quinta-feira, 28 de março de 2013

A Filosofia como assunto de boteco

Por André,



Recorrentemente ouço pessoas (especialmente nos transportes públicos), dizendo que estão "filosofando", disso, leia-se: estão a pensar sobre qualquer baboseira que usualmente não pensam. É comum as pessoas considerarem "filosofia" como sinônimo de "pensar" - ah, todos que pensam são filósofos. Bobagem. A filosofia é sim uma atividade reflexiva, porém não podemos dizer que é "pensar". Pensar é um pressuposto, é o meio, mas não o todo.

Para "filosofar", você precisa, basicamente, de duas coisas: pensar sobre um problema filosófico (o que é o bem ou o mal, o certo ou o errado, se Deus existe ou não etc etc), se você estiver pensando quem vai ganhar a Libertadores ou o que haverá para o almoço, você está simplesmente pensando, não está "filosofando". Se você estiver pensando sobre isso de qualquer jeito, você também não está filosofando. Você deve aderir a algum 'método' (uso aqui uma definição lata) para se debruçar sobre o dado problema: analítico, sintético, dialético. Tudo isso munido de um conhecimento de lógica básica. [Não afirmo aqui que nem todos tenham inquietações filosóficas, acredito que todos as tenham; apenas digo que tê-las não te faz mais "filósofo" que minhas reflexões sobre as estrelas fazem de mim um astrônomo]

Dado que muitos não sabem disso, em parte simplesmente por não saberem Filosofia e em parte por terem sido mal-educados nessa disciplina, julgam-se PhDs em assuntos que não são mais que principiantes e amadores.

Sam Harris usa uma imagem curiosa para mostrar (não julgo aqui se sua tentativa obteve ou não êxito) que a ética não é uma matéria relativa (e que, na verdade, é matéria científica), submetida ao bel-prazer de qualquer um. Membros do Talibã não são especializados em ética mais do que são em física.

É surpreendente o ar de autoridade (normalmente temperada com uma certeza inconteste) com que meros amadores tratam de assuntos filosóficos (Deus, o amor, o bem, o mal, o certo etc). Exemplo: muitos costumam tratar com obviedade o tema da existência de Deus. Sem, contudo, terem lido uma linha sequer de Agostinho, Tomas ou Anselmo, ou ainda, Feuerbach, Diderot ou Hume. Nenhum desses seis homens era idiota, todos eles eram mais espertos que você, todos se deram ao trabalho de avaliar a questão da existência de Deus e construir argumentos a favor ou contra. Portanto, a coisa é menos óbvia do que parece. Melhor guardar suas certezas para você, estudar mais e falar menos. 

O fato do assunto lhe tocar pessoalmente não torça você um expert na área. Não transforme a Filosofia em conversa de boteco, você pode ser um bêbado, mas ela não é.

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