segunda-feira, 2 de julho de 2012

A Crítica de Frege ao Psicologismo em Lógica de 1897

Por Fides et Ratio,


A polêmica em torno do psicologismo apesar de ser central e contínua ao longo da obra de Frege (1848-1925) não se coloca de maneira homogênea e em bloco único. É central e contínua enquanto busca estabelecer a distinção de um horizonte filosófico eficiente para fundamentação de sua concepção de lógica e vê no psicologismo o principal impedimento, mas não é homogênea uma vez que depende, justamente, do próprio desenvolvimento de suas reflexões a respeito dessa fundamentação e das diferentes formas de como se apresenta o psicologismo. 

É possível distinguir nitidamente quatro momentos do desenvolvimento das reflexões de Frege a respeito da lógica e, consequentemente, de como polemiza com o psicologismo, a saber: o primeiro período (1879) é o da Conceitografia (Begriffschirift); o segundo período (1884) é o do Fundamentos da Aritmética (Grundlagen der Arithmetik); o terceiro período (1893) é o período das Leis Fundamentais da Aritmética (Grundgesetze der Mathematik) e, por último, o quarto período (1903) onde aparece textos como O Pensamento (Der Gedanke). 

Entretanto, mesmo que suas reflexões sobre lógica possam ser nitidamente distinguidas nos quatros momentos, a sua postura antipiscologista pode ser interpretada em duas vertentes, ou seja, entre 1879 e 1884 (Begriffschirift e Grundlagen) o antipsicoligismo se limita a polemizar com os aspectos epistemológicos e semânticos da concepção psicologista da lógica, enquanto que a partir de 1893 (Grundgesetze até Der Gedanke) fica clara, ou pelo menos mais consistente, a compreensão de que o problema nuclear do psicologismo, para Frege, é sua concepção equivocada de subjetividade. 


Se por um lado o Prólogo às Leis Fundamentais da Aritmética não tem o objetivo de solucionar ou refutar o psicologismo, mas em esclarecer e delinear com certo grau de precisão e rigor as diferenças substanciais entre as duas concepções, isto é, o realismo lógico fregeano, que pressupõe a existência absoluta de objetos lógicos e a possibilidade de conhecê-los, e a concepção dos “lógicos psicologistas”, que não necessariamente negam, mas relativizam a existência desses objetos no pressuposto de uma concepção idealista da subjetividade segundo a qual só há conhecimento direto e imediato dos conteúdos imanentes à consciência. Por outro lado, é na Lógica de 1897 que a crítica ao psicologismo ganha contornos decisivos a respeito das importantes distinções de problemas aos quais cabem à lógica e à psicologia, respectivamente, se ocuparem; bem como Frege nos remete a pensar em uma concepção de lógica cujo pressuposto é uma tese, ainda que sustentada de maneira implícita e embrionária, a respeito de uma refinada concepção de subjetividade que se diferencia e polemiza com a concepção de subjetividade psicologista. 

O objetivo deste texto é apresentar as linhas gerais dos resultados dessa polêmica antipsicologista na Lógica de 1897. Para isso apresentarei o texto em três momentos, a saber: i) uma breve introdução ao problema do psicologismo, sobretudo suas implicações Lógicas segundo a distinção de Frege; ii) a concepção Lógica de Frege à luz no seu conceito de pensamento (Gedanke) e, por último, iii) a possível solução de Frege à polêmica na Lógica

1. O psicologismo

Não é nada fácil definir o psicologismo. Qualquer definição corre o risco de não levar em consideração o quão multifacetado ele se apresenta tanto no nível sistemático como no nível histórico, bem como as consequências de suas teses se infiltram na história do debate das ideias filosóficas. É muito comum ser um psicologista sem se dar conta disso. Ainda que não seja nosso objetivo essa empreitada aqui, é preciso reconhecer a presença dessa peculiar dificuldade a fim de compreendermos pelo menos o sentido da postura antipsicologista de Frege ao longo de todo seu intento em buscar fundamentos filosóficos à lógica e como ele via no psicologismo um impedimento. 

O que é o psicologismo, ou os psicologismos, é diferente, sem dúvida, de como Frege concebe o psicologismo. No entanto, não se deve relegar a um plano secundário os seus esforços na busca de uma genuína compreensão de como o psicologismo se coloca, segundo a sua interpretação, como um impedimento epistemológico para o seu projeto de fundamentação da lógica em uma base metafísica absolutamente segura. E se for possível encontrar um denominador comum diante de tantas faces distintas de psicologismo, certamente o que melhor se alinha às concepções de Frege é aquele que reza a tese segundo a qual todo conhecimento se limita aos conteúdos imanentes a uma consciência, ou seja, é a forma idealista de subjetividade fundada no princípio de imanência, a saber: só temos acesso direto às nossas representações (Vorstellungen). 

O psicologismo, historicamente, tem origem no princípio de imanência dos empiristas britânicos ou, se ousarmos ir mais longe, na “virada subjetiva”, ou simplesmente a reforma da concepção de ideia proposta por Descartes, na qual, em linhas gerais, se concebe uma ideia como uma representação e não como uma entidade genérica objetiva subsistente fora da mente como no platonismo. Pois, foi na necessidade de se iniciar a filosofia em uma teoria do conhecimento que, pode-se dizer, reside a tese central de uma concepção idealista da subjetividade na qual percorre toda filosofia moderna e se apresenta como palco central para o psicologismo polemizado por Frege. Quando Locke afirmava que a essência, a origem e o limite do conhecimento são as ideias na mente, não foi difícil para um Berkeley ou, para atravessar o Oceano, um Jonathan Edwards, transformarem o empirismo em um imaterialismo idealista radical, isto é, toda existência de uma realidade autônoma objetiva, isto é, independente da mente, era reduzida exatamente à existência mental. A discussão que se arrasta até o século XIX, pós-Kant, apesar das muitas nuances, era a respeito de um método capaz de justificar as condições de possibilidade de um conhecimento, seja ele imanente ou transcendente, a respeito do estatuto deste “dado” na consciência. 

Em um possível esquema de definição o psicologismo pode ser reduzido nas seguintes proposições: i) tudo o que existe ou é conhecido deve provir da experiência ou de ideias, isto é, de representações mentais. ii) as ideias só existem, justamente, como representações mentais, isto é, como conteúdo ou representação de uma consciência. iii) portanto, a condição de possibilidade de conhecimento de todas as coisas que existem, inclusive coisas materiais, metafísicas etc, só pode ser mental, isto é, conhecidas diretamente como conteúdo ou “dados” de uma subjetividade, reduzidas apenas em termos de representações ou em termos de estrutura transcendental da própria mente. iv) a consequência lógica do psicologismo não é outra senão a de um solipsismo nominalista. A redução do lógico ao psicológico paga o alto preço do objetivo começar e terminar no próprio subjetivo.

E a percepção crítica de Frege de que o problema do psicologismo leva ao impedimento de uma adequada compreensão de sua refinada concepção de lógica é bastante clara nessa passagem do Prólogo:
A lógica atual parece estar completamente infectada de psicologia. Quando, em vez da coisa mesma, se consideram somente suas imagens subjetivas, as representações, perdem-se naturalmente todas as diferenças reais mais finas e, ao contrário, aparecem outras que para a lógica carecem totalmente de valor. E com isso passo a falar do que dificulta o influxo de meu livro sobre os lógicos. Se trata da perniciosa ingerência da psicologia na lógica. (FREGE, Grundgesetze, p.26)
Frege não deixa dúvida de que o problema da redução das leis lógicas às leis psicológicas não só impede uma genuína compreensão objetiva da lógica, mas é “pernicioso” quando as leis lógicas são “infectadas” pela psicologia; não obstante, vale destacar, também é possível notar nessa passagem que o psicologismo é compreendido segundo o procedimento de redução da realidade objetiva das leis da lógica às imagens subjetivas das leis da representação psicológicas, ou seja, é implícito o pressuposto do princípio de imanência o qual rege uma concepção de subjetividade.
Tudo é arrastado definitivamente para o domínio da psicologia; desaparece cada vez mais a fronteira entre o objetivo e o subjetivo, e inclusive os objetos efetivos são tratados psicologicamente como representações. Pois o que é o efetivo senão um predicado? E, que são os predicados lógicos senão representações? Assim desemboca tudo no idealismo e, sendo mais consequente, no solipsismo. (FREGE, Grundgesetze, p.32)
Eis o diagnóstico da polêmica do psicologismo compreendida por Frege. Agora é fundamental mostrar quais os parâmetros filosóficos fregeanos são propostos como solução para este tipo de redução psicologista. Antes, traçaremos em linhas gerais a concepção realista da lógica proposta por Frege. 


2. Pensamento
A concepção lógica de Frege é bem diferente do que nós, hoje, compreenderíamos por lógica. Independente dos resultados técnicos obtidos ao longo da trajetória de reelaboração da lógica intentada por Frege, nós devemos destacar a tarefa estritamente filosófica do projeto de fundamentar as leis lógicas em uma concepção objetiva da verdade. Frege estaria mais para um filósofo da lógica em busca dos seus fundamentos metafísicos e não apenas como um técnico que opera com certa habilidade a partir do domínio positivo de um dado conhecimento tomado como resolvido, ou supostamente resolvido, ou pelo menos não problematizado. Se a lógica é hoje concebida simplesmente como a ciência que estuda e se ocupa com princípios e métodos de inferência, validade formal de argumentos, cálculos de predicados, sintaxe de certos sistemas e com o processo de validação e formalização desses sistemas, enfim, então, não é isso que vamos encontrar nas reflexões propriamente filosóficas de Frege a respeito do que é e do deva tratar a lógica. 

Para Frege a fundamentação da lógica é um problema e um problema a ser resolvido diante de certas objeções. Por ser um problema filosófico é preciso apresentar de maneira precisa o que exatamente a lógica trata e o que exatamente não trata; distinguir aquilo que diz respeito estritamente às leis da lógica daquilo que não diz. É preciso o esforço de buscar definições, e distinções precisas, bem como precisar o seu objeto, sua finalidade e, consequentemente, a possibilidade de apreensão e compreensão de tais objetos. Como vimos acima, segundo Frege, o principal impedimento de uma adequada fundamentação da Lógica é a concepção psicologista das leis lógicas, ou seja, o processo cientificista de redução de tais leis a leis psicológicas. Mas não só isso, a impossibilidade da fundamentação da lógica reside em uma incompreensão da subjetividade fortemente amarrada ao princípio de imanência. 

Para Frege o objeto da lógica é o verdadeiro, ou mais precisamente, a lógica se ocupa com as leis do ser verdadeiro (Gesetze des Wahrseins). Nesse sentido, a tarefa da lógica tem uma peculiaridade, pois de todas as Ciências positivas, isto é, particulares, a única cujo objeto é o mais geral de todos os objetos é a lógica. “Atribuímos como tarefa à lógica indicar apenas o mais geral, o que tem validade para todos os domínios do pensar. As regras para o nosso pensar e tomar por verdadeiro nós devemos pensar como determinadas por meio das leis do ser verdadeiro.” (FREGE, Logik, §38). Todo trabalho de Frege ao longo do texto, e de suas reflexões a respeito do que é a lógica, é mostrar o que são e quais as propriedades dessas leis do ser verdadeiro e, claro, se somos capazes de apreendê-las e se caberia à lógica o problema de como apreendê-las. Nesse sentido, presume-se a existências de leis do ser verdadeiro, entretanto a dificuldade residiria, justamente, em saber i) se é possível apreende-las e ii) se a lógica deverá se ocupar com o problema de como apreendê-las. A resposta de Frege para a primeira questão é positiva e para segunda negativa, ou seja, apreendemos as leis do ser verdadeiro, porém não cabe à lógica responder como isso se dá. Esse procedimento tem o intento de distinguir aquilo que cabe estritamente à lógica daquilo que cabe especificamente à psicologia. Não obstante, não se deva cair na ingenuidade de pensar que Frege se limita apenas ao esforço de delimitar e em seguida dispensar a psicologia do terreno da lógica. 

Muitas são as distinções feitas por Frege para demonstrar a objetividade das propriedades das leis do ser verdadeiro como objeto genuíno da lógica e como diferenciação dessas leis em relação às leis lógicas traçadas e reduzidas ao âmbito da psicologia. Das mais importantes nessa tarefa de expor a crítica ao psicologismo na Lógica, sem dúvida, é aquela distinção feita entre “pensamentos aparentes” (Scheingedanke) e “pensamentos” (Gedanke) (FREGE, 1897, §42). Porquanto, segundo Frege, o lógico se preocupa com as propriedades objetivas dos pensamentos e não as propriedades, nesse caso subjetivas, de pensamentos aparentes, já que a propriedade de ser verdadeiro ou falso recai e é propriedade exclusiva de pensamentos. Essa distinção pressupõe a concepção fregeana de que o sentido (Sinn) de uma frase assertiva carrega a propriedade de verdadeiro ou falso e essa propriedade não é a mera propriedade de uma representação (Vorstellungen), mas de um pensamento (Gedanken). Pois, se a propriedade de ser verdadeiro ou falso recaísse numa representação, todo o nosso conhecimento não passaria de uma ficção presa ao pressuposto solipsista do idealismo subjetivista. 

O predicado verdadeiro não é aplicado realmente à própria representação, mas ao pensamento de que ela representa um certo objeto. E esse pensamento não é uma representação, nem é constituído de representações de modo algum. Pensamentos são fundamentalmente diferentes de representações. (FREGE, §42)
Fica bastante claro nessa passagem que a concepção de verdade de Frege pressupõe uma tese anti-representacionalista, isto é, realista, e também uma concepção absolutista da verdade, ou seja, de que a propriedade de verdade não é uma propriedade de representações e, consequentemente, não é uma propriedade dependente de um sujeito que a represente em sua consciência, mas uma propriedade objetiva de pensamentos. É bastante forte para Frege que existe uma “realidade” não-empírica e não-real, mas objetiva, isto é, a objetividade de pensamentos subsiste independente de quem as concebe. Fica claro também que, segundo Frege, a matemática e a concepção de leis da natureza não são invenções ou formas de como o ser humano interpreta a realidade, mas descobertas como sendo uma realidade, ou mais precisamente, com objetividade independente das mentes que as concebem e expressam. “A lei da natureza não é inventada por nós, mas descoberta e assim como uma ilha deserta no oceano ártico estava lá antes de alguém por os olhos nela, assim também as leis da natureza, e do mesmo modo as da matemática”. (FREGE, §45). A concepção de Frege do estatuto de “leis da natureza” está no extremo oposto daquela visão instrumental de teorias científicas. 

Ora, a importância da propriedade de um pensamento e do próprio pensamento serem independentes de representações individuais é justamente a de que os pensamentos e as suas propriedades possuem a qualidade de serem atemporais e por isso não relativos ao lugar, ao tempo e a quem os concebem. E nesse sentido uma outra distinção é apresentada por Frege, a saber: entre o “ato de pensar” e o “pensamento” (FREGRE, 1897, §51-52), pois é a partir dela que aparecerá o problema da apreensão de um pensamento e o produzir o pensamento. Segundo Frege, o ato de pensar não produz de forma algum um pensamento. “Nós não podemos conceber o pensar como um produzir pensamentos. Tampouco o pensamento é um ato de pensar”, diz Frege. E a partir da reflexão amparada na analogia de que “apreendemos”, “capitamos”, “percebemos” etc, é que será demonstrada, ou pelo menos pressuposta, a tese segundo o qual um pensamento é independente de nossa vida mental e, por isso, carrega o estatuto de ser objetivo (Objektive), porem nem por isso uma entidade material, temporal, espacial ou real.
Nós estamos acostumados a ver o que é independente de nossa vida mental como algo espacial, material, e as palavras listadas (conceber, captar, apreender) fazem o pensamento assim parecer. Mas não é aí que se pode ver o ponto da analogia. O que é independente de nossa vida mental, o que é objetivo, não precisa ser espacial, material, efetivo. (FREGE, § 52)
Enfim, foi no procedimento metodológico em diferenciar e determinar qual o objeto da lógica que Frege aponta as distinções fundamentais ante a compreensão psicologista. Vale a pena destacar que o próximo passo agora é retraçar com linhas seguras as diferenças entre as duas concepções de leis lógicas sem deixar de mostrar os riscos de um tratamento puramente psicologista de tais leis.


3. Conclusão: a polêmica de Frege em torno do Psicologismo.

Depois de todo excurso apresentado acima cujo objetivo era delinear e localizar os dilemas a serem enfrentados por Frege a fim de fundamentar a lógica em terreno universal e filosoficamente seguro, cabe agora adentrar com mais precisão no texto de Frege e buscar compreender sua solução para o problema do psicologismo. 

O trecho da Lógica a ser analisado e interpretado está em §62-64 e pode ser subdivido três partes. i) A contextualização do problema do psicologismo; ii) a possível objeção do psicologista à posição de Frege; iii) a refutação de Frege às objeções. É na argumentação de Frege às possíveis objeções psicologistas que a tese de sua concepção de subjetividade, embrionária e implícita no seu argumento, deve ser sustentada a fim de o texto não cair em contradição. 

i) Contextualização do Problema do psicologismo.

No nosso entender, a posição de Frege diante do psicologismo é mostrar os riscos da concepção cientificista da psicologia que se arroga em reduzir leis lógicas às leis psicológicas, sobretudo, quando se toma acriticamente o pressuposto errôneo, ou pelo menos problemático, de uma teoria da subjetividade fundamentada no princípio de imanência, isto é, de que os únicos objetos de conhecimento são os conteúdos imanentes da consciência. “O tratamento psicológico da lógica se fundamenta na crença errada de que um pensamento (um juízo como é usualmente chamado) é algo psicológico como uma representação.” As consequências lógicas desse tipo de reducionismo, como nota Frege, “leva necessariamente a uma teoria idealista do conhecimento”, como vimos, um outro nome para o solipsimo. Frege busca justificar sua compreensão do problema de se reduzir todo ato cognitivo às representações a partir da suposição de que tal redução é correta, ou seja, busca compreender o dilema levando ao limite máximo de suas consequências. “pois, se ela for correta, então as partes que distinguimos num pensamento [...] devem pertencer à psicologia assim como os próprios pensamentos.” E por que devemos concluir isso e qual a dificuldade encontrada ao chegar a tais conclusões? “Ora, uma vez que todo ato de cognição é realizado em juízos”, isto é, ser realizado por meio da relação entre sujeito e predicado, ou seja, nada mais do que a vinculação entre dois conceitos conectados segundo o procedimento de associação de ideias regido por leis mentais, continua Frege, “isto significa o solapamento de toda ponte condutora ao que é objetivo”, já que toda objetividade do pensamento nada mais é do que uma aparência de objetividade. Não é possível buscar uma realidade objetiva independente de uma subjetividade, isto é, da mente cujos pensamentos estão representados, e qualquer de “nossas tentativas de chegar a isso”, de chegar à objetividade não-aparente dos pensamentos, “não seriam mais do que tentativas de sair do pântano puxando-nos pelos cabelos”. Enfim, o problema reside, em uma suposição de que ao se alcançar a objetividade das minhas representações, isto é, a objetividade aparente, presume-se que tal objetividade, uma propriedade exclusiva das minhas representações, seja propriamente a objetividade não-aparente de uma realidade fora da mente, mas tal suposição é, segundo Frege, filosoficamente injustificada, como ele insiste: “Quando muito pode-se tentar explicar como a aparência de objetividade surge, como nós chegamos a supor algo que não pertence a nossa mente, sem que essa suposição por isso seja justificada”.

ii) a possível objeção do psicologista à posição de Frege

Frege ao reconstruir o contexto da problemática em que se encontra a sua fundamentação não pode deixar de pensar na possível objeção do seu opositor. E o seu texto avança nesse sentido, isto é, mostrar que até mesmo as propriedades objetivas de algo totalmente independente da mente decorrem de um processo de apreensão mental. Pois mesmo que leis da natureza – o exemplo adotado por Frege é a lei da gravitação o qual opera no argumento como um exemplo típico de um pensamento independente das minhas representações – seja um pensamento e por isso, segundo ele, traz o sentido de ser “inteiramente independente do que acontece em minha mente e de como minhas representações mudam e oscilam.”, ainda assim, o opositor pode certamente dizer, oras, “a apreensão desta lei é um processo mental”. 

Essa objeção não é errônea e pode apresentar uma inegável contradição no percurso do raciocínio de Frege, pois se volta à estaca-zero, a saber: todo ato de cognição depende de minhas representações ou pelo menos, estritamente falando, da minha subjetividade e não há nada, a não ser por um decreto, que desvincularia esses aspectos da minha subjetividade no ato de apreensão de uma entidade objetiva, nada, a não ser por uma máxima, separa no conhecimento o psicológico do lógico, tornando-se, nesse caso, apenas aparente esse procedimento de distinções da relação entre o objetivo e o subjetivo. 

iii) a refutação de Frege às objeções

O procedimento refutatório de Frege frente ao opositor de sua tese segundo a qual há objetividade de pensamentos subsiste independente das minhas representações mentais não pretende simplesmente demonstrar algum tipo de paradoxo ou alguma inconsistência lógica por parte da objeção, pelo contrário, a postura de Frege é de acolher a objeção como uma possibilidade legítima, não obstante limitada. Frege acata a tese do opositor segunda a qual “a apreensão de pensamentos é um processo mental”, mas procura reformular os limites desse processo. Diz Frege: “Sim, sem dúvida”, quer dizer, ele aceita a objeção, não há dúvida de que a apreensão de pensamentos é um processo desse tipo, continua, “mas é um processo que acontece nos próprios limites do mental”. Ou seja, o processo é mental, mas não é i) qualquer tipo de lei do mental e ii) é um processo determinado por um limite, um perímetro de, vamos dizer, atuação do mental nele. O procedimento refutatório de Frege na verdade é o de recolocar um freio ou margens na atuação do psicológico no lógico. Nesse sentido, não precisamos falar de um reducionismo tipicamente cientificista, mas do reconhecimento de que o psicológico atua em um certo limite. “E que”, como justifica Frege a respeito da apreensão mental de pensamentos, “por essa razão não pode ser completamente compreendido a partir de um ponto de vista puramente psicológico”. Aqui Frege leva a psicologia a sua extrema fronteira, a ponto de o próprio Frege dar a impressão de estar caindo em contradição, não obstante quando lido mais de perto, nota-se que não há exatamente uma contradição, mas o mapeamento de novas fronteiras. E quando pensamos em “novas fronteiras” é no sentido de rever a própria concepção de subjetividade suposta pelo “velho psicologismo”. Aqui, ousamos dizer, há uma reformulação da concepção de apreensão no âmbito de uma epistemologia que ampare uma eficiente teoria da percepção, “pois, no apreender da lei algo, cuja natureza que não é mais em sentido próprio mental, é percebido, a saber: o pensamento.” E o detalhe, para Frege, este processo de apreensão da objetividade a parir da subjetividade “é o mais misterioso de todos”. Conteúdo, ainda que seja o mais misterioso, Frege não abandona o problema e busca reorganizar o que exatamente devemos esperar da psicologia enquanto atuando na resolução de problemas lógicos, mas agora segundo os seus próprios limites. “Mas mesmo porque ele (o processo de apreensão de pensamento) é mental, nós não precisamos nos preocupar com isso na lógica”. E dá suas razões do por que não cabe ao lógico preocupado com sua fundamentação se ocupar com a psicologia:

Para nós é suficiente que nós possamos apreender pensamentos e reconhece-los como verdadeiros; como isso acontece é uma questão por si mesma. Nós não nos preocupamos quanto ao como efetivamente acontece o pensar, o alcançar uma convicção; não o como acontece o tomar por verdadeiro, mas antes as leis do ser verdade.”
Concluindo, à luz do que foi exposto por Frege, pode-se traçar o seguinte esquema: i) há pensamentos objetivos. ii) apreendemos e reconhecemos tais pensamentos. iii) o processo de como acontece o ato de pensar, ou seja, o como não é um problema da lógica, mas exclusivamente da psicologia. iv) ainda que a psicologia um dia conseguisse dar conta de explicar o como captamos, apreendemos ou reconhecemos a objetividade de pensamentos, ainda assim, por princípio e reconhecimento do seu próprio limite, não é possível reduzir leis lógicas às leis psicológicas. Consequentemente, a fundamentação da lógica numa objetividade universal ficará sempre blindada do assalto reducionista subjetivista. 

BIBLIOGRAFIA

FREGE, G. Grundgesetze der Arithmetik. Begriffsschriftlich abgeleitet. Zweite univeränderte Auflage; Hildesheim, George Olms, 1962; pp. v-xxvi.
________. “Lógica” [Tradução de Celso R. Braida]. In: FREGE. Schrifften zur Logik und Sprachphilosophie. Aus dem Nachlass. Ed. Gottfreid Gabriel, 1897, p. 35-73.


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