segunda-feira, 30 de abril de 2012

Pior que ler pouco, só ler o que não presta

Por André,



Quem acredita em tudo que lê, não deveria ter aprendido a fazê-lo
Provérbio oriental

Há algum tempo atrás a Veja estampou em sua capa que o Brasil está lendo mais. O exemplo escolhido para ilustrar a boa nova? O livro "Agape" do padre POP Marcelo Rossi.

A ideia a ser transmitida é que temos boas notícias, o brasileiro, famoso por sua aversão à leitura erudita e fanático por futebol, carnaval e praias está se tornando um intelectual de mão cheia, a venda arrebatadora (mais de 7 milhões de cópias) do volume do padre seria evidência em favor dessa tese.

Minha tese é que pior que ler pouco: as estatísticas apontam que tanto o brasileiro comum quanto o universitário comum leem em média menos de dois livros por ano.

Se nos pautarmos na lista dos mais vendidos elaboradas pela própria Veja e pelas livrarias, veremos que as leituras preferidas do brasileiro centram-se em: auto-ajuda (e o livro do padre entra nesse saco, não passa de auto-ajuda vestida de roupa chique e encoberta pelo intocável manto politicamente correto da religião) e títulos que nos ensinam como passes de mágica a como se tornar um empresário de sucesso.

Ninguém está interessado em obras da magna literatura mundial. Ninguém quer analisar a natureza humana a partir dos relatos de Wilde, de Dostoievski, de Kafka e outros. Todos querem soluções fáceis para o enorme saco de problemas que carrega dentro de si, ninguém quer apenas ver esses mesmos problemas em personagens de clássicos da literatura mundial.

E, queridos leitores, atentem-se a este importante fato: eu não estou aqui posando de intelectual detentor de erudição literária. Minha formação literária é paupérrima (embora esteja tentando remediar tal fato)

E eu também defendo a leitura de livros "infantis" (Harry Potter, Crepúsculo etc.) como meios de introduzir crianças no mundo agradável não só da leitura mas como da arte como um todo. Este mundo foi aberto a mim desta forma.

Não sou o tipo de "intelectual" que condena esse tipo de leitura, arrotando superioridade, sem nunca ter lido, nem eles, nem os clássicos, que só fica papagaiando o que outros iguais a ele disseram.

O ponto é que não há nada a comemorar no fato de alguns brasileiros terem adquiridos 7 milhões de exemplares de Agape. O fato de tanta gente precisar de livros desse tipo é, na verdade, assustador!

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Pondo os pingos nos is:

Muito bem. Mas que está lendo o brasileiro? Para começar, o tal de Ágape, do padre Marcelo Rossi. Ladeado por Zíbia Gasparetto, escritora espírita cujos livros são ditados por entidades de luz e já venderam 16 milhões de exemplares. Mais Jô Soares, que mistura o imperador D. Pedro II com Sarah Bernhardt e Sherlock Holmes, mais um violino Stradivarius. Mais outros ilustres nomes das letras pátrias, dos quais jamais ouvi falar: Thalita Rodrigues, crônica do cotidiano dos jovens; Ana Beatriz da Silva, série sobre as angústias da mente; Roberto Shinyashiki, o guru corporativo que fala sobre felicidade. Jô à parte, tudo auto-ajuda, esse gênero abominável da literatura, que vende falsas esperanças para os pobres de espírito.

Isso que Paulo Coelho não foi arrolado na reportagem, por não ter publicado título novo desde 2010. E sem falar em Gabriel Chalita, autor polímata que em seus 43 anos escreveu mais de 60 livros. Dos quais ninguém lembra título algum. [Retirado daqui]

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