quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A esquerda e a linguagem

Por André,



"Chamar novamente o pão de pão e o vinho de vinho é indispensável, entre outras coisas, para que a liberdade de expressão faça sentido" Mario Vargas Llosa

Penso que o aspecto mais curioso (e, admitamos, competente) dos pensadores políticos do espectro esquerdista seja sua visão estratégica (com vistas em ascender e permanecer no poder). E essas estratégias estão quase sempre desvinculadas de qualquer valor de verdade, o valor é pragmático: se for útil para ascender e permanecer no poder, então é bom.

Além do monopólio da virtude, do discurso, da imprensa e, last but not least, da CULTURA (quem quiser uma admissão pública disso, basta assistir o "debate" sobre a ascensão do conservadorismo em São Paulo, onde Vladimir Safatle reclama o monopólio da cultura), a esquerda, visto que sua revolução cultural foi um sucesso, também tomou para si a linguagem.

A linguagem que usamos foi construída para atender os interesses dos próprios esquerdistas. Vários exemplo pululam à mente: falamos em termos de contribuinte (como se fosse algo voluntário, feliz, de bom grado) e não em pagador de impostos (tax payer). A palavra liberal, no Brasil, costuma ser associada ao "progressismo" de esquerda, nos EUA, liberal pode ser traduzido, basicamente, por "esquerda".

O monopólio da esquerda também se dá no vocabulário. A linguagem é o meio básico de propagação da cultura. Quem a domina, domina tudo.

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Contudo, ainda existe um aspecto ainda mais grave na manipulação da linguagem promovida pela esquerda. Quando ela não apenas toma conta de palavras, mas como "esvazia" seu significado original para, a seguir, "recheá-la" com o significado mais adequado à revolução, ao predomínio cultural etc. Esse aspecto estratégico pode ser conferido ipsis literis nas obras de teóricos do marxismo como Ernesto Laclau ("Política e Ideologia na Teoria Marxista"). Retomo o que disse no início, o valor de verdade não está em jogo, apenas seu valor prático, os fins justificam os meios.

Portanto, quando a esquerda fala em "ética", pode (e provavelmente não está) não estar a falar do sentido tradicional do termo, mas sim da SUA definição do termo, plenamente acordada com seus aspectos revolucionários.

É impossível não reportar-se ao lema do Grande Irmão, as coisas não significam o que significam, podem significar até mesmo seu oposto: "Guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força."

A linguagem é manejada, conceitos são redefinidos: social passou a ser uma palavra que abriga tudo e justifica tudo, sob a alcunha de social, tudo pode ser feito. O conceito de democracia fora ajustado, redefinido e distorcido para que se pudesse chamar Cuba e Venezuela de democráticas.

Neoliberalismo deixou de ser uma postura econômica específica e passou a ser um xingamento de proporções colossais, suficiente para encerrar qualquer discussão pretensamente séria. O esvaziamento de significado fica claro aí: poucos sabem o real significado da palavra, contudo, todos a usam e, inconscientemente, julgam saber seu significado.

Ser "de direita" ou a favor de "privatizações" deixou de ser questões intelectuais louváveis, viáveis e tão dignas de debate como qualquer outra, mas são dignas de olhares de ultraje, com ar de absurdidade ("como é possível você pensar assim?").

Um outro caso patente: a ascensão à classe média de 40 milhões. Se antes a classe média era aquela formada pelos que pagavam imposto de renda, o governo rapidamente redefiniu o conceito e como você leu aqui e aqui, ad nauseum, voilà, milhões na classe média.

Isso posto, vale aqui uma reflexão de caráter: quem promove esta "revolução linguística", conscientemente manipula a linguagem para atingir seus fins de dominação, são os mesmos que reclamam que a mensagem de comemoração de 45 anos da rede Globo é propaganda subliminar para o PSDB, que reclamam de editoriais com posicionamento político, considerando-os uma aberração (quando isso é algo corriqueiro em democracias sérias).

Isso só vem a corroborar uma coisa: como apontou Lionel Trilling em seu "The Liberal Imagination", a esquerda deliberadamente vê naquele que pensa de maneira distinta um inimigo não-humano, no mais das vezes, a ser eliminado "pelo bem maior"; a literatura 'liberal' está aí para provar isso.

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