quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Cadê a poderosa China?

China para obras por falta de dinheiro


Construção de ferrovias foi interrompida e rodovias correm o risco de paralisação por atrasos nos pagamentos às empresas de engenharia
 
CLÁUDIA TREVISAN , CORRESPONDENTE / PEQUIM - O Estado de S.Paulo


A construção de inúmeras ferrovias na China está interrompida por falta e recursos, enquanto obras de estradas correm o risco de paralisação por causa de atrasos de até três meses nos pagamentos a empresas de engenharia, segundo reportagens publicadas em jornais oficiais do país.
As dificuldades são um indício da perda de fôlego do modelo de investimentos fomentados por crédito fácil que sustentou o crescimento chinês desde o fim de 2008. Em declarações ao China Daily, editado pelo governo central, Wang Mengshu, vice-engenheiro-chefe da estatal China Railway Tunnel Group, disse que a construção de 10 mil quilômetros de ferrovias foi suspensa por falta de dinheiro. De acordo com ele, há atrasos de meses no pagamento de salários de milhares de operários contratados para construir os trilhos.
"Cerca de 6 milhões de trabalhadores migrantes estão empregados em obras ferroviárias em todo o país. Se os projetos não forem retomados logo, essas pessoas e suas famílias vão sofrer as consequências", disse Wang. Segundo o engenheiro, muitas das empresas responsáveis pelas obras devem "grandes somas" a fornecedores de cimento e aço.

O Ministério das Ferrovias foi um dos mais beneficiados pelo pacote de estímulo de 4 trilhões de yuans (US$ 635 bilhões) anunciado por Pequim em novembro de 2008, logo depois que a quebra do banco Lehman Brothers desencadeou a mais grave crise global das últimas sete décadas.

Mas o canal de transmissão do estímulo foram os empréstimos bancários, o que elevou a dívida do Ministério dos Transportes a 2 trilhões (US$ 317,5 bilhões). "A situação do setor é extremamente difícil e o governo terá de injetar recursos para retomar as obras", disse ao Estado o professor Zhao Jian, da Universidade Jiatong de Pequim.

Na segunda-feira, o Ministério dos Transportes divulgou relatório no qual dizia que algumas províncias têm
atrasos de dois a três meses no pagamento a empresas de engenharia responsáveis pela construção de estradas. O teor do documento foi divulgado pelo Diário do Povo, porta-voz do Partido Comunista. De acordo com a publicação, haverá queda de 20% nos investimentos em estradas neste ano na comparação com 2010.

Outro estudo oficial mostrou que o boom de construção de estradas nos últimos três anos provocou uma enorme dívida, que poderá levar a uma extensão do período máximo para cobrança de pedágios. De 16 províncias que revelaram seus dados, apenas quatro não tiveram perdas na gestão de suas estradas com pedágios no ano passado.

De acordo com reportagem do China Daily, a maioria dos recursos com os pedágios é destinada ao pagamento do serviço da dívida com a construção de estradas, que no ano passado somou 1,268 trilhões de yuans (US$ 200 bilhões) nessas 16 províncias.


O endividamento dos governos locais foi um dos efeitos colaterais do pacote de estímulo que sustentou o crescimento chinês. Estudo divulgado em junho pelo Escritório Nacional de Auditoria estimava que as províncias haviam acumulado débito de US$ 1,65 trilhão no fim de 2010 e dizia que algumas delas não conseguirão pagar o que devem - o equivalente a 25% do PIB chinês.

Desde o início de 2009, os novos financiamentos cresceram cerca de 70%, um ritmo altíssimo que vai gerar créditos podres, com efeitos negativos sobre a saúde do sistema bancário. A enorme expansão monetária ajudou a alimentar a inflação, que em agosto atingiu o mais alto nível em três anos: 6,5%. O índice cedeu para 6,1% no mês passado, mas continua acima da meta do governo, de 4% este ano.

Na tentativa de controlar a alta de preços, o Banco do Povo da China (banco central) apertou a política monetária a partir de outubro de 2010, o que dificultou a obtenção de recursos por várias empresas. Milhares de companhias privadas sofrem o impacto negativo da restrição ao crédito e há uma onda de falências em Wenzhou, cidade da província de Zhejiang que é símbolo do empreendedorismo chinês.

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