quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Paralaxe e dissonância cognitiva





Por Priscila Garcia,

O confrade Diego, há pouco tempo, me indicou alguns livros a respeito do fenômeno da dissonância cognitiva, que eu imediatamente comprei, e posteriormente li, para entender bem do que se trata este interessante fenômeno, e compará-lo com aquele identificado e explicado pelo Olavo, a famosa paralaxe cognitiva, o desvio do eixo da percepção teórica para FORA da realidade concreta.


Bem – ao verificar o fenômeno da dissonância cognitiva, seu identificador a descreve como sendo o fenômeno criado pela percepção de que há um descompasso entre como a pessoa GOSTARIA que fosse a realidade e a dita cuja realidade concreta – o que causaria intenso desconforto na criatura. Para “resolver”o desconforto causado pela dissonância, então, a pessoa – via inúmeros mecanismos – tenta fazer o que em linguagem chã e bruta se chama uma “acoxambração”, ou seja: tenta “dar um jeito”para tentar anular o descompasso na marra.

O autor menciona como exemplo o caso de um grupo de pessoas que acreditavam cegamente numa médium que afirmava que o mundo acabaria num determinado dia e numa determinada hora, etc: essas pessoas largaram os empregos, venderam o que tinham – e se reuniram na data aprazada, em casa da referida médium, para esperar o fim do mundo (que seria obra de ETs enfurecidos com o comportamento dos humanos na Terra, ou alguma idiotice no gênero). E que obviamente NÃO aconteceu, é claro. Para “compensar” a dissonância que o “não-fim do mundo” causou nos coitados dos patetas (que haviam abandonado empregos e vendido seus bens - e é de se imaginar que tenham sido bastante criticados por ter feito isso!), a médium “resolveu”o assunto afirmando que fora a presença deles ali, na casa dela, esperando o fim do mundo com tanta confiança, que havia "comovido de tal forma" os tais ETs – que eles resolveram desistir de estuporar o planeta e todos os viventes... !

Em sendo assim, as pessoas puderam “remendar” as coisas, dimuinuir a dissonância cognitiva, anulando o desconforto que vinha da admissão de que a história era uma completa patetice, e eles eram uns bobalhões que haviam acreditado numa mentira absurda.

O autor credita esta tendência a querer diminuir ou anular a dissonância a algo “INERENTE” aos humanos, do que eu discordo veementemente: na minha opinião, essa coisa não é nada “inerente”, e sim DERIVA da anulação da consciência, do segundo elemento da cognição: que, ao ser obliterado, faz com que a idéia de certo e errado, de bem e mal - e consequentemente os conceitos de “culpa”, “remorso”, etc – passem a ser vistos como INDESEJÁVEIS e definitivamente deletérios!

DESDE QUE a humanidade passou a acreditar que estamos aqui a passeio e para “ser felizes”, sem maiores conotações morais ou espirituais, surgiu o relativismo moral, que é o que EMBASA o “remendo da dissonância”. Se vivemos entre desmoralizados lesos que “bloqueiam” culpa ou remorso – e aviso que perigosamente estão começando a surgir os que nem sequer TÊM mais a dissonância, e não estão “bloqueando”ou “justificando” nada, porque REALMENTE não possuem mais vislumbre de culpa ou remorso: este é o ORANGO, o verdadeiro e real ORANGO – isto se deve a um ADESTRAMENTO CONTÍNUO para que “assim seja”, não a algo inerente a nós.

Assim, a CADA COISA que deveria nos causar culpa ou remorso - hoje considerados “chatices indevidas” que a humanidade imbecilizada gradualmente achou lindíssimo ANULAR, como excrescências inventadas por espíritos-de-porco que visam a “acabar com a festa”, e criar “complexados” - levanta-se imediatamente o MECANISMO APRENDIDO para “anular a dissonância”.

Abandonou o filho, lesou o patrão, traiu o amigo? Não sinta culpa: você “MERECE” aquela vantagem, aquela oportunidade, aquela felicidade, aquela carreira! Gastou além do que podia, bebeu demais, perdeu a hora, mentiu, tapeou, omitiu? Não sinta culpa: você “TEM DIREITO” a isso.
Como lhe ensinaram, como berram aos quatro ventos, “o que importa é ser feliz”: comece a berrar isso você também, e está feita a festa do relativismo.

A ÓBVIA encrenca de diminuir a dissonância desse jeito, anulando culpa e remorso, é que evidentemente isto significa anular junto o próprio conceito de ERRO – e nunca ninguém poderá fazer com seus erros aquilo que os RESGATA, que é APRENDER com eles, tentar corrigi-los, e não repetí-los nunca mais! Uma vez que a coisa errada não é mais vista como ERRADA, e sim como CERTA, é claro que não há motivo NENHUM para a pessoa não continuar a fazer aquilo pela vida afora. Não há o que aprender – já que a pessoa se convenceu de que ERA para ser daquele jeito, mesmo. O DESVÍNCULO da realidade se instala lentamente, e atinge a TODOS os âmbitos.

Por exemplo: me parece INACREDITÁVEL que alguém ache que o Brasil “vai bem” e que “os brasileiros melhoraram de vida”. Inacreditável, absurdo, de cair o queixo. O infeliz país sucumbe à droga, à violência, à corrupção, à completa imoralidade – sem falar nas coisas concretas, como um sistema de saúde precário, um sistema de saneamento inexistente, um sistema de educação implodido, um sistema de trânsito caótico – enfim, sem falar na INABITABILIDADE GERAL do país! E no entanto este pensamento, a idéia de que “melhoramos”, é praticamente UM CONSENSO! 

Perdeu-se completamente a noção: e perdeu-se ASSIM, deste modo - porque as pessoas foram ADESTRADAS, treinadas a reduzir a dissonância, e portanto preferem perder o vínculo com o REAL, em nome de uma “sensação”de que o que se QUER é o que se VÊ. Ou o que se VÊ é o que se QUER, o que dá no mesmo. Mais ou menos como, se passar uma bala perdida zunindo pela sua orelha, nego sair dizendo que “foi uma borboleta linda”: e além de TEIMAR que foi, ainda ficar furioso se alguém ousar lhe mostrar o raio da bala. !

Bem, me parece que a paralaxe representaria, dentro deste contexto, uma forma mais GRAVE de desvio cognitivo, que acomete algumas pessoas. Suponho que a MAIORIA fica na dissonância, e a anula desse modo aí que eu menciono; mas alguns sucumbem e caem na paralaxe, que evidentemente é uma condição mais grave.

O indivíduo que sofre de dissonância cognitiva tenta ANULAR a realidade, para que não haja discrepância entre o que ela É e como ele quer que ela SEJA; o sujeito que sofre de paralaxe cognitiva INVENTA, CRIA uma realidade impossível que dê suporte a algo que ele inventou.

Bibliografia usada e sugerida:

COOPER, Joel M. On Being Certain: Believing You Are Right even when you're not.
FESTINGER, Leon. Theory of Cognitive Dissonance.
NOELLE-NEUMANN, Elisabeth. The Spiral of Silence: Public Opinion .
  

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