segunda-feira, 2 de julho de 2012

Notas sobre a Estética em Baumgarten e Burke

Por Fides et Ratio,



Este texto não passa de um esboço de estudo das concepções de estética pensadas e propostas por Baumgarten e Burke. São concepções que antecedem às reflexões sobre o intricado problema a respeito do juízo de gosto em Kant. Dividi em duas partes: a) na primeira parte apresentarei o problema da Estética como disciplina autônoma em Baumgarten e b) a segunda parte, abordarei o problema do conceito de sublime, eixo central da reflexão de Burke a respeito do tema.
 
a) A Estética em Baumgarten.

A Estética, como uma disciplina filosófica autônoma, remonta ao século XVIII e é geralmente atribuída a Alexandre Gottlieb Baumgarten (1714-1762) como seu grande fundador, pelo menos no que diz respeito à palavra “Estética” e não necessariamente à reflexão filosófica a respeito da arte e da beleza, que sempre esteve presente ao longo de toda história da filosofia.

Se Aesthetica corresponde ao mundo das sensações, inferior, em oposição ao mundo do entendimento, superior, Baumgarten pretende fazer da Estética, enquanto disciplina filosófica autônoma, uma Ciência correspondente ao domínio da sensação, ou seja, uma ciência das partes inferiores – uma irmã mais nova da lógica, como ele mesmo diz (Cf. BAUMGARTEN, III, §13) – uma ciência do belo, cujo fim é definir o que é a beleza. Como diz o próprio Baumgarten: “O fim visado pela Estética é a perfeição do conhecimento sensitivo como tal. Esta perfeição, todavia, é a beleza” (BAUMGARTEN, III, §14).


Beleza é constituída de partes múltiplas e não una. Ela reside em um acordo de pensamentos em um só elemento na percepção sensível à luz do fenômeno. É na redução a uma unidade que a multiplicidade se torna bela. Contudo, tal unidade não é uma unidade evidentemente abstrata, mas concreta, particular e específica, ou seja, um objeto de sensação, de experiência sensória, cuja função é dar prazer e despertar desejo.

Essa redução à unidade, isto é, este processo de generalização, é uma operação intelectual com um resultado sensível. Eis uma contradição. A perfeição do conhecimento sensível é o belo. A beleza do conhecimento é universal. Mas como conhecimento sensível é contingente. No entanto, o conhecimento sensível perfeito pode ser universalmente partilhado na obra de arte.

É, pois, na Natureza que encontramos a beleza, ou seja, o ordenamento das partes numa unidade, de maneira extremamente mais refinada. Conclui-se daí que o grande objetivo da arte, isto é, seu horizonte mais elevado é imitar a natureza. Em Baumgarten a Estética se apresenta no limite entre a sensibilidade e o intelecto puro, ou seja, um conflito herdado entre o intelectualismo de Leibniz e o sensualismo de Hume.

Precisará de um Kant para definir e colocar a estética nos eixos não do conhecer, mas do sentir, como um juízo não do entendimento, mas do gosto. O juízo que marcará ao mesmo tempo um prazer e uma universalidade.

b) O conceito de Sublime em Burke

O conceito de Sublime é um dos temas centrais na Crítica da faculdade do Juízo de Kant. O termo foi introduzido pela primeira vez na estética a partir das reflexões do ainda jovem Edmund Burke (1729-1797) em sua obra Uma investigação filosófica sobre a origem de nossas ideias de sublime e do belo publicada originalmente em 1757.

O fundamental nas investigações em Burke é explicar como o sentimento de beleza é uma forma desinteressada de amor, isto é, de amor sem desejo, enquanto o a experiência de sublime é uma forma de espanto sem medo, que em Kant se resolverá na ideia de finalidade sem fim dos juízos estéticos, isto é, os juízos de gosto. “Gosto é a faculdade de ajuizamento de um objeto ou de um modo de representação mediante uma complacência ou descomplacência independente de todo interesse.” (Cf. KANT, CFJ 55).

O importante é destacar que em Burke o problema dessas distinções e sentimentos se dá no âmbito da investigação de um impulso emotivo diretamente relacionado a um instinto de autopreservação, no caso de sublime (Cf. BURKE, Enquiry, II, §VII), e do instinto de propagação à luz de uma necessidade de contato social, no caso do sentimento do belo (Cf. BURKE, Enquery, I, §X).

O sublime, diz Burke, é “tudo que seja de algum modo capaz de incitar as ideias de dor e de perigo, isto é, tudo que seja de alguma maneira terrível ou relacionado a objetos terríveis ou atua de um modo análogo ao terror”.

Contudo, diferentemente de Burke, em Kant tais sentimentos já não se relacionam diretamente com o objeto da experiência estética, mas na capacidade do julgamento (Urteilskraft) estético. Na Analítica do Belo Kant distinguirá duas maneiras de sentimento, a gratificação e o prazeroso (Cf. KANT, CFJ, 52). Enquanto na Analítica do Sublime o sublime é definido como algo que é vasto, esmagador e grande. Duas distinções são feitas, a saber: a “sublimidade matemática”, ligada à nossa percepção, e “sublimidade dinâmica”, ligada a experiência ao nosso poder (Cf. KANT, CFJ, 107).

Referência

BAUMGARTEN, A. G. Estética. A lógica da arte e do poema. Rio de Janeiro: Vozes, 1993.

BURKE, E. Uma investigação filosófica sobre a origem de nossas ideias do sublime e do belo. Campinas: Papirus, 1993.

KANT, E. Crítica da Faculdade do Juízo. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995.

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