segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Naturalismo moral e darwinismo social. Perspectivas e problemas

Por André,



Muitas correntes éticas surgiram em busca de uma ética não normativa, dentre elas o naturalismo, que segundo Charles Pigden, pode ser entendido da segunda maneira:

O naturalismo é uma doutrina (ou família de doutrinas) cognitivistas. Afirma que os juízos morais são proposições, suscetíveis a verdade ou falsidade. (...) Se opõe assim, à teoria do erro de J. L. Mackie que admite que os juízos morais formulam enunciados que são verdadeiros ou falsos, mas nega que qualquer um deles seja verdadeiro. Para o naturalista, a moralidade não é uma ficção, um erro ou um mito, mas um corpo de conhecimento ou ao menos de informação. Por último, o naturalismo é (em sentido amplo) uma doutrina redutora. Ainda que existam verdades morais (a dizer, proposições verdadeiras) não existem fatos ou propriedades peculiarmente morais (não há situações caracteristicamente morais), mas além dos fatos e propriedades que podem especificar-se mediante o uso de uma terminologia não-moral.
(PIGDEN, “El naturalismo” In: Compendio de Ética, p. 567 - 568)

    O naturalismo em si, como escola filosófica, propõe a ideia de que nada que transcenda aquilo que é natural de fato existe, em termos de ética, a premissa básica do naturalismo reza que fatos morais provém das verdades naturais. O naturalismo se opõe a qualquer não-cognitivismo, ao emotivismo, ao prescritivismo e ao intuicionismo. Já o darwinismo social, é assim definido por Michael Ruse:

Na verdade, antes de publicar a Origem das Espécies, outros autores – insatisfeitos com o cristianismo como filosofia apta para a sociedade industrializada – tentaram converter as ideias biológicas em um programa socio-politico-econômico pleno. A seguir da publicação de sua obra, este movimento ganhou força, especialmente nas mãos do compatriota de Darwin, seu colega Herbert Spencer. Assim nasceu o “darwinismo social”. Apresentou-se de muitas formas; mas habitualmente supôs-se uma simples aplicação da luta e seleção darwiniana do mundo da biologia ao âmbito social humano. (RUSE, “La significación de la evolución” In: Compendio de Ética. p. 668)

    O darwinismo social, de certa forma, é uma forma de naturalismo, visa trazer da Biologia para outras áreas, a teoria de Darwin, logo, ambos passam pelos mesmos dilemas morais.

    O naturalismo tem várias interpretações e escolas, existe o naturalismo hedonista, que reduzem e identificam o bom e a amizade com o prazer e o mal com a dor, o naturalismo aristotélico que têm preferência pelos fatos da natureza humana e do aperfeiçoamento do homem, a amizade é boa porque concorda com a natureza humana e existem também os naturalistas teológicos, que imaginam que bom e mal é aquilo que foi assim considerado por Deus.

    Um dos problemas que o naturalista moral tem que enfrentar é, por exemplo, o da dependência que sua teoria moral tem da epistemologia, pois a moralidade se reduziria às verdades fornecidas pela ciência, retirando a autonomia da moral. A velha questão do “deve” não poder depender do “é”, conhecida como a “lei de Hume”. Mas essa é uma questão meramente lógica e de uma lógica um tanto quanta conservadora, Pigden demonstra esse conservadorismo lógico e mostra que existem várias formas de autonomia da ética, as autonomias lógica, semântica e ontológica e que a única que o naturalismo poderia não ter é a ontológica (dependeria de fatos morais existirem de forma sui generis).

    Outro empecilho no caminho do naturalismo é a falácia naturalista, proposta por G. E. Moore em seu Principia Ethica, Pigden, resumidamente, a expressa dessa forma:

[Os naturalistas] confundiram a propriedade da bondade com as coisas que possuem essa propriedade ou com outra propriedade que possuem as coisas boas. Nisto consiste a falácia naturalista; em uma mescla de elementos distintos. (PIGDEN, “El naturalismo” In: Compendio de Ética, p. 573)

    O naturalista identifica, por exemplo, o bom com o prazeroso, dando um caráter tautológico às suas afirmações. Só que esse argumento não prova a autonomia ontológica e portanto a falsidade do naturalismo, essa é uma das possíveis saídas teóricas para os problemas enfrentados pelo naturalista moral e para a falácia naturalista.

    Já quanto ao darwinismo social, uma forma de naturalismo, pois, como dissemos, pretende trazer a verdade biológica da evolução para os campos social, político e econômico. O darwinismo social teve como seu primeiro teórico o inglês vitoriano Herbert Spencer. Surgiu como visão de mundo alternativa ao cristianismo e expresso de várias formas, variando na Inglaterra, Alemanha e Rússia. O primeiro problema que o darwinismo social enfrenta, é que apesar das espécies terem surgido em um processo de luta pela vida, os organismos não vivem, necessariamente, em conflito e luta armada constante. Muito pelo contrário, a maioria esmagadora das espécies vivem em meios de cooperação e colaboração. A problemática desenvolvida por Michael Ruse, em seu texto A significação da evolução, é a do altruísmo e cooperação presente no comportamento das espécies, o comportamento moral da maioria esmagadora de organismos vivos da terra, o que demonstra a interpretação precipitada dos teóricos do darwinismo social, totalmente desvinculado da figura de Darwin. Por último, o mito do contrato social, que reza que as sociedades primitivas viviam em absoluto conflito, e que a partir de um contrato social, estabeleceram suas regras morais, com o intuito de cessar esse conflito, tendo como motivação o egoísmo prudente. Outro problema, para aqueles que admitem o mito do contrato social, assim como para os teóricos do darwinismo social, o conflito que os contratualistas creem não é observado na maioria dos organismos, e o egoísmo prudente também fica em xeque, já que não vemos o egoísmo e o que vemos costuma não ser tão prudente.

    De toda a problemática ética e moral apresentada, podemos concluir, quanto ao naturalismo moral, que este possui as mesmas carências e os mesmos problemas de qualquer teoria moral não normativa, mas que, como apresentado por Pigden, muitas das críticas dirigidas ao naturalismo são de cunho ao menos questionável, como a questão da Lei de Hume e até da famosa falácia naturalista, exposta por Moore. Quanto ao darwinismo social, observa-se que, em primeiro lugar, trata-se de uma aberrância produzida por interpretações demasiadamente livres da teoria darwiniana para o desenvolvimento da vida, não passou de uma interpretação errônea, mas que atraiu o interesse de ideologias políticas. Mas como foi mostrado por Ruse e por Midgley, ao contrário de conflito constante, a maioria esmagadora das espécies vive em colaboração e cooperação.

Referências bibliográficas

SINGER, P. Compêndio de Ética. Madrid: Alianza editorial.

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