sábado, 3 de novembro de 2012

Orfandade política, por Ruy Fabiano

Do Blog do Noblat,

No início da campanha presidencial de 2010, o então senador Sérgio Guerra, numa entrevista à revista Veja, declarou que “o Serra está à esquerda do PT”.

Lula, antes, havia dito que o Brasil havia evoluído politicamente, pois todos os candidatos à presidência eram de esquerda. O fato de, na sua ótica, não haver na disputa nomes do campo conservador representava uma “evolução”.

Essa tem sido uma anomalia reincidente desde o início da redemocratização: considerar que a presença de forças conservadoras representa um retrocesso democrático.

É exatamente o contrário. O que caracteriza a democracia é a presença, com perspectiva de poder, de todas as forças que compõem o arco político-ideológico da sociedade. E a sociedade brasileira, segundo reiteradamente atestam todas as pesquisas comportamentais, é em grande parte conservadora.

Não é à toa que partidos e candidatos, no curso das campanhas eleitorais, cumprem um ritual coreográfico contrário às suas agendas doutrinárias, visitando igrejas, confraternizando com lideranças religiosas, participando de cultos aos quais são indiferentes ou mesmo profundamente críticos.

Trata-se de uma mimese dos candidatos com o único sentido de iludir o eleitor. Fingir que abraçam e defendem valores que, no entanto, abominam e contra os quais conspiram.

Por que o tema do aborto, nas eleições presidenciais, provocou tanto desconforto em Dilma Roussef? Simples: ela sabia que sua verdadeira opinião, gravada em vídeos que circulavam na internet, não correspondia à da maioria do eleitorado ao qual pedia votos. Foi preciso então que se manifestasse em sentido contrário, negando o que já afirmara reiteradas vezes.

Idem a questão do kit gay na campanha de Fernando Haddad, à prefeitura de São Paulo.

Tanto Dilma quanto Haddad sabem, pois conhecem as pesquisas, que a maioria do povo brasileiro é contra ambas as iniciativas. Não cabe aqui analisá-las.

Importa registrar que são repudiadas pela maioria da sociedade. Como não há voz partidária que se oponha a esses temas, os próprios mentores daquelas propostas incumbem-se de desmenti-las ao público, sem prejuízo de, depois de eleitos, as implementarem.

Em suma, a esquerda assume o discurso que, em circunstâncias normais, deveria caber aos conservadores.

O PSDB padece de uma esquizofrenia, que o tem levado a sucessivas derrotas: quer se opor ao PT com a mesma agenda do PT. Não conseguirá. O discurso de esquerda, no Brasil, já tem dono.

Os tucanos querem os votos conservadores, mas não ousam assumir, mesmo parcialmente, suas propostas, pelo temor – já uma paranoia – de vir a ser chamado de “direita”.

O resultado é que não ganham os votos da esquerda – hoje quase monopólio do PT – e deixam de ganhar votos no campo conservador. Em São Paulo, historicamente, um terço votava no PT, outro terço no PSDB e o terço restante decidia a eleição.

Celso Russomano, que chegou a ostentar mais de 45% nas pesquisas, perdeu porque não resistiu à desconstrução moral que tucanos e petistas lhe impuseram – e que se encaixou no seu breve currículo político.

Mas seus votos não migraram para nenhum dos dois: Haddad foi eleito com pouco mais de um terço dos que estavam aptos a votar; Serra ficou abaixo do terço histórico - e o restante não votou em ninguém.

São órfãos políticos. Fernando Henrique disse que o PSDB precisa se renovar. Não se trata, porém, de providenciar candidatos mais jovens. Se estivesse no lugar de Serra, com o mesmo discurso, um candidato com metade de sua idade, seria derrotado.

Em política, o novo não está na idade. Nero, com trinta anos, tocou fogo em Roma; Adenauer, com noventa anos, reconstruiu a Alemanha pós-Hitler. Sem falar em Churchill, De Gaulle ou mesmo Tancredo Neves e Ulysses Guimarães, arquitetos da redemocratização brasileira, todos mais que septuagenários quando protagonistas de mudanças históricas.

O que importa é o discurso programático. Enquanto o PSDB insistir em ser o PT, em estar à sua esquerda, não passará ao público uma mensagem alternativa, nem muito menos convincente.

Será refém do discurso do adversário e de uma agenda que já tem dono. É preciso audácia para quebrar paradigmas. Vejamos se os tucanos (ou algum outro partido) a terão. Assunto e eleitor não lhes faltarão.


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