terça-feira, 30 de outubro de 2012

Reflexões afetivas

Por André,


Certa vez, já há algum tempo, eu e uma colega de faculdade estávamos a objetar as arraigadas noções de "alma gêmea" (a ingênua ideia que uma alma, gêmea à sua, vaga por aí, perdida, à espera do reencontro - mito que remonta à exposição de Aristófanes no livro Banquete) e de "amor à primeira vista" (você bate o olho numa pessoa e se "apaixona").

A objeção circulava em torno do seguinte: o amor não pode se dar de nenhuma das duas formas porque acaba por ser uma "construção".  Algo que duas pessoas, por compartilharem uma série de "coisas" constroem juntas ao longo dum determinado espaço de tempo.

Se o amor se resume a encontrar nossa alma gêmea, ele se torna geográfico e aleatório. Sob o dominio da fortuna, seríamos apenas robôs seguindo a trilha da casualidade.

Se existe amor à primeira vista (e definamos aqui como amor forte, tipo, viu e apaixonou), isso parece estar de acordo com a visão anterior, como você ama a pessoa se nunca a viu? Se não a conhece? Não sabe seus gostos, seu humor, suas preferências, seus hábitos?

O que existe a primeira vista é atração física, ou uma simpatia, mas não mais que isso. E na verdade, com o passar do tempo, com a dita "construção" a que eu e essa colega chegamos, percebemos que aquela supostamente mais bonita deixa de ser interessante e a outra, para a qual você não havia prestado muita atenção, se torna alguém especial. A beleza deixa de ser o fator decisório, e você passa a levar em consideração o humor, as preferências, os gostos.

Chegamos à conclusão de que beleza física é importante, talvez essencial, mas não é o único componente relevante (e por favor, estou muito longe do blablablá politicamente correto de apologia à feiura, ao mau gosto e tudo mais). Não digo ter o mesmo gosto, mas compartilhar algumas preferências, é imprescindível. Ter bom humor, é indispensável.

Logo, você pode simpatizar com parte do pacote logo de início, mas não gosta dele imediatamente. Pode até haver, em casos de sorte, uma correlação entre simpatizar a gostar desde o princípio, mas essa não é a regra. Portanto, essa visão boba e romântica de amor, deve ser reduzida à exposição de Aristófanes, na verdade o dicurso que Platão inventou e colocou na boca de Aristófanes e apenas isso.

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