domingo, 15 de outubro de 2017

A filosofia como apologia da clareza

Por André,

O relojoeiro suíço, de Norman Rockwell

Sócrates notabilizou-se por sair às ruas inquirindo os sábios com perguntas do tipo "o que é?". Alegadamente sábios, muitos homens deveriam saber o que é o Bem, a Verdade, a Beleza, a Justiça, o Amor, o Mal etc. etc. Versados em história da Filosofia como vocês são, bem sabem que os supostos sábios não conseguiram responder apropriadamente as perguntas de Sócrates, sendo então expostos publicamente como ignorantes, o que rendeu notoriedade ao mestre de Platão e, em grande parte, fez com que toda a História da Filosofia passasse a ser dividida em antes e depois de Sócrates.

Os sábios não sabiam realmente nada e suas respostas confusas só faziam obscurecer os conceitos discutidos, sendo então a famigerada pergunta "o que é?" uma tentativa de definir com clareza do que se trata exatamente os conceitos mais caros à humanidade.

Não quero aqui, pode parecer a alguns, aderir a quaisquer escolas de Filosofia Analítica*, que sabidamente ganharam corpo à base da ideia de que toda a Filosofia se define por apuração da linguagem o que, (supostamente) por consequência, leva a apuração de conceitos. Quero provar apenas que a Filosofia tenta, por sua natureza e por excelência, tornar as coisas mais claras (o que pode parecer estranho aos ouvidos do "senso comum", que tende a associar filosofia com discussões sem fim, sobre temas obscuros em linguagem restrita - não apenas do senso comum, diga-se; Rousseau garantia que o homem em estado de natureza não tem inquietações filosóficas, pois sua condição mesma já torna claro tudo que é necessário o ser; ou Marx, que afirmava que os filósofos já haviam interpretado o mundo com seus sistemas complexos de pensamento demais).

Desnecessário dizer, pois já o disse, que aqui se toma claramente uma posição (em grande parte mas não totalmente) anti-moderna, certamente anti-pós-moderna e, em larga escala, por consequência, anti-francesa e anti-alemã, visto que todas essas escolas contribuíram fartamente para a ideia que a Filosofia se faz por meio de textos quase criptografados, tratando do mundo inteiro em teses e termos puramente abstratos e obscuros. Vale citar, para reforçar o argumento, o que já fora dito sobre pós-modernidade e Michel Foucault (e seu desejo aberto de ser obscuro para causar impressão de profundidade), escola e autor (entre tantos outros) que sacrificaram a clareza no altar da obscuridade (por vezes, ideológica).

David Hume, em suas Investigações sobre o entendimento humano e sobre os princípios da moral, trata de assunto semelhante (e não idêntico) ao diferenciar entre os filósofos morais, atrelados a certa "filosofia prática", uma "filosofia fácil", como Sêneca e Cícero e os metafísicos, como Aristóteles, Malebranche etc, praticantes de uma "filosofia abstrusa" (HUME, 2004, p. 19-33). Disso, podemos dizer que: não nos preocupa aqui o trato de assuntos elevados, por vezes, em si mesmo obscuros, visto que cremos que estes podem (e devem) ser expostos de forma clara. Exemplo disso é o próprio Aristóteles: o Organon e a Metafísica tratam de assuntos elevadíssimos e de difícil compreensão, porém, de maneira absolutamente inteligível e clara. E, ainda, o próprio David Hume na obra citada, faz - de forma anglosaxonicamente clara - tanto papel de filósofo da moral (a dita "filosofia fácil") quanto de metafísico ("geógrafo do entendimento humano"). É possível afirmar com satisfatória segurança: quem lê e não compreende David Hume está, provavelmente, com mais problemas em si próprio que no estilo do filósofo.

Por fim, foi Descartes quem afirmou, ipsis litteris, o que aqui se diz: o raciocínio filosófico deve ser claro e distinto. As proposições devem ser claras e distintas (por oposição às confusas e obscuras). Desnecessário dizer que, por aqui, adere-se ao disgnóstico cartesiano, mas não necessariamente ao seu método como um todo, como única via para se atingir clareza e distinção - tópico este para ser discutido alhures.

Pois bem, o que é uma percepção clara e distinta para Descartes? A resposta está no parágrafo 45 dos Princípios da Filosofia:

"Há mesmo pessoas que durante toda a sua vida não percebem nada em condições de bem julgar, porque o conhecimento daquilo sobre o qual se pretende estabelecer um juízo indubitável deve ser claro e distinto. Chamo conhecimento claro àquilo que é manifesto a um espírito atento: tal como dizemos ver claramente os objetos perante nós, os quais agem fortemente sobre os nossos olhos dispostos a fitá-los. E o conhecimento distinto é aquela apreensão de tal modo precisa e diferente de todas as outras que só compreende em si aquilo que aparece manifestamente àquele que a considera de modo adequado" (DESCARTES, s/d , p. 43).

Nas famosas Meditações Metafísicas, Descartes só procederá no estabelecimento de provar a existência do eu se puder fazê-lo de maneira clara e distinta. E da mesma forma para tudo que se queira conhecer de forma segura.

Essa tradição de apologia da clareza, que remonta a Sócrates, é mantida pelos escolásticos e, mesmo titubeante, mantém-se em boa parte dos autores anglo-saxões é, penso eu, marca definidora da própria Filosofia, que busca ser clara e expor com clareza aquilo que se propõe a explicar**, na contramão de grande parte do que se produz em Filosofia hoje: modernismo, pós-modernismo, estruturalismo e, tristemente, parte da tradição continental (hermenêutica, historicismo etc). De sorte que, afirmo peremptoriamente, se a Filosofia deseja sair de sua agonia deve recuperar sua longa tradição de clareza.


* Diagnóstico semelhante fez Mario Bunge (por quem não nutro grande simpatia), em texto que afirma que a Filosofia não está morta, mas está doente. Em forma de prova ao seu argumento diz que a atual debilidade da Filosofia se deve, basicamente, a essa confusão entre obscuridade e profundidade, além de preocupação obsessiva com linguagem (Wittgenstein). Aqui se trata menos de uma apologia (necessariamente e apenas) de linguagem clara e mais da própria clareza de afirmações, que usará, evidentemente, linguagem mais clara possível como meio para tanto.

** Não posso me furtar aqui de mencionar a tragédia da filósofa PO(O)P Márcia Tiburi em sua mais recente obra cometida Como conversar com um fascista; nela, afirma-se logo de entrada, que fascista é todo mundo que não gosta do Jean Wyllys. Toda a tradição de clareza, precisão e distinção conceitual da Filosofia fora reduzida a isso. 


DESCARTES, René. Princípios da Filosofia. Trad. João Gama. Lisboa: ed. Edições 70, s/d.

HUME, David. Investigações sobre o entendimento humano e sobre os princípios da moral. Trad. José Oscar de Almeida Marques. São Paulo: ed. UNESP, 2004.

P.S.: Olavo de Carvalho, em aula onde comenta o que é uma obra de arte e as recentes polêmicas envolvendo QueerMuseum (Santander) e MAM afirma, com preocupação mais sociológica que epistemológica, que no Brasil todo mundo trata das coisas em sínteses confusas, devendo, portanto, passar dessas a sínteses claras:

Indícios de que se está cercado pela(s) pessoa(s) certa(s)

Por André,



Escrevi brevemente, apoiado em Viktor Frankl, sobre a necessidade de se estar cercado das pessoas certas. Escrevo agora breves notas sobre como perceber se se está ou não ao redor delas.

O ser humano, tudo parece indicar, é incompleto. Mesmo quando atingimos breves momentos de plenitude, como dito, eles são breves e não são amplos. Ninguém é pleno o tempo todo em todos os aspectos importantes da vida. De forma que se torna absolutamente importante e necessário, justamente, se cercar das pessoas certas, pessoas que te completarão.

Em reflexão um tanto quanto solta, penso que são indicativos de estar cercado das pessoas certas:

- compartilhamento de sentido. Não quero dizer aqui compartilhar o mesmo sentido ("ser engenheiro", "ser intelectual" etc). É importante que haja sentido e esforço na busca por esse sentido, mesmo que se trate de coisas distintas. Um ajuda o outro a realizar aquilo que foi estabelecido como sentido para as vidas.

- faz de você uma pessoa melhor. Na medida que ninguém é completo, ninguém é perfeito (ahhh, os clichês) e, portanto, todos tentam melhorar. Se as pessoas que nos cercam - consciente ou inconscientemente - te fazem alguém melhor, bom indicativo de que são as pessoas certas. Disso segue que:

- não se perder com as lisonjas. Quem te faz melhor não fica a tecer lisonjas em tempo algum. A lisonja é a expressão máxima da indiferença, do "tanto faz": não ligo pra você mesmo, então vou elogiar em vez de apontar o que pode te fazer melhor, apontar seus erros para que os corrija. Vale mencionar o adágio islâmico que afirma que a lisonja é coisa do diabo. Ou ainda, como diz Nissim Taleb: teus amigos te criticam em público e elogiam na esfera do particular, é o que se deve esperar deles.

- te inspiram. Sabe quando vemos algo muito bem feito ou uma ação tão bela que deveria ser copiada? Você se sente um inútil derrotado por não ter sido você ou por não se sentir capaz de feito semelhante, mas também inspirado a fazer coisas mais elevadas e a melhorar o que já faz, pois ainda há quem faça valer a pena.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Edgar Allan Poe sobre a Beleza

Por André,



"(...) durante toda a composição do poema, não perdi de vista em nenhum momento a intenção de torná-lo universalmente apreciado" (grifo do autor)".

"a beleza é a única esfera legítima do poema".

"A contemplação da beleza, creio eu proporciona o mais intenso, elevado e puro de todos os prazeres. Na verdade, quando se fala em beleza, não se está referindo exatamente a uma qualidade, como se supõe, e sim a um efeito - está se referindo, em suma, à intensa e pura elevação da alma, não do intelecto ou do coração - a qual mencionei e que pode ser extraída da contemplação do 'belo'".


POE, Edgar Allan. Medo clássico. São Paulo: ed. Darkside Books, p. 344 e 345.

Roger Scruton sobre Harry Potter

Por André,




Um historiador do futuro, olhando para o tempo em que vivemos, certamente identificará J.K. Rowling como uma figura de elevada importância. De uma forma que tinha poucos precedentes desde “Peter Pan” e “O vento dos salgueiros”, ela capturou a imaginação coletiva do povo britânico e preencheu nossas mentes com personagens e atitudes que serviram como um quadro de referência compartilhado. Não apenas em nossos devaneios, mas também em nossas esperanças e intenções. 


[...] Há alguns entre meus colegas literários que rejeitam os livros de Harry Potter como literatura inculta, baseada em personagens descartáveis lançados em enredos extravagantes que não vão a lugar nenhum. 

Eu não concordo com eles. J.K. Rowling desfruta do tipo de sucesso que apenas um escritor que tocou em sentimentos reais e universais pode alcançar. Ela tem talento para inventar personagens que engajam os sentimentos de leitores comuns e situações em que as emoções do dia-a-dia são, repentinamente e alarmantemente, colocadas em teste. Os enredos dela podem ser extravagantes, mas existem poucas – se houverem – pontas soltas; e tudo corre suavemente, da descrição ao diálogo, e vice-versa.

Ela também tem algo do talento de Dickens quando se fala em nomes. Dumbledore, Voldemort, Malfoy, Hagrid, Hogwarts. Esses e muitos outros são propriedades domésticas como Magwitch, Peggotty e Oliver Twist. De um modo geral, eu daria crédito à J.K. Rowling por dar uma real contribuição à literatura, ainda que literatura infantil. 

Há literatura infantil de dois tipos: de um lado existem as histórias que abordam especificamente o estado de espírito da criança, e brincam com aquelas emoções primordiais que são resíduos dos tempos das cavernas – deste tipo são os contos populares coletados e embelezados pelos Irmãos Grimm. Por outro lado, existe a literatura que não é voltada para a criança, mas para a idéia da criança; literatura que retrata a mente infantil, valoriza-a, e também usa-a para transmitir verdades sobre o mundo adulto. Entre as obras deste segundo tipo estão algumas das obras primas da nossa literatura, incluindo os livros de Alice, por Lewis Carroll, e a história de Mark Twain sobre Huckleberry Finn. 

Literatura infantil deste segundo tipo é sobre o mundo como realmente é, mas escrito de uma forma que coloca a inocência e a ingenuidade da criança no centro da narrativa. A literatura infantil do tipo menos artístico não é sobre o mundo como realmente é, mas é sobre o mundo na percepção da criança, quando privado da sabedoria e da experiência adulta. É um mundo mágico, organizado por poderes ocultos e feitiços. É também um mundo simplificado onde bem e mal são revelados em termos concretos e dividem a realidade entre eles. É um mundo sem responsabilidades, uma vez que elas estão em outras mãos. 

E a criança que cai num mundo como esse só precisa de um tipo de conhecimento, que é o conhecimento de feitiços que irão invocar as forças do bem para protegê-la e afastar as forças o mal.

Tal mundo é o descrito e ricamente mobiliado por J. K. Rowling e sua narrativa astuta, que irão trazer total aprovação de todos aqueles que algum dia tentaram contar uma história de ninar. Mas isso levanta questões importantes sobre nossa cultura. Apesar dos livros de Harry Potter serem para crianças, eles deixaram de ser histórias de ninar e invadiram o dia-a-dia de trabalho adulto. Os nomes dos personagens estão na boca de todo mundo; a internet oferece os nomes de Harry Potter para cachorros, gatos e pôneis; a própria J.K. Rowling te convida para batizar seu político mais odiado com os recursos do léxico dela: A Sra. May* é claramente uma Dursley, mesmo que Corbyn** não tenha alcançado o status de Dumbledore.

O aspecto mais interessante das histórias de Harry Potter, antropologicamente falando, é que elas acreditam numa forma de fascínio antiquada e bem inglesa, ao mesmo tempo que evita qualquer tipo de referência a nossas crenças religiosas tradicionais. Hogwarts é uma escola tradicional inglesa, com abadias e uniformes, com jogos que instigam as velhas virtudes esportivas e a disciplina hierárquica, associada com jantares formais e discursos cerimoniais. É uma grande catedral gótica, mas sem altar, hinos ou orações. 

Então como o encanto é mantido? A resposta é: por magia. E essa magia é a criação soberba de Rowling, que preenche todo lugar que a religião teria ocupado, enquanto tira o conflito entre bem e mal do plano de fundo cósmico e o coloca num plano de ações humanas. O conflito é revelado nas formas e faces, nas fissuras e fantasias, nas silhuetas e sombras desta instituição assustadora. Como disse o poeta invocado por Shakespeare, Rowling deu “a dois nadas etéreos” (two airy nothings) um local habitado e um nome. 

Mas a forma de encanto dela também nos lembra por que religião e magia estiveram em oposição. A religião nos diz que nós não temos poder sobre o mundo e que devemos aceitar nossas limitações, reconhecendo que nossa salvação depende de Deus, que vai nos resgatar. Quando nós rezamos, não ordenamos que o mundo nos obedeça, ao contrário, nos humildemente admitimos nossa falta de poder e pedimos a Deus que intervenha em nosso bem. Oração é o reconhecimento da nossa fraqueza e ao mesmo tempo é a solução para merecer a ajuda de Deus. 

Nesse aspecto, orações são o exato oposto de feitiços. Aquele que conjura um feitiço está assumindo poder sobre a realidade. Ele não tem a necessidade de nenhum Deus, já que ele é Deus; ele está assumindo poder sobre o criador e subjulgando a vida e a matéria a sua vontade. 

[...] Eu distingui dois tipos de literatura infantil: o tipo que explora os medos e esperanças primordiais de uma criança, onde a magia desempenha um papel de controle; e a parte que olha, com os olhos da criança, o mundo adulto real, e traz uma medida de inocência que ensina à criança a ver a sua própria. 
Lewis Carrol, que elevou o segundo tipo de literatura ao nível artístico mais elevado, era um matemático – com um cérebro científico frio e claro – cuja heroína luta contra a ilusão com todo seu poder de raciocínio encantador. Ela é uma criança que quer ser adulta, explorando as sombras da própria imaginação e acendendo a luz da razão que irá afastar estas sombras.

As histórias de Harry Potter são o exato oposto disso. Elas mostram um mundo adulto completamente invadido por medos e delírios infantis: magia e mistério são a moeda em que todas as transações são mensuradas; a varinha, o feitiço e o estoque de conhecimento oculto dispensaram qualquer tipo de disciplina espiritual; todo personagem é bem ou mal por natureza e não há processo de desenvolvimento, nenhuma passagem de renúncia ou oração, onde o herói ou a heroína pode se preparar para enfrentar as provações da real existência adulta. Todos os obstáculos são sonhos que podem ser dissipados num passe de mágica, e ninguém precisa que nenhum poder que não possa ser obtido por coisas deste mundo, basta apenas conhecer os segredos. 

Nós esperamos que a criança pensa e sinta desse jeito por que elas ainda têm que se libertar do tempo das cavernas. Mas nós também esperamos que elas cresçam, saiam disso, e dirijam-se ao mundo com total consciência de sua complexidade, aceitando o paciente trabalho da ciência e a necessidade de humildade e entendimento. A religião é um dos caminhos para sair da magia primitiva e para encarar o mundo com clara compreensão dos fatos que não controlamos. Crescer significa que o mundo não vai entregar bens apenas por que nós queremos. A visão de mundo adulta é o oposto da postura mental do Potterismo. 

Mas o Potterismo está começando a prevalecer. O herói de Rowling e suas circunstâncias invadiram tanto a cultura que pessoas estão começando a viver numa “Hogwarts cibernética”, acreditando que tudo está sob do seu poder, uma vez que querer alguma coisa é metade do caminho para obtê-la. [...] Se você sofre de uma overdose de Harry Potter – e vê o mundo real também em termos de poderes ocultos e feitiços que os libertam – você é mais suscetível a pensar que o que você quer será conseguido apenas clicando numa tela. 


ORIGINALMENTE EM:

domingo, 8 de outubro de 2017

Da importância de se cercar das pessoas certas

Por André,



Viktor Frankl tantou falou sobre o sentido da vida, inclusive que foi a crença que a vida tem um sentido que sustentou a sanidade de tantos (a dele próprio inclusive) nos campos de concentração nazistas.

Além disso, fenômeno esfarelado em época de niilismo implícito ou explícito, é ferozmente importante estarmos cercados de pessoas que sabem o que querem. Não basta que a nossa vida tenha sentido, a vida daqueles que queremos perto de nós precisa ter sentido também, pelo menos quando a intenção é cultivo de relações duradouras e saudáveis (algo particularmente ainda mais urgente dada a decadência galopante do mundo moderno).

Lembram do lema de Meursault, personagem central d'O Estrangeiro, de Albert Camus, pra quem tudo "tanto faz"? É o que ele diz pra tudo, inclusive quando mata um homem na praia.

Fujamos de gente assim.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Efeito borboleta, acaso e destino

Por André,



Estava eu, imerso em estudos de filosofia da religião, a ler objeções sobre o problema do mal. Eis que, então, me deparo com uma objeção ao "argumento do mal" em sua formulação clássica que até então desconhecia: eventos maus podem desencadear um "efeito borboleta" gerador de uma consequência infinitamente superior em bondade em relação ao evento mau que o causou. Exemplificam (e que exemplo!): o Holocausto, evento maligno cuja magnitude será difícil de igualar, desencadeou a formação do Estado de Israel, que tanto bem já legou à humanidade e, biblicamente falando, ainda tem façanhas gloriosas a concretizar. Ou seja: não há contradição entre bondade divina e eventos maus, pois, todo evento maligno pode estar concatenado a alguma consequência boa que o supera em larga escala. A explicação parece, a primeira vista, portanto, articular acaso (e se o soldado francês que teve Hitler na sua mira o tivesse matado?), destino (e se o mal ocorrido for parte de um plano para um bem futuro de proporções maiores?) e o efeito borboleta decorrente do fato.

Isso para dizer que, exista destino ou "exista" acaso (no meu entender o acaso sempre se converte numa espécie de destino - não no sentido de pré-determinação, mas no sentido de ser inescapável), macacos me mordam, como PARECE que há um destino agindo por aí. Certas coisas, mesmo quando corriqueiras e até simplórias, parecem felizes e harmoniosas demais para serem fruto do mero acaso (com a devida ressalva que é característica demasiado humana ver padrões onde não há). Ainda em exemplos mais banais: se seu pai não tivesse tropeçado na sua mãe aquele dia, você não estaria aqui hoje; consegue conceber, mesmo que em ideia, que tudo que você realizou até hoje na vida é consequência dessa obra do "acaso"?

P.S.: só usei as referências que usei para ilustrar a ideia (se há ou não "destino", parece que há), não se trata de defesa de nada que fora abordado (destino, direção pelo acaso, mérito do argumento etc).

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Primeiro livro deste blogueiro: "Saul Alinsky e a anatomia do mal"

Por André,


Chegou a hora, meus caros e fiéis leitores..

Uma árvore eu já plantei um dia, o livro se encontra em processo de produção e o filho ficará para mais adiante.

Na obra, eu e meu amigo Marcio Scansani temos um objetivo modesto: trata-se menos de um estudo detalhado e minucioso de Saul Alinsky per se e mais uma exposição de seus estratagemas políticos, onde estão sendo empregados e como se livrar deles.

O livro "Regras para Radicais" já foi publicado em português um dia, mas encontra-se absolutamente esgotado. Não existe qualquer obra analítica de Saul Alinsky em português; na medida que praticamente toda a esquerda mundial orbita em torno da esquerda americana e a esquerda americana é a filha pródiga de Saul Alinsky, fica absolutamente justificada a existência de um livro como o nosso.

O esquema é de pré-venda: as pessoas contribuem, usamos a verba para produzir o livro, entregamos dentro do prazo, via correio, com frete grátis.

Toda ajuda é bem-vinda e necessária: desde a própria contribuição ou até mesmo compartilhando com os amigos interessados no assunto.


Conto com a colaboração de todos!

domingo, 24 de setembro de 2017

Estados Unidos da América é a maior dádiva humana do mundo

Por André,



Os EUA é o império mais pacífico que a humanidade já conheceu; a pax americana é a maior benesse criada por homens que a humanidade já desfrutou; estou, a priori, a favor dos EUA em qualquer ação de política externa (o que não impede que análises críticas retroativas sejam feitas, p. ex., guerra do Iraque).

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Ser o mais pacífico não significa absolutamente pacífico. Considero ainda que, a América moderna é o país mais poderoso militarmente da História do Universo, fosse outro império, subjugaria o mundo todo em questão de tempo.

A pax americana me parece, evidentemente, a melhor alternativa frente a concorrência: "pax chinesa", "pax russa" etc. Mas não é perfeita, a perfeição não existe na vida terrena.

Estou do lado dos EUA a priori pelos valores que ele representa, nas não a posteriori. Essa deve ser a afirmação mais controversa, apenas uma análise caso a caso pode oferecer uma visão mais completa.

sábado, 23 de setembro de 2017

Roger Scruton e a Beleza como valor universal

Por André,

Artigo publicado originalmente em: BARRETO, Andre Assi. "A Beleza Como Valor Universal". Revista Filosofia Ciência&Vida, São Paulo, ano VII, n°73, p. 24-31, agosto, 2012.

O artigo estava hospedado no site da revista, mantido pelo UOL, mas não se encontra mais disponível, portanto, disponibilizo-o na integra aqui. Felicita-me ter ajudado a divulgar em 2012 o importante documentário "Por que a Beleza importa?", bem como Sir Roger Scruton e sua obra em geral, quando o filósofo britânico ainda estava em tímida ascensão em território brasileiro.

Segue o texto, com pequenas variações:



Muito provavelmente todos já tiveram a experiência de, ao estar diante de obras de movimentos como surrealismo, dadaísmo, cubismo etc. – que podemos reunir sob o nome de “modernistas” –, ser preenchido por um sentimento de estranheza diante dessas obras pois, na maior parte das vezes, não primam pelo tradicional e universal critério da beleza; por muitas vezes serem feias ou simplesmente não terem (aparentemente) sentido algum. O próximo passo é rejeitar essas obras e não as considerar como arte. Essa é a reação do apreciador dotado do mero senso comum, que os adeptos das correntes estéticas “modernas” atribuem à incompreensão (pois o vulgo não teria o aparato necessário para “compreender”) ou ao preconceito.

            Contudo, há quem discorte. As coisas não são assim de acordo com a argumentação do filósofo inglês e nosso contemporâneo, Roger Scruton (1944), que dedica-se a este (entre outros) problema, faz uma apologia da Beleza e clama por uma retomada dela; Scruton faz isso especialmente em duas (de um universo de várias) de suas obras: o documentário encomendado pela BBC Why Beauty Matters? (Por que a Beleza importa? 2009) e no livro Beauty (Beleza, 2009, É Realizações, 2013). Para sustentar sua posição, Scruton remete-se a inúmeros filósofos, desde Platão, passando pelo Conde de Shaftesbury e indo até Kant (que teve seu pensamento influenciado pelo conde); também relembra que o objetivo da arte, seja a poesia, a música ou as artes plásticas, para qualquer pessoa letrada que viveu entre os séculos XVII e XIX, era a busca da Beleza (é importante notar essa lembrança feita por Scruton, tendo em vista que ele é um conservador, pretende reestabelecer parte da ordem desta época), um valor universal equivalente ao Bem e à Verdade (reportando-se também, portanto, a Platão).



            Um dos motes para exemplificar a argumentação de Scruton é o clássico “Urinol”, do francês Marcel Duchamp (1887 – 1968), obra em que Duchamp assinou um urinol com um nome fictício e o enviou para um museu para ser exposto como obra de arte. A partir do século XX, assevera Scruton, a arte deixou de buscar a Beleza e passou a fazer um culto à feiura, além de, por exemplo, ter por objetivo a originalidade a qualquer custo. Tal tendência não se restringiu apenas às artes plásticas, mas também tomou conta da arquitetura (Scruton também tem um excelente livro, este traduzido para o português, sobre arquitetura, intitulado Estética da Arquitetura, Edições 70, 2010), que se tornou estéril, o que, na opinião de Scruton, explica a quantidade de prédios abandonados e depredados na Grã-Bretanha e a popularidade de pequenos comércios com a tradicional arquitetura vitoriana.

            Dois cultos são responsáveis por essa tendência de certas correntes de arte moderna, o culto à feiura, já mencionado, cujo qual, ao virar às costas para a Beleza, faz com que a arte perca sua principal realização, que é ajudar-nos a atribuir sentido à vida, nos consolando das tristezas da vida ou, como para Platão, nos aproximar de Deus ou ainda, para os filósofos iluministas, nos ajudar a galgar alguns degraus que nos colocam para além das banalidades da vida cotidiana; e o culto à utilidade, cujo qual, faz com que o valor das coisas resida estritamente em sua utilidade prática; como Scruton menciona em seu documentário, Oscar Wilde já havia afirmado que “toda arte é inútil” – o que fora reafirmado por, por exemplo, Hannah Arendt. A Beleza (e a arte) não tem utilidade (no sentido pragmático moderno), mas é justamente nesse fato que Scruton ressalta sua importância enquanto valor universal, enraizada na natureza humana, escorando sua teoria em Shaftesbury e Kant, a fruição da Beleza é uma atividade desinteressada e, portanto, inútil. Mas isso desmerece a contemplação? Não, no mesmo sentido que a amizade, o amor ou a mera atitude de ouvir uma música, igualmente sem “utilidade prática”, não perdem seu valor.



            O segredo da arte tradicional, que servia de bálsamo para a vida, era sua valorização da criatividade, ao passo que os movimento artísticos atuais primam pela exaltação do feio, do banal e pela quebra de tabus morais, o que conduz primeiro à impressão e depois à óbvia certeza que todos, Scruton e nós, chegamos: boa parte do que aí está, sendo considerado obra de arte, não o é, algo não é transformado em arte, como num passe de mágica, por reproduzir as frivolidades cotidianas (um copo sobre uma prateleira de vidro – The Oak Tree, por Michael Craig, 1973 ou uma cama desarrumada – My Bed, por Tracey Emin, 1998) e chamá-las de arte, como se esse caráter fosse adquirido pelo decreto verbal do artista (para a tristeza dos desconstrucionistas, que acreditam que a realidade é determinada pela linguagem). Para que a arte retome sua trilha, é preciso que ela retorne sua face para a Beleza novamente, tal como fora prescrito pelos filósofos e praticado pelos artistas até então.




            A crítica de Scruton não se limita à arte, mas repousa sobre um diagnóstico muito mais amplo, que também é marca registrada da nossa época, chamada de pós-moderna: o total abandono e desprezo pela Razão, que fora tão bem tida pelos filósofos iluministas em especial e pelos modernos em geral. Deixam de existir os critérios universais – sejam lógicos ou de gosto – todas as opiniões são igualmente válidas, todas as culturas expressam formas de conhecimento igualmente dignas de consideração e têm o mesmo valor epistêmico. Grosso modo: trata-se do relativismo radical apregoado pela maior parte dos filósofos pós-modernos, que também são alvo da crítica feroz de Scruton, os mesmos Deleuze, Guattari, Foucault, Rorty et caterva. Isso significa que Scruton não se limita à esfera propriamente filosófica da questão (o que é Arte? Há critérios objetivos para defini-la e avalia-la? etc), mas avança no sentido sociológico do problema, isto é, tenta responder como chegamos a esse ponto, que tipo de sociedade produz e celebra o tipo de arte atualmente produzida etc.

            Certamente que, num mundo onde a ciência é considerada o mito fundante da nossa era, líderes islâmicos e prêmios Nobel são autoridades dignas de igual atenção tanto em matéria de física como de ética, pois, afinal, não há choque de culturas algum, nem “nossa” cultura está certa em permitir que homens e mulheres votem, tampouco a cultura islâmica está errada em desfigurar a face das mulheres adúlteras com ácido, trata-se apenas de culturas diferentes, dignas de igual respeito e consideração. Qualquer coisa diferente disso não passa de “preconceito ocidentalista”, argumenta Scruton, em algumas de suas obras e artigos.


            Inserindo a discussão estética nesse contexto mais amplo, fica claro que não há o menor espaço para a admissão de um gosto estético “melhor” ou “pior”, só existem gostos estéticos (sempre no plural): se o seu diz que uma lata contendo excrementos (Artist's Shit, por Piero Manzoni, 1961) é arte, quem são todos os outros para dizer que não? Isso porque não há verdadeiro ou falso, não há bem ou mal, certo ou errado, se nenhum desses existe, por que razão haveria espaço para o bom ou o mal gosto estético?

            Trata-se de um apelo colossal a um subjetivismo totalitário. Totalitário em que sentido? Nem mesmo os proponentes do relativismo acreditam no que propõem, pois são os primeiros a censurar aqueles que os reprovam, se todos os gostos estéticos são igualmente válidos, porque bradam bravamente contra os que têm um gosto estético fundado na Beleza? É muito simples: num contexto onde tudo é permitido, onde nada é proibido, é essencial proibir e censurar o proibidor. É um totalitarismo que exclui tudo ao seu redor, exceto os relativistas. E é exatamente o que é feito com Scruton, visto que o filósofo é, muitas vezes, deixado à margem do estabilishment acadêmico.

            Mas quais as razões que levam Scruton a rejeitar o subjetivismo estético? Como veremos a seguir, Scruton considera que a Beleza é um, dentre alguns outros, de uma série de valores que estão enraizados na natureza humana.

A Beleza enquanto inerente à natureza humana

            Talvez soe demodé falar de natureza humana hoje em dia (ou não, se aceitamos os interessantes argumentos de Steven Pinker em Tábula Rasa), quer em termos filosóficos quer científicos, mas a argumentação de Scruton segue esse caminho e indica que tanto a busca como a necessidade da Beleza são marcas indeléveis da natureza humana. Como uma das características essenciais da natureza humana é a racionalidade, é justamente na busca racional pela Beleza – autorizada pela nossa natureza, que podemos fugir do subjetivismo estético característico da nossa época: “nenhum gosto pode ser criticado, (...) já que que criticar um gosto nada mais é que dar voz a outro” (Beauty, 2009, p. IX, tradução nossa). Na contramão disso, Scruton argumenta no seu livro que os juízos estéticos têm fundamentação racional e, portanto, objetiva. Tanto o subjetivismo estético, “todos os gostos são equivalentes”, como o ceticismo, “não há verdade ou falsidade, erro ou acerto em termos de estética” são peremptoriamente rejeitados por Scruton com base na ideia que a Razão humana busca a Beleza.

            A Beleza, embora não entre em competição ou nem sempre necessariamente esteja lado-a- lado com a bondade, nossa incansável busca por ela enraíza ambas em nós, faz com que essa busca nos defina como humanos: “A Beleza está, portanto, firmemente enraizada no esquema das coisas, tal como a Bondade. Ela fala a nós, tal como a virtude fala a nós, trata-se de um preenchimento: não de coisas que desejamos, mas de coisas que devemos, porque a natureza humana as exige” (idem, p. 147, tradução e grifo nossos).

            Tal como as formas a prori da razão, apresentadas por Kant na Estética Transcendental, a Beleza é uma marca que nos define enquanto sujeitos racionais, capazes de compreender o mundo. Tanto sua busca como sua concretização nas mais variadas formas arte, são necessidades imprescindíveis a todo ser humano. Abdicar da busca pela Beleza, tal como a arte moderna faz, é abrir mão de uma herança cultural riquíssima, é fazer com que a vida seja mais difícil de ser vivida; é torná-la mais cinza fazendo com que a principal função da arte, que, como dissemos, é fornecer consolo para a vida diária, se perca.     

Retrato de Rosalba Peale, Remdbrandt

REFERÊNCIAS

ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. Martins Fontes: 2007.

DUTTON, D. A darwinian theory of beauty. TED Talks, 2010. (Disponível em: http://www.ted.com/talks/lang/eng/denis_dutton_a_darwinian_theory_of_beauty.html)

SCRUTON, R. Beauty. Oxford University Press: 2009.

            . Estética da arquitectura. Edições 70: 2010.

            . The West and the rest.  ISI Books: 2002.

            . What ever happened to reason? 1999. (Disponível em: http://www.city-journal.org/html/9_2_urbanities_what_ever.html. Acessado em: 10/02/12)


            . Why Beauty Matters. BBC: 2009. (Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=bHw4MMEnmpc.  Acessado em: 10/02/12)

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

"Ela caminha em Beleza", por Lord Byron

Por André,



She walks in beauty, like the night 
Of cloudless climes and starry skies; 
And all that’s best of dark and bright 
Meet in her aspect and her eyes; 
Thus mellowed to that tender light 
Which heaven to gaudy day denies. 

One shade the more, one ray the less, 
Had half impaired the nameless grace 
Which waves in every raven tress, 
Or softly lightens o’er her face; 
Where thoughts serenely sweet express, 
How pure, how dear their dwelling-place. 

And on that cheek, and o’er that brow, 
So soft, so calm, yet eloquent, 
The smiles that win, the tints that glow, 
But tell of days in goodness spent, 
A mind at peace with all below, 
A heart whose love is innocent!


Ela caminha em beleza, tal como a noite
de clima desanuviado e céus cintilantes;
e tudo que de melhor há no brilho e na escuridão
encontre em seu semblante e em seus olhos;
aquela luz tenra e amadurecida
cujos céus negam aos dias ofuscantes.

Uma sombra acrescida, um raio de luz excetuado,
teriam cortado ao meio sua graça inominável
que ondula em cada uma de suas madeixas negras,
ou que suavemente ilumina sua face;
Onde os pensamentos se expressam dócilmente
e se mostra quão pura e querida é sua morada.

E em suas bochechas, bem como em sua fronte,
seus traços, tão suaves, tão calmos e, ainda assim, eloquentes,
os sorrisos que triunfam, o tom de pele que enrubesce,
falam apenas de dias em que a bondade prevaleceu,
Uma alma cuja paz a todos transparece,
um coração cujo amor é inocente!
(Tradução André Assi Barreto)