quinta-feira, 10 de maio de 2012

Bocejo pessimista XX - o curioso caso do eterno retorno nietzscheano. Digo eu: sutileza é tudo.

Por André,

Trecho do filme "Quando Nietzsche Chorou" (que peca muito conceitualmente), onde Nietzsche apresenta o conceito ao Dr. Breuer:



Uma síntese textual do conceito filosófico de eterno retorno (Ewige Wiederkunft) criado por Nietzsche, em A Gaia Ciência:

E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez, e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?"
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É preciso esclarecer que os comentadores circulam entre duas interpretações possíveis do eterno retorno: uma cosmológica, que considera um repetimento de ciclos e outra que o vê como imperativo ético, ou seja, se deveríamos viver AGORA como se este momento fosse se repetir outras vezes por toda a eternidade. Confesso que acho a segunda interpretação muito mais interessante, é por ela que vou trilhar minha interpretação.


Pode parecer que, à primeira vista, a réplica natural do niilista ao desafio nietzscheano seria um sonoro não, viver esta vida já é um fardo insuportável. Não brindá-la com a morte chega a ser uma contradição.

Qual seria então, minha solução pessoal e minha resposta ao demônio nietzscheano oferecedor dessa proposta?

Ora, não que eu me apegue à vida em si. Não que eu me apegue às coisas "grandes" (o amor, a amizade etc). Não rejeitaria a proposta por nenhuma dessas coisas. Essa vida, considerada holisticamente, não merece ser vivida sequer uma vez, quanto mais repetidas vezes.

Contudo, na edição XVIII desta mesma seção eu falei das coisas ditas "pequenas", pois bem, certamente eu poderia vir a topar o desafio do demônio caso eu pudesse ter a certeza de que repetiria determinados dias e determinadas situações eternamente.

Caso pudesse, então, ter certeza de que encararia suas palavras singelas, porém sinceras e doces todas as mesmas vezes, quer nos diálogos formais quer nos informais. Seu tratamento agradável com a minha pessoa, seu incansável bom humor (que sempre acaba por me contagiar, mesmo quando há distância). Seu sorriso que transborda e me contamina de alegria. Seu interesse pelas minhas palavras, quase sempre frias, sua dedicação atípica às minhas peraltices.

A oportunidade de apreciar seu passo leve, sua voz amena, toda sua personalidade, que usualmente está ocupada com causas nobres, me faria topar sem pestanejar a proposta do demônio.

A minha conclusão inevitável é: sutileza é tudo. Para bom entendedor meio Nietzsche basta.

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