quarta-feira, 4 de abril de 2012

Brilhante texto de Luis Milman, filósofo e jornalista da UFRGS

Do blog do próprio,

Estranhos

Para mim, não há nada de mais estranho do que o Brasil. Já troquei ideias com amigos sobre nosso caráter brasileiro e a conclusão a que cheguei, após várias jornadas de reflexão, é a de que não há caráter nenhum. Não há povo mais descaracterizado que o nosso. Somos sanitarizados pela imodéstia do rebolado, do samba no pé, de todos os sincretismos. Sabemos como ninguém bajular e festejar a própria mendacidade. Nossos índices educacionais são transparentes demais. Eles mostram a leniência de nossos estudantes e mestres, revelam a mediocridade de nossas conquistas cidadãs, o pagodismo curricular que desdenha da física e do português para exaltar os laboratórios da diversidade. Sim, somos diversos em tudo. Em moral, em política, em violência, em desapego pela verdade. Somos diferenciados pela batucada anticultural, pela mídia pornográfica que se refestela em orgias da novela das nove.

Mais do que tudo, somos orgulhosos de nossa ignorância, que nos torna estúpidos como a economia. Com a bastança de crédito, o que nos interessa é nos endividarmos. Este é o nosso Éden existencial. Somos uma terra onde não há dúvidas. Elas deram lugar às certezas da inclusão pelo consumo, da propaganda indiscriminada e da permissividade. Somos o país da mais avançada esquerda comunista. Daquela que tornou o surrupio graúdo em norma de conduta. Exaltamos o conformismo como dádiva, abolimos o bem e mal, enviamos nossos filhos para escolas onde se pratica o consumo da maconha impunemente. Primeiro a maconha, depois a cocaína. Nossos filhos são a vanguarda da tolerância que tanto apregoamos. Eles se formam cada vez menos em casa. São sociopatas, acólitos de Macunaíma. São socialistas e progressistas. Defendem o aborto e a união estável. São o que desejamos que fossem. Pessoas livres, que se sexualizam aos 12 nas favelas e aos 15 nos círculos de renda média e alta. Eles chegam à vida adulta como mestres da fornicação e nós nos adaptamos ao ritmo dos tempos, orgulhosos de não sermos como nossos pais.

Gostamos de governos medíocres, do lulismo e de seu avatar, o dilmismo. Não nos importa se a saúde é caótica, se a educação não existe, se a morte nos espreita a cada esquina onde um desafortunado pode nos assaltar. Se nossas ruas e estradas são esburacadas, se nos matamos como se estivéssemos em guerra, se a droga nos consome. Somos imunes à desgraça. 

Somos brasileiros, nos adaptamos com facilidade ao fetiche,  ao engôdo e à farsa. Somos os desgraçados de Antônio Conselheiro e vivemos no Sertão das ideias. Somos estranhos pobres-diabos da monocultura momesca. Adoramos o cheiro de urina carnavalesca. O catinguelê é aqui. O desvio padrão é aqui no edulcorado trópico que habitamos. Somos como ninguém.

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