quinta-feira, 19 de julho de 2012

O sofrimento animal como desafio à teodicéia

Por André,



Um dos maiores desafios já travados aos teólogos proponentes do teísmo é o que convencionou-se chamar teodicéia, o ramo da teologia ocupado da coexistência de um Deus todo-poderoso e supostamente justo e bom com os diversos tipos de mal no mundo.

Já que estou lendo o livro Libertação Animal do filósofo australiano Peter Singer, retornou a minha mente, como objeção possível à existência de um criador onipotente e bom, o problema não especificamente do sofrimento humano, mas o problema do sofrimento dos animais.

Talvez todo o sofrimento humano seja realmente explicado pelo livre-arbítrio, somos livres a ponto de sermos causa de nosso próprio mal. Como o livre-arbítrio humano pode explicar o câncer, uma doença genética é difícil, mas nada que os nós em pingo d'água da teologia não consigam dar um jeito.

Contudo, o que dizer do sofrimento dos animais, tendo em vista que eles não são livres (pelo menos não no sentido que nós somos - e penso que não é grande problema par um cristão concordar com essa afirmativa)?

Uma zebra certamente sofre e sente dor ao ser atacada por um leão. Não faz parte do menu de escolhas do leão não capturar a zebra, já que para ele, por questões puramente orgânicas (não há liberdade), capturá-la é uma questão de vida ou morte. Por isso não há direito (um punhado de leis convencionadas pelo grupo interessado nas mesmas) entre os animais, já que não é possível acusar o leão de "assassino".

Dado que todos os teístas afirmam que a natureza é resultado de criação divina e inteligente, e este Deus é bondoso e justo e os animais (nenhum deles, extrapole o exemplo para todas as relações predador-presa que existem na natureza) não possuem livre-arbítrio, a quem creditar todo o sofrimento por que eles passam e já passaram (um pouco de conhecimento de biologia evolutiva pode agravar ainda mais o quadro, visto que a maioria esmagadora das espécies existentes já estão extintas)?

Ora, dentro desta cosmovisão só resta Deus.

Ou não. Este problema já fora pensado previamente e a sua solução está no cerne de uma das mais famosas concepções da história da filosofia, o animal-máquina de René Descartes. Para Descartes, como o próprio diz em seu Discurso do Método, os animais não sentem dor porque são máquinas, são autômatos em nenhum sentido diferentes de, por exemplo, um relógio.

Eis a teodicéia aparentemente resolvida: o sofrimento humano se explica pelo livre-arbítrio, o animal simplesmente não existe, já que os animais não sofrem. [Ainda restaria a questão dos terremotos, maremotos e demais tragédias naturais que não podem ser colocadas na conta do livre-arbítrio humano, mas deixemos isso para outro texto].

Todavia, quem realmente crê na hipótese cartesiana?* Qualquer um que tenha um animal de estimação em casa não apenas sabe que ele é capaz de sentir o binômio ético prazer/dor quanto também é capaz de demonstrar sentimentos como amor, tristeza e felicidade. Resumo da ópera: os animais sofrem. 

E o sofrimento animal está inscrito na natureza (que supostamente é resultado de criação divina), não é evitável nem é culpa do livre-arbítrio humano, o que faz dele (a menos que você esteja disposto a sustentar a ideia que os animais não sofrem) um forte desafio à teodicéia teísta.

*Ainda há quem creia nessa suposição, William Lane Craig, teólogo, filósofo e debatedor profissional vislumbra a noção na seção Q&A de seu debate com o também filósofo Peter Millican no ano passado, a altura do 2h 06'30'' a 2:07:43 (Craig cita um livro e distingue entre três tipos de dor, afirma que o tipo de dor que sentimos e - que estamos conscientes de sentir - está relacionada ao nosso lobo frontal e que portanto só seria sentida por nós e pelos primatas superiores e ainda assim a experiência de dor que sentimos é particular à espécie humana):

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