quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

William Lane Craig Demonstrou a Existência de Uma Falácia no Ensaio “Dos Milagres” de David Hume?

Retirado e traduzido por Rebeldia Metafísica,

De Keith Parsons,



Um comentarista recente de minhas postagens sobre o argumento de David Hume contra os milagres alega que o argumento de Hume na seção X de Uma Investigação Sobre O Entendimento Humano é “demonstravelmente falaciosa”. Após algumas pitadas de bajulação, ele produziu a pretensa demonstração a seguir, retirada do debate de William Lane Craig com Bart Ehrman:
Quando falamos sobre a probabilidade de algum evento ou hipótese A, essa probabilidade sempre é relativa a um corpo de informações de fundo B. De modo que falamos da probabilidade de A dado B, ou de A em relação a B.
Portanto, a fim de estimarmos a probabilidade da ressurreição, representemos por B nosso conhecimento de fundo  do mundo independentemente de qualquer evidência para a ressurreição. Representemos por E as evidências específicas para a ressurreição de Jesus: a tumba vazia, as aparições post-mortem, e assim por diante. Finalmente, representemos por R a ressurreição de Jesus, Agora, o que desejamos estimar é a probabilidade da ressurreição de Jesus considerando-se nosso conhecimento de fundo do mundo e as evidências específicas neste caso.
B = Conhecimento de Fundo
E = Evidências específicas (tumba vazia, aparições post-mortem, etc.)
R = Ressurreição de Jesus
Pr (R|B&E) = ?
Pr (R|B&E)= Pr (R|B) × Pr (E|B&R)
_________________________________
Pr (R|B) × Pr (E|B&R) + Pr (não-R|B) × Pr (E|B&não-R)
Pr (R|B) é chamada de a probabilidade intrínseca da ressurreição. Ela diz o quão provável a ressurreição é considerando-se nosso conhecimento geral do mundo. Pr(E|B&R) é chamado de poder explanatório da hipótese da ressurreição. Ele nos diz o quão provável a ressurreição torna a evidência da tumba vazia e assim por diante. Estes dois fatores constituem o numerador desta razão. Basicamente, Pr(não-R|B)xPr(E|B&não-R) representa a probabilidade intrínseca e o poder explanatório de todas as alternativas naturalistas à ressurreição de Jesus. A probabilidade da ressurreição ainda poderia ser bastante alta mesmo se apenas a Pr(R|B) for terrivelmente baixa. Hume simplesmente ignora os fatores cruciais da probabilidade das alternativas naturalistas à ressurreição [Pr(não-R|B) × Pr(E|B&não-R)]. Se estas forem suficientemente baixas, elas prevalecerão sobre qualquer improbabilidade intrínseca da hipótese da ressurreição. Bayes tem a forma x/x-y, o que significa que como o poder explanatório da ressurreição converge para 1, e como o poder explanatório das explanações naturalistas convergem para zero, qualquer improbabilidade intrínseca pode ser superada. (Citado do correspondente K-Dog).
Craig realmente demonstrou que o argumento de Hume é falacioso? Duas coisas a serem notadas: primeiro, Hume não emprega o teorema de Bayes na exposição de seu argumento; ele é expresso informalmente, e a estrutura bayesiana foi imposta por intérpretes posteriores. Segundo, Hume não aborda diretamente a ressurreição de Jesus de Nazaré em “Dos Milagres”, embora seu exemplo de um relato hipótetico da ressurreição da rainha Elizabeth I possa ser uma discreta alusão. O argumento de Hume é sobre alegações de milagres em geral e não uma crítica específica da apologética da ressurreição do tipo promovido por Craig.

O argumento de Craig é que a probabilidade das evidências para a ressurreição , considerando-se alternativas naturalistas à ressurreição (isto é, considerando-se que a ressurreição não ocorreu e considerando-se a informação de fundo), pode ser tão baixa a ponto de contrabalançar uma probabilidade extremamente baixa da ressurreição considerando-se somente o conhecimento de fundo. Em outras palavras, Pr(E|~R&B) pode ser tão baixa que mesmo um valor muito baixo para Pr(R|B) pode ser superado e a resultante Pr(R|E&B) pode alcançar um valor bastante alto (considerando-se, como parece razoável, que Pr(E|B&R) não seja muito baixo). A acusação de Craig é que Hume simplesmente ignora essa possibilidade. Esta, presumivelmente, é a demonstração da alegada falácia. Será que Hume realmente ignora tal possibilidade? E mesmo que Hume o tenha feito, estaríamos nós também obrigados a ignora-la? Isto é, será que não poderíamos empregar um argumento neo-humiano contra os milagres que leve em consideração o que ele deixou passar batido?

Mais uma vez, Hume não está abordando especificamente alegações sobre a ressurreição, portanto ridiculariza-lo por não levar em consideração evidências específicas para a ressurreição é uma manifesta desonestidade. Bem, então,  será que Hume considera, em termos gerais, a possibilidade de que evidências testemunhais para um milagre possam existir mesmo se o milagre não ocorreu? Se o expressarmos em termos formais, será que Hume considera quais valores Pr(E|~M&B) pode assumir, onde E representa as evidências para um alegado milagre, M representa o alegado milagre, e B representa op conhecimento de fundo? Bem, não há dúvidas de que ele o faz. Pegando uma passagem sucinta:
Se alguém me diz que viu um homem morto ser trazido de volta a vida, de imediato pondero comigo mesmo se é mais provável que esta pessoa esteja enganando-me ou sendo enganada, ou que o fato que ela relata tenha realmente ocorrido.
Penso que um modo natural de interpretar esta passagem é que Hume está recomendando que consideremos que o testemunho para um milagre pode muito bem existir mesmo se o milagre não ocorreu, isto é, Pr(E|~M&B) pode não ser baixa, porque a testemunha era ou um enganador ou uma vítima de engano. Como podemos ter relatos de milagres mesmo quando os milagres relatados não ocorreram realmente? A pessoa que o relata pode estar enganando ou sendo enganada, e se atribuirmos a cada uma destas probabilidades um valor não muito baixo, então consideraremos que Pr(E|~M&B) não é muito baixa nesse caso.

Em geral, como observei num post anterior, Hume considera que a “velhacaria e a loucura” dos seres humanos é tal que os relatos de milagres são muitas vezes prováveis mesmo onde nenhum milagre ocorreu. Além disso, se esta é a afirmação de Hume, ela é obviamente correta, como, certamente, todos os que não são totalmente crédulos reconhecerão. Nenhuma pessoa racional acredita em mais do que uma pequena fração das miríades de relatos de milagres que infestam as narrativas e registros históricos. Até mesmo alguns estudiosos evangélicos atualmente duvidam de alguns relatos bíblicos de milagres (um deles, Michael Licona, foi recentemente despedido por faze-lo). Obviamente, então, relatos de milagres surgem com bastante frequência mesmo quando nenhum milagre ocorreu.

Não obstante, suponha, a título de argumentação, que Hume não tenha devotado atenção o bastante à possibilidade de que as evidências para um milagre podem ser muito baixas considerando-se que o milagre não ocorreu. Deveríamos nós, pós-humeanos contemporâneos, cometer o mesmo erro? Obviamente não. Podemos simplesmente revisar o argumento de Hume de modo a considerar apropriadamente Pr(E|~M&B). E nós o fazemos. Especificamente, nós podemos e de fato abordamos a probabilidade de que as evidências testemunhais em questão para a ressurreição de Jesus existiriam mesmo se Jesus não houvesse ressuscitado. Nós podemos e de fato julgamos que Pr(E|~R&B) não é terrivelmente baixa –  certamente não baixa o suficiente para contrabalançar a probabilidade de fundo muito baixa, (Pr(R|B), à qual racionalmente subscrevemos.

Portanto, a alegação de que o argumento de Hume contra os milagres comete uma falácia demonstrável acima não possui o menor valor. O argumento demonstra apenas a duradoura tendência dos críticos de Hume a atribuir-lhe um argumento mais fraco do que o que ele realmente formulou.

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