quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A barriga galante do Sr. Hume (ou apologia à pança ou graças a deus não cobrarem impostos sobre a gordura)



"Meus cumprimentos ao procurador-geral. No momento, infelizmente, não tenho um cavalo à disposição para levar minha gorda carcaça a prestar minhas homenagens a Sua Obesidade Suprema...


Tenha a bondade de comunicar ao Procurador que li recentemente num autor antigo chamado Estrabão que, em algumas cidades da Gália, era estabelecido por lei um padrão fixo de corpulência, e que o Senado estipulava uma medida além da qual o proprietário de uma barriga que presumivelmente a excedesse era obrigado a pagar ao erário multa proporcional a sua rotundidade. Sua Excelência e eu passaríamos muito mal se uma lei como essa fosse aprovada pelo nosso Parlamento. Pois receio que já transgredimos o estatuto.

Muito me admira, com efeito, que nenhuma harpia do Tesouro jamais tenha pensado nesse método de arrecadação. Taxas sobre o luxo são sempre as que mais se aprovam, e ninguém irá dizer que carregar um barrigão por aí tenha algum uso ou necessidade. Ele é mero ornamento supérfluo, prova deque seu proprietário dispõe de mais do que aplica em com proveito e, por isso, é conveniente reduzi-lo ao nível dos súditos seus semelhantes mediante taxas e impostos.

Como as pessoas magras são sempre as mais ativas, inquietas e ambiciosas, em toda parte elas governam o mundo e podem certamente oprimir seus antagonistas quando bem entenderem. Não permitam os céus que os partidos tory e whig sejam abolidos. Pois então a nação se dividiria em gordos e magros, e nossa facção estaria, receio, em situação deplorável. O único consolo é que, se nos oprimirem demais, acabaremos trocando de lado.

Além disso, que há de saber se clérigos devotos não irão alegar que a Igreja corre perigo, se houver imposição de uma taxa sobre a gordura?

Não posso senão louvar a memória de Júlio César pela grande estima que mostrou aos gordos, e pela sua aversão aos magros. O mundo inteiro está de acordo que esse imperador foi o maior de todos os gênios que já existiram, e o maior juiz do gênero humano.

Mas gostaria de lhe pedir perdão, prezada Senhora, por esta longa dissertação sobre gordura e magreza, que de modo algum lhe diz respeito. Pois a Senhora não é nem gorda, nem magra, e poderia ser de fato chamada uma notória meã. Mas esta carta é para ser lida ao procurador. Pois nada contém que precise ficar em segredo para ele. Ao contrário, espero que possa tirar proveito do exemplo, e se eu estivesse ao lado dele, tentaria lhe mostrar o meu apoio tanto como desta outra maneira...
Mas está na hora de concluir pondo um epílogo sério a esta farsa, e dizendo-lhe uma verdade real e sincera: sou, com a maior estima, prezada Senhora, seu mais obediente e humilde servidor, "

David Hume


[Publicado na Folha de São Paulo, 7 de agosto de 2011]

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