domingo, 31 de outubro de 2010

Conservadores da UnB e a censura do livro de Monteiro Lobato

A educação a serviço do polvo

O texto de hoje não é dedicado a falar de um assunto que atinja especificamente a UnB, mas de algo concernente à educação como um todo. Há muitas pessoas que duvidam que o Brasil esteja caminhado, a largos passos, rumo a um regime ditatorial. Não temos, em verdade, nenhum indício realmente contundente disso. Entretanto, o cotidiano político no País nos dá alertas cada vez mais alarmantes de que essa possibilidade não é algo tão distante assim.

No dia 30 de junho desse ano, foi encaminhado à Ouvidoria da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República uma denúncia contra a obra "Caçadas de Pedrinho", de Monteiro Lobato. De acordo com a denúncia, a obra apresentava conceitos racistas com relação ao negro e à cultura africana. Em um dos trechos, por exemplo, escreve Lobato: “Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou, que nem uma macaca de carvão.” Em outro, diz Emília: "É guerra, e guerra das boas. Não vai escapar ninguém - nem Tia Nastácia, que tem carne negra." A Câmara de Educação Básica (CEB) do Conselho Nacional de Educação (CNE) reuniu-se para analisar a denúncia, que foi acatada por unanimidade. A decisão foi proferida pelo Parecer CNE/CEB nº 15/2010, de 1º de setembro de 2010.

O autor da denúncia chama-se Antônio Gomes da Costa Neto. Em seu artigo Candomblés de Brasília: contribuição aos estudos dos rituais afro-brasileiros no Distrito Federal, encontramos mais informações sobre Antônio:

Lingüista; Dirigente e Sacerdote do Axé Daomé, Cruzeiro, Distrito Federal; Pesquisador sobre cultura e religião afro-brasileira; Membro do terreiro de Tambor-de-Mina Tenda Espírita Só Deus Pode, na cidade de São Luís, estado do Maranhão, dirigido pela saudosa Sacerdotisa Vodunce Maria José Pinto (1938-2001); atualmente vinculado a Sacerdotisa Vodunce Bernadete Gomes, em São Luís do Maranhão.
Antônio é estudante de mestrado da UnB. Participa do projeto de pesquisa Conhecimentos Ancestrais Africanos: Caminho de fortalecimento para pesquisadores(as) em educação, raça e gênero, coordenado pela Prof.ª Dr.ª Denise Maria Botelho. Denise, além de professora da UnB, também integrou a Diretoria da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPM), gestão 2008/2010.

O que se pode dizer sobre esse circo? Sem levar em conta o contexto histórico, a importância das obras ou mesmo a contribuição geral de Monteiro Lobato para a sociedade brasileira, procede-se a uma perseguição sistemática a tudo aquilo que fira o frágil conceito de politicamente correto. A esquizofrenia racialista está atingindo patamares que certamente nunca foram antes vistos no País. Tenta-se, a todo custo, nivelar tudo e todos, pavimentando a sociedade da maneira mais vil e mesquinha.

Em breve, outras obras serão, certamente, censuradas. Adiantamos aqui alguns títulos:

Livro: O Cortiço
Autor: Aluísio Azevedo
Motivo: Os mais pobres são mostrados sob uma perspectiva feia, suja e extremamente maliciosa, o que certamente indica um pensamento retrógrado típico da direita reacionária.

Livro: Iracema
Autor: José de Alencar
Motivo: Mostra a dominação europeia sobre os indígenas brasileiros de um ponto de vista colonialista e eurocêntrico, dando ares de romance à exploração sexual das índias, o que certamente indica um pensamento retrógrado típico da direita reacionária.

Livro: Macunaíma
Autor: Mário de Andrade
Motivo: Trata de maneira achincalhante os índios e os negros, tratando-os de maneira insensível, sarcástica e cruel, o que certamente indica um pensamento retrógrado típico da direita reacionária.

Livro: Dom Casmurro
Autor: Machado de Assis
Motivo: Explora a imagem da mulher como criatura infiel, libidinosa, mentirosa e enganadora, reforçando a dominância machista em nossa sociedade, o que certamente indica um pensamento retrógrado típico da direita reacionária.

Livro: Os Sertões
Autor: Euclides da Cunha
Motivo: Os nordestinos, nessa obra, são alvo de uma análise profundamente elitista, quase eugênica, em que são mostrados como seres subdesenvolvidos e ignorantes, o que certamente indica um pensamento retrógrado típico da direita reacionária.

Obras como essas deverão ser extirpadas da educação brasileira! Elas ferem os interesses legítimos do polvo! A partir de agora, somente livros que defendam os interesses legítimos do polvo - como Marilena Chauí, Leonardo Boff, Emir Sader e Frei Betto!







http://unbconservadora.blogspot.com/2010/10/educacao-servico-do-polvo.html

Fora escritores elitistas!
Por uma educação progressista a serviço do polvo!

 

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