sexta-feira, 13 de julho de 2012

T. S. Eliot e a Crise das Coisas Permanentes

Por CIEEP,

Pedro Ravazzano


A crise da tradição no mundo moderno é o reflexo da danosa crise do saber na civilização. As consequências são nefastas e se estendem para a vida intelectual e, muito mais gravemente, para a concepção que o próprio homem tem de si. Dentro desta perspectiva se faz necessário redescobrir as "coisas permanentes", nos dizeres de T. S. Eliot (1888-1965), como fontes essenciais na formação do sujeito e na sua realização no outro e no totalmente Outro. Ademais, neste processo, a transcendência, enquanto ápice da interioridade espiritual e metafísica, é ponto crucial na revitalização do reconhecimento do sujeito como integrante da comunidade de almas.

O mundo moderno, rompendo com todo o pensamento clássico, desconstruíra os pressupostos basilares da compreensão da virtude. Através do exercício das práticas morais da sociedade – comunidade de almas, diria T. S. Eliot – o homem nela inserido era capaz de adquirir as virtudes necessárias para o bem viver. Neste processo a educação do caráter fora essencial para a manutenção e perpetuação da prática virtuosa. Entretanto, antecedendo à função da pedagogia, encontravam-se as tradições morais vivas que eram assimiladas pelo sujeito. Ademais, para haver educação era necessário haver indivíduos capazes de guiar aos novos inseridos na sociedade.

O espírito moderno, porém, rompeu com toda a concepção clássica que fora também consolidada no medievo. A crítica iniciada por Immanuel Kant (1724-1804) colocava-se na antípoda, pois, a qualquer autoridade baseada na tradição como superstição e preconceitos temporais transmitidos. Ademais, rechaçou veementemente a concepção aristotélica de um saber universalmente válido a respeito do bem do homem. O abandono desta visão, dentro do pensamento kantiano, refletia a "descoberta" do sujeito como totalmente autônomo na realização das suas inclinações, determinadas estas, por sua vez, em sua constituição psicofísica. Assim, entende-se a razão pela qual, dentro do pensamento de Kant, qualquer conhecimento pretensiosamente universal e legado pela tradição, além de infundado, nem mesmo gozava de respaldo na estrutura do indivíduo racional.

A autonomia individual moderna se distancia da tradição e, consequentemente, das virtudes. Se não há mais conhecimento moral transmitido não resta mais nada que fundamente a experiência verdadeira contida no bem viver virtuoso. A crítica feita pela modernidade parte, ainda mais, da errônea concepção de que os valores tradicionais podem ser unicamente concebidos como valores locais e históricos, sem qualquer princípio universal que os torne realmente fundantes da existência moral do sujeito. A consequência lógica e natural é o surgimento do relativismo. A fragmentação, em tal grau, da tradição possibilitou a desconstrução do reconhecimento da verdade transmitida e recebida ao longo dos tempos.

Para Aristóteles (384-322 a.C.), entretanto, o homem era formado pelo "noûs", isto é, o elemento divino da sua natureza responsável pela vida teorética. Entretanto, para a excelência da virtude ética, o Filósofo concebia que a educação desempenhava papel essencial. O cultivo da sensibilidade moral era reflexo da capacidade do homem de adquirir a virtude através do seu exercício. A "segunda natureza", ainda no pensamento aristotélico, era nada mais que os hábitos virtuosos inscritos no caráter por meio do ascético esforço prático para crescer na vida boa.

No mundo moderno, não obstante, surgiram arautos da imaginação moral em comunhão com o sentimento moral aristotélico, ainda que implicitamente. Dentre os mais variados nomes T. S. Eliot vai exercer uma influência muito peculiar em seu vasto e amplo intento cultural. O poeta se coloca radicalmente na oposição da racionalidade iluminista soberbamente apartada das grandes fontes da sabedoria. Destarte, através de uma rebelião metafísica lançará mão da imaginação moral como o meio adequado para libertar o homem da prisão racionalista/idealista que advogava apenas a racionalidade individual e o juízo privado. Por consequência, T. S. Eliot se aproximou intensamente do "sentido ilativo" de John Henry Newman (1801-1890). Ambos vão abraçar a tradição como modo de encontrar aquilo que de recorrente, portanto verdadeiro, sempre existiu na natureza humana, as coisas permanentes. Justamente por isso a ordem moral abarca e, logo, sobrepõe-se aos limites do tempo. Portanto, mediante esta compreensão, o homem se reconhece como parte da "comunidade de almas", isto é, que a consciência e a racionalidade não começam na contemporaneidade ou se fazem apenas em uma relação egoística do eu consigo.

Como Russell Kirk (1918-1994) comenta em seu livro "A Era de T. S. Eliot: A Imaginação Moral do Século XX", a influência do pensamento do Cardeal Newman junto ao poeta é notória. Dentro da concepção newmaniana, o reconhecimento de Deus cresce na proporção em que a imaginação é alimentada, ou seja, quando esta imagem divina inerente ao homem é expandida e aperfeiçoada. Diz, então, John Henry Newman na sua "Gramática do Assentimento": "A imagem de Deus, se devidamente acarinhada, pode expandir-se, aprofundar-se e aperfeiçoar-se, com o crescimento dos seus poderes e no decurso da vida, à luz das variadas lições, dentro e fora deles, que lhes chegam acerca do mesmo Deus, uno e pessoal, através da educação, do trato social, da experiência e da literatura".

T. S. Eliot, com os seus escritos, combateu fortemente o modo moderno de conceber a relação do sujeito com ele mesmo e com os outros. Tornou-se, portanto, num mensageiro da imaginação moral usando a literatura como instrumento de favorecimento da redescoberta do homem. O crítico lutara fortemente contra a "prisão do eu". Muitas das suas personagens, em peças como "The Cocktail Party", eram incapazes de desenvolver relação com as gerações passadas e as futuras, ou seja, totalmente indiferentes ao fundamental "contrato da sociedade eterna". Na mediocridade do círculo de pessoas frustradas e iludidas, portanto gloriosamente modernas, o poeta demonstrara o alto grau de esvaziamento do homem moderno. Unicamente através do reconhecimento da incapacidade da pessoa de se realizar, ou seja, mediante a desconstrução da onipotência individual racionalista, pode ele olhar para o Outro que o faz. A devoção para com os mortos e o cuidadoso zelo para com os não nascidos subentende o maravilhamento do homem diante da sua pequenez na comunidade universal.

O pensamento de T. S. Eliot, todavia, foi forjado no confrontamento com as dificuldades existenciais. Assim, ao descobrir a experiência transcendente da pessoa, ele percebe a capacidade da consciência de falar à outra consciência, de transmitir para o outro com intuição e vontade livres. T. S. Eliot, com isto, renova a imaginação moral e liberta as mentes da prisão idealista onde o próprio poeta se encontrava. Esta abertura à transcendência, mediante o reconhecimento da capacidade consciente do homem, é a "novidade" pela qual Eliot se tornará genial. Ele, portanto, tornar-se-á o pontífice moderno, isto é, o construtor de pontes, das pontes destruídas na terra devastada. A atemporalidade que o caracteriza é reflexo da forma como compreende a atualização do passado no presente.

A consciência unificada, ou seja, corpo, alma e espírito, descobre-se aberta para o mundo interior e exterior, natural e espiritual, atravessado pelo sentido religioso e, portanto, para o mundo de Deus. Esta consciência sobrenatural, como vivida poeticamente por T. S. Eliot, certamente por influência direta do pensamento newmaniano, supera a distinção entre teoria e prática favorecida pela filosofia de Kant. Parte, deste modo, da identificação do conhecimento universal fundado num saber de fato não evidente e que corresponde à realidade. Assim, a reintrodução do real, do factual, na consciência, reflete inevitavelmente a mudança radical da perspectiva egocêntrica para a o aspecto teocêntrico da existência.

Portanto, o pensamento elioteano, em comunhão com os pressupostos realistas já colocados por Aristóteles, percebe que através da ordem transcendente pode a comunidade de almas e de espírito se reconstruir do caos propagado pela modernidade imanentista. O homem se concebe como parte de uma grande continuidade e essência na qual conhece a Deus e tem com Ele para sempre. Ao criticar a cultura que rejeita as virtudes humanas e até teológicas, T. S. Eliot irá, em "Four Quartets" principalmente, coroar a sua ideia das coisas permanentes. Na união entre passado, presente e futuro os mortos vivem na nossa "própria carne". Reconhecer o sentido do passado que nos ilumina hoje, é essa a dinâmica fundamental na qual Eliot confia a redenção do mundo presente. Só assim será possível ao homem do agora fazer uso da sua herança; "o poder de visão do profeta, do filósofo e do poeta", essa vida do espírito que é transmitida e onde reside a verdadeira consciência da comunidade de almas.

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