quarta-feira, 23 de novembro de 2011

JOÃO PEREIRA COUTINHO - A Europa e os fascistas

Não existe "o" projeto europeu, com artigo definido; o que existe é "um" projeto que falhou

Na década de 60, o colunista William F. Buckley afirmava que preferia entregar o governo dos Estados Unidos à primeira pessoa que encontrasse na lista telefônica do que ao departamento de humanidades da Universidade Harvard. A frase sempre me pareceu excessiva.

Mas, com o tempo, uma pessoa começa a compreender a sabedoria do velho Bill: as universidades não servem apenas para produzir conhecimento teórico; servem, também, para fechar lá dentro esses produtores de conhecimento.

Pena que, de vez em quando, alguns consigam fugir cá para fora. Jürgen Habermas, esse gigantesco equívoco da filosofia europeia (Slavoj Zizek não é bem um equívoco; é mais um caso de polícia), deu uma conferência em Paris sobre a "crise da Europa". Não assisti à dita cuja, mas confio na Folha de domingo.

Segundo parece, Habermas afirmou que o problema central da crise é a falta de "interação entre os cidadãos e a comunidade". Em linguagem de gente: Habermas, do alto da sua arrogância racionalista, quer a "inserção" (atenção ao verbo) dos cidadãos nos debates europeus.

Não é admissível, acrescenta Habermas, que as últimas eleições para o Parlamento Europeu em 2009 tenham tido 56,99% de abstenção. Esse afastamento apenas oferece terreno fértil para a extrema-direita, que rejeita o projeto comum europeu (que horror! que horror!).

Nada do que Habermas afirma é novo. Pelo contrário: é apenas a velha litania utópica que, indiferente a esse pormenor ridículo que dá pelo nome de "realidade", conduziu a Europa para a derrocada corrente.
Os delírios utópicos de Habermas começam logo na defesa da "inserção" dos cidadãos na vida europeia.
Seria inútil, perante a cabeça fechada do filósofo, relembrar que a experiência democrática implica a existência prévia de um "demos": um povo que se define, primeiro que tudo, por um sentimento de pertença à sua comunidade.

Eu voto e participo porque me reconheço como parte dessa comunidade. E a Europa, histórica e culturalmente falando, sempre foi uma coleção de comunidades independentes: Estados distintos, muitas vezes com um patrimônio imemorial de rivalidades entre si, que nenhuma construção burocrática e elitista será capaz de suplantar.

A "inserção" dos cidadãos no "projeto europeu" só poderá ser conseguida pela violência, ou pela propaganda, ou pela farsa. Estará o filósofo Habermas disponível para montar nas capitais europeias gigantescas fotos dos burocratas de Bruxelas, ao estilo norte-coreano, de forma a incutir nos europeus um amor apaixonado pela União Europeia?

Em caso afirmativo, desaconselho o gesto. Até porque os europeus não são idiotas. Quando Habermas se horroriza com os 56,99% de abstenção para o Parlamento Europeu, ele deveria perguntar primeiro para que serve o Parlamento Europeu.

Eu respondo: para nada. Mesmo com o último Tratado de Lisboa, o Parlamento Europeu continua a ser um mero apêndice do real centro do poder: a Comissão Europeia.

E a Comissão, como Habermas sabe, não foi eleita por ninguém. Foi simplesmente cozinhada, na melhor tradição soviética, nos corredores anônimos de Bruxelas. O que espanta não são os 56,99% que se abstiveram, mas os 43,01% que ainda se deram ao trabalho de ir votar.

Finalmente, a extrema-direita e a rejeição do projeto comum europeu. É sempre a mesma conversa: quem levanta dúvidas sobre a União Europeia só pode ser fascista. Todos os projetos políticos autoritários precisam encontrar os seus inimigos, reais ou imaginários.

Infelizmente, nessa busca de inimigos, a União Europeia deveria olhar-se no espelho e perguntar primeiro se não é ela própria, na sua estrutura antidemocrática, que não os está a semear por todo lado.

Não existe "o" projeto europeu, com o artigo definido no singular. O que existe é "um" projeto que falhou, o que significa que talvez seja hora de tentar outro: uma Europa que seja um espaço de livre circulação de pessoas, bens, serviços ou capitais, mas onde a legitimidade desse projeto começa (e acaba) nos países democráticos e soberanos que o compõem.

A proposta não é original? Pois não. Mas, às vezes, é preciso dar um passo atrás para evitar o abismo que está à frente.

jpcoutinho@folha.com.br

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