sábado, 8 de agosto de 2009

Ciência nos detalhes

New York Times, 26-07-2009
Autor: Sam Harris
Tradutor: André A. Barreto

O presidente Obama nomeou Francis Collins para ser o próximo diretor do National Institutes of Health (Instituto Nacional de Saúde). Parecia ser uma escolha brilhante. As credenciais do Dr. Collins são impecáveis: ele é físico-químico, geneticista e encabeçou o Projeto Genoma. É também, por sua conta, a prova viva de que não há conflito entre ciência e religião. Em 2006, ele publicou “A Linguagem de Deus” em que ele disse ter demonstrado “ uma consistente e satisfatória harmonia” entre a ciência do século XXI e o Cristianismo.
Dr. Collins é regularmente citado por cientistas seculares pelo que ele não é: ele não é um “ criacionista terra jovem”, tampouco ele é proponente do “design inteligente”. Dado o número de evidências da evolução, estas são duas boas coisas para um cientista não ser.
Mas como diretor do instituto, Dr Collins terá mais responsabilidade pela biomedicina e pesquisa na área médica que qualquer pessoa na terra, controlando um orçamento anual de 30 bilhões de dólares. Ele também será um dos principais representantes da ciência nos EUA. Por esta razão, é importante que entendamos Dr. Collins e sua fé e como ela relaciona com sua pesquisa científica.
O que segue abaixo são uma série de slides, apresentados em uma leitura sobre ciência e crença que Dr. Collins deu na Universidade da California, Berkeley, em 2008:

Slide 1: “ Deus Onipotente, que não é limitado no espaço ou no tempo, criou o universo 13,7 bilhões de anos atrás, com os parâmetros precisamente ajustados para o desenvolvimento da complexidade durante longos períodos de tempo”
Slide 2: “ O plano de Deus incluiu o mecanismo da evolução para criar a maravilhosa diversidade das coisas vivas em nosso planeta. Mais especialmente, o plano criativo dos seres humanos”
Slide 3: “ Depois que a evolução preparou uma casa suficientemente avançada (o cérebro), Deus presenteou a humanidade com o conhecimento do bem e do mal (a lei moral), com livre-arbítrio, e com uma alma imortal”
Slide 4: “ Nós seres humanos usamos nosso livre-arbítrio para quebrar a lei moral, conduzindo ao nosso estranhamento com Deus, para os cristãos, Jesus é a solução para esse estranhamento”
Slide 5: “ Se a lei moral é apenas resultado da evolução, então não há bem ou mal. É tudo uma ilusão. Nós fomos enganados. Qualquer um de nós, especialmente os fortes ateus, estamos preparados para viver dentro dessa cosmovisão?

Por que as crenças de Dr. Collins devem ser levadas em conta?

Há uma epidemia de ignorância científica nos EUA. Isto não é surpreendente, algumas poucas verdades científicas são auto-evidentes, e muitas são contraintuitivas. Coisas como o espaço vazio ter estrutura ou compartilharmos um ancestral comum com a mosca caseira e a banana não são obviedades. Pode ser difícil pensar como cientista. Mas poucas coisas tornam o raciocínio científico tão difícil como a religião.
Dr. Collins escreveu que a ciência faz da crença em Deus algo “intensamente plausível” — o Big Bang, a sintonia fina das constantes da natureza, o surgimento de vida complexa, a eficiência da matemática, tudo sugere a existência de um “ amoroso, lógico e consistente” Deus.
Mas quando desafiado com julgamentos alternativos a esses fenômenos — ou com evidências que sugiram que Deus pode ser desamoroso, ilógico, inconsistente ou, até, ausente — Dr. Collins dirá que Deus permanece fora da Natureza, e por conseguinte a ciência não pode resolver a questão de sua existência afinal.
Similarmente, Dr. Collins insiste que nossas intuições morais atestam a existência de Deus, seu caráter moral e seu desejo de estar em companhia de cada membro de nossa espécie. Mas quando nossas intuições morais voltam-se para a casual destruição de inocentes, em maremotos ou terremotos, Dr. Collins nos garante que nossas terrenas noções de bem e mal não são de confiança e que a vontade de Deus é um mistério.
Muitos cientistas que estudam a mente humana estão convencidos que mentes são produtos de cérebros, e cérebros são produtos da evolução. Dr Collins pensa diferente: ele insiste que em algum momento do desenvolvimento da nossa espécie Deus inseriu componentes cruciais — incluindo uma alma imortal, livre-arbítrio, a lei moral, espiritualidade, altruísmo genuíno,etc.
Como alguém que acredita que o entendimento humano deriva da neurociência, psicologia, ciência cognitiva e comportamento econômico, entre outros, eu estou em desacordo com a linha de pensamento do Dr. Collins. Se devemos olhar para a religião para explicar nosso senso moral, o que deveríamos fazer com os déficits do raciocínio moral com condições como a síndrome do lobo frontal e psicopatias? Esses distúrbios são melhores resolvidos pela teologia? Dr. Collins escreveu que a “ciência não oferece respostas para as questões mais importantes da existência humana” e que “as afirmações do ateísmo materialista devem ser firmemente resistidas”
Só podemos esperar que estas convicções não irão afetar seus julgamentos no instituto de saúde. Afinal, a compreensão do bem-estar humano a nível do cérebro pode muito bem oferecer algumas “respostas para as questões mais importantes da existência humana” — questões como, Por que sofremos? Ou, ainda, é possível amar seu vizinho como você mesmo? E não seria nenhum esforço explicar a natureza humana sem referência a uma alma, e explicar a moralidade sem referência a Deus. Isso constitui necessariamente “ateísmo materialista”?
Francis Collins é um cientista completo e um homem sincero em suas crenças. E isso é precisamente o que me deixa desconfortável com sua nomeação. Nós devemos realmente confiar o futuro da pesquisa biomédica dos EUA a um homem que crê honestamente que o conhecimento científico da natureza humana é impossível?

Sam Harris é autor de “A Morte da Fé” e “Carta a uma Nação Cristã”, além de co-fundador do Reason Project, que promove o conhecimento científico e valores seculares.

http://www.nytimes.com/2009/07/27/opinion/27harris.html?_r=1

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