segunda-feira, 1 de outubro de 2012

A virtude do pessimismo: a desesperança

Por André,



Três autores estão em consonância quando o assunto é a felicidade: Ernesto Sabato, André Comte-Sponville e Roger Scruton. Ela anda no caminho oposto da esperança.

"O nome dela era Pandora - a que dá tudo. E como prenda de casamento Zeus deu-lhe uma caixa, instruindo-a para nunca a abrir. Cedendo finalmente à sua curiosidade, ela abriu a caixa, libertando no mundo morte, doença, desespero, maldade, velhice, ódio, violência, guerra e todos os outros males que conhecemos. Pandora fechou imediatamente a caixa, e ficou lá dentro uma prenda - a prenda da esperança: o único remédio, mas também o flagelo final" (SCRUTON, 2011, p. 9 e 10).

Algo que sempre tirei para mim como parte de minha conduta é não alimentar esperanças e, caso seja, que minhas esperanças sejam pessimistas, ou seja, minha expectativa é que as coisas darão errado. Dessa forma, minha felicidade fica protegida: nunca tive esperanças que me fizessem pensar que qualquer empreitada daria certo. Se não dão, estou preparado (acabo por construir mentalmente um "mapa das falhas", evitando-as com maior facilidade), se dão, é vantagem, pois estava fora do plano das expectativas.

A virtude do pessimismo se encontra, portanto, em te fornecer uma arma contra a esperança, nada mais saudável que, no mínimo, ser um "pessimista metodológico".

É mais ou menos essa fórmula que André Comte-Sponville vende em seu A Felicidade desesperadamente. Justamente, ser feliz sem manter esperanças, DES-ESPERADAMENTE.

A felicidade condicional, a felicidade esperada, expressa no "eu seria feliz se..." está basicamente fadada ao fracasso; a tendência é pular de "se em se" - eu seria feliz se ganhasse na loteria, se tivesse o carro do ano, se a Maria Joaquina me amasse - e oscilar entre o desejo e o tédio, como assinalou Schopenhauer, sem nunca obter um tanto razoável de felicidade.

Vejamos a definição de Sponville de esperança:

"O que é a esperança? É um desejo que se refere ao que não temos (uma falta), que ignoramos se foi ou será satisfeito, enfim cuja satisfação não depende de nós: esperar é desejar sem gozar, sem saber, sem poder" (SPONVILLE, 2001, p. 58).

Espinosa identificava a esperança com a ignorância, não à toa. Penso eu que também possa ser identificada com a irracionalidade gerando consequências nocivas à convivência.

Esse é o mote do esplendoroso livro de Roger Scruton "As vantagens do pessimismo", onde o britânico elenca algumas falácias, crenças (injustificadas) das pessoas que seriam impugnadas com uma dose refinada de pessimismo (ênfase em refinada, pois o pessimismo aqui defendido não é uma resignação ingrata diante do mundo: tudo é uma porcaria e não adianta nada): "a minha preocupação, em primeiro lugar, é com certas falácias que parecem justificar a esperança, ou pelo menos tornar o desapontamento suportável" (SCRUTON, 2011, p. 10, grifos meus).

Scruton argumenta brilhantemente em favor da tese que uma dose moderada de bom pessimismo nos teria privado, por exemplo, uma série de sistemas políticos totalitários, enraizados numa crença otimista no, por exemplo, advento de um paraíso terreno (o estado comunista de Marx, a nação alemã pura de Hitler).

Para arrebatar, quero fechar com um trecho do "Sobre heróis e tumbas" de Ernesto Sabato, a mim magistralmente sugerido:

"A 'esperança' de voltar a vê-la (pensou Bruno com melancólica ironia). E ainda disse a si mesmo: não serão todas as esperanças dos homens tão grotescas como essa? Já que, dada a índole do mundo, temos esperanças dos homens tão grotescas como essa? Já que, dada a índole do mundo, temos esperanças em acontecimentos que, ao produzir-se, só nos proporcionam frustrações e amarguras; motivo pelo qual os pessimistas são recrutados entre os ex-esperançados, pois para ter uma visão negra do mundo é necessário primeiro ter acreditado nele e em suas possibilidades. E resulta ainda mais curioso e paradoxal que os pessimistas, uma vez desiludidos, não são constante e sistematicamente desesperançados, senão que, de certo modo, parecem dispostos a renovar sua esperança a cada momento, embora a dissimulem sob sua negra envoltura de amargurados universais, em virtude de uma espécie de pudor metafísico; como se o pessimismo, para manter-se forte e sempre vigoroso, necessitasse de vez em quando de um novo impulso produzido por uma nova e brutal desilusão". (SABATO, s/d, p. 23 e 24).


SABATO, Ernesto. Sobre heróis e tumbas. São Paulo: Círculo do Livro, s/d.

SCRUTON, Roger. As vantagens do pessimismo. Lisboa: Quetzal editores, 2011.

SPONVILLE, André Comte. A felicidade desesperadamente. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

Um comentário:

  1. Sei quem sugeriu o livro Sobre Herois e Tumbas... Ela também me mostrou a passagem, e me identifiquei muitíssimo com esta. Esperança é para os fracos (e iludidos)! Rs.

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