quarta-feira, 6 de março de 2013

Objetivismo e libertarianismo, entenda a controvérsia

Por Ayn Rand Institute,

Tradução: André Assi Barreto


A posição do ARI (Ayn Rand Institute) é o libertarianismo?

Não. Porém, o significado do termo “libertário” mudou ao longo das décadas. Consequentemente, indivíduos ou organizações que hoje se autointitulam “libertárias” podem ou não sustentar ideias às quais nos opomos.

O libertarianismo a que nos opomos é um conjunto específico de ideias, cuja essência é dedicada e profundamente subjetivista. O libertarianismo, nesse sentido, foi encabeçado por Murray Rothbard e seus seguidores nos de 1960 e 1970. Sua expressão política é o anarquismo ou “anarcocapitalismo”, como geralmente eles o chamam, além de uma política externa de um antiamericanismo radical (que eles tentam passar como “não-intervencionismo”).

Os “libertários”, nesse uso do termo, plagiaram o princípio da não-iniciação do uso da força de Ayn Rand e o converteram num axioma, negando a necessidade e a relevância dos seus fundamentos filosóficos – mas apenas a ética que o subjaz, mas também a metafísica e a epistemologia subjacente.

Essa é a posição anti-objetiva e anti-filosófica que, em 1985, o então presidente do conselho do ARI, Peter Schwartz, apropriadamente denunciou em seu ensaio “Libertarianismo: a perversãoda liberdade”. Essa compreensiva crítica do libertarianismo expôs a essência do movimento: o niilismo. (Uma versão condensada desse artigo está publicada no“The Voice of Reason: Essays in Objectivist Thought” sob o mesmo título). Nós concordamos e seguimos concordando com a essência da análise de Peter Schwartz.

Como fora longamente mostrado pelo sr. Schwartz, este libertarianismo declara que o valor da liberdade e o mal de iniciar o uso da força são coisas primárias auto-evidentes, não precisando de justificação ou até mesmo explicação – deixando conceitos-chave como “liberdade”, “força”, “justiça”, “bem” e “mal” indefinidos. Reclama compatibilidade entre todas as visões da metafísica, epistemologia e ética – até mesmo subjetivismo, misticismo, ceticismo, altruísmo e niilismo – substituindo o “ódio pelo estado” por conteúdo intelectual.

Esse é o motivo pelo qual Ayn Rand se opôs a ele desde o começo.

Num impresso de 1972, Rand expressou esse alerta para indivíduos interessados em defender o capitalismo:

“Antes de tudo, não se junte aos grupos ou movimentos que adotam uma ideologia errada, com a finalidade de “fazer algo”“. Por “ideológicos” (nesse contexto), me refiro a grupos ou movimentos que proclamam alguns objetivos políticos vagamente generalizados, indefinidos (a, normalmente, contraditórios). (Exemplos: o partido conservador, que subordina a razão à fé e substitui a teocracia pelo capitalismo; os hippies “libertários”, que subordinam a razão a seus caprichos e substituem o anarquismo pelo capitalismo). Juntar-se a tais grupos significa reverter a hierarquia filosófica e vender princípios fundamentais em nome de alguma ação política que está fadada ao fracasso. (What Can One Do? The Ayn Rand Letter, vol 1, nº 7)

O ARI sempre viu o movimento que mantém esse conjunto de ideias e atitudes como um inimigo do capitalismo e da liberdade, e continuamos a pensar assim. Nunca sancionaremos ou cooperaremos ou colaboraremos com qualquer organização que advogue o “libertarianismo” nesse sentido descrito. O princípio envolvido foi identificado por Ayn Rand: “Em havendo qualquer colaboração entre dois homens (ou grupos) que sustentam princípios básicos diferentes, é o mais malévolo ou irracional que vence” (“The Anatomy of Compromise” Capitalism, The Unknown Ideal).

Quando essa abordagem subjetivista com relação à filosofia e à política dominou o movimento libertário nos anos 70 e 80, o ARI se recusou a cooperar com qualquer um pertencente a ele. Tal colaboração teria constituído uma sanção da anti-ideologia do libertarianismo. Entretanto, hoje nós vemos evidência que sugere que não existe mais um movimento libertário coeso. O movimento se tornou fragmentado e sem liderança (tanto intelectual como em termos de organização), e o termo “libertário” está progressivamente perdendo seu sentido original.

Assim, quando alguém ou alguma organização se intitula ou é considerada por outros como “libertária”, não deve-se assumir que isto significa que a pessoa ou organização é parte do movimento anti-filosófico denominado libertário. O que importa, ao avaliar esses indivíduos e organizações, são as ideias que eles de fato sustentam e advogam.

O termo “libertário” tem sido usado de forma crescente nos últimos anos e com um significado vagamente atrelado à liberdade e mais relacionado ao controle governamental. Muitas pessoas, incluindo repórteres e comentadores, percebem que nem “esquerdistas” e tampouco “conservadores” são advogados da verdade. Os comentadores precisam de um termo diferente para descrever aqueles que parecem estar mais perto da liberdade e que normalmente usará o termo “libertário”.

Entretanto, nenhum dos três termos políticos – “esquerdista”, “conservador” ou “libertário” – tem um significado definido, porque não existem ideologias claramente definidas. Consequentemente, o fato de hoje alguém se intitular ou ser considerado por outros como “libertário”, não diz absolutamente nada acerca do seu ponto de vista político: ele poderia ser um religioso, um anarquista, um capitalista laissez-faire, um “em cima dom muro”, etc. Dada a confusão terminológica corrente, nós observamos o conteúdo das ideias defendidas, não apenas o rótulo ligado a elas.

Qual a posição política de um objetivista, se não a libertária?

O objetivismo não é esquerdista, conservador ou libertário. O objetivista tem princípios políticos claros, bem-definidos e únicos, que existem como consequências de seus fundamentos filosóficos. A melhor forma de um objetivista descrever sua posição político-social é usar os termos “pró-capitalista” e “capitalista laissez-faire”. O capitalismo, na definição de Ayn Rand, “é um sistema social baseado no reconhecimento de direitos individuais, incluindo direitos de propriedade, no qual toda propriedade é privada” [“What is Capitalism? Capitalism: The Unknown Ideal]. Como Rand escreveu em 1962 para descrever sua posição:

O objetivismo é um movimento filosófico; visto que a política é um ramo da filosofia, o objetivismo advoga certos princípios políticos – especificamente aquelas do capitalismo laissez-faire – como consequência e aplicação prática última de seus princípios filosóficos fundamentais.  Ele não considera a política como um objetivo separado ou primário, isto é: como um objetivo a ser alcançado sem um contexto ideológico mais amplo... Objetivistas não são “conservadores”. Somos radicais pelo capitalismo; lutamos por aquela base filosófica que o capitalismo não teve e sem a qual ele está condenado a perecer. [“Choose Your Issues”. The Objectivist Newsletter, vol. 1, nº 1].

É claro que um defensor da filosofia de Rand também pode simplesmente usar o termo “objetivista” para descrever sua ideologia política, nomeando “direitos individuais” como o princípio político essencial. Esses termos estão em ampla circulação hoje em dia, graças à familiaridade crescente com o pensamento de Rand.

Quais são as considerações que regem as decisões do ARI na hora de lidar com outra organização, especialmente uma que se descreva como libertária?

Ainda existem organizações ligadas à anti-ideologia corrupta do libertarianismo, no primeiro sentido da palavra. O ARI não lida com tais organizações. Embora lidar com uma organização ideológica não necessariamente implique concordância (por exemplo, quando o ARI co-patrocina um debate), não implica que se considere a organização legítima – o que, no caso da anti-ideologia dos libertários, não consideramos.

Porém o ARI busca trabalhar com outras organizações em assuntos ou projetos específicos com o propósito de aumentar o alcance e impacto do ARI. Nós avaliamos se é apropriado e benéfico para nossa missão trabalhar uma organização em particular, se for o caso, averiguaremos de que forma e sob quais condições. Por muitos anos, e especialmente com o crescimento do ARI tem juntado recursos e pessoas para fazer isso; temos trabalhado com muitas organizações e especialistas fora do ARI.

Algumas das diretrizes aplicadas pelo ARI para decidir se trabalharemos ou não com outra organização são:

1   Já que o ARI é uma organização ideológica – nossa missão é fazer avançar uma filosofia nova e radical – prestamos atenção especial à natureza ideológica de qualquer um que trabalhe e se junte nas atividades que nos engajamos. Tentamos nos assegurar que nossas ações não promovem, ainda que sem intenção, ideias filosóficas ou políticas às quais nos opomos. Não esperamos concordância completa, mas nunca trabalhamos com organizações que  ofusquem diretamente o Objetivismo ou Ayn Rand.

2   É vital na nossa relação com outras organizações que não forcemos uma concordância onde não existe uma. Por advogarmos uma nova filosofia - como disse Rand, os objetivistas são radicais pelo capitalismo, que lutam pela base filosófica que o capitalismo nunca teve de fato – raramente há concordância ideológica profunda. Até mesmo no nível da política, é raro para nós que haja concordância completa com a posição de outra organização, pois não vemos posições políticas como desvinculadas da filosofia. Consequentemente, devemos tomar cuidado ao estabelecer uma colaboração, para que ela não engendre confusão acerca do que defendemos.

3   Existem muitas organizações que não são primariamente ideológicas em sua missão ou atividades, mas em vez disso estão mais interessadas em afetar o direito e a política. Ao decidir se é ou não apropriado para nós lidar com tais organizações, nós avaliamos, em conjunto com os pontos 1 e 2 acima, a legitimidade e o valor da política e das mudanças legais que estão tentando trazer.

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