domingo, 24 de fevereiro de 2013

A Revolução Cultural e o Sentido do Silêncio – os Últimos Fantasmas.



Milton Simon Pires

O último fantasma - 1964
Revolução define-se como todo processo capaz de provocar uma ruptura de caráter traumático no que se refere a ordem econômica, política, e social de um grupamento humano. Fenômeno frequentemente associado à violência e uso das armas, suas causas e efeitos são facilmente perceptíveis até para o mais comum dos homens. Não existe, portanto, revolução em silêncio.

 Até hoje, não tive a surpresa  de encontrar nenhum texto, seja ele destinado ao público acadêmico ou leigo, em cuja exposição que fiz acima fosse incluído o termo “cultura”.  Foge do objetivo deste pequeno artigo uma abordagem daquilo que se deva entender como cultura de uma sociedade. Mais do que isso; escapa à capacidade de um autor sem formação específica na área das ciências humanas escrever sobre os processos de surgimento, apogeu e declínio das civilizações em termos culturais. O que me atrevo a sustentar, e aí começo meu texto, é que falar sobre mudanças culturais em uma determinada nação inclui observar este processo no decorrer do tempo em que transcorre. Não é preciso portanto (embora com certeza ajude muito) ser historiador, filósofo ou sociólogo para compreender que as pessoas não abandonam religiões, mudam seus hábitos alimentares ou a maneira de falar segundo o comando de um partido político ou força militar. Neste sentido, torna-se  um paradoxo falar em “Revolução Cultural” já que, mesmo escrevendo sem uma definição precisa a respeito do que é ordem  cultural, sabemos que ela por si mesma  não pode ser “rompida de forma traumática” como sustentei  na primeira linha.

Historicamente, a expressão “Revolução Cultural” nos remete a um período e lugar muito específicos da política contemporânea. Seria preciso voltar a China no período que vai de 1966 até a morte de Mao Tse Tung, dez anos depois, e esquecer o que escrevi até aqui para acreditar que o Partido Comunista Chinês mudou a maneira de “ser” do povo num período tão curto.  Sem entrar em destalhes a respeito, afirmo que isso não só não aconteceu como ainda tornou-se o motivo para as mudanças realizadas por Deng Xiaoping que levaram toda a  nação a um caminho diametralmente oposto. O que pouco se diz a respeito deste processo todo foi que ele teve um  papel importantíssimo no movimento de Maio de 68. Entender a ligação entre os dois fenômenos históricos  é fundamental quando se quer afirmar que aquele foi o “ano que não acabou”. Afirmo, e este  é o objetivo do texto, que ali começou a verdadeira “revolução”(termo infeliz) cultural no ocidente, que aquele ano de fato nunca acabou e que é urgente, por parte de filósofos e historiadores, a mudança de nomenclatura para definir o que está acontecendo, por que o que se assiste hoje é o declínio progressivo da civilização ocidental. Autores como Allan Bloom e Roger Kimball foram brilhantes quando atribuíram uma enorme responsabilidade das universidades americanas neste processo. Em The Closing of American Mind e, mais tarde, em Tenured Radicals assistimos aos efeitos dramáticos da mistura de política e formação humanística nos Estados Unidos. Vimos aquilo que aconteceu com os valores de beleza, verdade e justiça quando estes conceitos fundadores da nossa civilização, herdados dos gregos, foram substituídos pela agenda politicamente correta do Partido Democrata. Apreendemos, de forma estarrecedora, o que novos programas universitários destinados a interpretar o chamado “cânone da cultura ocidental”  sob enfoque de “diversidade de gênero”, minorias e do multiculturalismo fizeram com a formação dos alunos dos cursos de artes, letras, arquitetura e ciências humanas. Pródigos em provas incontestáveis, estes autores foram atacados seriamente pelo meio acadêmico americano dominado pelos remanescentes de maio de 68. Mesmo sendo intelectuais americanos, jamais conseguiram, num país com instituições muito mais fortes que as brasileiras, serem levados a sério.

Vivendo num estágio de declínio cultural muito mais avançado do que aquele que ocorre nos Estados Unidos, o Brasil é um país sem instituições. Temos o Estado, temos o povo, e temos a mídia, mas não há nenhuma força autônoma capaz de oferecer um projeto que faça frente ao que descrevi acima. Ao que tudo indica, as mudanças que vem acontecendo são tão rápidas e o pensamento brasileiro agoniza de forma tão gritante, que nosso silêncio passa – aí sim – a ter uma conotação política.

O silêncio é a prova dramática de que o medo é a força geradora da nossa capacidade de não reagir, de se conformar,  e de se  submeter. Um medo de ser considerado diferente ao questionar o aquecimento global, ao se posicionar contra cotas raciais ou ao criticar o SUS. Uma angústia terrível causada pela necessidade de se calar, de não se dizer contra o casamento gay, de não duvidar da bondade dos pobres ou da integridade dos ciclistas. Uma tristeza infinita, e necessariamente  muda,  quando encontramos alguém com mais pena dos filhotes de foca do que das crianças doentes,  e que, no maior país católico do mundo,  chama de Deus de “algo superior”. Quando dormimos são fantasmas que nos aparecem nos sonhos. Eles se apresentam com nomes como DOPS, DOI-CODI ou SNI..eles não trazem o número 666, mas sim o 1964, eles vem para nos aterrorizar e para nos convencer de que hoje vivemos melhor...e de que portanto não devemos nos manifestar..São eles quem ofendem Yoani Sánchez, que nos fazem esquecer Santa Maria, Renan Calheiros ou José Dirceu. 

Eles vem para garantir a verdadeira Revolução Cultural,  não na China de 66 mas no Brasil de 2013,  e dar um  sentido político ao nosso silêncio...
Eles são os nossos últimos fantasmas...

Porto Alegre, 20 de fevereiro de 2013.

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