quinta-feira, 22 de março de 2012

'Nos Estados Unidos, o tabu é o sexo. Na França, é o dinheiro. Até mesmo para pessoas de direita, ele é um defeito – um defeito moral', diz filósofo.

Sem saída


Nicolas Sarkozy e a França podem sobreviver à crise europeia?

por PHILIP GOUREVITCH


O presidente da França não gosta de vinho. Não gosta de queijos malcheirosos. Não gosta de trufas. Gosta de Coca Diet, balas e charutos Havana enormes. Esse desprezo pelo bom gosto é considerado anormal na França, mas Nicolas Sarkozy não liga. Ele se orgulha de sua franqueza e, se parece inculto e bronco, sua atitude é: e daí? Por exemplo: ele gosta de dinheiro. Por que não? Quem não gosta? Mas na França se espera que as pessoas sejam motivadas por objetivos mais nobres ou mais frívolos. Leiam-se os romances: de Balzac a Proust, passando por Stendhal, Flaubert e Zola, grande parte da literatura francesa é sobre a hipocrisia da sociedade burguesa. Os segredos e mentiras, os desejos distorcidose o ressentimento associados ao dinheiro estão no centro da trama. Ainda hoje, falar de dinheiro – em especial, falar em público, e a favor de querê-lo, ganhá-lo e guardá-lo, como Sarkozy faz – é considerado vulgar, até mesmo sórdido.

“Nos Estados Unidos, o tabu é o sexo. Na França, é o dinheiro”, disse-me o filósofo Pascal Bruckner. “Até mesmo para pessoas de direita, ele é um defeito – um defeito moral.” Sarkozy acha isso ridículo. Durante a campanha presidencial, apresentou-se como décomplexé em relação ao dinheiro, mas como falava tanto do assunto, no fim das contas parecia bem complexé. Valorizou o trabalho e o lucro, e prometeu livrar os franceses daquilo que considerava a letargia patrocinada pelo Estado: a semana de trabalho de 35 horas, a aposentadoria do funcionalismo aos 60 anos de idade e os subsídios e proteções governamentais que diminuíram a produtividade.

É muito melhor, segundo Sarkozy, se esfalfar e ser recompensado, ter e gastar. O aumento do poder aquisitivo foi uma de suas palavras de ordem. Por falar assim, pela arrogância e pelo coloquialismo tosco – e porque admirava George W. Bush –, era chamado de “Sarkô, o Americano”. “Consideram isso um insulto, mas tomo como um elogio”, disse ele a um enviado de Bush, segundo um telegrama diplomático obtido pelo WikiLeaks. Sarkozy se ofereceu como um novo modelo de francês empreendedor, empenhado em forjar um futuro melhor do que o passado idealizado. Para os franceses, isso era estranho mas empolgante, e apostaram nele.

Sarkozy é uma figura tão singular que caricaturá-lopode parecer fácil, mas toda caricatura se baseia no exagero, e ele é tão exagerado que deixa pouco espaço para o caricaturista. Os franceses esperam que seus presidentes tenham uma aura de refinamento estético e intelectual que dignifique a nação. Sarkozy não pretende irradiar nada disso. No ano seguinte à sua eleição, em 2007, sua vida doméstica digna de tabloide – um divórcio sensacionalista e um novo casamento ainda mais sensacionalista –, aliada a seu óbvio prazer de frequentar os super-ricos, lhe valeu o apelido de “Président Bling-Bling” (algo como “Presidente ostentação”). Sua popularidade despencou, e não parou mais de afundar.


altando poucos meses para o fim do mandato, Sarkozy se prepara para enfrentar a reeleição no papel de azarão, o que implica um esforço que seus assessores chamaram de “represidencialização”. Em outubro passado, ele inaugurou uma exposição de arte moderna que viajará pelo país e será exibida gratuitamente. Era uma ocasião para ser visto junto ao povo, levando a grande arte ao homem comum. Ao contemplar um quadrado monocromático laranja, pintado por Yves Klein, ele manifestou admiração: “Isto custa milhões.” Em seguida, expressou espanto: “Um Klein vale mais que um Léger? Menos que um Matisse?” Suas observações provocaram grunhidos de escárnio e perplexidade na imprensa. Mas ele desconsidera a etiqueta com tal força e frequência que não se pode chamar isso de gafe.

Poucos dias depois, num encontro de líderes do continente, o primeiro-ministro britânico David Cameron disse algo que Sarkozy não gostou, e ouviu do presidente francês: “Você perdeu uma boa oportunidade de ficar calado.” Anos atrás, durante uma audiência com o papa, foi visto checando seu BlackBerry. “Ele profana tudo”, diz Bruckner. Suas bufonarias contribuem para uma desconfiança profunda, a percepção de que não é autêntico e, o que é pior, não é suficientemente francês para o cargo.

Por outro lado, o próprio cargo já não é tão francês quanto costumava ser. A França não é mais um Estado soberano: é um dos 27 países da União Europeia. No papel, a França tem um Executivo forte e os franceses veem seu líder como uma espécie de rei republicano, eleito não só para governar, mas para reinar. A UE não permite isso. O escritor e economista Jacques Attali exagerou quando me disse que “a Presidência está quase sem poder”. Mas não exagerou o sentimento dos franceses – a sensação de vertigem política que acompanhou a integração europeia.

A França já não controla sua moeda. Já não controla suas fronteiras. Tem controle apenas limitado sobre sua defesa. Na imagem de Attali: “Estamos como num desenho animado, em que as pessoas veem alguém que ainda corre, sem saber que o penhasco acabou. Aquele lá é o presidente.” Para Attali, a França de hoje é uma “terra de ninguém”. E o que é pior, ressalta ele, “fizemos isso de propósito, por vontade própria, no processo de construção de um Estado federal europeu”. E agora o sucesso da Europa é muito incerto. “Esse é o malaise da situação francesa”, disse ele, “ter desistido do Estado como base da identidade, sem adquirir as vantagens de uma nova identidade.”

Attali é um velho teórico do Partido Socialista, por isso é surpreendente que Marine Le Pen, a líder da Frente Nacional, o partido de direita radical ultranacionalista, tenha me descrito a situação francesa em termos semelhantes: “Tudo o que fez a grandeza da França – o dinamismo, a inovação, a abertura – foi aniquilado pela União Europeia.” Ela disse que o país está “arruinado”, e arrolou alguns itens favoritos do seu discurso: “A França tem 1,6 trilhão de euros em dívidas, um déficit anual de 140 bilhões, 4 milhões de desempregados. Não exporta mais nada. Não tem voz autônoma entre as nações.” (Ela exagera o problema: a França tem a quinta maior economia do mundo e o quinto maior volume de exportações.)

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