quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Bocejo pessimista XXII - Falta, desejo, saudade...

Por André,

Passou a sentir falta.

Por mais que estivesse relativamente perto e não fosse negar uma troca de palavras, não saíria do politicamente correto; ambos ficariam sem saber onde pôr as mãos e a conversa que nunca efetivamente começara, acabaria. 

Ou seja, sentia falta não dela, propriamente, mas sim de como trocavam palavras e olhares. Sentia falta da amizade, regada a brincadeiras com pretensão de seriedade. 

Talvez esse tipo de falta, de "saudade", seja pior que no sentido tradicional (onde o objeto de falta está morto, do outro lado do oceano etc). A falta não era da pessoa em si, mas de seu previo "jeito de ser".

Outro agravante: a margem existente de possibilidade das coisas voltarem a ser como eram antes. Existia? Quem sabe. Diferentemente da saudade sentida com relação ao ente querido morto, aquele tipo de falta era psicologicamente agressiva (levando, inclusive, a consequências fisiológicas: tremores, palidez súbita, leve confusão mental), pois o terreno das possibilidades era maior.

Nada melhor, nessas situaçoes, como sempre, que abrir mão das minhas palavras frias e fazer uso das palavras dos literatos (e não será custoso salientar como a descriçao de Andrade 'cai como uma luva'):

A um ausente

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança
.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.


(Carlos Drummond de Andrade, grifos - italicos, negritos e sublinhados - meus)

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