sábado, 24 de março de 2012

Bocejo pessimista XII - Só me resta sua companhia

Por André,



"Não se possui o que não se compreende" Goethe


A vida dos outros segue e minha sina se repete. Deveria me contentar - e o faço - com a mera companhia dela: agradável, interessada, admirada, sorriso amplo e onipresente.

Finjo sentimentos fraternais. Não que não os tenha, não é o caso que eu não lhe deseje um bem desinteressado, não erótico. Mas é impossível lutar contra o grito incalável de sentimentos de escala astronômica.

Pego-me pensando. Surpreendo-me. O que parecia estar superado volta à baila. Sua imagem angelical, sutil, quase lânguida, mesclada a um gosto estético moderno - que para minha própria surpresa, confesso -, me fascina, habita meus sonhos, invade meus pensamentos e reforça minha distração digna daquela atribuída a Tales e Sócrates.

Vejo aquele tom semi-rúbeo em toda parte, que titubeia entre o celestial e o pecaminoso, o santo e o tentador.

Porém, a mim só resta o falho projeto de poeta e prosador e, talvez, ainda que inconscientemente, a admissão que existem outros mais merecedores que eu. Que obtém êxito sem maiores filosofias ou poesias, sem elucubrações exóticas. Explicando em termos kantianos: parabéns àqueles que pôem as intuições à frente dos conceitos. Conceitos demais só atrapalham.

Só resta engavetar, como sempre, sentimentos desta espécie e entrar em estado de júbilo solitário e contido sempre que a vejo.

É a ressurreição do "eu não gosto de quem gosta de mim/ quem eu gosto de alguém que não gosta de mim".

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