sábado, 14 de janeiro de 2012

Roger Scruton: “o santo padroeiro das causas perdidas”

Por Contra Mundum,



(publicado há uns anos na Atlântico. A propósito do novo livro)

Numa quinta algures no Wiltshire, Inglaterra, vivia um porco chamado Singer. O baptismo – uma homenagem a Peter Singer, o famoso utilitarista australiano de Princeton, teórico do infanticídio e dos “direitos” dos animais – coube a Roger Scruton, dono da quinta e do porco, que um dia dele fez umas deliciosas salsichas.

Scruton é provavelmente o mais polémico e intolerado dos pensadores ingleses vivos. É certamente o mais desconsiderado pela academia estabelecida, o mais vituperado pela imprensa progressista, o mais desvirtuado pelos intelectualmente desonestos. É chamado de xenófobo, racista, fascista e todos os restantes epítetos do catálogo. A tudo isto reage sem mover a sobrancelha. Não mostra ultraje nem revolta, apenas uma incredulidade serena que lhe sublinha a excentricidade num mundo em que cada vez mais os intelectuais públicos são figuras esbaforidas e de dedo em riste. A chave do seu pensamento é o conservadorismo de Edmund Burke e a nostalgia da ordem aristocrática pré-moderna (ou, pelo menos, pré-II Guerra), das velhas liberdades medievais e da desconfiança do poder centralizado. Tudo isso se revela a cada linha. Nas diatribes contra a arte moderna, na defesa da caça à raposa, do Estado-Nação e da ruralidade. Ou no mais belo dos seus livros, England: An Elegy, um adeus sentido às regras, instituições e costumes de uma Inglaterra que já não existe.

Segundo o próprio Scruton, o momento definitivo do seu nascimento político foi, como muitos da sua geração, o Maio de 68, ao qual assistiu da janela do quarto que arrendara no Quartier Latin. Enquanto os amigos – tudo burgueses entediados, magnificamente estabelecidos e de famílias possidentes - viravam automóveis e levantavam barricadas, o jovem Roger descobria-se exactamente do lado oposto. A epifania confirma a suspeita de que o conservadorismo é uma reacção estética. Foi-o também na geração Reagan e na do Onze de Setembro. Contra os comportamentos grotescos e a retórica desmiolada do progressismo acrítico; contra as ideias, os mitos e as frases feitas do politicamente correcto. 

Apesar da disposição engagée, foi breve e pouco frutífera a sua ligação à política partidária. Depois de lhe ter sido recusada a participação nas listas de candidatos do Partido Conservador às eleições de 1978 (por, alegadamente, ser “too bookish”), ainda fundou o Conservative Philosophy Group, mas foi-se progressivamente afastando, desiludido com o partido que se aburguesava no deslumbramento pela economia de mercado e pela ética yuppie. Já nos últimos dias do governo Labour que sucumbiria ao pés de Margaret Thatcher, escrevera The Meaning of Conservatism, a sua mais completa declaração de intenções, que, segundo o próprio, não teria tido o acolhimento esperado. Em Gentle Regrets, obra recente, retrospectiva e confessional, lembra a ocasião em que Harold Macmillan se dirigiu ao Conservative Philosophy Group e, no auge do discurso, repetiu: “É importante lembrar que… lembrar que… Esqueci-me do que ia dizer.” Scruton comenta o embaraço: “’Esqueci-me do que ia dizer’ é a verdadeira contribuição do Tory Party para a compreensão do governo nos nossos dias”.  

Roger Scruton é considerado o exemplo acabado do reaccionário. O simplismo é confortável, mas Scruton não é um reaccionário comprometido com mudanças políticas forçadas e abruptas (o revolucionário do avesso), antes o paladino dos passados irrecuperáveis, o gentil porta-bandeira da Reacção pacífica e utópica ou, como lhe chamou o Guardian, “o santo padroeiro das causas perdidas”. Como o próprio escreveu, o conservadorismo que defende não é meramente uma crença política – ou, sequer, a disposição que Oakeshott estudou. É uma visão duradoura da sociedade humana, difícil de perceber, pior de explicar e terrível de praticar. Especialmente neste tempo de utilitarismos e materialismos, de religiosidade frágil e uma economia global que corrói as solidariedades pessoais e as lealdades locais. Mas Scruton não desespera e lá vai continuando, com uma cadência de publicação e um ecletismo impressionantes, a tarefa de transcrever para o mundo moderno, sem a pureza e a estridência dos slogans, a filosofia que Burke nos ensinou. Na quinta do Wiltshire, na da Virginia ou na mais conservadora das moradas, o apartamento londrino junto a Savile Row.  

Os seus textos, de uma elegância terna e melancólica, e ainda que estranhos à cultura urbana omnipresente, são de leitura obrigatória. É impossível concordar com tudo. Mas só os espíritos menores apreciam apenas aquilo com que concordam.

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