terça-feira, 5 de março de 2013

O Estado em vez do Indivíduo – Sob o Domínio do Medo por Milton Simon Pires


Toshiro Mifune na famosa cena de I live in Fear de Akira Kurosawa - 1955 -
O patriarca da família é considerado mentalmente incapaz. Pensa que o Japão
está a beira de outro ataque nuclear e que o único lugar do Mundo seguro para se
viver é...O Brasil !

Publicada pela primeira vez em 1923 A História do Medo no Ocidente, de Jean Delumeau, deteve-se na análise de um período que se estendia basicamente entre 1348 a 1800.

Pestes, demônios, heresias, os padres, as mulheres. O livro é uma espécie de crônica daquilo que habitava o inconsciente do mundo ocidental no sentido de provocar pavor. Não se pode afirmar dele que seja um livro político. Tão pouco é possível dizer que seja uma obra capaz  de identificar em algum regime de poder específico a fonte original do medo numa determinada época.

Do ponto de vista médico o medo é uma experiência que se define física e psicologicamente. Corresponde a um estado em que, antecipando-se a um perigo real ou imaginário, o corpo prepara-se para uma resposta conhecida como “luta ou fuga”. Emocionalmente, esta sensação é denominada ansiedade e, atendendo ao princípio  da evolução, representa uma resposta  fundamental no sentido da preservação da vida e da espécie.

Muito pouco, até onde eu sei, se escreveu sob a capacidade do Estado ser, por si mesmo, a fonte do medo da sociedade. É claro que existem obras a respeito dos crimes e atrocidades cometidos durante guerras e conflitos sociais. Períodos como o do Terror, na Revolução  Francesa, ou dos regimes totalitários também foram abordados, mas a chamada sensação de insegurança existente nas supostas situações de “estabilidade” não costuma ser tema de debate frequente.

Neste pequeno artigo vamos falar sobre o medo lembrando em primeiro lugar que, segundo Rosseau, uma sociedade se organiza através de um contrato em que os indivíduos abrem mão de um determinado tipo de liberdade – a natural – para através do consenso e da cooperação alcançarem aquilo que se chama liberdade civil.

A liberdade civil nos permitiu, através da vida em comum, a organização e o trabalho solidários capazes de superar a “soma de todos os medos”. A respeito desta noção de contrato, tão antiga nos dias de hoje, há um fato frequentemente esquecido: sua manutenção não é espontânea. Em outras palavras, são necessários aqueles “aparelhos de Estado” mencionados por Althusser (num sentido diferente daquele que uso aqui)  para que as liberdades civis sejam garantidas. A ilusão de um “Estado pronto” e sem “necessidade de manutenção” bem como as consequências de acreditamos (como hoje em dia) em tamanho absurdo é abordada magistralmente por Ortega y Gasset em A Rebelião das Massas.
Ordem e segurança foram há muito tempo identificadas por Sigmund Freud como produtos de uma necessidade básica de repressão. É desta repressão que surge a possibilidade da cultura e do progresso numa sociedade. Não há, pois, a hipótese de uma vida em comunidade sem que os instintos mais primitivos sejam contidos em nome de algo que se convenciona chamar de “bem comum” (seja lá o que isso signifique num lugar e época específica). Desta noção, que frequentemente habita o inconsciente de cada um, que é incapaz de ser compartilhada, ou mesmo descrita, supõem-se o nascimento de uma vontade – a vontade geral – que decorre do reconhecimento passivo do sofrimento do outro, da identificação do seu medo com o dele, e da possibilidade de alívio e consolo no diálogo e no esforço coletivo.

Mesmo percebendo que não escrevi nada de novo é necessário reconhecer que a sociedade só é viável quando neste processo de sofrimento que apresentei existe uma força chamada esperança. Sustento também (numa teoria que, aí sim, considero muito minha) que a faculdade de filosofar não é uma atividade exatamente civil. A filosofia, a meu ver, nasce antes da própria sociedade. Surge quando, abandonado a seu próprio destino e sem ninguém para dividir a angústia, o homem percebe que vai morrer. A razão no discurso fílosófio é, portanto, uma razão natural que antecede ao próprio conceito de civilização.   

É da angústia  que decorre a ânsia pela comunicação, a possibilidade do diálogo e da polêmica. Neste sentido, o livro de Delumeau é pródigo em mostrar que, através da história, para cada fonte de medo os homens buscavam um determinado caminho de salvação.

Reais ou fictícias, muitas vezes mais danosas do que o problema enfrentado, as soluções variaram muito mas no  controle das forças da natureza, da ira de Deus ou da doença, tinham em comum uma fé que, em primeiro lugar, direcionava-se ao seu semelhante. Foi esta fé que se perdeu. Acreditamos há muito tempo que hoje deve ser o Estado o nosso grande Irmão..Achamos inclusive que foi da emergência dele (o Estado) e da vida em sociedade que surgiu esta condição de “grande família”.  Nos enganamos perigosamente quanto às relações de causa e efeito colocando no chamado “Estado de Bem Estar Social” o fundamento da compaixão e da solidariedade que nos permitiram chegar até aqui.

É quando  este mesmo Estado, seja qual for o seu regime político, começa a mostrar a sua incapacidade de se comover, de chorar, ou de  sofrer... quando mostra que não tem sexo nem cor, ou quando resta evidente para um simples indivíduo que nascer, viver e morrer não se aplicam a esta entidade invisível,  que a natureza vem  cobrar   seu preço.  A história então parece mostrar que um dia acreditamos em nossos semelhantes, que nos reunimos e acreditamos em Deus, que juntos construímos o Estado e  que, quando terminada a obra,  esquecemos primeiro Deus; depois o próprio indivíduo.

Se é verdade que sozinhos vivemos na angústia,  na sociedade atual sofremos a desgraça da impossibilidade de um pensamento filosófico original. Órfãos da razão natural e prisioneiros das liberdades civis não temos mais nenhuma capacidade de recolhimento, condição a priori da verdadeira filosofia. 

Vive-se então sem esperança ou futuro numa rotina  atomizada..num mundo em que não acreditamos em mais ninguém e no qual, ironicamente, nunca foi tão fácil se comunicar, enfrentar a natureza ou as doenças..A verdade, que antes definia-se como a concordância da razão com o seu objeto passa a ser prisioneira do tempo e da opinião pública.

Nada do que já passou pode ter valor..Nada daquilo que eu percebo sozinho pode ser verdadeiro...

Vive-se isolado e sob o domínio da desconfiança numa comunidade virtual  sem ontem nem hoje  na qual  os dias sucedem às  noites, num pesadelo que é um eterno presente ..num limbo em que não se percebe a existência do outro mas em que também não se pode pensar sozinho...  

Vive-se sem a possibilidade da filosofia...Vive-se sob o domínio do medo. ..

Porto Alegre, 4 de março de 2013.

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