quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

"Salgueiro e Che Guevara – Quando a Ignorância encontra o Mal" por Milton Pires



Toda vez que um jornalista independente consegue escrever algo que chegue a chamada “grande imprensa brasileira” criticando o Carnaval, a ignorância do povo e sua avidez eterna por mitos, a resposta é a execração pública. Criticar a maior festa popular brasileira argumentando que o país tem problemas urgentes de educação, segurança e saúde tornou-se um clichê tão batido que desde a ala das baianas até o Departamento de Filosofia da USP sabem que trata-se de coisa que “não dá em nada”.

Trazida para o país pelos portugueses, a celebração que hoje é sinônimo de jogo do bicho, tráfico de drogas e turismo sexual confunde-se com a própria história do Brasil. Do meio intelectual partem os mais variados discursos em sua defesa. Todos eles fazem a apoteose do relativismo moral, do multiculturalismo, e do respeito pelas chamadas “manifestações populares”. Sua fundamentação filosófica é rasa, pueril, patética e, antes de tudo, desonesta porque confunde verdade com consenso e vê – sempre – na manifestação das massas o caminho da beleza e da justiça.  Os professores deste grande centro acadêmico petista – a Universidade Brasileira – apelam preferencialmente para Freud e Foucault quando em suas teses buscam justificativas para a histeria coletiva que toma conta do maior país católico do mundo, segunda pátria do espiritismo e nação de todas as raças. Bobalhões sustentados pelo CNPq, acreditam na folia dos loucos como discurso dos marginalizados, fala dos oprimidos, e razão dos descamisados capazes  de se opor à “fala” dominante – é a arma de guerra contra a “Ordem do Discurso”.

Segundo país em extensão da América Latina, na Argentina (para sorte deles) não existe Carnaval, mas da terra de Borges, do tango e de Maradona nasceu aquele que mais tarde enfeitaria as paredes dos quartos de pelo menos quatro gerações. Foi lá que, em 1928, veio ao mundo um futuro colega meu de profissão – o médico Ernesto Rafael Guevara de la Serna. Crescendo em bairros da classe média alta de Buenos Aires como Palermo, San Isidro e Recoleta esse futuro assassino jamais realizou-se no trabalho nem no amor. Partiu em uma viagem de motocicleta – hoje celebrada por Hollywood – em que os delírios de gente com Fanon e Regis Debray substituíram o LSD da geração hippie.

Por Guevara, não é só a elite da universidade brasileira que chora até hoje. Choram os parentes e familiares daqueles que ele fuzilou em Guanahacabibes, por aqueles que ele matou no Congo, em Serra Maestra e na Bolívia, e lamentam-se neste momento em Havana os familiares de pacientes com AIDS, homossexuais e doentes psiquiátricos  internados por Fidel nos campos que o “doutor” criou em Cuba.

Falar mal do “Tchê” (apelido que faz lembrar que sou gaúcho. Rs) é quase pecado no Brasil de 2013, mas não um pecado qualquer. Trata-se de violar aquilo que a ralé da intelectualidade tupiniquim chama de “bom senso” e cerrar fileira com os que ofendem as focas do Alasca, a “religião” do aquecimento global, e  a apologia do casamento gay...consiste em fazer oposição à  apoteose do aborto e da eutanásia no país das emergências com pacientes sujos de fezes e urina, deitados às vezes entre ratos e baratas,  e é  quase como defender a volta do DOPS e do DOI-CODI.
Ontem eu estava de plantão. Sempre dormindo e comendo mal, assitia numa lancheria próxima ao hospital o desfile da escola de samba “Salgueiro” (ou seja lá qual for o nome completo) quando uma ala (é esse o nome?) inteira apareceu literalmente vestida com roupas homenageando o ex-guerrilheiro. Imediatamente me lembrei da Alemanha na década de 1920, apresentada por Ingmar Bergman em o “Ovo da Serpente” - filme em que David Carradine vagava numa Berlim empobrecida, histérica e inflacionada. Caminhava numa cidade de cabarés, de prostitutas, de uso de heroína e de pessoas sendo espancadas em becos escuros em nome de uma “Nova Alemanha”. Mal sabia o mundo, assim como mal sabe o Brasil, aquilo que estava por vir; não imaginava aquilo pode acontecer quando a ignorância encontra o mal.      

Porto Alegre, 11 de fevereiro de 2013


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