sábado, 7 de abril de 2012

Generalidades acerca de David Hume

Por André,



Antes de mais nada, um breve intróito biográfico:

David Hume, para o padrão comum do mundo filosófico, foi um homem que hoje chamaríamos de "normal". Era obeso e tinha orgulho de sua pança (e celebrava o fato do governo não cobrar impostos sobre gordura), também era o que hoje chamamos de "baladeiro", mas o que prefiro chamar de bon vivant, era frequentador dos salões parisienses, num momento em que Paris era o centro cultural e festivo da Europa. Ademais, pasmem, Hume era um garanhão (!!). A encarnação  do anti-arquétipo do filósofo, definitivamente!

A proposta de Hume era estabelecer uma geografia da mente humana, estabelecer no campo das ciências morais o mesmo método eficiente das ciências físicas (na época, a física newtoniana), ciência esta baseada única e exclusivamente na experiência e na observação (Tratado p. 22). Ciência que rejeita a elucubração metafísica e que não formula hipóteses.

Sua primeira tentativa disso se deu no "Tratado da Natureza Humana", livro escrito por Hume em sua juventude, com o intuito de atingir a fama enquanto pensador, contudo, a obra, "natimorta no prelo", não fez sucesso. O que levou o filósofo a escrever suas duas Investigações (uma sobre o entendimento humano e outra sobre os princípios da moral), num estilo ainda mais claro e resumindo as principais ideias do Tratado.

Penso que a filosofia de Hume pode ser compreendida, de forma breve, a partir de três eixos:

Seu EMPIRISMO, CETICISMO (dito "mitigado") e NATURALISMO.

O empirismo é a crença que afirma que o conhecimento é extraído exclusivamente da EXPERIÊNCIA, nossos sentidos, nossa sensação fazem a ponte entre nós e o mundo.

Hume é um empirista no sentido em que diz que não há nada AQUÉM ou ALÉM da experiência, ela é o critério último (e único) que detemos.

É óbvio que este empirismo humeano, que pode muito bem ser chamado de "sensualismo", leva a conclusões céticas em vários campos do conhecimento e difere do empirismo de Berkeley (que propunha, entre outras coisas, um imaterialismo) e de Locke (que conservava traços do pensamento racionalista, como a ideia de que os objetos conservam certos tipos de "poderes").

Para Hume, nossas PERCEPÇÕES se dividem em:

Impressões: aquilo que sentimos imediatamente.

e

Ideias: a cópia feita da impressão que reside na nossa mente.


As primeiras são sempre mais fortes e vivas que as segundas. Toda ideia é, necessariamente cópia de uma impressão (a primeira formulação do chamado "princípio de cópia"). A diferença entre elas é de graus de força e vividez.


Alguém deve inferir: mas e as ideias fictícias, como, por exemplo, a do Pégaso (cavalo alado da mitologia grega)? Ora, as impressões e as ideias se dividem em SIMPLES e COMPOSTAS. Toda ideia simples é cópia de uma impressão simples (princípio de cópia reformulado).

Temos a impressão simples de cavalo e a impressão simples de asas e unimos as duas, mentalmente, formando a ideia composta de Pégaso (cavalo alado).


Isso posto, nosso conhecimento se divide em:

Relações de ideias: verdades intuitivamente conhecidas. Necessárias. Analíticas. Tautológicas.

São exemplos disso: a matemática, as verdades lógicas etc.

Esse tipo de conhecimento não é extraído da experiência, mas é resultado de uma relação entre nossas ideias.

Questões (matters) de fato

Não tem base lógica. O contrário NÃO é lógicamente contraditório, é logicamente possível e pensável.

Exemplos: o Sol nasce todos os dias (o contrário disso: o Sol não nasce todos os dias), a água, sempre que aquecida, ferve. Uma tacada numa bola de bilhar, que gera um choque contra outra bola, causa o movimento da segunda.


Nossa abordagem diante do conhecimento deve seguir essa divisão, não há nenhum substrato universal (mathesis universalis) que costure unívocamente o conhecimento, ele é bipartido exatamente desta forma.


Até aqui, dissecamos a face EMPIRISTA do filósofo escocês.

Apliquemos o que fora dito até aqui, nas questões tradicionais da metafísica, por exemplo, e entendamos a face cética de Hume.

Quando estudava essa questão na faculdade, para ajudar na compreensão da filosofia de Hume, propus o seguinte experimento mental:

SUPONHAMOS que todo o restante da obra filosófica de Hume tivesse se perdido e nunca tivéssemos lido o restante do Tratado e os Ensaios compreendido os princípios até aqui expostos, afirmo que ainda assim seríamos capazes de inferir o restante daquilo que Hume propora.

Por exemplo, apliquemos até aqui o princípio de cópia à relação de causa e efeito:

Quando observamos que, a água, ao ser aquecida, ferve, sabemos que isso não é uma relação ente ideias, mas uma questão de fato. Primeiro, porque é algo que sabemos a partir da experiência e, em segundo lugar,  seu contrário é pensável e possível (a água ser aquecida e não ferver).

Onde está a causa e efeito? Que impressão temos dessa "lei"? Ora, nenhuma, só o que vemos é a água ferver NAQUELE MOMENTO e temos a experiência de observar o aquecimento da água causando a fervura da mesma, mas não temos uma impressão da causa, apenas da chama, da água, da chaleira etc. etc.

Ou seja, por mais que tenhamos a ideia da relação de causa e efeito, não temos a IMPRESSÃO da mesma. Portanto, devemos nos manter cautelosos em relação a ela.

Nenhuma força ou poder (ideias presentes em Locke) de conexão necessária emana, p.ex., do choque de uma bola de bilhar com a outra ou do aquecimento e fervura da água. Não temos nenhuma impressão da ideia de conexão necessária.

Não é possível falar da cor da conexão necessária ou do sabor de uma causa porque simplesmente não temos nenhuma impressão delas.

Só o que temos é uma coleção de experiências passadas que indicam que o aquecimento da água causa sua fervura e a experiência atual de tal fato. O que não é suficiente para garantir o caráter peremptório de uma afirmação do tipo "o aquecimento da água causa necessariamente sua fervura".

E se aplicarmos o princípio de cópia às ideias de Deus, alma (eu contínuo no tempo e distinto do restante das coisas, um self), existência contínua e distinta dos corpos, valores morais etc. etc??

Ora, concluíremos que as ideias mais caras à metafísica são falsas, os livros que tratam delas devem ser jogados no fogo.

Temos a ideia de Deus, mas não sua impressão, portanto, ela não sobrevive ao critério do princípio de cópia, tão elementar...

E a ideia de maldade. Se vemos uma ação má, sabemos que ela é má, mas onde está a maldade? Tenho uma impressão dela? Não...

Percebemos, portanto, que o pensamento de Hume acerca do CONHECIMENTO culmina necessariamente num certo "relativismo" ou "subjetivismo" tanto moral como estético. Se lermos os textos de Hume tanto sobre Moral (a segunda Investigação, a segunda parte do Tratado) quanto sobre Estética (seus ensaios estéticos), tal como C.Q.D., observamos uma moral fortemente baseada nas paixões humanas e um certo (com o perdão da grosseria) "subjetivismo" estético. 

À guisa de conclusão: portanto, nenhuma das "verdades" metafísicas sobrevivem aos critérios estabelecidos por Hume. Trata-se, consequentemente, de realidades PSICOLÓGICAS (embora muito poderosa) e não lógicas

Dessa forma, conhecemos a face CÉTICA de David Hume. Vejamos então o último eixo do pernsamento do filósofo - o NATURALISMO - e entendamos porque seu ceticismo é "mitigado".


Mas, a partir das conclusões tiradas até aqui, o que nos resta então?? Um ceticismo radical à moda antiga e a impossibilidade da construção de ciência?

Não, porque ainda nos resta o HÁBITO ou COSTUME (custom), gerado pela REGULARIDADE DA NATUREZA.

Embora nada racional, nada lógico nos assegure que o Sol nascerá amanhã, que a água ferverá se aquecida e que a bola de bilhar se moverá de acordo com o choque causado por outra, podemos ACREDITAR nisso e considerar essas hipóteses razoáveis tendo em vista que até então sempre foi assim.

Toda nossa experiência passada, todo nosso hábito/costume com relação a esses eventos indica que as coisas sempre foram assim, e PROVAVELMENTE, sempre serão. embora não hajam garantias peremptórias.

A natureza, e toda nossa (e de todos os homens) coleção de experiências passadas está aí para comprovar que as relações naturais são regulares, a natureza não funciona ora de uma maneira ora de outra, as coisas são atraídas para o centro da Terra (gravidade) agora e sempre foram ao longo de toda a história passada, portanto, podemos projetar SUBJETIVAMENTE isso para o futuro e construir uma ciência como a física, por exemplo.

Portanto, Hume não faz de seu ceticismo uma pedra no sapato da elaboração de conhecimento, pois é um ceticismo "mitigado", é um ceticismo parcial, que abre espaço para uma confiança razoável nas ""coisas"".

Eis então, os três eixos que podem explicar o pensamento de Hume quanto à teoria do conhecimento.


AVISO AOS NAVEGANTES:

Navegantes que me conhecem e que não me conhecem: o propósito do post não foi escrever um paper sobre a epistemologia humeana, mas apenas dar noções básicas e gerais para guairem aulas a serem ministradas para 2ºs anos do ensino médio.

Ainda pretendo fazer alguns acréscimos. Gosto muito de Hume. Sempre me interessei pela sua filosofia da religião e meu interesse por sua estética vem numa crescente nos últimos dois anos.

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