domingo, 13 de maio de 2012

Texto de Alessandro Barreta Garcia: "O mundo individualista e a perda da perspectiva clássica"

Por Alessandro Barreta Garcia

Mestre em Educação

www.alessandrogarcia.org

            Refletir sobre o conhecimento humano sob a perspectiva dos filósofos clássicos (em especial de Aristóteles) é pensar em uma relação de perfeita harmonia entre cidadão e a polis. Um mundo cívico no qual a cidade depende do cidadão e o cidadão depende de sua cidade. Assim como a notável construção de Aristóteles na política: a primeira célula é a família (homem, mulher e filhos) que formam povoados e dos povoados firmam-se as cidades (a polis).

            Na cidade, nada é mais importante do que sua correspondência dialética na qual se perfazem os cidadãos, cidade e a síntese constitucional (as leis). As leis delimitam os interesses gerais e os cidadãos participam efetivamente dessa construção, em conclusão, a finalidade última é o supremo bem.

            Sendo a cidade uma coletividade, braços e pernas isoladamente não fazem do corpo uma unidade orgânica e sistêmica como nos ensinava o inabalável Aristóteles. Dado esse sistema orgânico, bem como sua ordenação entre suas partes, a unidade política e poética se colocam a disposição do homem cidadão da polis, e tudo na cidade deve funcionar perfeitamente.

            Porém, a vida muda, bem como as condições políticas econômicas e sociais. Naquela época clássica, o advento do helenismo proveniente de “Felipe” e “Alexandre o Grande” mudam a atmosfera das coisas, passando da unidade a fragmentação, da composição a decomposição, do cidadão ao individuo ao súdito. Nesse novo mundo, o suprassensível é negado, o coletivo é esvaziado e a ideia de organismo se desfaz ao simples modo de se viver aleatoriamente, como um rato ou cachorro sem rumo, sem desígnio ou planejamento.

            As leis não interessam mais ao coletivo que já é quase inexistente, sendo assim, as que existem funcionam para minar as últimas bases da moral conservadora, legitimar o direito do individuo em detrimento do direito supremo e coletivo, do bem comum a toda sociedade.

            Uma demonstração deste individualismo tanto helenístico quanto atual na sociedade brasileira é que vida privada faz mais sentido que a vida pública e isso pode ser observado quando se aponta que as residências no período helenismo se tornaram mais luxuosas e suntuosas, pois, a vida pública não encontra mais lugar na ágora, senado, mercado ou mesmo nas ruas e sim dentro dos palácios. No Brasil os condomínios e casas, a cada dia mais protegidos e luxuosos nos apontam a mesma coisa. O domínio da razão e das paixões pelo ato de se afastar dos incômodos é característico da época.

            Outro exemplo já característico de nosso tempo é a legalização do aborto de crianças anencéfalas, decisão pela qual segundo o presidente do STF, naquele momento, o ministro Cezar Peluso é sancionado em função de argumentos pautados no egocêntrico e comodismo daqueles que exercem pretenso direito. Contrário aos demais juízes do supremo, exceto o também juiz do supremo, Ricardo Lewandowski, o ministro Cezar Peluso deixa explicito: “Nesta postura dogmática ao feto, reduzi-lo no fim das contas à condição de lixo, uma coisa imprestável e incômoda, não é dispensada de nenhum ângulo à menor consideração ética e jurídica” [1]. Essa decisão de se afastar do incomodo por comodismo ou egocentrismo são exemplos apropriados para ilustrar o cotidiano do brasileiro, no qual é levado pela própria educação desqualificada a não entender concretamente as consequências de tal decisão. Educação essa que é uma das piores do mundo como expõe Pinho na Folha de São Paulo 2011.

As sensações do mundo físico ou empírico delimitam as ações e fazem destas, puro sistema materialista com base apenas nas experiências. Dessa forma os valores morais são substituídos por valores subjetivos. A justiça mostra-se em consonância com o valor relativo e sendo essa a nova ética, a moral clássica tão valorosa perde seu esplendor. Tudo é a busca de prazer pelo útil individual e isolado dos bens supremos. A razão é colocada à margem das decisões e o ambiente, apenas o ambiente empírico nos diz o que fazer.


Bibliografia Consultada 

ARISTÓTELES. Política. Tradução: Mário da Gama Cury. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1985.

GARCIA, A. B. Aristóteles nos manuais de história da educação. 1. Edição, São Paulo: Clube de Autores, 2011.

CARVALHO, O. Período Helenístico I. Coleção história essencial da filosofia. São Paulo: É Realizações, 2006.

LÉVÊQUE, P. O Mundo Helenístico. Editora: Edições 70, Lisboa – Portugal, 1987.

PINHO, A. Brasil fica no 88º lugar em ranking de educação da Unesco. Folha de São Paulo. 2011. Acesso em: 25/04/2012

http://www1.folha.uol.com.br/saber/882676-brasil-fica-no-88-lugar-em-ranking-de-educacao-da-unesco.shtml

REALE, G. História da Filosofia antiga – Volume III. São Paulo: Loyola, 1994.

VOTO DO PRESIDENTE DO STF ABORTO ANENCÉFALO. TVJUSTIÇA. Acesso em: 25/04/2012 http://www.youtube.com/watch?v=fj4DT39Iojo&feature=player_embedded#!

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