domingo, 19 de julho de 2009

Deuses, dragões e epistemologia



Se eu disser que em minha garagem existe um dragão, só que ele é invisível, incorpóreo, flutuante, que cospe fogo atérmico, como você refutaria a existência do meu dragão? Sagan com a palavra: “qual é a diferença entre um dragão invisível, incorpóreo, flutuante, que cospe fogo atérmico, e um dragão inexistente? Se não há como refutar a minha afirmação, se nenhum experimento concebido vale contra ela, o que significa dizer que o meu dragão existe?”. E antes que apareçam alegações de experiência pessoal, Sagan de novo: “Outro crente nos dragões aparece com um dedo queimado e atribui a queimadura a uma rara manifestação física do sopro ardente do animal. Porém, mais uma vez, existem outras possibilidades. Sabemos que há várias maneiras de queimar os dedos além do sopro de dragões invisíveis. Essa “evidência” – por mais importante que seja para os defensores da existência do dragão – está longe de ser convincente. De novo, a única abordagem sensata é rejeitar em princípio a hipótese do dragão, manter-se receptivo a futuros dados físicos e perguntar-se qual poderia ser a razão para tantas pessoas aparentemente normais e sensatas partilharem a mesma desilusão estranha.”
É sempre muito complicado fazer esse tipo de comparação, fadas, dragões, papai noel e deuses. Se alguém crê que Napoleão vem lhe visitar todas as quintas as 13hs para almoçar, certamente essa pessoa não seria tida como normal (e isso não é tido como uma experiência pessoal que prova a imortalidade da alma ou que prova a divindade de Napoleão), mas se alguém crê em Brahma ou Alá, na visita do arcanjo Gabriel a caverna de Moisés ou no parto de uma virgem essa pessoa não só é normal como ergue-se um paredão intransponível (chamado “respeito”) sob estas alegações, colocá-las sob o crivo do ceticismo é arrogância, materialismo desenfreado, burrice, uma profunda falta de respeito e a pior das acusações: dogmatismo.
Mas como ilustra o dragão sem-teto de Sagan, no que concerne a epistemologia, os deuses (todos eles) e os dragões habitantes de garagens estão no mesmo degrau e são igualmente irrefutáveis. Mas então vem o velho questionamento: quem crê em dragões desabrigados que vivem em garagens (ou Bules orbitantes)? Certamente é bem menos gente do que quem crê em algum tipo de divindade. Mas então como afirmar com tanta veemência que os deuses do Olimpo (que quase 99% dos gregos criam fielmente) não existem (se eu disser que eles tem as mesmas características do dragão)? Como afirmar com tanta veemência que Baal ou o Bezerro de Ouro não existem? Os deuses hindus (você pode até questionar a minha fé honesta no Unicórnio Rosa Invisível, no Monstro do Espaguete Voador ou no Bule Orbitante Chinês, mas você questiona a fé honesta dos hindus em Brahma?) Ou que qualquer outro deus que eu invente agora? Seria então, a posição mais acertada sermos agnósticos quanto a Zeus, Shiva e quanto aos dragões sem-teto?

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