domingo, 3 de junho de 2012

Amor platônico versus amor espinosano

Por André,

Platão

Muito se fala de "amor platônico". A expressão está dispersa na cultura popular, faz parte do vocabulário do senso comum. Virou cliche. A maior parte das pessoas entende por ela apenas "amor não-correspondido". Uma interpretação pobre. O amor platônico (e nesse caso estamos sempre falando de éros, nunca de philia ou de agape) significa mais que isso: em primeiro lugar, não está necessariamente atrelado a relação sexual (amor é sexo? Sexo é amor? as questões não são essas...) - uma primeira interpretação, um tanto simplória. Em segundo lugar, uma interpretação mais precisa diz que se trata antes de mais nada de "amor não-correspondido" (essa interpretação que a tradição vai levar a cabo, é a ela que vários poetas consagrarão suas trovas de elogio às damas, ricas, belas, lânguidas, que não estão a sua altura e não correspondem ao seu amor).

Ambas interpretações são pobres. Retomemos brevemente as principais ideias de Platão sobre o amor, expostas em seu diálogo intitulado "Banquete". O contexto é uma festa à moda grega (um simpósio, outra tradução possível para o titulo do diálogo) em comemoração a um prêmio recebido por um dos participantes. PEÇO PERDÃO POR QUALQUER IMPRECISÃO, ESCREVO EXCLUSIVAMENTE DE MEMÓRIA.

Cada convidado dispõe de um determinado espaço de tempo para fazer sua exposição. As únicas que interessam são a de Aristófanes e a de Sócrates, ou melhor, a que Platão colocou nas bocas de Aristófanes e Sócrates.

A exposição mais famosa é, sem dúvida, a de Aristófanes. Agradável, diz o que queremos ouvir, o que esperamos. Diz que a origem do amor remonta a um castigo imposto por Zeus aos primeiros "homens" - aos andróginos (como diz a própria palavra, homem e mulher). Os andróginos eram completos, quase perfeitos. Não careciam de nada. Tinham um ao outro, do que mais poderiam precisar?

De nada.

Isso irritou os deuses; especialmente os gregos, sedentos por adoração, antropomórficos. Os andróginos se consideravam tão completos que não prestavam culto aos deuses. Estes foram reclamar com Zeus. Que por sua vez, tomou uma medida grave (não tão grave quanto extinguir a espécie, já que isso não resolveria o problema da falta de adoração): munido de seus raios, partiu os andróginos, separando-os em gêneros distintos (homem e mulher), tal como conhecemos hoje.

Desde então, buscamos nossa metade perdida (a "metade da laranja", na melosa letra de Fabio Junior), separada de nós num passado distante. O amor é a busca daquele que nos completa. Nossa alma gêmea está perdida por aí, nos aguardando. À espera da felicidade.

Não precisa ser Sócrates para saber que essa exposição, romântica em demasia, tem seus problemas.

Outra exposição, praticamente desconhecida (se comparada à de Aristófanes) é a de Sócrates, que, por seu turno, se remete a uma mulher (a sacerdotisa Diotima) para resolver o impasse sobre o amor (algo surpreendente para toda a tradição). Seria porque só as mulheres sabem o que é o amor? Só as mulheres amam?? Mais uma vez essas não são as questões.

Bem menos "romântica" que a exposição de Aristófanes, Sócrates nos alerta que o amor é essencialmente FALTA. Amamos alguém porque nos falta algo. Desejamos a pessoa porque ela encarna algo que nos falta e de que precisamos. Nossa constituição é falta e carência por excelência, daí nossa necessidade de amor.

Haveriam outros detalhes a serem ressaltados, mas como pretendo fazer uma comparação entre a exposição de Platão e a de Espinosa sobre o amor, paro por aqui e destaco o seguinte aspecto:

Para Platão, o amor é necessariamente egoísta. Só amamos porque nos falta alguma coisa e queremos obter essa coisa para sair dessa condição. [Sem mencionar o que vem depois que obtemos o que desejamos: o tédio, o marasmo].

Não preciso da pessoa amada por ela mesma, mas antes de tudo porque EU tenho uma CARÊNCIA que desejo sanar.

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Baruch de Espinosa

Me deparei hoje mesmo com a concepção do filósofo holandês Baruch de Espinosa sobre o amor. E descobri que em vez de amores platônicos, tive amores espinosanos. E não apenas isso, mas que a posição do autor da Ética é muito semelhante a ideias que eu mesmo regurgitei aqui neste blog, mais especificamente aqui: "Tantas e tantas noites, esperei uma pessoa entrar, pelo simples motivo de resumir toda a minha intensa admiração e amor, em um simples boa noite."

Entendamos:

Livro III da Ética, escólio da proposição 13:

"O amor não é senão a alegria acompanhada da ideia de uma causa exterior" (p. 186, col. Os Pensadores, volume dedicado a Espinosa).

Primeiro aspecto de discordância com relação a Platão: o amor não é falta. Não é desejo (pelo menos em princípio, nada), é gratuito, é oferecido de bom grado. Se contenta com a mera presença, com a mera EXISTÊNCIA da pessoa amada (na minha experiência pessoal: se contenta com um mero "bom dia").

No amor, para Espinosa, ficamos contentes (regozijamos) com a mera existência da pessoa amada. Ela existe e isso é suficiente.

alegria em mim e a causa dessa alegria é a SUA existência. Fico contente em pensar na sua existência.

Eis uma típica declaração espinosista de amor. Algo que não ouvimos todo dia (ou melhor, dia nenhum. Sinta-se privilegiado se já recebeu uma). É uma declaração de amor que NÃO LHE PEDE NADA, não quer nada em troca, como eu disse, é um amor gratuito.

Quando alguém diz "eu te amo", espera receber de volta um "eu te amo também". Pensa, em algum momento, em si próprio. No fundo, o propósito era ouvir essa resposta. É um platônico falando.

Meus amores são/foram espinosanos (e, amém, não platônicos).

E quem fala agora sou eu: quantas vezes eu, covardemente, confesso, projetei, pensei, mil e uma situações (como se fosse uma jogada de xadrez), mas no fim só disse "bom dia", e fiquei feliz em ouvir um bom dia sincero como resposta, acompanhado de um sorriso honesto e de um olhar bondoso. E, ao menos naquele espaço de tempo, não esperava nada além disso.

O amor espinosano é mais nobre que o platônico, embora, penso eu, mais covarde. Você não pode reclamar se não for correspondido, o propósito todo nunca foi esse. Deve se contentar, regozijar, obter prazer, apenas com sua presença, apenas com as pequenas coisas a que me referi anteriormente.

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