sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Todas as classes sociais sofrem de problemas no Brasil. A baixa-média compra a prazo e julga viver no Éden por isso; a média alta brasileira equivale à classe lavadora de pratos nos EUA e na Inglaterra; seu esnobismo é vazio.

Por André,



Costumo brincar com o fato de existirem tão poucos sociólogos (ou, ao menos, bons sociólogos) no Brasil, pois não falta assunto, esse país é um bicho de sete cabeças e requer bibliotecas e mais bibliotecas para ser decifrado.

Estes dias, este vídeo me chamou a atenção:



A primeira coisa a ser destacada é que o que eles chama de classe média aí, na verdade é a classe alta brasileira, pois de acordo com as reformulações das definições do governo, a renda das famílias que superam cerca de 450 reais por mês per capita é considerada classe média, só que os que ganham isso não tem Apple e não fazem 90% das coisas descritas no vídeo.

Em minha modestíssima opinião, a classe média só fica nessa de ser anti-PT e anti-corrupção porque não está comendo do bolo da roubalheira petista.  No fundo a classe média morre de inveja da elite empresarial tupiniquim, que vive de puxar saco dos governos e se associou ao governo petista  para se dar bem lucrando com as políticas anti-cíclicas. O cômico é que a elite tupiniquim se associa ao PT, mas vai gastar seus milhões em Paris e outros lugares da Europa.

Sobre o espírito medíocre da classe endinheirada brasileira, também vale ler o texto Pobreza e Grossura de Olavo de Carvalho.

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Alguém notou a tendência caricatural e o excesso de figuras de linguagem usada ali? Não faltou o estereótipo do "branco católico burguês" em nenhuma frase. Ou algum de vocês anda de mercedes, toma whisky 18 anos ou coisa do gênero? Deve ser a classe média que o PT diz povoar o país, porque a do restante é bem diferente.

Se aquilo tudo fosse feito por quem tivesse meios de bancar, não seria da conta de ninguém. Supostamente, vivemos numa democracia. Quanto petista esbanja muito mais, só entra em igreja em dia de velório, é muito mais mão-de-vaca para ajudar os pobres, e ninguém diz nada? Mas se isso é feito pela classe média, isso quando é feito (whisky uma vez por ano, por exemplo) vira objeto de ridículo. Não se pode afirmar se o cara está fazendo uma crítica séria ou se está tripudiando da classe média, porque a linguagem usada é tão confusa que serve para as duas coisas. No fundo, eles acreditam mesmo que a classe média faz tudo aquilo, mas o duplipensar os leva a jamais serem específicos no que dizem. Sempre se pode interpretar "obras" de inspiração pós-moderna de mil maneiras diferentes.

Os autores dessa merda de "música" falam usando o vocabulário ambíguo da esquerda, e por isso não se sabe de quem ou para quem falam realmente. É a verdadeira hegemonia cultural esquerdista, expessa até mesmo quando supostamente se está criticando seus beneficiários.

Pelo que eu notei, a "classe média" da "música" é uma classe média-espantalho, como qualquer coisa descrita por quem tente fazer algo no ambiente cultural infectado do Brasil. Feita às pressas para ser ridicularizada. A classe média que eu conheço só sabe trabalhar das 8 às 18 horas almoçando sanduíche, morrer do coração no escritório, no trânsito ou no SUS, e pagar imposto. A única coisa verdadeira sobre ela é a frase "sustenta esse país", que no fim das contas, também não passa de uma figura de linguagem que se esvaziou pelo excesso de uso. E isso se demonstra no próprio vídeo, a partir do momento em que se começa a fazer troça da classe média justo em razão de seu único mérito, que é trabalhar para sustentar um punhado de vagabundos. O que quer que seja usado por um esquerdista acaba se virando contra seu próprio significado. A mensagem da coisa é clara: não é mérito sustentar o país se você se der ao luxo de andar de mercedes, comprar uma camisa importada ou beber whisky. Mérito é puxar saco de vagabundos e usar linguagem politicamente correta para agradar os donos do poder. 

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Mesmo que o vocabulário fosse outro, mesmo que o alvo da crítica fosse de fato exposto, a crítica continuaria impossível, pois a classe média no Brasil é a coisa mais fingida e amorfa que há. Como assim? Dois bons exemplos: só são anti-corrupção quando não estão se beneficiando do roubo, e demonizam milionários mas adoram fazer pose de ricos.

Por algum motivo essa gente ficou assim, vazia, sem valores, sem opiniões... Talvez seja porque o pobre no Brasil precise conservar alguns valores para não se desvirtuar e conseguir subir na vida, enquanto a classe média está numa "zona de conforto". Classe média tem os piores vícios que alguém rico (que não venha a ter caráter) pode ter: presunção, pose, ostentação, egoísmo etc. Porém com uma diferença: toda essa arrogância é vazia, pois são pessoas sem nobreza, nunca tiveram, não tem e provavelmente nunca terão o que arrotam ter. Refinamento da classe média no Brasil é ouvir Djavan, acham "sublime"; elogiam de uma forma como se entendessem de música (e como se entendessem as letras dele), ao passo que não conhecem Beethoven. Por que simplesmente não elogiam Djavan sem fazer tanta alegoria? Será que não percebem o quanto se comportam de forma pretensiosa e fingida?

No Brasil é mais fácil encontrar um miserável analfabeto com caráter do que alguém no mínimo tolerável na classe média, pois classe média no Brasil é somente pose. Podem reparar o quanto essa gente é guiada por certos mandamentos da pose: MPB é sofisticação (caso acima), advogado ou médico são as melhores profissões (a pessoa segue carreira mesmo sem ter a menor vocação), vou comprar um carro (quem já não viu essa? A pessoa poderia comprar um carro para se locomover, ou que coubesse no orçamento, mas como tem que ser um último tipo... 43526354 prestações! O engraçado é que quando o carro é quitado já está desvalorizado de tão velho, e ainda saiu ao preço de 2... mas, claro, a pessoa ainda sai contando vantagem "fiz um grande negócio!)... 

Mas sabe o que é mais engraçado? Até o próprio termo onde essas pessoas se dizem inseridas, "classe média", está errado; pois a imensa parte da classe média no Brasil não consegue ter um padrão de vida que o termo estabelece (mesmo sem grandes luxos, uma qualidade de vida confortável, com educação, saúde, lazer, etc. de qualidade), principalmente se comparada com as classes baixa e média de EUA ou Europa (onde em tempos normais, é comum trocar de carro a cada dois anos, ter mais de dois imóveis etc.). Classe média no Brasil é apenas um pobre metido a besta, o famoso sujeito que come mortadela e arrota caviar.

Um comentário:

  1. Olá, sei que o texto já faz anos, achei bem interessante a abordagem, mas uma coisa que está sendo confundida é a "classificação das classes".

    Observe: "A primeira coisa a ser destacada é que o que eles chama de classe média aí, na verdade é a classe alta brasileira, pois de acordo com as reformulações das definições do governo...". Ok, está correto e ao mesmo tempo errado. Está correto porque segundos os critérios do governo a partir da classe B1 realmente não consegue, mas está errado porque existem várias instituições "definem" as classes (IBGE, FGV, FPABRAMO, ...). O governo classifica como "A1, A2, B1, B2, C1, C2, D e E" e não "Alta, média e Baixa" essa classificação é uma classificação antiga da FGV (e considera não apenas a renda, mas escolaridade, bens e comodidades como empregadas, motoristas particulares, ...), existe também a FPABRAMO que classifica entre "A, B, C, D e E" (onde a C é de 4 a 10 Salários mínimos, atualmente entre R$ 3520 e 8800).

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