quinta-feira, 11 de abril de 2013

FAQ liberal-conservador

Por André,

Muitos amigos (e eu próprio) conservadores, liberais e/ou libertários sofrem de um problema bastante desagradável: ser encarado por um grupo de pessoas que têm uma visão deveras enviesada (ideológica) sobre ser conservador, liberal ou libertário. Somos vistos como uma aberração pessoal e intelectual; constituem um grupo acima do degrau do senso comum (que sequer sabe o significado desses conceitos de filosofia política), mas abaixo de um estudante universitário de capacidade mediana, pois não vêem indivíduos que decidiram pular fora da visão esquerdista de mundo como seres pensantes normais, mas como mutações a serem combatidas por diversas vias (menos a da argumentação racional).

Eles concebem o espectro político na forma de "nós versus eles", sendo que não se trata de um embate racional com "eles", mas sim de um espanto infundado e irracional seguido da pergunta "como você pode ser assim?", como se a opção pelo conservadorismo ou liberalismo não fosse uma decisão digna de respeito, suscetivel e digna do debate racional.

Tais criaturas, mormente estudantes de cursos de humanas, propagam OU crêem (alguns têm consciência do caráter desonesto do que é dito) em alguns clichês que eu, particularmente, estou cansado de refutar em absolutamente toda (mais cedo ou mais tarde algum deles aparece) conversa. Nas próximas vezes direi: "recorra ao meu FAQ, respondi isso n vezes, leia a resposta-padrão lá".

Essas pessoas tendem a transformar qualquer tentativa de debate acadêmico minimamente sério nisso que foi muito bem ilustrado pelo historiador americano Thomas Woods:



 Por que sou um liberal-conservador?

Me defino como um "liberal-conservador" porque a liberdade é, para mim, um valor que se encontra lado a lado com a ordem - a primeira, aliás, só faz sentido à luz da última (Russell Kirk aponta a ordem como o valor supremo para conservadores - mais exatamente, uma "ordem moral duradoura"). Entendo que a liberdade dos indivíduos deva ser intransigentemente respeitada, o indivíduo tem supremacia do ponto de vista ético sobre quaisquer tipos de grupos ou coletividades. Aceitamos o liberalismo econômico como melhor sistema de economia já inventado, e como provou Mises, único praticável até agora. Embora o mercado não seja perfeito, é o que temos de melhor para geração de riqueza e prosperidade.

Minha opção pelo liberalismo e pelo conservadorismo passa por algumas constatações e conclusões tiradas a partir da História e da Filosofia: 1- rejeito utopias, quer como projeto, quer como modelo. Não será estabelecido um paraíso terrestre nos moldes sócio-comunistas; em sabendo disso, qualquer um que insista na proposta tem um caráter moral duvidoso, deseja dominar; 2- o conservadorismo é mais honesto em sua proposta, considerações e está em consonância com o que sabemos acerca da natureza humana (tendência ao erro, egoísmo etc) - o homem não é igual nem bom, isso é suficiente para uma rejeição completa dos socialismos, rejeito o fetiche perfectibilista, 3- negamos o coletivo como centro de gravitação da política e da moralidade, não amamos a Humanidade, amamos seres humanos, 4- governos devem ser, na melhor da hipóteses, entidades com poder negativo. Não confiamos nele (seria o link mais forte entre libertários e conservadores?), somos "políticos do ceticismo" (conceito de Oakeshott, conservador inglês), nenhum poder político nos conduzirá ao Éden terrestre; os verdadeiros "crentes cegos" são os estatistas.


Ser "de direita" é "normal"?

Devido à predominância esmagadora da esquerda na cultura (o marxismo cultural, a estratégia gramsciana) brasileira (antes que digam que essa afirmação se trata de coisa de gente de direita, os próprios ideólogos da esquerda admitem o fato), ter posicionamentos liberais e/ou conservadores não é mais encarado como uma tendência natural de um grupo de pessoas, outro ponto legítimo do espectro político, digno e merecedor de respeito e voz, mas algo a ser visceralmente combatido, denominado indiscriminadamente como fascista, quando não excluído do conjunto dos seres humanos.

Contudo, é preciso alertar os experts em falar do discurso ideológico DOS OUTROS, que isso não passa de uma estratégia malévola de exclusão de todo discurso diferente do esquerdista. Ser de direita é normal, legítimo e esta forma de fazer política, moral e economia goza de muitos dos melhores nomes da Filosofia, da História e da Economia. Em qualquer país civilizado está bem claro quem é quem, bem como existem representantes reais dos dois lados: os democratas ("liberals", esquerdistas) e os republicanos (ainda que um arremedo da direita) nos EUA, os conservative e labour parties na Grã-Bretanha e assim sucessivamente em nações civilizadas. E eu, enquanto conservador, vejo com razoável saúde a dança das cadeiras, o intercalar de poder entre direita e esquerda.

Portanto, por uma questão da sanidade da democracia (aparente no discurso esquerdista, quando conseguem esconder suas sanhas totalitárias), a direita deve existir, ser sólida e ter uma voz equivalente à da esquerda.


Ser de direita é ser contra mudanças?

Não, meus caros. Esse é um famoso caso de falácia do espantalho. Incapaz de refutar cabalmente uma ideia, o sujeito põe à prova um espantalho do adversário e aí sim, o refuta. Nenhum reacionário é contra mudanças; como dizia Nelson Rodrigues, muito pelo contrário, reagimos contra tudo que é ruim. Há aí também um profundo erro teórico. Quem é a favor do atual "status quo" senão a própria esquerda que vê suas ideias mais íntimas realizadas ou em vias de realização? Como apontava Nietzsche, os socialistas são os verdadeiros reacionários.

Este é um dos temas mais elementares do conservadorismo, como ilustrou Giuseppe de Lampedusa em seu romance The Leopard: "Se queremos que as coisas permaneçam como estão", diz Tancredi ao príncipe, seu tio, "as coisas terão de mudar". Ou ainda, como dizia Russel Kirk, o conservadorismo é uma tendência (disposition) com uma habilidade para reformar.

Somos contra revoluções, mudanças radicais e absolutas. Queremos reformas, paulatinas e acordadas com o que aprendemos ao longo da história. Somos céticos quanto ao paraíso vindouro prometido pelos revolucionários e não cremos na sabedoria infinita dos líderes dos partidos, que nos liderarão rumo ao Éden pós-revolucionário.


Como você pode ser jovem e ser "assim"?

Se ser direita já é estranho, ser jovem e ser de direita é mais estranho ainda. Não tenho o hábito de avaliar ideias pela idade de seus defensores, pessoas jovens podem ter ideias tanto verdadeiras como falsas, bem como pessoas mais experientes, mas as avalio pela veracidade de seus argumentos.

Devido ao predomínio das ideias revolucionárias e de esquerda quanto a angariar o apoio de adolescentes e jovens, naquela fase em que pretendem adequar o mundo a si (e não eles próprios ao mundo), o momento heraclitiano da vida, em que tudo muda (ou deve mudar), muitos tomam por garantido o apoio irrestrito e irracional de todo jovem à agenda esquerdista, o que não deveria ocorrer na mente de qualquer pessoa preocupada com a verdade das coisas. Ademais, ser jovem de esquerda hoje é como fumar nos anos 70: é cool, é status, é bonitinho. Como diz o Pondé, ser budista, vegetariano, natureba, fingir que se preocupa com as crianças na África e regozijar porque um panda nasceu é o novo "descolado".

Gostaria de citar Nelson Rodrigues, para meus pares de idade física (mas não de idade mental): cresçam!

Ainda, essa é a tendência natural, você cresce, sua veia revolucionária murcha e você percebe que era tudo de mentirinha. Quando as ideias são avaliadas criticamente, nós capitalistas, liberais, conservadores, sempre vencemos, daí tantos casos de pessoas que "viraram à direita" e muito menos dos que viraram à esquerda. Desconheço estudiosos das ideias da liberdade que não tenham aderido a elas.


Você é fascista?

Não, nem eu nem conservadores que saibam o que estão falando são fascistas, na verdade é o oposto, os fascistas são os de esquerda. A estratégia é velha: projetar seus defeitos como rótulo de seus adversários; mais importante que ser progressista, é parecer progressista.

Na verdade, está provado à exaustão que o fascismo é de esquerda (Liberal fascism, GOLDBERG, 2007). Por que os direitistas ganharam a pecha? Porque além da cultura, a esquerda domina a linguagem. Nenhum defensor sincero da liberdade pode, por definição, ser fascista.

Quem vive em constante combate para impingir em todos uma enorme agenda? Do politicamente correto, da militância homossexual, do aborto etc. E o ponto NÃO é (ainda), a legitimidade dessas ideias, mas sim, o opróbrio a que é submetido todos que externam sua recusa às causas citadas.

Outras evidências, sólidas, que os esquerdistas são os fascistas de fato, podem ser conferidas em Radicais nas Universidades (Roger Kimball, 1990): como a realização da agenda esquerdista destruiu e corrompeu a noção medieval de busca do conhecimento que deveria ter sua apoteose na universidade. Também em O terrorismo intelectual (Jean Sévillia, 2000), como as pessoas esclarecidas, que deveriam promover a pluralidade de discursos, em vez disso, usam do terrorismo intelectual para calar a todos que pensam diferente.

A associação entre conservadorismo e nazismo também já fora cabalmente refutada, sendo demonstrado por a + b que o nazismo é um exemplo típico de coletivismo estatista que visa esmagar indivíduos e direitos individuais.


O conservador tem de ser necessariamente religioso?

Não, ao menos não necessariamente. Embora, caso você seja um conservador à lá Russell Kirk, que põe a ordem como o pilar essencial da sociedade, é pouco provável que você não tenha de aceitar a visão de mundo cristã, pois essa ordem está diretamente atrelada a Deus. Em comentário às ações totalitárias da LiHs e em resposta a comentários, vislumbrei respostas possíveis para essa pergunta. Também recomendo a postagem do site Direitas Já, respondendo se é possível ser ateu e conservador e vice-versa, o post é ilustrado com sites de ateus e conservadores americanos (sei de uma corrente forte no EUA de ateus que se juntaram aos conservadores cristãos no embate contra o aborto).

Eu mesmo, particularmente, concilio sem maiores problemas minha descrença (ultimamente tenho recusado as definições tradicionais "ateu" ou "agnóstico", ou ainda, "ateu agnóstico", "agnóstico ateu", "ateu positivo", ateu negativo" etc). O objetivismo, filosofia de Ayn Rand, que não é conservador, mas é liberal, é necessariamente ateu. Outros nomes, ainda que de menos peso, também conciliam sua descrença com seu liberalismo e/ou conservadorismo.


A pessoa de direita "odeia os pobres"?

Começo a ter particular desconfiança, seja da honestidade ou da inteligência, daqueles gênios virtuais que citam a frase atribuída ao Tim Maia: "O Brasil é o único país em que puta goza, cafetão sente ciúmes e pobre é de direita" e martelam nessa ideia imbecil que todo pobre deveria ser de esquerda.

Primeiro porque está impregnada de marxismo econômico, ideia que é lixo no meio econômico atual. A teoria da exploração do trabalho já fora devidamente refutada (cito, em especial, a refutação de Böhm-Bawerk), bem como a ideia  de economia da soma "0", em que para o Zezinho ser mais rico ele tem de explorar o Pedrinho ou o Pedrinho tem de ficar mais pobre.

Depois, porque mesmo que isso seja verdade na teoria, a prática demonstra com maestria que, no frigir dos ovos, direta e esquerda nadam no dinheiro, com a diferença do discurso moralizante da esquerda de defesa aos pobres, o que a torna contraditória.

São tantos os exemplos, de artistas da esquerda caviar (Gil, Veloso et caterva), os milionários que surgiram "misteriosamente" após a queda da União Soviética, os pobres dos países vitimados pelo comunismo que odeiam a ideologia, Marx ter sido sustentado pelo burguês Engels, os rolex de Fidel e Che, os camponeses exterminados na União Soviética, os exemplos abundam ad eternum.

O que fazer com um imbecil que vem falar que a esquerda gosta dos pobres? Se alguém ainda não sabe e deseja saber, o Olavo de Carvalho opta por uma postura mais agressiva em seus vídeos públicos por causa de gente com esse grau de imbecilidade. Gente assim não é digna de um argumento sério, apenas de um sonoro e bem dito palavrão.

Comunico estes filhos da puta que a quantidade de dinheiro na minha conta bancária não determina minha verdade, caro depravado cognitivo e moral. 


Bibliografia sugerida (para liberais, conservadores e... esquerdistas). 
  
"Contra nada somos mais severos do que contra os erros que abandonamos" Goethe

Apenas um aviso para estes últimos, CUIDADO, o ministério da cultura ADVERTE, altas doses de literatura liberal e conservadora podem te transformar radicalmente! Você pode seguir a trilha natural do investigador honesto da política. Pode largar sua ilusão, como o fizeram Nelson Rodrigues, Olavo de Carvalho, Paulo Francis, Ferreira Gullar, Thomas Sowell, Eric Voegelin, Carlos Lacerda, Mario Vargas Llosa e tantos e tantos outros.

Liberalismo:

MISES, Ludwig von. Ação Humana.

________________. Socialism.

HAYEK. Friedrich von. O Caminho da Servidão.

BÖHM-BAWERK, Eugen. A teoria da exploração do socialismo comunismo.

RAND, Ayn. A Revolta de Atlas.

_________. The Fountainhead.

_________. Capitalism: the unknown ideal.

SMITH, Adam. A Riqueza das Nações.

SMITH, Adam. Teoria dos sentimentos morais

BASTIAT, Fréderic. A Lei.

NOZICK, Robert. Anarquia, Utopia e Estado.


Conservadorismo:

BURKE, Edmund. Reflexões sobre a revolução na França.

SCRUTON, Roger. The Meaning Of Conservatism.

______________. A Political Philosophy: Arguments for Conservatism.

______________.The Uses of Pessimism: And the Danger of False Hope.

KIRK, Russell. 10 princípios conservadores. (embora tenha sido escrito voltado para o público anglo-saxônico, é leitura indispensável).

___________. The Conservative Mind: From Burke to Santayana.

ELIOT, Thomas Stearns. A imaginação moral do século XX.  

Além dessas obras específicas, também recomendo todas as obras possíveis dos seguintes autores: David Hume (sua moral), Alexis de Tocqueville, Friedrich Hayek (outras obras, além da citada), T.S. Eliot (outras obras, além da citada), Isaiah Berlin, Theodore Dalrymple, John Gray, Gertrude Himmelfarb, Thomas Sowell, Phyllis Schafler, Vladimir Tismaneanu, Horia Patapievici, Paul Hollander.


Embora o tempo em que analisaremos o comunismo como mero fenômeno histórico e não como fenômeno CULTURAL atual ainda seja vindouro, estudá-lo, desde as bases (me refiro aqui ao próprio Hegel - é essencial entendê-lo, para observar como Marx distorceu suas premissas) até os marxistas atuais (Ernesto Laclau, Losurdo, Antonio Negri, Terry Eagleton) é essencial, coisa que a própria esquerda atual, mormente brasileira, não faz. Em sugestão:

(1) Os clássicos do marxismo: Marx, Engels, Lênin, Stálin, Mao Dzedong.
(2)  Os filósofos marxistas mais importantes: Lukács, Korsch, Gramsci, Adorno, Horkheimer, Marcuse, Lefebvre, Althusser.
(3)  Main Currents of Marxism, de Leszek Kolakowski.
(4)  Alguns bons livros de história e sociologia do movimento revolucionário em geral, como Fire in the Minds of Men, de James H. Billington, The Pursuit of the Millenium, de Norman Cohn, The New Science of Politics, de Eric Voegelin.
(5)  Bons livros sobre a história dos regimes comunistas, escritos desde um ponto de vista não-apologético.
(6)  Livros dos críticos mais célebres do marxismo, como Eugen von Böhm-Bawerk, Ludwig von Mises, Raymond Aron, Roger Scruton, Nicolai Berdiaev e tantos outros.
(7) Livros sobre estratégia e tática da tomada do poder pelos comunistas, sobre a atividade subterrânea do movimento comunista no Ocidente e principalmente sobre as "medidas ativas" (desinformação, agentes de influência), como os de Anatolyi Golitsyn, Christopher Andrew, John Earl Haynes, Ladislaw Bittman, Diana West.
(8)  Depoimentos, no maior número possível, de ex-agentes ou militantes comunistas que contam a sua experiência a serviço do movimento ou de governos comunistas, como Arthur Koestler, Ian Valtin, Ion Mihai Pacepa, Whittaker Chambers, David Horowitz.
(9)  Depoimentos de alto valor sobre a condição humana nas sociedades socialistas, como os de Guillermo Cabrera Infante, Vladimir Bukovski, Nadiejda Mandelstam, Alexander Soljenítsin, Richard Wurmbrand.

Para quem quiser apreciar uma bibliografia específica no que tange o conservadorismo inglês, o excelente Bruno Garschagen compilou uma, que pode ser lida em seu site

2 comentários:

1. Seja polido;

2. Preze pela ortografia e gramática da sua língua-mãe.