segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Lançado no Brasil "Ascensão e Queda do Comunismo", de Archie Brown

Retirado do blog do ilustre Bruno Garschagen,

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Já não era sem tempo: a editora Record lança no Brasil a tradução do livro Ascensão e Queda do Comunismo, de Archie Brown, professor emérito de Política da Universidade de Oxford e Emeritus Fellow do St Antony’s college, instituição na qual ele lecionou durante 34 anos e onde terminei o meu mestrado no ano passado. Na Veja desta semana, Reinaldo Azevedo assina resenha sobre o livro (disponível na íntegra apenas na versão impressa):


Não foi o então presidente americano, Ronald Reagan, que matou o comunismo. Também não foi o papa João Paulo II. Tampouco foram as fragilidades do modelo. O sistema cometeu suicídio quando resolveu experimentar um pouco de liberdade. É, ao menos, o que sustenta o cientista político e historiador escocês Archie Brown em Ascensão e Queda do Comunismo (tradução de Bruno Casotti; Record; 854 páginas; 89,90 reais). O ambiente era bem deprimente na União Soviética, como revela uma piada que circulava por lá em fevereiro de 1984, quando a primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher, compareceu para o funeral de Yuri Andropov, que comandara a “pátria do socialismo” por modestos quinze meses. O escolhido para sucedê-lo foi Konstantin Chernenko, de 72 anos. A piada reproduzia um telefonema fictício de Thatcher para Reagan: “Você deveria ter vindo ao funeral, Ron. Eles fizeram tudo muito bem. Com certeza, vou voltar no ano que vem”. E voltou mesmo, treze meses depois, tempo de sobrevida de Chernenko. Em 68 anos de história, a União Soviética tivera quatro dirigentes máximos: Lênin, Stálin, Krushev e Brejnev. Ao chegar ao poder em 11 de março de 1985, Mikhail Gorbachev era o terceiro governante em vinte e oito meses. Havia algo de podre e muito velho no Império Vermelho.
A piada é narrada no grande (em qualquer sentido) livro de Brown. Ao longo de mais de 800 páginas, noventa delas com notas explicativas, ele detalha a trajetória do comunismo mundo afora, do Manifesto de Karl Marx (1848) à dissolução da URSS. Em 25 de dezembro de 1991, seis anos e nove meses depois de se tornar um dos homens mais poderosos da Terra, Gorbachev renunciava à Presidência de um país que já tinha acabado. O homem da “perestroika”, da reestruturação, fora engolido por sua ingenuidade e traído por sua ousadia. Todos os sinos dobraram pelo Natal; nenhum por quem restituíra a liberdade religiosa. Era execrado pelos destituídos do antigo regime e desprezado pelos beneficiários do novo.
Brown, professor de Oxford, é um profundo conhecedor do assunto. Levou dois anos para escrever o livro, publicado em 2009, mas reuniu informações colhidas ao longo de 45 anos e muitas viagens aos países comunistas, especialmente durante a Guerra Fria. E é com essa autoridade que ele afirma: “Na União Soviética, a reforma produziu a crise mais do que a crise forçou a reforma”. Para Brown, embora o modelo soviético estivesse corroído pela ineficiência, pela estagnação e pela incapacidade de entrar na economia da informação, não havia pressão social ou política que tornasse urgentes as mudanças. O modelo poderia ter durado por muito tempo, não fosse Gorbachev.
A relação de Brown com o líder que matou o comunismo é ambígua. Admira sua vocação democrática e suas escolhas políticas e éticas, mas o caracteriza como um político ingênuo, que fez uma aposta brutalmente errada. Qual foi o erro - e, pois, o grande acerto - de Gorbachev? Para responder a essa questão, é preciso citar aquelas que o historiador considera as “seis características definidoras” do comunismo - elas também explicam por que o autor sustenta que o comunismo acabou, ainda que China, Vietnã, Laos, Cuba e Coreia do Norte se digam comunistas: 1) o partido único detém o monopólio do poder; 2) a burocracia partidária tem plena autonomia para tomar qualquer decisão; é o centralismo democrático; 3) há a posse não-capitalista dos meios de produção; 4) a economia é de comando, definida pelo estado, não pelo mercado; 5) há a convicção de que o comunismo está em plena construção e ruma para a perfeição; 6) os comunistas articulam-se em um movimento internacional.

Embora considere-o um grande livro, tendo a discordar do argumento do professor Brown. Gorbachev foi uma tentativa de solução para salvar o regime justamente porque o modelo político e econômico estava em crise e, mesmo sem a pressão social, havia dentro do partido um embate político de forças, que se opunham aos que queriam manter o regime do jeito que estava, no sentido de resolver a situação para preservar a estrutura de poder e, claro, os privilégios da elite do partido. O professor pode afirmar que o modelo poderia ter durado por muito tempo, o que não podemos saber com certeza, mas também é possível especular que manter aquela situação comprometeria o statu quo e potencializaria as chances de uma debacle generalizada, e talvez isso tenha apavorado uma parcela do partido que aceitou a solução Gorbachev, obviamente sem imaginar que o escolhido seria o artífice de uma mudança brutal do regime e sistema político da Rússia. Talvez isso explique, quero crer, a certa admiração de Brown por Gorbachev.

Parafraseando Karl Marx sobre o capitalismo, acredito que o comunismo e o socialismo enquanto sistemas políticos e econômicos, trazem em si os germes de sua própria destruição.

Resenhas recomendadas:

The un-American way of life, de Andrew O'hehir.
- The Rise and Fall of Communism by Archie Brown, de Simon Heffer.
- End of Empire, de Donald Sassoon.
Dead end - Mankind’s biggest mistake - The Economist.
Communism, Rising and Falling, de Michael Kimmage.
The Suicide of the East?, de Philip D. Zelikow

Vídeos recomendados:

- Book TV: Archie Brown "The Rise and Fall of Communism"
- Palestra de Archie Brown sobre o livro: 1ª Parte, 2ª Parte, 3ª Parte, 4ª Parte.

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