quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Minha opção pela educação

Por André,



Talvez uma das frases mais comuns da nossa época seja "vou estudar para ser alguém na vida - i.e., para ser um bom profissional da área X ou Y e ganhar muito dinheiro".

As pessoas encaram o conhecimento como MEIO para a aquisição do FIM dinheiro. O conhecimento nem de longe vem em primeiro lugar, não é adquirido ou buscado por si, mas sim como etapa, como ponte para alguma outra coisa.

Ao reencontrar conhecidos da época de escola, muitos se surpreendem pela minha opção pela área da educação, minha opção pela área do ensino. Muitos dizem "nossa, você prometia tanto, vai ser só isso mesmo" ou então "puxa, você era bom em exatas, porque não virou engenheiro? Ganharia tanto dinheiro..."

E acaba sendo difícil refutar esse maneira de encarar a realidade em poucos minutos de uma conversa informal.

Antes de mais nada, o dinheiro, penso eu, deve ser consequência do seu conhecimento, uma consequência que cedo ou tarde acaba por vir. Talvez não na exata medida que você projetou, talvez, na verdade, muito provavelmente, um valor injusto e desproporcional ao que você merecia.

Contudo, ainda assim, é preferível a aquisição daquele conhecimento que lhe cativa, frente à escolha de uma área de conhecimento que lhe proporcionará muito dinheiro, mas que não lhe satisfaz intelectualmente, que não tenta responder as dúvidas que mais te inquietam.

Toda essa discussão sempre me remente ao livro da irmã Miriam Joseph intitulado "O Trivium", um tratado sobre as artes liberais da lógica, da gramática e da retórica.

Ao estudar-se a "pedagogia medieval", percebemos que esse tipo de problema não existia na época. Que essa concepção de saber associado ao poder (o clássico baconiano "Saber é poder") e mais, como gerador de poder, tem suas centelhas no renascimento e chega ao auge nos nossos dias.

Como é diagnosticado pelos especialistas (Ivan Illich, p. ex.), as instituições de ensino estão preocupadas em gerar documentos, documentos que supostamente atestam conhecimento. Não se busca o conhecimento, mas sim os documentos que atestam conhecimento. O conhecimento de fato será procurado em outro lugar, e provavelmente, por livre escolha do interessado (o sentido de liberal das sete artes liberais da idade média - lógica, gramática e retórica [o trivium] e aritmética, música, astronomia e a controversa geometria).

"Não só não existiu na Idade Média nenhuma obrigação estatal de ir à escola para aprender as Sete Artes, como ninguém imaginava usar este conhecimento como alavanca para forçar os ferrolhos do mercado de trabalho" (NASSER, 2008, prefácio, p. 12).

José Monir Nasser aponta o pai da criança, seria o místico Comenius:

"Mesmo sem pretender tratar aqui fenômeno tão complexo, registre-se que o sistema educacional tradicional entrou em declínio já no século VIX, lentamente minado por fora e por dentro, sob a orquestração do nascente "humanismo", até desabar no Renascimento, pela mão do teólogo e místico checo Jean Amor Comenius (1562-1670), que, na principal obra Magna Didactica, não apenas faz pouco das Ste Artes como estabelece as bases das pedagogias modernas, desenhadas para fins de ensino e não de educação" (NASSER, 2008, prefácio, p. 15).

A referência para a obra citada:

JOSEPH, Miriam. O Trivium. São Paulo: ed. É Realizações, 2008.

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