sábado, 13 de agosto de 2011

Carl Sagan e o “sumiço” (hiddenness) de Deus


O astrônomo americano Carl Sagan disse em seu Variedades da Experiência Científica: “Deus poderia ter gravado os Dez Mandamentos na Lua”¹, isso com a finalidade de tornar sua existência evidente, indubitável, objetiva e universal a qualquer um, independente de cultura, tempo, capacidade intelectual, etc. 


 
O que Sagan fez, conscientemente ou não, foi apresentar uma ilustração para o argumento chamado de “o sumiço de Deus”, modernamente exposto e concatenado pelo filósofo John Schellenberg². Por que Deus, dada sua onipotência, onipresença, benevolência infinita, onisciência, justiça infinita e perfeição moral não faz sua existência evidente a todos, pondo fim à milenar pergunta e busca pela sua existência? Não seria tudo mais fácil e melhor?

Como lhe soaria a ideia de um pai humano, que deseja ter uma relação afetiva com seus filhos, mas que além de ser ausente nem mesmo deixa a mostra sua existência? Tenho certeza que sua mente não comportaria com simpatia a atitude desse pai humano. Mesmo que seus filhos desconfiassem da sua existência, as coisas não seriam muito melhores (voltaremos a essa ideia a seguir).

O ponto é que, filósofos, teólogos e cientistas continuam a arrancar os cabelos tentando provar ou 'desaprovar' (não conheço nenhum proponente do ateísmo que se julgue capaz de desaprovar a existência de Deus definitivamente) a existência de Deus (e isso constitui um motivo para considerarmos o teísmo pouco razoável), e isso já remonta um espaço de tempo razoável. O que quero dizer é o seguinte: a existência de Deus, especialmente de um Deus específico, como o cristão ou o muçulmano, não é evidente a todos; pelo contrário, daí o motivo de séculos de controvérsias. E um Deus com as “qualidades” do Deus cristão deveria se fazer perfeitamente evidente a todos; isso baniria a dúvida e incrementaria exponencialmente as possibilidades de estabelecer uma relação de amor com as suas criaturas, relação essa que é por ele pretendida.

E ao contrário do que alguns poderiam objetar, isso não reduziria em nada nosso livre-arbítrio. Mesmo que a existência de Deus se tornasse evidente a mim neste momento, muitas outras dúvidas ainda preencheriam minha mente, como por exemplo, a existência de mal gratuito na natureza. Ou seja, mesmo tendo certeza da existência do Deus cristão, eu poderia continuar não querendo qualquer tipo de relação com ele. Isso é, na verdade o que Chistopher Hitchens disse certa vez, se o Deus cristão porventura existir, não quero saber dele (ele continuaria sendo um monstro moral, por ter criado um universo pouco propício à vida e uma natureza cruel, como bem observamos). Ou seja, a possibilidade de querer ou não ter uma relação afetiva com esse Deus continuaria em aberto, com a diferença que não teria mais de empregar parte da minha vida elucubrando em busca da “certeza” se ele existe ou não.

***



Quero voltar à alusão com a ideia de pai celestial, feita em grande parte por religiosos. Comparar a situação de um pai humano (e, portanto, imperfeito e apenas parcialmente sábio, bondoso e presente) é extremamente injusto, as vantagens de Deus são muitos grandes em relação ao pai humano. Contudo, a comparação inversa é muito boa. Que pai é esse, que quer que suas criaturas ou filhos o amem, mas que se comunica com eles apenas, na melhor das hipóteses, de forma indireta e ainda não deixa claro por qual meio (Bíblia? Corão? Vedas?), que os abandona na 1ª Guerra e em Auchwitz? Que sequer deixa razoavelmente clara sua existência (pelo menos não de forma objetiva, pois do contrário não haveriam tantos descrentes e tantos adeptos de milhares de religiões contraditórias entre si) por meio de provas definitivas?
Façam a imagem mental: um pai humano, que alega querer ter uma relação afetiva com seus filhos, mas não se apresenta, não faz clara sua existência, nem mesmo protege seus filhos, apenas os observa passivamente e supostamente espera que eles o amem, o adorem, sigam seus mandamentos morais e dedique parte da sua vida na terra à pregação de seus ensinamentos. Até mesmo para um ser limitadíssimo como um humano, isso soa bastante contraditório e moralmente duvidoso.

Esse é um dos motivos que tornam o ateísmo uma posição mais razoável que o teísmo, talvez o pique-esconde celestial se estenda infinitamente porque Deus simplesmente não existe. É o que Dawkins chama de olhar para o Universo lá fora e constatar que ele atende exatamente às expectativas de um Universo que não é produto de um arquiteto pessoal e benévolo.

***

Decidi escrever, às pressas, este post pela leitura de um texto do Sr. Paulo Brabo, onde ele conta seu ultraje contra a expectativa de Sagan de esperar que Deus deixasse evidências “científicas” (eu as chamo simplesmente de objetivas, escrever os mandamentos na Lua é algo objetivo, não propriamente “científico”) de sua existência. Quero comentar alguns trechos do post em especial (que se chama “A assinatura secreta”³):
Quem disse que a assinatura do universo teria de ser de natureza científica?

Não tem, apenas tem de ser de natureza OBJETIVA. Uma questão de sanidade mental e de aumento da possibilidade de relação afetiva com as criaturas. Pensemos em todos os descrentes, pensemos em todos os adeptos das religiões “erradas”, pensemos em todos esses que já morreram. Esse Deus que supostamente os amava se manteve escondido a todos. Não parece uma relação paternal muito saudável...
Não poderia ser uma pegada literária, psicológica, artística?

Não. Esse tipo de coisa já existe, e é a tal da experiência pessoal. O problema é que as pessoas experimentam (literalmente) de tudo, desde Jeová até o boto cor-de-rosa, saci pererê e lobisomem. Na verdade, os relatos antropológicos mostram, esses folclores surgem na maior parte das vezes com base em “experiências pessoais” de membros de determinada cultura. Qualquer um em busca da verdade admite que não há muito valor de verdade nisso.

Quem sabe nos deparamos com a assinatura todos os dias e somos simplesmente incapazes de perceber? E se o universo fosse a própria assinatura? Haveria assinatura mais conspícua do que o universo?

Se somos “incapazes de perceber” não é objetiva, se não é objetiva não é sobre o que Sagan falava. Sobre o universo ser a assinatura já é outra história, já é o argumento Kalam ou cosmológico. Contudo, considerando que 99,99% do universo aniquilaria nosso formato de vida instantaneamente, parece que esse artista é um tanto burro, cruel ou indiferente, não? A história do pai se contradiz novamente...

Acredito demais na consistência de Deus e na integridade da ciência para crer que Deus precisaria/utilizaria uma confirmação científica dessa natureza para se legitimizar.

Posição deveras cômoda, não? Acredito até que Paulo Brabo concordaria. Crer em algo que nem você nem ninguém pode ou deve buscar evidência objetiva? Parece de uma comodidade e covardia intelectual (e se procurar e não achar?) sem dimensões...

Em segundo lugar, está muito claro para mim que mesmo a revelação mais inequívoca não bastaria para alguém que fosse cético o bastante.

Eu citei um exemplo, o que Sagan fornece em seu livro. Muitos outros poderiam ser pensados, bastaria uma evidência inequívoca e universal. Penso que para um ser onipotente não seria tarefa difícil.

Bem, fato é que a Bíblia não contém previsões científicas inequívocas, apenas o mesmo tipo de sugestões vagas e controversas que, descobri recentemente, alguns encontram no Alcorão.

Uma grande verdade, a Bíblia não é um manual de ciência. Só resta alguns crentes admitirem isso. O passo seguinte é admitir que a Bíblia também é um manual moral questionável, estranho, obsoleto e duvidoso.

Emblema disso são as três tentações às quais Jesus resistiu no deserto, todas elas provocações para que ele quebrasse o recato divino e tornasse inquestionáveis diante de todo o mundo a sua missão e a sua divindade. Todas as tentações diziam, de certa forma, a mesma coisa: “prove a si mesmo e aos outros que é Deus”; numa de suas respostas à tentação, Jesus rebateu com um verso da Bíblia Hebraica que equivale a dizer: “Deus não precisa provar nada para ninguém”.
Retoricamente agradável, mas não prova nada para ninguém, como o senhor Brabo admite. Essa linha de raciocínio é muito parecida com a que alguns místicos usaram contra James Randi, recusando a se submeterem aos testes e receberem a bagatela de 1 milhão de dólares. É outra posição cômoda, eu afirmo que posso voar, mas não preciso provar nada a ninguém, soa estranho a qualquer mente letrada.

***

Segue o pique-esconde divino-eterno-celestial, Deus gosta dele, do contrário não o estenderia por tanto tempo. Contudo, a posição passiva dos crentes em relação a ele me desaponta, mas antes a admissão sincera da impossibilidade de se provar cientificamente a existência de Deus, que uma ainda maior arrogância de alguns religiosos de considerar isso possível.

¹ 
SCHELLENBERG, John. Divine Hiddenness and Human Reason. NY: Cornell University Press, 1993.

²  
D'SOUZA, Dinesh apud SAGAN, Carl. What's so great about christianity? WDC: Regnery Publishing, Inc, 2007, p. 125.



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