domingo, 6 de janeiro de 2013

Retórica esquerdista supervaloriza o conceito de ideologia

Por André,



Há um conceito muito caro à retórica esquerdista: o conceito de ideologia. O conceito remonta ao século XVIII (KOLAKOWSKI, 1978, p. 153), mas no ideário esquerdista ganha corpo com a conotação dada por Marx, a saber, um conjunto de falsas ideias, mantidas por todos, inconscientemente, que garante a manutenção do status quo de discrepância entre classes, isto é, ideias que preenchem o imaginário das pessoas, levando-as a crer que ser pobre é normal, uma vida de trabalho é moral e que a existência de classes com maior poder aquisitivo é aceitável.

Ou seja, Michelangelo não fazia nada mais que alimentar o estômago feroz da ideologia ao pintar a Capela Sistina, o significado último de todas as produções intelectuais "burguesas" é manter os pobres acreditando que sua condição de pobreza é natural. O mesmo vale para a religião, a educação, a moral, a Divina Comédia de Dante e tudo mais, nada disso tem nenhum valor epistêmico ou estético, apenas o valor prático de calar a boca das massas (para mais detalhes, confira minha resenha do livro 'O que é ideologia' de Marilena Chaui).

O que pretendo fazer neste momento não é demonstrar mais uma vez a natureza autofágica do argumento (confira a resenha), mas sim ilustrar a supervalorização do conceito, usando da retórica anti-TV (a TV, consequentemente, entra no abrangente hall de semeadores da ideologia da classe burguesa) que circula pela internet como exemplo disso.


É mesmo? Já pensou em usar o controle remoto?

Montes de páginas anti-TV (mormente as que criticam a TV Globo) pululam nas redes sociais. Sem mencionar o quão cult pode soar (a depender da plateia) emitir um comentário crítico à TV (mais uma vez, crítico à rede Globo). Embora haja um fundo de verdade nas críticas (naturalmente que a qualidade da programação da TV aberta não será defendida, pois é realmente ruim), penso que elas sejam superestimadas e falhem miseravelmente em alguns pontos.

Implícita nas críticas está a ideia de que, se as pessoas desligassem a TV ou se a sede da rede Globo fosse invadida e destruída, então teríamos um paraíso terreno: as pessoas passariam a ler Goethe, ser poliglotas e se interessar por política. Ao que parece, a ideia vendida é que a TV faz as pessoas e não o contrário (a falha óbvia e essencial desse raciocínio é algo histórico-temporal de uma simplicidade díspar: as pessoas sempre foram idiotas - e quem não se arrisca a apostar que sempre serão - ao passo que a TV existe "apenas" desde os primórdios do século XX).

Exemplo mais famoso ainda é o do famigerado reality show Big Brother, a beira de iniciar sua décima terceira edição. A rede Globo lucra, a cada "paredão", apenas com as ligações, o prêmio oferecido ao vencedor (entre um e um milhão e meio de reais).

Pergunto: a culpa é de quem? De quem oferece ou de quem demanda?

Toda essa retórica anti-TV falha neste ponto: presume que a TV está, sozinha, a planejar malefícios, quando na verdade ela está apenas ofertando aquilo que as pessoas demandam!

Vocês realmente acham que a Globo atingiria picos de audiência de 30 pontos e receberia mais de um milhão de telefonemas para que o público escolhesse qual episódio de Cosmos (seriado científico de Carl Sagan) seria transmitido depois do jornal nacional?

Não, meus caros. A programação é medíocre porque, em linhas gerais, o público também o é. E este público está satisfeito com essa programação. Se a TV Globo não transmitisse o BBB, as pessoas mudariam de canal e assistiriam A Fazenda na concorrente.

Essa mesma lei - da oferta e da demanda - serve para explicar uma série de outros fenômenos: por que existe tanta pornografia na internet? Porque a internet é má e deve ser evitada, punida e regulada (já vi muitos idosos se ultrajarem com a existência da internet por esse motivo)? Ou simplesmente porque existe um ENORME público ávido e sedento por pornografia, que se não a encontrasse com facilidade na internet, simplesmente se retiraria e a procuraria em outro lugar? Penso que a última hipótese seja verdadeira - e sua verdade seja evidente.

Por que livros no Brasil são tão caros (e, divagando abertamente, porque a ligação para decidir o paredão do BBB custa apenas quarenta centavos)? Lei da oferta e da demanda, meus caros. Se houvesse uma demanda maior, haveria uma queda nos preços; isto exemplifica um fenômeno econômico básico - a lei da demanda. [Isso também acaba por evidenciar o axioma básico da escola austríaca de economia, exposto magistralmente por Ludwig von Mises em seu clássico Ação Humana, a saber, que é a vontade de seres humanos que dita o mercado. Mas isso é assunto para um artigo a parte].

Essa constatação enfraquece e muito o poder explicatório do conceito de ideologia, especialmente aquele insuflado pela retórica esquerdista: no fundo, a verdade das ideias SOBREPÕE-SE a seus poderes mágicos de influencia sobre as massas. Acima do caráter meramente alienante da programação da rede Globo, está um problema sociológico (e quiçá humano) muito maior. Explicada esta dimensão maior, a outra é abarcada por esta. O poder dominatório exercido pelas religiões existe? Certamente. Contudo, o valor epistêmico das suas proposições é mais relevante que este. Sendo as proposições solapadas ou provadas, a dominação exercida será explicada a partir destas.

Um fato ainda mais curioso: não penso que os alentadores dessa retórica o façam inocentemente, mas sim, com consciência de causa, o que torna a atmosfera ainda mais desonesta. Aqueles que clamam ser os iluminados, paladinos da verdade, os que se esgueiraram das garras quase inescapáveis da ideologia, não estão nada mais nada menos que a promover, igualmente, um discurso ideológico, com  ressalva que se trata do discurso ideológico DELES.

A importância da ideologia é secundária quando comparada à verdade dos argumentos em seu favor.
E isso só vem a provar a tese que expus acima: o foco não deve estar na "ideologia" de quem fala (dos leitores de A Ideologia Alemã e de Aparelhos Ideológicos de Estado, da direita ou dos libertários), mas na VERDADE dos argumentos dos que estão com a palavra. Todos os discursos estão, num certo sentido, imbuídos de alguma ideologia, resta avaliar qual "ideologia" possui os melhores argumentos.

Referência

KOLAKOWSKI, Leszek. Main Currents of Marxism. Oxford: Oxford University Press, vol. I, 1978.

Um comentário:

  1. O único ponto do texto que merece um esclarecimento é quanto a questão do preço dos livros no Brasil. Embora de fato seja uma questão que em última análise realmente vem a ser de pouca demanda, dizer isto sem explicar melhor pode confundir o iniciante em teoria econômica, pois o enunciado mais comum (e curto) da lei da oferta/demanda é que o aumento da demanda implica o aumento de preço, e o aumento da oferta implica em sua queda. Na verdade, isso só é verdade em caso de variações de demanda a oferta fixa, ou variações de oferta a demanda fixa.

    No caso supracitado dos livros, a falta de demanda, que já é sabida por parte das editoras, faz com elas diminuam a oferta correspondentemente, imprimindo um menor número de unidades. O que gera o aumento de preço de maneira mais direta é, portanto, a incidência dos custos fixos ( custos de produção necessários para ser capaz de começar a produzir alguma coisa) sobre um número menor de unidades, aumentando o preço de custo de cada unidade consequentemente.

    Imagino que seja isso que você tenha em mente quando diz que é um problema de demanda, mas sugiro uma nota de rodapé nessa linha para tornar o texto mais claro.

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