domingo, 24 de outubro de 2010

A República (Platão) pelas editoras Martin Claret e Calouste Gulbenkian: mais um caso de plágio explícito.

Por André,

A editora brasileira Martin Claret é famosa por seus livros em formato pocket e por seus preços bastante acessíveis, que variam de R$ 8,90 a R$ 16,90 (série ouro). A editora portuguesa Calouste Gulbenkian é menos conhecida e os preços de seus livros mais salgados, no entanto, suas traduções são trabalhos sérios, muitas vezes fruto de ao menos uma década de trabalho.

O quase “onipotente” tradutor da editora Martin Claret – Pietro Nassetti – tradutor de Platão a Nietzsche, “traduziu” a obra A Republica de Platão. Por curiosidade, decidi cotejar as duas traduções (a de Nassetti e a da Calouste), para avaliar o quão ruim seria a tradução do senhor Nassetti, mas para minha surpresa, não havia o que cotejar, pois as traduções eram praticamente iguais, nem as notas de rodapé foram perdoadas, até elas foram plagiadas (copiadas descaradamente), confiram:

Primeira página da República (trecho 327 a-e), pela editora Martin Claret:

Fui ontem, disse Sócrates, ao Pireu com Glauco (nota 1), filho de Aríston, com o objetivo de fazer minhas orações à deusa (nota 2), e, ao mesmo tempo, com o desejo de ver de que maneira celebravam a festa, pois era a primeira vez que a faziam. Ora, a procissão dos habitantes dessa terra pareceu-me linda; contudo, não me pareceu menos aprimorada a que os Trácios montavam. Depois de termos feito preces e contemplado a cerimônia, íamos regressar à cidade. Entretanto, Polemarco (nota 3), filho de Céfalo, que, de longe, observou que estávamos com pressa, mandou o escravo a correr, para nos pedir que esperássemos por ele. Agarrando-me no manto por detrás, o escravo disse:

- Polemarco pede-vos que espereis. - Eu voltei-me e perguntei-lhe onde estava o seu senhor. - Está já aí – replicou -; vem mesmo atrás de mim; esperai. - Esperamos com certeza – disse Glauco.

E pouco depois chegou Polemarco e Adimanto, irmão de Glauco, Nicérato (nota 4), filho de Nícias, e outros mais, com ar de quem vinha da procissão.

Disse então Polemarco: - Caro Sócrates, parece-me que vos estais a pôr a caminho para regressar à cidade.
  • E não conjecturas mal – declarei.
  • Ora, tu estás a ver quantos somos? - perguntou ele.
  • Pois não!
  • Pois então – replicou – ou haveis de ser mais fortes do que estes amigos, ou tendes de permanecer aqui.
  • (...)

Nota 1: Glauco bem como Adimanto eram irmãos mais velhos de Platão.

Nota 2: Para um ateniense, “a deusa” era usualmente Atena. Mas a referência aos Trácios e a menção expressa da celebração das Bendidéias em 350 levam os estudiosos a identificá-la com Bêndis, deusa trácia que se confundia com Artemis.

Nota 3: Polemarco era filho de Céfalo e irmão do famosos orador Lísias, autor de um dos seus mais célebres discursos, o Contra Eratóstenes.

Nota 4: Nicérato, que também conhecemos do Banquete de Xenofonte, era filho do famoso Nícias, político e general ateniense.

(PLATÃO, 2008, p. 11, trad. Pietro Nassetti, ed. Martin Claret)


Primeira e segunda página da República (trecho 327 a-e), pela editora Calouste Gulbenkian (diferenças para a anterior em negrito):

Ontem fui até o Pireu com Gláucon (nota 1), filho de Aríston a fim de dirigir as minhas preces à deusa (nota 2), e, ao mesmo tempo, com o desejo de ver de que maneira celebravam a festa, pois era a primeira vez que faziam. Ora a procissão dos habitantes dessa terra pareceu-me linda; contudo, não me pareceu menos aprimorada a que os Trácios montavam. Depois de termos feito preces e contemplado a cerimónia, íamos regressar à cidade. Entretanto, Polemarco (nota 3), filho de Céfalo, que, de longe, observou que estávamos de abalada, mandou o escravo a correr, para nos pedir que esperássemos por ele. Agarrando-me no manto por detrás, o escravo disse: - Polemarco pede-vos que espereis -. Eu voltei-me e perguntei-lhe onde estava o seu senhor. - Está já aí – replicou -; vem mesmo atrás de mim; esperai. - Esperamos com certeza – disse Gláucon.

E pouco depois chegou Polemarco e Adimanto, irmão de Gláucon, Nicérato (nota 4), filho de Nícias, e outros mais, com ar de quem vinha da procissão.

Disse então Polemarco: - ó Sócrates, parece-me que vos estais a pôr a caminho para regressar à cidade.
- E não conjecturas mal - declarei.
  • Ora tu estás a ver quantos somos? - perguntou ele.
  • Pois não!
  • Pois então – replicou – ou haveis de ser mais fortes do que estes amigos, ou tendes de permanecer aqui.
  • (...)

Nota 1: Glaucón, bem como Adimanto, que surge umas linhas mais abaixo, eram irmãos mais velhos de Platão.

Nota 2: Para um Ateniense, “a deusa” era usualmente Atena. Mas a referência aos Trácios, que vem a seguir, e a menção expressa da celebração das Bendideias em 354a, levam os comentadores a identificá-la com Bêndis, deusa trácia que se confundia com Ártemis.

Nota 3: Polemarco era filho de Céfalo, que possuía uma fábrica de escudos muito próspera, e irmão do famoso orador Lísias. No governo dos Trinta Tiranos, foi preso e obrigado a beber a cicuta. Lísias, que lograra escapar, regressou a Atenas após a restauração da democracia, e conseguiu processar Eratóstenes, um dos Trinta, pela morte do irmão, proferindo então um dos seus mais célebres discursos, o Contra Eratóstenes, que se conserva.

Nota 4: Nicérato, que também conhecemos do Banquete de Xenofonte, era filho do famosos Nícias, o político e general ateniense que em 421 a. C. Concluiu o tratado de paz que tem o seu nome, e que pôs termo à primeira fase da Guerra do Peloponeso. Também Nicérato teve de beber cicuta por ordem dos Trinta Tiranos.

(PLATÃO, 2007, p. 1 e 2, trad. Maria Helena da Rocha Pereira)

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