quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Resenha Excurso II do livro Dialética do Esclarecimento, Juliette ou esclarecimento e moral



RESENHA DESCRITIVA
[Embora eu tivesse muitas críticas a fazer, não as fiz aqui, fiz uma resenha meramente descritiva]

Para a obtenção de nota parcial na disciplina "Filosofia Contemporânea":


Adorno e Horkheimer estão, no excurso segundo de seu Dialética do Esclarecimento, intitulado “Juliette ou Esclarecimento e Moral”, explicitando com maior vagar o que haviam asseverado no prefácio, mostram que seu empreendimento é “(...) descobrir por que a humanidade em vez de entrar em um estado verdadeiramente humano, está se afundando em uma nova espécie de barbárie” (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 11). Trata-se de mostrar como a Razão, tão aclamada pelos iluministas, supostamente esclarecidos, conduziu às mais variadas formas de aberrações político-sociais, como o fascismo e o nazismo (do qual ambos os pensadores fugiam, à época da elaboração do livro), como a racionalidade, ao invés de tornar o homem autônomo, serve na verdade de instrumentoi para a dominação de uns sobre outros. É importante ressaltar alguns outros pontos gerais: os idealizadores da escola de Frankfurt não propõem um irracionalismo, como pode parecer à primeira vista, mas sim uma crítica racional à Razão. Como fazem isso? Por meio de uma articulação entre marxismo e psicanálise. Vejamos então, qual é o foco de Adorno e Horkheimer no excurso II.

Adorno e Horkheimer tomam, neste momento, a questão da moralidade com pretensões universalistas de Immanuel Kant, o problema de uma moralidade estritamente racionalista, que põe a imaginação e, em nosso entender, a própria filosofia de lado, para se devotar à razão cientificista exclusivamenteii. Fazem então, uma articulação e uma exemplificação com a personagem de Sade, Juliette, que põe em prática, de acordo com ambos, essa visão estreita de mundo, que tem consequências drásticas no plano da moral.

O gancho para mostrar as raízes do que se passa no mundo moderno, o modo de vida burguês-liberal, é Kant, o teórico moral do esclarecimento, tanto em suas obras sobre ética, como já na própria Crítica da Razão Pura já haviam germes. A tônica da crítica gira em torno da abstração, formalismoiii e universalismo da filosofia – bem como da ética – kantiana, que suprime os indivíduos e sua imaginação: “membro útil, bem-sucedido ou fracassado, de grupos profissionais ou nacionais” (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 84), que desemboca na nossa sociedade, tal como conhecemos hoje, que prometia avanços magníficos, tanto em termos tecnológicos quanto em termos humanos, mas o que observamos, ao menos na ótica dos pensadores de Frankfurt, não é isso.

É interessante notar que (muito embora eu, pessoalmente, discorde disso) as observações feitas por Adorno e Horkheimer sobre a ética kantiana fazem todo sentido, na medida em que a ética do filósofo de Königsberg visa, suprimir, em favor da universalidade, todos os “móbiles”, todas as “inclinações”, ou seja, Kant, mais que qualquer outro, subscreve a tradicional dicotomia paixão versus razão, onde as paixões devem ser suprimidas e/ou superadas em favor de um universal abstrato. Pela ótica da escola de Frankfurt, que visa conciliar Marx a Freud, sendo que este último tenta mostrar que qualquer ética que se valha terá de levar em conta as pulsões corporais, a rejeição da rígida ética kantiana faz todo sentido.

Mas a proposta dos pensadores ia mais longe, não e trata apenas de criticar a moral esclarecida de Kant, como Hegel já havia feito, mas asseverar que ela não funcionou. Juliette é a encarnação desse fato (o sujeito “autônomo”, dono de si), é resultado desse mescla explosiva, como vemos na citação feita a Sade:

'Primeiro imagine seu plano com vários dias de antecedência, reflita sobre todas as conseqüências, examine com atenção o que poderá lhe ser útil... o que será susceptível de traí-la... faça reinar nela a calma e a indiferença e trate de adquirir o maior sangue-frio possível nessa situação...' (SADE apud ADORNO; HORKHEIMER, 1991, p. 93)


Adorno e Horkheimer fazem de Sade (e também de Nietzsche) meio para exemplificar o que tentam dizer: que a razão pretensamente esclarecida, que visava desmistificar tudo, objetivar tudo, gerou aberrações, que tornam possível a frieza calculista no planejamento de um assassinato. Dessa maneira, fica claro que a ética construída por Kant, se torna impraticável na conjuntura de mundo liberal e burguesa, e coube ao Marquês de Sade mostrar de forma crua esta realidade. Em vez do outro ser considerado enquanto tal, ele passa a, de maneira egoísta, ser considerado como mero meio ou como mera coisa, especialmente se estivermos falando da manutenção do universal. O amor se torna dispensável, apenas outra paixão, a felicidade é tão inalcançável que Kant, na Crítica da Razão Prática, é levado a elaborar inúmeros postulados para tentar conciliar a vida comum regida pelas leis da natureza com o horizonte de uma felicidade possível.

De maneira bastante resumida, essas são as ideias defendidas por Theodor Adorno e Max Horkheimer em seu livro, as consequências no terreno da moral proporcionadas pelos frutos do esclarecimento. Contudo, ressaltamos uma vez mais, que não se trata simplesmente de jogar tudo fora na pretensão de retornar à selva ou menosprezar todo o esclarecimento, mas sim de alertar a todos para o que aconteceu e acontece, usar o choque causado pelos romances de um Marquês de Sade para, no fim usá-lo como “uma alavanca para salvar o esclarecimento” (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 111).



i A crítica à “razão instrumental” é uma das marcas registradas da Escola de Frankfurt.
ii Exemplo claro disso são essas palavras de Adorno e Horkheimer: “(...) o positivismo moderno, a escória do esclarecimento” (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 90).
iii Essa já era uma objeção levantada por Hegel à ética kantiana.

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