionalmente? Na verdade não. Em retaliação a outro homicídio é lícito matar, mas igualmente o é matar aquele que semeia corrupção na terra. Considerando a literatura disponível, como podemos entender do que se trata?

A única separação reconhecida pelo islam é entre ele e o resto. Não à toa todo não-muçulmano é chamado de “kafir” (infiel que não professa o islam), o que não sem explicação faz com que em muitos países muçulmanos fieis de outras religiões sejam tratados como cidadãos de segunda classe. Se Jeová é amor (I João, 4:8), isto é, ama a todos incondicionalmente: hindus, muçulmanos, pecadores, ateus etc, Allah só ama aqueles que o amam de volta (diversos versículos atestam isso, entre eles destacamos 30:45 e 03:32). Logo, todos que não adoram Allah, “adeptos do Livro ou politeístas” (98:6, 3:110) semeiam a corrupção no mundo. Não pode surpreender, portanto, a prescrição de regras específicas sobre como dirigir o mundo de maneira que a corrupção não seja semeada: podendo incluir desde a eliminação sumária dos corruptores até orientações sobre como escovar os dentes.

Samir El Hayek, em comentário a sua tradução para o português brasileiro do Alcorão para o trecho que analisamos trata, inclusive, de “traição contra o Estado” quando se está a “espalhar a corrupção na terra”; relata também as quatro penalidades adequadas para os que pecam contra o Estado e contra Allah: “execução (cortar a cabeça), ‘crucificação’, aleijamento ou exílio” (Alcorão, Marsam Editora, p. 132n). El Hayek está apenas explicitando o que está implícito em toda a doutrina islâmica e foi objeto de elogio de Rousseau: há uma fórmula bastante específica e totalizante de dirigir a vida em sociedade neste mundo – e a jihad é apenas uma face dessa fórmula – que deve fazer das pessoas não apenas bons devotos, preocupados com o reino espiritual, mas também cidadãos subservientes a regras estatais bastante específicas.

*Rousseau elogia Maomé em dois momentos de O Contrato Social: implicitamente no capítulo 7, livro 2 e explicitamente no citado capítulo 8, livro 4.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Alcorão Sagrado. Tradução e notas de Samir El Hayek. São Paulo: Marsam Editora Jornalística, 1994.

GUNNY, Ahmad. Prophet Muhammad in French and English Literature: 1650 to the present. Leicestershire: ed. The Islamic Foundation, 2011.

ROUSSEAU, Jean-Jacques. O Contrato Social. São Paulo: ed. Martins Fontes, 1989.

VOEGELIN, Eric. A Nova Ciência da Política. Brasília: ed. UnB, 1982.

O mínimo do mínimo sobre fake news

Por André,


Primeiro: é um conceito redundante. Espalhar informação falsa com propósito político é nada mais nada menos que a boa e velha DESINFORMAÇÃO. Arte na qual sabemos bem quem foi (é) especialista.

Segundo: como a nomenclatura está contaminada pelo sentido que aludi acima, a elite falante não poderia recuperar o termo. Inventaram "fake news" e "pós-verdade" como arcabouço teórico para explicar a força das redes sociais (em detrimento da mídia "tradicional") na eleição de Donald Trump (pelas bandas da América ele conseguiu reverter essa polaridade chamando a CNN de "fake news" na cara dos caras) e engrossar seu verniz conspiratório junto com a maluquice do conluio com a Rússia.

Fatos esses confirmados pelo contrato entre Facebook e "fact checkers" irem de agora (candidatos à eleição praticamente todos definidos) até dezembro (pós-eleição e suas reverberações).

PS.: para quem encara com boa vontade a ideia de se checar a veracidade de notícias duvidosas que com o advento da internet se espalham rápido como nunca, sim, eu concordo, no melhor dos mundos isso seria uma atividade perfeitamente legítima. Mas dado o contexto e altura do campeonato, crer que essas agências são realmente isentas não é diferente de acreditar que o socialismo traz igualdade porque na teoria isso é uma promessa possível.

sábado, 19 de maio de 2018

Debate sobre o politicamente correto com Jordan Peterson e Stephen Fry

Por André,



Ontem (18/05), ocorreu um debate sobre politicamente correto entre dois defensores da ideia e provavelmente o intelectual vivo mais atuante, Jordan Peterson, e o humorista e ator britânico Stephen Fry.

Minhas impressões e observações, acabo de assistir o debate:

- Pra quem gosta da linguagem dos famosos "frames", o destaque mais importante é que Jordan Peterson conseguiu INVERTER O FRAME do debate. Os debatedores em defesa do politicamente correto ABRIRAM seus discursos atacando Peterson. Ou seja, como apenas em raras vezes, a direita não fez o papel reativo-negativo (criticar, apontar o que está errado), mas sim o papel propositivo/afirmativo, obrigando a esquerda a se pôr a responder (Ronald Reagan dizia que, se em um debate você precisa começar se explicando e justificando, você já perdeu). Peterson colocou a esquerda tresloucada e hegemônica na defensiva. O ensinamento estratégico fica explícito.

- Stephen Fry não é conservador, de direita ou coisa que o valha. Está, talvez, mais alinhado a uma posição liberal clássica. AINDA SIM, foi um interessante combatente para fazer lado com o Peterson, tanto pelas suas sacadas, mais comuns a quem tem uma veia humorística, quanto pela posição geralmente diversa que possui para outros assuntos. Isso quebra a narrativa hegemônica da esquerda sobre "minorias" e ensina a direita purista que a guerra cultural não se ganha com purismo. Aliados de última hora são essenciais para ganhar batalhas.

- A moção original já era vastamente favorável ao lado Peterson/Fry (alguma coisa nesse sentido: "o que você chama de politicamente correto eu chamo de progresso", 64% da plateia já discordava da afirmação ANTES do debate, mas 87% dessa plateia se dizia aberta a mudar de ideia, Peterson e Fry conseguiram engrossar o grupo em 6%, vencendo a contenda).

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