domingo, 12 de agosto de 2012

Kant, Borges e o vinho, por Roger Scruton

Por André,



Kant

Embora Descartes tenha sugerido (va Monty Python) o título deste livro, foi Kant quem o pôs em funcionamento. Um amigo meu perguntou que diabo significava afirmar que existe uma "taça em si mesma", umas entidade numênica que não pode ser apreendida pelos sentidos e que foi revelada na "visão de lugar nenhum", a "intuição intelectual" que não está à disposição de ninguém fora Deus. Enchi a taça com o Hermitage branco "Chante Alouette" de Charpoutier - a excelente safra de 1977 cujo desaparecimento lamento profundamente. E tentamos uma experiência: primeiro levar o vinho à luz, cheirá-lo, tocar com os dedos a sua superfície fria - e então bebê-lo, de modo a "conhecê-lo de um outro modo". Foi como se tivéssemos entrado num castelo derrubando as suas defesas precárias e nos encontrássemos numa sala muito iluminada onde éramos acolhidos por pessoas deslumbrantemente vestidas. É isso que Kant nos tenta transmitir. O númeno e a perspectiva transcendental seguem juntos, e embora essa perspectiva não esteja ao nosso alcance, temos indicações de como seria se a adquiríssemos. A satisfação que o vinho nos dá ao descer é como a revelação da sua interioridade. E a sua interioridade é a interioridade em mim, que sempre escapa à minha apreensão - o eu transcendental e sua inexplicável liberdade. Repito essa experiência frequentemente e acho útil examinar o argumento da Dedução Transcendental das Categorias enquanto a realizo. Mas não recomendaria o Hermitage branco, que é caro demais e além disso tem sabor muito carregado, com a sedução do mel e da noz, que exige um prato de polvo para o abrandar. Eu recomendaria uma garrafa de Malbec argentino; e nunca é má ideia combinar a Crítica da razão pura de Kant com as histórias de Borges, cheias de paradoxos kantianos e que nos lembram de que não há necessidade de viajar para a Argentina.

Nem todos os textos de Kant são tão fáceis de acompanhar quanto a primeira Crítica. Parece que nada complementa a segunda Crítica ou as outras obras de ética. E quando se trata da Faculdade do juízo, com sua breve referência ao "vinho das Canárias", eu me vejo experimentando primeiro o East India Sherry, depois o porto Tawny e finalmente o Madeira, sem chegar mais próximo da prova de Kant de que o julgamento da beleza é universal mas subjetivo, ou da sua derivação da "antinomia do gosto" - certamente um dos seus paradoxos mais profundos e perturbadores, e um paradoxo que precisa render-se ao argumento contido no vinho, se é que ele se rende a alguma coisa.


SCRUTON, Roger. Bebo, logo existo. São Paulo: ed. Octavo, 2011, p. 259 e 260.

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