terça-feira, 12 de outubro de 2010

Tradução: o mistério do ser (capítulo 1 de The Great Design)


O mistério do ser


Cada um de nós existe, mas por um curto espaço de tempo, e neste tempo, exploramos uma ínfima parte do Universo. Mas os seres humanos são uma espécie curiosa. Nos admiramos, fazemos perguntas. Vivendo neste vasto mundo, que é ora agradável ora cruel, e contemplando a imensidão dos céus sobre nós, as pessoas sempre se perguntaram várias questões: como podemos entender o mundo em que nos encontramos? Como o Universo se comporta? Qual é a natureza da realidade? De onde tudo vem? O universo precisou de um criador? Muitos de nós não gasta parte do nosso tempo se preocupando com essas questões, mas todos nós sempre acabamos nos preocupando com elas em algum momento.

Tradicionalmente, essas questões, são questões para a filosofia, mas a filosofia está morta. A filosofia não acompanhou a evolução da ciência moderna, a física em particular. Os cientistas se tornaram os portadores da tocha da descoberta em nossa busca pelo conhecimento. O propósito deste livro é fornecer respostas que são sugeridas por descobertas recentes e avanços teóricos. Elas nos conduzem a uma nova figura do Universo e nosso lugar nele, que é muito diferente do tradicional, e diferente até mesmo da figura que pintamos há uma ou duas décadas atrás. Ainda assim, os primeiros esboços desse novo conceito podem ser traçados e encontrados há quase um século.

De acordo com a concepção tradicional do universo, os objetos se movem em caminhos bem definidos e têm histórias bem determinadas. Nós podemos especificar sua posição específica a cada momento no tempo. Embora essa abordagem seja suficientemente bem-sucedida para propósitos diários, em 1920 foi descoberto que esta figura “clássica” não pode explicar o comportamento aparentemente bizarro observado na escala atômica e subatômica da existência. Foi então, necessário adotar um quadro diferente, chamado física quântica. Teorias quânticas se mostraram notavelmente acuradas em prever eventos em tais escalas, enquanto também reproduzem as predições das velhas teorias clássicas quando aplicadas ao mundo macroscópico da vida diária. Mas a física clássica e a quântica se baseiam em concepções muito diferentes de realidade física.

Teorias quânticas podem ser formuladas de formas muito diferentes, mas provavelmente a descrição mais intuitiva foi dada por Richard (Dick) Feynman, uma pitoresca personagem que trabalhou no California Institute of Technology e tocava bongô em um qualquer especulanca de beira de estrada. De acordo com Feynman, um sistema não tem apenas uma história, mas toda história possível. Como buscamos nossas respostas, explicaremos a abordagem de Feynman detalhadamente, e a empregaremos para explorar a ideia de que o universo em si não tem uma história singular, tampouco uma existência independente. Isto parece uma ideia radical, até mesmo para físicos. De fato, como muitas noções da ciência atual, esta ideia parece violar o senso comum. Mas o senso comum é baseado na experiência diária, não no universo como ele é, revelado pelas maravilhas das tecnologias como aquelas que permitem que examinemos um átomo a fundo ou que voltemos ao universo primevo.

Até o advento da física moderna, se pensou, comumente, que todo conhecimento do mundo pode ser obtido por intermédio da obervação direta, que as coisas são o que elas parecem, percebidas pelos nossos sentidos. Mas o sucesso espetacular da física moderna, que é baseada em conceitos como os de Feynman, que contradizem a experiência diária, mostram que esse não é o caso. Esta visão ingênua de realidade, portanto, não é compatível com a física moderna. Para lidar com tais paradoxos, devemos adotar uma posição que chamamos realismo modelo-dependente. Se baseia na ideia que nossos cérebros interpretam o que nossos órgãos sensoriais nos imputam, elaborando um modelo do mundo. Quando tal modelo é bem sucedido em explicar eventos, nós tendemos a atribuir a ele, e aos elementos e conceitos que o constituem, a qualidade de realidade ou verdade absoluta. Mas pode haver maneiras diferentes em que alguém poderia modelar a mesma situação física, com emprego de diferentes elementos e conceitos. Se duas teorias físicas ou modelos, preveem acuradamente os mesmos eventos, não se pode dizer que um é mais real que o outro; então, somos livres para usar o modelo que seja mais conveniente.

Na história da ciência, temos descoberto uma sequência de teorias e modelos cada vez melhores, de Platão à teoria clássica, de Newton às modernas teorias quânticas. É natural perguntar: irá, eventualmente, esta sequência, alcançar e dar um ponto final, culminar numa teoria última do universo, que incluirá todas as forças e predirá toda observação que fizermos, ou continuaremos para sempre encontrando teorias melhores, mas nunca uma que não possam ser mais refinadas? Nós ainda não temos uma resposta definitiva para essa questão, mas agora temos uma candidata para teoria do tudo - se é que existe uma - chamada teoria M. A teoria M é o único modelo que tem todas as propriedades que pensamos que uma teoria final deve ter, e é nessa teoria que muitas das nossas discussões recentes está baseada.

A teoria M não é uma teoria no sentido comum do termo. É uma família de teorias diferentes, cada qual é uma boa descrição das obervações apenas em alguns âmbitos de situações físicas. É como se fosse um tipo de mapa. Como se sabe, não se pode mostrar toda a superfície da terra em um único mapa. A projeção de Mercator, usada para mapas do mundo, faz áreas parecerem maiores do que são ao norte e ao sul e não dá conta dos pólos Norte e Sul. Para mapear fielmente toda a terra, é necessário usar um conjunto de mapas, cada um cobrindo uma região limitada. Os mapas sobrepõem-se um ao outro, e onde isso ocorre, eles mostram o mesmo panorama. A teoria M é similar. As diferentes teorias na família da teoria M podem parecer diferentes, mas todas elas podem considerar a teoria que a subjaz. São versões da teoria que são aplicáveis apenas em âmbitos limitados – por exemplo, quando as quantidades de energia são pequenas. Como os mapas sobrepostos na projeção de Mercator, onde as diferentes regiões, de diferentes versões sobrepõem-se uma às outras, elas predizem o mesmo fenômeno. Mas da mesma forma que não há mapa plano que seja uma boa representação de toda a superfície da terra, não há uma única teoria que que seja uma boa representação das observações em todas as situações. 

Descreveremos como a teoria M pode oferecer respostas para a questão da criação. De acordo com a teoria M, nosso universo não é o único. A teoria M prediz que vários universos foram criados do nada. Sua criação não requer a intervenção de qualquer ser sobrenatural ou deus. Então, esses múltiplos universos surgem naturalmente das leis físicas. Eles são uma predição da ciência. Cada universo tem muitas histórias possíveis e muitos estados possíveis nos últimos tempos, isto é, tempos presentes, logo após sua criação. Muitos desses estados serão diferentes do universo que observamos e impróprios para a existência de qualquer forma de vida. Apenas alguns permitiriam a existência de criaturas como nós. Assim, nossa presença seleciona deste vasto conjunto, apenas aqueles universos que são compatíveis com a nossa existência. Embora sejamos fracos e insignificantes na escala cósmica, isto nos faz sentir que somos senhores da criação.

Para entender o universo em nível mais profundo, precisamos saber não apenas como o universo se comporta, mas por quê.

Por que há algo ao invés de nada?

Por que nós existimos?

Por que esse conjunto particular de leis e não outro?

Esta é a Última Questão da Vida, do Universo e de Tudo. É ela que tentaremos responder nesse livro. Ao contrário da resposta dada em The Hitchhiker´s Guide to the Galaxy, a nossa não será simplesmente “42”.

(HAWKING, S; MLODINOW, L. The Grand Design. Bantam Books: Nova Iorque, 2010, cap. 1, tradução nossa)

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