sexta-feira, 25 de novembro de 2011

RESENHA 'O que é ideologia' Marilena Chaui, editora Brasiliense




RESENHA CRÍTICO-ANALÍTICA


Nossa resenha tomará a seguinte direção: tomando duas definições, dentre muitas, de resenha, num primeiro momento, menos extenso, faremos a chamada “resenha descritiva”, descrevendo de maneira bastante sucinta as ideias apresentadas no livro O que é ideologia e num segundo, mais extenso, estabeleceremos críticas às teses mostradas no livro.


A autora pretende trazer luz sob o vocábulo "ideologia" (CHAUI, 2008, p. 7). O conceito, por exemplo, não deve ser tomado no sentido de mero “ideário”. Na sequência, com intuito de estabelecer qual é o efetivo sentido de ideologia, Chaui mune-se de dois exemplos: a ciência e a metafísica antiga e moderna, por meio de seus idealizadores, a saber, Aristóteles e Descartes.

Toma-se a teoria das 4 causas aristotélica e a dualidade corpo-alma cartesiana como exemplos que mostram que ideologia não é um ideário qualquer, mas um ideário histórico, social e política que visa, conscientemente ou não, ocultar a realidade. A teoria das quatro causas aristotélica não é resultado de investigação neutra e desinteressada, uma pura atividade científica que visa estabelecer como as coisas que existem se comportam (i.e., uma Física) tampouco revelar a natureza dessas coisas (i.e., uma Metafísica), mas sim, fomento para a ordem social grega (e posteriormente medieval) estabelecida à época de Aristóteles: o escravagismo (e o servilismo medieval). Os senhores identificam-se com as causas finais, a mais importante, ao passo que os escravos e servos com as causas motriz e eficiente, assegurando no terreno teórico a superioridade de uns sobre os outros. O mesmo modus operandi é válido para a famosa dualidade alma-corpo resultante da física e metafísica cartesiana, na modernidade, onde o trabalho torna-se um valor e o conhecimento é indissociado do poder (Bacon: “Saber é poder”), os corpos são identificados com o trabalho e as almas com os que mandam, sendo que na teoria cartesiana a alma é relatada como superior ao corpo. Para a crítica que faremos na segunda parte da resenha é importante ressaltar que a autora expressa claramente que o teórico faz isso de forma inconsciente, ele imagina que, honestamente, está fazendo uma descrição da realidade (CHAUI, 2008, p. 13).

A autora prossegue fazendo um pequeno histórico do termo e alerta que o sentido que ela pretende esclarecer é o mesmo adotado por Napoleão Bonaparte e, por sua vez, por Karl Marx: ideologia é uma inversão entre as ideias e o real (CHAUI, 2008, p. 30). Também é ressaltado que a doutrina fundada por Auguste Comte, o positivismo, é uma forma de ideologia; ao conceber o conhecimento científico como conhecimento per excellence e, consequentemente, atribuir ao cientista o status de guru social, aquele que domina o único saber que de fato existe é o que deterá mais poder e responderá todas as perguntas. Chaui parece se esquecer que Marx foi um positivista (estaria o criador do antídoto contra todas as ideologias imbuído de uma também?). 

Num terceiro momento do livro, Chaui aponta para a importância de fazer uma exposição resumida da filosofia de Hegel, da qual muito dos ditos “ideólogos” alemães estão imersos (Feuerbach, F. Strauss, Stirner, Bauer etc. etc.) e da qual o próprio Marx faz proveito, transferindo a mesma de seu plano excessivamente ideal para aquele que verdadeiramente lhe interessa, o material. E, finalmente, no capítulo IV, o antídoto que salvará toda a humanidade, de Tales a Descartes, do universo da ideologia é apresentado: a concepção de ideologia do economistai alemão Karl Marx. Nos furtaremos aqui de fazer uma maior exposição do conceito, diremos apenas que a inversão de ideias operada pela ideologia tem por objetivo salvaguardar o status quo da ordem vigente: o poder dos capitalistas burgueses, estabelecido por meio da divisão de classes e da luta de classes. De que maneira isso é feito? Por meio da alienação, da reificação e do fetichismo. O proletário pensa que a situação que ele se encontra está de acordo com a ordem natural das coisas e não que é resultado da ordem estabelecida, é alienado; o proletário resume-se a sua força de trabalho e a quanto ganha (seu salário), é reificado; os produtos que são resultado do trabalho empregado pelo proletário passam a ter relações sociais como se fossem pessoas, trata-se do fetichismo.

Resta então, aguardar que os doutores marxistas distribuam universalmente sua teoria (o materialismo histórico e dialético), como antídoto universal e que então, quando todos tomarem consciência que a condição em que se encontram é resultado de uma inversão da realidade operada pela ideologia da classe dominante, resulte com que a massa proletária ponha fim na luta de classes por meio da revolução.

Pensemos um pouco nas consequência da exposição do conceito de ideologia, pela ótica marxista, tal como exposto por Marilena Chaui. Há, no mundo, ao que parece, desde muito tempo, um mascaramento ideológico da realidade, operado inconscientemente pelos pensadores (ao menos até o advento do marxismo): filósofos, artistas, arquitetos etc. etc, quando Aristóteles escreve sua Metafísica não expõe a natureza da realidade, mas engana a si e aos outros fornecendo, em realidade, fundamento para o poder vigente, quando Michelangelo esculpe o êxtase de santa Tereza, não descreve a experiência mística (supostamente) vivida pela mulher, mas fomenta a ordem atual, quando um arquiteto esboça a planta de uma construção importante para uma nação, em verdade, não o faz de fato, apenas serve de combustível para que o estado atual das coisas se mantenha. Não é preciso ir muito mais a fundo para notar o grau elevadamente conspiratório da tese exposta, na verdade, não fazemos o que fazemos; tendo em mente que nem todos os corações foram tocados pelo marxismo, não fazemos arte, filosofia ou ciência, somos inconscientemente levados a subscrever o poder atuante. A coisa não para por aí, ao pensarmos na Escola de Frankfurt, onde une-se a cosmovisão marxista à psicanálise freudiana (noções de ego, superego e libido), a única conclusão palatável é de que não passamos de bonecos de ventríloquo impassíveis seguindo indiscriminadamente a marcha da ideologia da classe dominante. Concepção de realidade, como nota-se, extremamente reducionista, tudo se resume a reflexo ideológico inconsciente da sociedade em questão (aristocrata no caso de Aristóteles, burguesa em nosso caso e no caso de Descartes, o salto mágico é ainda maior, Descartes era um senhor feudal, mas sua filosofia visava fomentar uma ideologia, da classe capitalista industrial, que só surgiria dois séculos depois!).

Ressaltaremos ainda, de maneira breve, outros dois pontos: a confusão feita pela professora Marinela Chaui quando tenta dizer que uma montanha não é uma coisa e o comum uso de elipses no discurso que permeia todo seu breve texto.

Diz a professora: “O real não é constituído por coisas. Nossa experiência direta e imediata nos leva a imaginar que o real é constituído por coisas (sejam elas naturais ou humanas), isto é, de objetos físicos, psíquicos, culturais oferecidos à nossa percepção e às nossas vivências” (CHAUI, 2008, p. 20) e segue afirmando que uma montanha perde seu caráter de coisa, dependendo da relação social estabelecida: pode deixar de ser coisa para ser morada dos deuses (para uma tribo politeísta), uma propriedade privada (o capitalista que decide explorar os minérios da montanha) ou um campo de visibilidade (para um pintor) [Cf. CHAUI, 2008, p. 20 e 21].

Aparentemente, devemos seguir os passos de Marilena e superar a ilusão comum de considerar que conhecemos “coisas”. Ao que parece, Marilena confunde, conscientemente ou não, que a montanha não perde a condição de coisa (montanha) apenas por adquirir a função de morada dos deuses; estabelece-se uma mudança da condição de quem observa, mas não da natureza mesma da montanha. Como poderiam os deuses habitar uma não-coisa? A montanhicidade da própria não é suprimida por uma mudança de ponto de vista, aliás, como seres divinos habitariam um ponto de vista? A coisa é extrapolada no que diz respeito ao capitalista, a montanha deixa de ser coisa para ser uma própria “relação econômica”, não como objeto de uma relação econômica, como se não fosse preciso haver uma coisa para que uma relação econômica se estabelecesse, como extrair minério de uma relação econômica? A crítica pode ser estendida para o que é dito sobre o quadro, não se trata da observação de uma coisa abrangida por um campo de visibilidade, mas sim do retrato do próprio campo de invisibilidade (sem nada contido nele?)!

Ou seja, subjacente às confusões, existem premissas ocultas ao longo do texto figura de linguagem denominada elipse. Se Chaui usou e abusou da técnica intencionalmente ou não, não investigaremos aqui.

E last but not least, levantaremos uma objeção ao conceito próprio de ideologia tão como compreendido por Marx, defendido como a cura para todos os males por Marilena em seu livro. Ou a ideologia representa os interesses da classe a que seus porta-vozes pertencem (a ideologia burguesa favorece os burgueses, a ideologia aristocrata, os aristocratas) ou cada um é livre para proclamar ideologias agradáveis a outras classes que não a sua. Sob a ótica da primeira afirmação, jamais as ideias revolucionárias sairiam da cabeça de um burguês como Karl Marx (ou então, Descartes jamais fomentaria a ideologia dum sistema e duma classe que sequer existia quando redigia sua metafísica), já sob a ótica da segunda afirmação o elo entre ideologia e condição social do sujeito esvanece, havendo portanto apenas a ideologia pessoal que o sujeito atribui à classe que mais lhe apraz e, na sequência, ao inverter-se essa fantasia, surge como que por mágica a dita ideologia da classe adversária.


Referências bibliográficas

CARVALHO, Olavo de. A.A.V.R. Disponível em: http://www.olavodecarvalho.org/semana/060319zh.htm . Acesso em: 12 set. 2011.

CARVALHO, Olavo de. Lógica da Mistificação, ou: o chicote da tiazinha. Disponível em: http://www.olavodecarvalho.org/textos/tiazinha.htm. Acesso em: 12 set. 2011.

CHAUI, Marilena. O que é ideologia. São Paulo: Ed. Brasiliense, 2008.


É indispensável ressaltar neste momento que Marx venceu, o alemão afirmara que o motor da história é a economia, nenhum economista desacredita tal afirmação hoje em dia, nem mesmo os liberais que, supostamente, deveriam ser anti-marxistas.

4 comentários:

  1. A tese defendida por Chaui não provém de Marx, mas sim dos neo-hegelianos. O prefácio da "Ideologia Alemã" já derruba essa imputação feita a Marx.

    (PS. Marx não era positivista e, muito menos, proprietário de capital.)

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    1. Caro,

      Não sei quais elementos usou pra deduzir sua primeira afirmação, mas ela é evidente. São meandros que não interessam ao leitor de um texto tão curto. O uso corrente do conceito de ideologia é, mormente, o de "cortina de ideias falsas que encobre a realidade" e distancia o sujeito vitimado pela ideologia dessa realidade que o levaria à atividade revolucionária. Só esse ponto me interessa. É nesse sentido que, por exemplo, Platão, ao exaltar o mundo inteligível, seria um ideólogo, ele convenceria as pessoas de que a dedicação a este mundo vale menos que a dedicação a um outro, enfraquecendo uma eventual ação revolucionária; o mesmo para o cristianismo e sua "normalização da pobreza" (mais fácil o camelo no buraco da agulha que o rico no reino dos céus), se você adere a este ideário falso, pra que se engajar em atos revolucionários?

      Até onde isso deve ser debitado a Marx, ao legado do "marxismo" ou aos formadores de Marx além de não me interessar nesse texto, é uma questão de menor interesse em geral e, às vezes (não sempre, admito), usada como cortina de fumaça.

      Quanto ao positivismo de Marx: evidentemente que Marx não era um positivista no sentido de ser declaradamente seguidor de Auguste Comte (até mesmo porque o positivismo, como todas as demais ideias da humanidade que não coadunem com o marxismo, deve ser considerado algum tipo de ideologia), mas o era no sentido de: acreditar num rumo inexorável da história humana, na cientificidade suprema da História, além de, tal como Comte, ser um gnóstico, pois acreditava que o materialismo dialético enquanto método era capaz de "desvelar a verdade" encoberta pela ideologia.

      Sobre ser proprietário de capital: realmente não, principalmente na definição estrita de capital do marxismo como posse de meios de produção. Mas Marcão viveu à custa de Engels (esse sim proprietário de capital em sentido estrito) e aguardou ansiosamente pela herança advinda dos pais, além de ter feito especulação na bolsa de Londres (puro feeling, mas tenho a impressão que um marxista ortodoxo deve ter mais desprezo por um empresário empreendedor que por um especulador).

      Passar bem.

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    2. Sobre Marx proprietário/não-proprietário e outros fatos indesejáveis:

      http://www.andreassibarreto.org/2013/08/fatos-indesejaveis-sobre-biografia-de.html

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1. Seja polido;

2. Preze pela ortografia e gramática da sua língua-mãe.