domingo, 27 de maio de 2012

Atividade solitária por excelência, o que me resta é escrever. O tema? A felicidade

Por André,


Diz Rilke, certamente o autor de língua alemã mais conhecido no Brasil, em seu Cartas a um jovem poeta, que escrever (no caso dele, poesia) tem de ser algo vital: "(...) basta, como foi dito, sentir que seria possível viver sem escrever para não ter mais o direito de fazê-lo" (RILKE, 2011,p. 27).

Cada vez mais, compreendo esta afirmação de Rilke. Primeiramente, porque é o que resta. Na medida em que todos precisam extravasar suas afecções para algum lugar; aqueles que podem, o fazem com outras pessoas, aqueles que não, escrevem. Só é certo que precisam fazer algo, caso contrário enlouqueceriam, a alguns só resta registrar por escrito, é vital que escrevam e diria eu que é essencial que escrevam!

Não é isso que fazem os artistas com os ilimitados recursos que estão disponíveis, registram sentimentos acima de tudo humanos e que nós, ao lermos/ouvirmos/vermos nos identificamos e temos a impressão que aquilo foi projetado para explicar nossa condição? Ora, numa certa medida, isto é verdade, pois como os sentimentos são humanos (e não são tantos assim), mesmo quando o artista está a descrever algo que se deu com ele próprio, aquilo participa perfeitamente da condição de outrém, ainda que alhures.

Para testemunhar em meu favor, ninguém menos que Jorge Luís Borges: "Penso que todo escritor de valor é uma figura solitária" (p. 24).

Preciso, cada vez mais, escrever. É o que "sei" fazer. Minto. É o que POSSO fazer. Gostaria que meus textos tivessem um destino certo. Na verdade têm, só que as destinatárias estão implícitas, nas entrelinhas, sutil e subliminarmente reveladas - à minha maneira.

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Um certo dilema, envolvendo a felicidade (em grego, eudaimonia), foi muito bem trabalhado por uma corrente grega antiga de Filosofia.

Quando atingimos a felicidade? Ora, quando obtemos nosso objeto de desejo. Se desejo um carro, e o compro, fico feliz por minha aquisição. Contudo, essa concepção de felicidade tem seus problemas e eles não são pequenos.

A felicidade seria, então, efêmera. A infelicidade seria o estado quase que permanente da condição humana. Eu compro meu carro, duas semanas depois eu quero um apartamento.

Minha felicidade é adquirir um apartamento, enquanto eu não o adquiro, sou infeliz. Depois que o adquiro, sou feliz por um pequeno espaço de tempo, depois o objeto capaz de me fazer feliz passa a ser um novo.

Percebem o dilema?

Somos felizes por pouco tempo. Sofremos antes, sofremos depois. Sofremos antes de ter o que queremos, quando temos, somos felizes por pouco tempo, ou porque queremos algo novo ou porque CORREMOS O RISCO DE PERDER AQUILO QUE TEMOS.

Quem nunca passou por isso? Sofro ao cubo. Ainda sequer obtive o que desejo, sofro. Há a possibilidade de obter (mas só a possibilidade), sofro de novo. Caso obtenha, tenho medo de não ser bom o suficiente e perder, sofro novamente. Três vezes.

Ou seja, a vida é, ao menos na maior parte do tempo, sofrimento, desprazer, infelicidade. Schopenhauer entra sem pedir licença...

Será que ser feliz é possível? Se sim, por quanto tempo? Quais as condições? Qual o preço a pagar? Sozinho ou em parceria?

O tema segue intrigante e insolúvel...


Referências:

BORGES, J. L.; FERRARI, O. Sobre a Filosofia e outros diálogos. Trad. John O'Kuinghttons. São Paulo: ed. Hedra, 2009.

RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta. Trad. Pedro Süssekind. São Paulo: ed. L&PM, 2006.

Sugestão:

SPONVILLE, André Comte. À felicidade, desesperadamente. Editora Martins Fontes.

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