sábado, 31 de março de 2012

Algumas impressões sobre o argumento ontológico

Por André,

O argumento ontológico pode ser expresso da seguinte forma (pelo menos, assim o expus para meus alunos na última semana):

Premissa 1: "Deus é sumamente perfeito"

Premissa 2: "É da ESSÊNCIA de seres sumamente perfeitos, existir"

Conclusão (inescapável caso as premissas sejam verdadeiras): "Logo, Deus existe"

Ao longo da história o argumento sobre algumas variações, fora proposto inicialmente por Santo Anselmo de Canturária numa obra chamada Proslogion:


O argumento foi apropriado por Descartes em suas Meditações Metafísicas (e os créditos a Anselmo foram, como sempre, devidamente negados).

O mesmo foi criticado por inúmeros outros filósofos, cristãos: Leibniz, Tomás de Aquino e Kant e por não-cristãos como Hume.

Como relata Bertrand Russell, o argumento ontológico o convenceu da existência de Deus por 2 minutos.

O argumento já foi devidamente criticado, mas recentemente o filósofo da religião Alvin Plantinga propôs uma versão modal do argumento (cuja qual, confesso, eu desconheço por enquanto) que escapa das críticas já feitas à versão anselmiana.

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O que eu considero interessante acerca do argumento ontológico é, em primeiro lugar, sua SIMPLICIDADE. a forma simples com que ele se põe a resolver um problema clássico como a existência de Deus. Por mais que não me convença, o argumento sem dúvida me fascina do ponto de vista lógico (não a toa que um dos primeiros exemplares da Coleção Os Pensadores que eu comprei foi o de S. Anselmo).

Depois, é interessante como que o argumento resolve o problema de forma estritamente RACIONALISTA, compreender ou aceitar o argumento não depende em nenhum sentido da experiência, da empiria, trilhando a direção oposta a argumentos como o cosmológico e o do design.

[O mote das minhas aulas para fazer com que os alunos compreendessem por que Descartes é um filósofo racionalista e o que é um filósofo racionalista, tentei mostrar a eles que o fato de Descartes propor argumentos como o ontológico, que não fazem apelo à experiência, o alinham junto à tradição racionalista, aliás, o faz um de seus maiores representantes].

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O argumento pode ser criticado em vários aspectos e a ideia aqui não é estabelecer um tratado criticando um argumento, mas aí vão algumas observações:

A crítica básica, penso eu, seja aquela traçada por Kant:

Em primeiro lugar: é perfeitamente possível compreender que a definição de Deus é ser sumamente perfeito, mas quem disse que ele o é? 

Essa é a definição de Deus, Ok. Mas quem ou o que autoriza o salto da definição (semântica) para sua existência (ontologia)?

Outra: quão íntima é a relação entre existência e perfeição? Por que um ser perfeito tem de existir? Isso também precisa ser esclarecido.

O argumento só funciona se pressupusermos as premissas. Ou se considermos que essas definições se aplicam exclusivamente a Deus, o que complica as coisas e faz o proponente argumentar em circulos.

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