domingo, 21 de agosto de 2011

Sobre os distúrbios em Londres

“Violência em Londres. Estados Unidos no Serasa. Já que o Brasil não vira primeiro mundo, primeiro mundo vira Brasil” (Hiram Abif D)


Já há algum tempo estava a querer comentar os distúrbios em Londres. Contudo, uma mistura de falta de tempo e vontade me impediam. Aguardei calmamente alguém dizer ao menos metade ou mais do que eu queria para me poupar do trabalho (que no fim não será lido ou será rejeitado com uma mescla de ridicularizações e dois grunhidos). Já aconteceu, no dia 18 desse mês, Clóvis Rossi (muito boas as colunas dele, sempre me agradam) disse tudo que eu pretendia dizer.

Por esporte, hobby ou simplesmente lapsos de sanidade mental tenho o hábito de discutir em fóruns pela internet. Discuto com gente egocêntrica do sentido estrito da palavra, gente que não está disposta a mudar de opinião, que apenas busca na internet alguns semelhantes para que entre si digam "amém" para suas opiniões carentes de lógica, de sentido e surradas. Realmente, penso que devo repensar a definição de esporte para sado-masoquismo.

***

Como explicar o que está ocorrendo em Londres? Bem, Rossi colheu dos jornais britânicos uma série de explicações, me poupando a tarefa.

O que verdadeiramente eu quero tratar é o seguinte: o que está acontecendo na Europa/EUA? Primeiro mundo tá virando terceiro e vice-versa?

Não, por uma simples questão de honestidade intelectual, abrir um jornal de grande circulação de qualquer capital brasileira de prova que na MELHOR DAS HIPÓTESES as coisas estão se nivelando por baixo, primeiro mundo tá virando terceiro e terceiro continua terceiro, os problemas mudam de nome ou de lugar, mas continua terceiro.

Entretanto, é preciso notar que violência, "distúrbios", clima beligerante (o "olhar para trás" da filha do Rossi, como verão) são ROTINA por debaixo dos Trópicos (manchetes paulistas da última semana: "arrastões em pizzarias e restaurantes"; "500 caixas eletrônicos explodidos até agora"; "assaltos no horário de pico da marginal"), e EXCEÇÃO por cima deles (manchete da Veja sobre o ocorrido na Noruega: "Violência no PAÍS DA PAZ), portanto, ainda é cedo demais para os exaltadores da pátria olharem para o telhado do vizinho e comemorarem ele estar furado.

Épocas de crise são exceções, e a época dessa não passou ainda nem pela METADE. A de 29 durou pelo menos uma década. Fico imaginando meia dúzia de profundos conhecedores na década de 20 dizendo que os EUA iam acabar, falir, sumir do mapa, virar terceiro mundo.

Por mais que não seja hábito nestas bandas do mundo, estudar faz bem. Estudiosos da escola austríaca de economia, por exemplo, estão com suas poupanças repousadas tranquilamente (nos dois sentidos da coisa), sabem que esses momentos são inerentes à própria dinâmica do capitalismo.

Só lamento não poder rir da cara dessas pessoas daqui a dez anos.


Mas leiamos coluna do Clovis Rossi. Não comentarei mais nada, apenas grifarei alguns trechos:

Sierra Maestra não é em Londres

CLÓVIS ROSSI
FOLHA DE SP - 18/08/11

Tumulto no Reino Unido foi precedido de queda na criminalidade, para o nível mais baixo desde 1995


Há uns sete ou oito anos, durante um passeio por Londres, minha filha, que então morava lá, soltou: "Pai, você não imagina como é bom poder caminhar sem ficar olhando para trás".

Era a observação de quem recém saíra do "sempre alerta" a que somos obrigados em São Paulo. Fico imaginando se ela repetiria a frase agora que Londres andou pegando fogo, se ainda morasse lá.
Suspeito que sim
. Ou melhor, as estatísticas oficiais sugerem que sim: segundo o "British Crime Survey" 2010/11, a taxa de violações da lei "está agora perto do mais baixo nível jamais registrado". Em números: no ano passado, houve 10 milhões de incidentes criminais a menos, na comparação com 1995, o ano que registrou o pico da criminalidade.

De quebra, a estatística, como comenta o "Financial Times", machuca o discurso do primeiro-ministro David Cameron, que considerou os ataques da semana passada a culminação de "um colapso moral em câmera lenta".

Torna também exagerada a punição aos que convocaram quebra-quebra, convocação de resto frustrada. Só apareceu a polícia. Têm, portanto, menos seguidores do que o número de anos de prisão (quatro).

Não é por aí que se vai atacar nem mesmo uma das muitas explicações, supostas ou reais, para a baderna, a saber: uma força policial fraca e/ou racista e/ou brutal; pais ausentes; dependência de subsídios governamentais que acostumaram mal uma parte da juventude; multiculturalismo; tolerância com as gangues em escolas e comunidades carentes; exclusão social; cortes nos gastos sociais; a crescente brecha entre ricos e pobres; o consumismo como obrigação inescusável.

Essa é a lista, não exaustiva, colhida da mídia britânica. Esqueci alguma? É até possível, provável mesmo, que a soma de todas as explicações seja a forma correta de analisar o que ocorreu. Mas eu tenho sérias dúvidas quanto a politizar demais o tumulto, mesmo aceitando o óbvio fato de que a política permeia tudo, da questão social à segurança.

Afinal, como Anne Applebaum comentou no "Washington Post", "se os egípcios na praça Tahrir queriam democracia e os anarquistas em Atenas queriam mais gasto público, os encapuzados nas ruas britânicas queriam televisores de tela plana de 46 polegadas e HD".*** Não é exatamente o que eu chamaria de reivindicação político-social, ao contrário do que parecem pensar esquerdistas que raciocinam por "default" e acham que qualquer baderna é uma revolta contra o capitalismo e/ou o neoliberalismo.

Afinal, lembra também Applebaum, "houve saques em Londres depois do Grande Incêndio de 1666", antes, portanto, da invenção do capitalismo, e mesmo durante os blecautes provocados pelos bombardeios da aviação nazista, na Segunda Guerra Mundial, antes, portanto, da invenção do neoliberalismo.

Que o capitalismo gera exclusão e que está aumentando a desigualdade é fato. É igualmente fato que surgiu um saudável movimento de "indignados".

Mas confundir baderna com revolução social equivale a conferir a medalha Che Guevara do Mérito ao PCC ou ao Comando Vermelho.


*** Para quem não sabe, os jovens imigrantes, descendentes de imigrantes & afins, que estão lamentando o corte das mamatas por parte do governo organizavam os "distúrbios" (a.k.a. baderna e/ou arruaça) via BLACKBERRY!

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