sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Nelson Rodrigues contra a 'massa'. Trechos de "O Reacionário"


Crônica XXX - "Arte de Senhoras Gordas":

"Nós sabemos que o sujeito mais livre do mundo é o leitor. Nada interfere no pudor, na exclusividade e na inocência de sua relação com a obra escrita. Está só, espantosamente só, com o soneto, o romance ou o texto dramático. Já o espectador é o mais comprometido, o mais impuro e, por outro lado, o menos inteligente dos seres" (p. 126)

Crônica CII - "E, de repente, todos perceberam o óbvio ululante: - era uam catástrofe idiota":

"Catástrofe idiota. Deixei escapar a palavra exata: - idiota. Tenho escrito, com obsessiva monotonia, sobre o maior tema da nossa época. Falei, des vezes, sobre a ascensão do idiota. No passado, eram os "melhores" que faziam os usos, os costumes, os valores, as ideias, os sentimentos etc, etc. Perguntará alguém: - 'E que fazia o idiota?' Resposta: - fazia filhos."

"E, de repente, tudo mudou. Após milênios de passividade abjeta, o idiota descobriu a própria superioridade numérica. Multidões, jamais concebidas, começaram a rosnar. Eram eles, os idiotas. Os "melhores" se juntaram em pequenas minorias, acuadas, batidas, apavoradas. O imbecil, que falava baixinho, passou a esbravejar; ele, que apenas fazia filhos, deu para pensar. Pela primeira vez, o idiota é artista plástico, é cientista, sociólogo, romancista, cineasta, dramaturgo, Prêmio Nobel, sacerdote. Aprende, sabe ensina." (ambas p. 413).

Crônica CXI - "A eternidade do canastrão":

"Já o canastrão faz-se entender, e explico: - proque o espectador também é canastrão. Os idiotas da objetividade poderão objetar que há espectador inteligente. Retifico: - não como espectador. Apanhem o sujeito mais inteligente e o ponham na plateia. Imediatamente, ele passará a reagir como as duzentas senhoras gordas que assistem à peça, comendo pipocas. O sujeito que se mete no meio de trezentos idiotas será um deles". (p.448)

E a quem se deve a ascensão do idiota?

"Deve-se a Marx o formidável despertar dos idiotas. Estes descobrem que são em maior número e sentem a embriaguez da onipotência numérica" (FISCHER apud RODRIGUES, 2001, p. 94)

Refrências bibliográficas:

FISCHER, L. C. "Indivíduo contra massa: Nelson Rodrigues trágico". In: Filosofia & literatura :o trágico, ROSENFIELD, D. (org), Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

RODRIGUES, N. O reacionário, memórias e confissões. Rio de Janeiro: Record, 1977.

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