sábado, 24 de outubro de 2009

O que Nietzsche quis dizer com “Deus está morto”?

Por André,

No último dia 1, Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), começou a exibir o seriado “Sobrenatural” desde sua primeira temporada, em horário nobre. A trama trata das aventuras (sobrenaturais, é claro!) dos irmãos Sam e Dean Winchester.

A altura da quarta temporada da série, Sam Winchester deu, nada mais nada menos, que início ao Apocalipse! E adivinhem só, os irmãos estão tentando aniquilar o próprio Lúcifer, e para isso, querem a ajuda de Deus, mas segundo as palavras do arcanjo Rafael, Deus está morto. Não será tratado neste texto, da impossibilidade lógica (entre outros problemas que envolvem conceitos como onipotência e onisciência) que é um deus onipotente estar “realmente” morto. O objetivo do texto é expor, o que o filósofo alemão Friedrich Nietzsche quis expressar, quando disse que “Deus esta morto”.

Talvez muitos conheçam Nietzsche por essa frase, mas sem dúvida, ele não quis dizer o que a maioria das pessoas interpretam da frase. Ele não estava falando do mesmo que Rafael estava falando em Sobrenatural. Essa frase, aliás, justamente por interpretações equivocadas, causa o seguinte jogo de palavras: “Deus está morto” assinado Nietzsche e “Nietzsche está morto” assinado Deus. Só que o filósofo não se referia a uma morte “física” de Deus, a passagem do estado ontológico positivo para outro negativo, como sugere a interpretação mais supérflua da frase, fora do círculo hermenêutico nietzscheniano.

A iconoclasta frase é proferida no aforismo 125 de A Gaia Ciência, que traz o título de “O Insensato”¹ (Será uma referência a Salmos 14:1? Passagem esta (dos Salmos), também utilizada por Santo Anselmo para se referir aos ateus, cabendo também, a tradução por insipiente, néscio e tolo). Examinemos o trecho:
Não ouviram falar daquele homem louco que em plena manhã acendeu uma lanterna e correu ao mercado, e pôs-se a gritar incessantemente: “Procuro Deus! Procuro Deus!”- E como lá se encontrassem muitos daqueles que não criam em Deus, ele despertou com isso uma grande gargalhada. Então ele está perdido? Perguntou um deles. Ele se perdeu como uma criança? Disse um outro. Está se escondendo? Ele tem medo de nós? Embarcou num navio? Emigrou?- gritavam e riam uns para os outros. O homem louco se lançou para o meio deles e trespassou-os com seu olhar. “Para onde foi Deus?”, gritou ele, “já lhes direi! Nós o matamos - vocês e eu. Somos todos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? Que fizemos nós, ao desatar a terra de seu sol? Para onde se move ela agora? Para onde nos movemos nós? Para longe de todos os sóis? Não caímos continuamente? Para trás, para os lados, para a frente, em todas as direções? Existem ainda 'em cima' e 'embaixo'? Não vagamos como que através de um nada infinito? Não sentimos na pele o sopro do vácuo? Não se tornou ele mais frio? Não anoitece eternamente? Não temos que acender lanternas de manhã? Não ouvimos o barulho dos coveiros esterrar Deus? Não sentimos o cheiro da putrefação divina? - também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos! [...] Nunca houve um ato maior- e quem vier depois de nós pertencerá, por causa desse ato, a uma história mais elevada que toda a história até então! Nesse momento silenciou o homem louco, e novamente olhou para seus ouvintes: também eles ficaram em silêncio, olhando espantados para ele. “Eu venho cedo demais”, disse então, “não é ainda meu tempo. Esse acontecimento enorme está a caminho, ainda anda aos ouvidos dos homens. O corisco e o trovão precisam de tempo, aluz das estrelas precisa de tempo para serem vistos e ouvidos.” [...] Conta-se também que no mesmo dia o homem louco irrompeu em várias igrejas,e em cada uma entoou o seu Requiem aeternam deo². Levado para fora e interrogado, limitava-se a responder: “O que são ainda essas igrejas, se não os mausoléus e túmulos de Deus? (NIETZSCHE, 2005, p. 147 e 148, grifo do autor)

Uma interpretação mais sofisticada, mas ainda errada, pode sugerir que Nietzsche apenas estava expressando seu ateísmo, não se trata disso, não somente disso, pelo menos. A passagem tem um alcance mais amplo.

Para dizer quão amplo é o alcance das palavras de Nietzsche, seguirei a interpretação dada pelo filósofo alemão Martin Heidegger, em seu ensaio intitulado “A sentença de Nietzsche 'Deus esta morto'”. A observação de Heidegger é precisa, por 'Deus', Nietzsche indicava o mundo supra-sensível em geral³. Nietzsche deu o atestado de óbito do mundo das ideias, dos ideais, trata-se da filosofia platônica e de sua interpretação cristã. A frase “Deus está morto” quer dizer que o mundo ultra-sensível não tem força real. A metafísica e por tabela toda a filosofia platônica, está no fim. A esfera do supra-sensível está morta, é uma invenção dos homens, que não contentes em inventá-la, se curvam diante dela e, principalmente, retiram seus valores éticos e morais dela, a frase de Nietzsche então não avança só contra o cristianismo, mas contra o cristianismo também, para Nietzsche o cristianismo é uma versão do platonismo.

Heidegger também nos conta, que a frase de Nietzsche, está profundamente conectada ao seu niilismo (Nietzsche mesmo nos esclarece o que é niilismo: “Niilismo: falta o fim; falta a resposta ao 'por quê?'; o que significa niilismo? - que os valores supremos se desvalorizam” e os pressupostos do niilismo: “Que não exista uma verdade; que não exista uma constituição absoluta das coisas, uma 'coisa em si'” In: Fragmentos póstumos). Demos a Heidegger a palavra, vale a pena:

O discurso do insensato serve justamente para demonstrar que a expressão 'Deus está morto' nada tem em comum com as opiniões dos que o cercavam discorrendo entre si, dos que 'não acreditavam em Deus'. Nos descrentes nesse sentido, o niilismo ainda não penetrou como destino de sua história. Enquanto entendermos a expressão 'Deus está morto' apenas como a fórmula da descrença, só estaremos pensando de modo teológico-apologético, renunciando ao objetivo do pensamento de Nietzsche, ou seja, à reflexão que tende a pensar o que já aconteceu à verdade do mundo supra-sensível e à sua relação com o mundo sensível. (REALE apud HEIDEGGER, 2002, p. 24)

As observações de Heidegger são claras e precisas, a frase de Nietzsche tem um alcance muito maior, é muito mais abrangente. Interpretá-la como a expressão azeda e revoltada de um ateísmo é um erro, apesar de seu ar herético e quase blasfemo, o alemão é comumente mal interpretado. Para cristãos e descrentes, é um convite interessante, aprofundar-se na filosofia de Nietzsche e compreendê-lo a luz de seus escritos.


¹ A tradução da Companhia das Letras, feita por Paulo César de Souza e a tradução de Cambridge, feita por Josefine Nauckhoff , traduzem o título do aforismo por “O homem louco”, enquanto a tradução italiana de F. Masini e M. Montinari optaram por “O insensato”.
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² 'Garanta a Deus descanso eterno'. Referência a 'Requiem aeternam dona eis [scilicet, mortuis], Domine' (Senhor, garanta a eles [os mortos] descanso eterno). In: The Cambridge Texts in the History of Philosophy, The Gay Science, 2008, tradução nossa.
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³ O uso da palavra Deus para indicar coisas mais abrangentes é comum a vários autores, filósofos e cientistas, como Einstein (“Deus não joga dados com o Universo”) e Stephen Hawking (“(...) então entenderemos a mente de Deus”)


Referências bibliográficas:


JUNIOR, Oswaldo Giacoia. Nietzsche. São Paulo: Publifolha, 2000.
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NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
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NIETZSCHE, Friedrich. The Gay Science. Cambridge: Cambridge University Press, 2001.
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REALE, Giovanni. O saber dos antigos. São Paulo: Edições Loyola, 2002.

2 comentários:

1. Seja polido;

2. Preze pela ortografia e gramática da sua língua-mãe.