segunda-feira, 15 de outubro de 2012

"Bentornato, Signor Mainardi!" por João Pereira Coutinho

Por Folha de São Paulo,

Diogo Mainardi desapareceu das páginas da "Veja" e eu estranhei: todas as semanas, a coluna dele era lida e relida com prazer e proveito. Se Mainardi abandonara os romances (um grande erro; confira aqui a entrevista que fiz com ele), pelo menos que sobrasse o jornalismo. 

Questionei amigos comuns, por pudor de perguntar ao próprio: que sucedera? Fato: Lula arrasa com a sanidade de qualquer um. Cheguei a temer que Diogo, em estado de colapso depois da reeleição, tivesse regressado a Itália para abraçar um cavalo chicoteado em Turim. Mas seria Lula - leia-se: a inacreditável sobrevivência política dele - razão para o silêncio?

A resposta veio agora, em forma de livro. Intitula-se "A Queda - As memórias de um pai em 424 passos" (Record, 150 págs). Abençoado desaparecimento. É o melhor livro de Mainardi até hoje.

Superficialmente, a obra pode ser resumida como o retrato que Mainardi dedica ao filho, Tito, que nasceu com paralisia cerebral em 2000. Esse grosseiro erro médico atingiu a mobilidade de Tito de forma profunda e irreversível. As caminhadas do filho - passo a passo, queda a queda, ascensão a ascensão - ganham uma ressonância quase homérica aos olhos do pai.

E aqui reside a essência de um livro superiormente escrito e pensado: "A Queda" é uma obra sobre o pai, não propriamente sobre o filho. E as verdadeiras quedas e ascensões não são as físicas de Tito; são as existenciais de Diogo.

É o próprio quem o confessa em tom apropriadamente anti-confessional (e anti-sentimental): antes de Tito nascer, o projecto de vida de Mainardi era não deixar a ninguém o legado da sua passagem. 

"Pulando de romance em romance", em Veneza - haverá melhor programa? 




Karime Xavier - 17.ago.2012/Folhapress
O escritor Diogo Mainardi e seu filho Tito
O escritor Diogo Mainardi e seu filho Tito

Por incrível que pareça, há: encontrar algo, ou alguém, que é mais importante do que nós. Algo, ou alguém, que nos descentre de nossas "veleidades" (palavra de Mainardi), concedendo um sentido de vida que é maior do que a nossa vida.

Esse alguém é Tito. A infância de Tito. As quedas de Tito. Os passos de Tito.

E, a propósito de Tito, Mainardi vai congregando todas as artes disponíveis para o explicar e celebrar: a arquitectura de Veneza; as palavras de Ruskin sobre a "Serenissima"; a pintura de Rembrandt. E, claro, o cinema de Abbot e Costello.

Tito é a sua teoria, a sua ideologia, a sua religião. A sua vida. E a grande arte só tem préstimo quando a tomamos por empréstimo. Para que ela possa reflectir, no duplo sentido da palavra, os contornos da nossa existência. Os nossos livros, os nossos filmes, os nossos quadros - tudo isso só tem interesse porque em cada obra encontramo-nos a nós.

Com Tito, Mainardi aprendeu o que poucos, raríssimos, são capazes de aprender: que "saber cair" é mais importante do que "saber caminhar". Qualquer um caminha.

Difícil é saber cair. Difícil é receber cada queda com gratidão, muita gratidão. Porque só é possível caminhar direito quando o medo da queda nos abandona passo a passo. E até ao dia em que paramos de os contar.

"Bentornato, Signor Mainardi"!

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